DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS POR JOÃO REINALDO PURIN – 5ª PARTE
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REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

5ª. Parte
Em Curitiba
Voltando um pouco no tempo, preciso colocar que no mês de janeiro de 1954, por ocasião de uma Assembléia da Convenção Batista Catarinense em Urubici, uma vez que há tempos, me considerava vocacionado para o Ministério da Palavra, atendi ao apelo. Depois de tornar pública a minha decisão, procurei o missionário Adriano Blanckenchip que se prontificou a conseguir bolsa de Estudos em Curitiba, na então Escola Batista de Treinamento, hoje Faculdade Teológica Batista do Paraná. Ali permaneci como aluno interno 4 anos. Pelas manhãs aulas bíblicas e trabalhava na horta, rachava lenha para a cozinha. À noite fazia o Ginásio.
Logo que cheguei escrevi carta ao Titio, comunicando que estava em Curitiba estudando para o Ministério Pastoral. Creio que no ano seguinte ele veio a Curitiba. Gostou demais da cidade. Ficou surpreso ao ver como o curitibano se trajava bem. Ficou por alguns dias na pensão da irmã Maria Túlio, na Rua Duque de Caxias onde meus irmãos, Valfredo e Viganth Arvido moravam.
Quando ele chegou, eu estava fazendo trabalho como pré-seminarista pelas Igrejas do Norte do Paraná. Quando nos encontramos, ele olhou para mim de alto a baixo e acho que ficou decepcionado com a minha altura e disse em leto: “tu ês mass noo augum” = tu és pequeno de (crescimento) altura.
Tive a oportunidade de levá-lo para visitar a Escola onde estudava e também para uma visita ao diretor, o missionário Lester Bell.
Neste ínterim, o Valfredo, falando com o irmão Mizael Cardona de Aguiar aventaram a possibilidade de se adquirir uma propriedade. O tio ficou também entusiasmado com a idéia e ao voltar para o Rio, limpou as suas reservas nos bancos e foi adquirida a propriedade da Rua Jacob Bertinato, que se tornou o centro dos Purins até agora.

Eu no Seminário
No ano de 1961 ingressei no Seminário do sul. Lá chegando, os colegas, maldosos, brincando, começaram a fazer hora comigo, pois sabiam que eu era sobrinho dele, diziam: “como é que pode…, agora aparece aqui um filho do Dr. Purim?” Tudo não passou de uma brincadeira. Ele sempre gostava de me receber em seu gabinete. Nas primeiras vezes já foi me dizendo que a Igreja de Bangu já tinha um seminarista e que não teria como ter dois. Mas por Deus, o Pr. Benilton Carlos Bezerra, da Igreja Batista em Laranjeiras já havia pedido um seminarista ao reitor, Dr. Oliver, que logo me deu carta de recomendação e para lá fui, onde passei meus quatro anos de seminário. Nos últimos meses, antes de minha formatura, o Tio me convidou para pregar em Bangu. Foi uma experiência muito boa. No final do culto alguém interpelou o pastor: “Mas, Dr. Purim, o senhor com um sobrinho no Seminário e ninguém aqui ficou sabendo?” Ele deu aquela risada característica. Ele já tinha me dito, no começo do meu curso que tinha por norma não apresentar parentes em parte alguma. Isto já era coisa antiga. Nunca procurou ajudar seus irmãos, especialmente as irmãs que tanto pediram que isto acontecesse. Mas era uma das normas dele e ninguém poderia convencê-lo de outra forma.

Uma de suas esquisitices notada pela família foi o fato de não participar de meu casamento, pois naquela mesma hora estaria acontecendo o aniversário da Sociedade Feminina de sua igreja. Horas antes do casamento, passou na casa dos meus sogros, justificou-se e preferiu a sua igreja. E lá se foi. Todos “compreenderam” e perdoaram.
Conceituadíssimo
Em que pese estas esquisitices ele era conceituadíssimo por todos que o conheciam e que ouviam falar dele.
Na igreja era muito querido. Todos o tinham na mais alta consideração, apreço e respeito. Solteirão que era, entretanto, freqüentemente casais iam tomar conselhos com ele, acatavam suas orientações e acertavam-se em seus relacionamentos.
Seus estudos bíblicos e sermões eram apreciadíssimos. Todos recebiam a palavra dele como vinda de Deus e faziam questão de não perder uma palavra ou o raciocínio dele que levava o auditório a ponto de perder o fôlego. Apenas, quando terminava, o povo se mexia, como que dizendo: que coisa maravilhosa! Sempre tinha algo novo que extraía da Bíblia que é realmente inesgotável. Ele mesmo dizia com certo orgulho que não repetia sermões. De fato, isto pode ser verificado pelos sermonários que deixou.
Para o púlpito levava a Bíblia e o seu sermonário. Era um livro grosso e pautado. Para cada mensagem usava uma página. Escrito em letras bem pequenas, porém, legíveis. Começava com o título, data, hora e local em que iria pregar: Bangu, Universidade Rural (Seropédica), Padre Miguel, 2ª de Magalhães Bastos, Vila Realengo (essas eram filhas da Igreja de Bangu), Ricardo de Albuquerque que era pastoreada pelo Pr. Arnaldo Gertner e em outros lugares, como Orleans, Rio Novo, Cajuru. Temos sermões desde os anos 1918 até 1969.
Estes sermonários estão sendo disponibilizados aos interessados, sob o título: Idéias Bíblicas para seus Sermões.
Assim era também no Seminário. Ninguém queria perder suas aulas. Lá ele era o catedrático. Ministrou as seguintes matérias: Filosofia, Filosofia da Religião Cristã, Religiões Comparadas, Apologética Cristã, Teologia Sistemática, Teologia do Novo Testamento, Teologia do Antigo Testamento, Epistemologia, Metafísica, Metodologia Teológica, Lógica, Hebraico, e anteriormente, Grego e História da Igreja.
Suas provas eram corrigidas com muito cuidado, pois qualquer palavra mal colocada prejudicava a resposta e a nota.

Sempre alguém o procurava para tirar suas dúvidas. Lembro-me de um grupo de alunos do Colégio Batista que o procurou dizendo que alguém iria fazer uma semente, um grão de feijão. Ao que ele foi logo dizendo. “Mas, fazer um feijão é uma coisa, vamos ver se este feijão vai nascer! Colocar vida em um feijão é outra coisa”.

O Conferencista
Era freqüentemente convidado para institutos nas igrejas. Nem sempre podia ir, mas temos registros e escritos de suas palestras em retiros de pastores no Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e outros. Em todos esses encontros deixava sempre as melhores impressões.

O Escritor
Em que pese ter deixado poucos livros, houve um período de janeiro de 1936 a dezembro de 1942, em que foi o redator da Revista da Mocidade Batista Brasileira. Essas lições eram estudadas pelos jovens nas então Uniões de Mocidade que funcionavam aos domingos à tarde, antes dos cultos. Através destas lições procurava orientar a juventude batista brasileira em aspectos bíblicos, doutrinários, missionários, morais e culturais. Este material também estará à disposição com o título geral: “Eu vos escrevi, jovens…”.
Os livros, nos quais deixou o seu pensamento registrado, são os seguintes:
As matérias disponíveis, por enquanto são:
* APOLOGÉTICA CRISTÃ, 73p;
* CRISTIANISMO E CULTURA CONTEMPORÂNEA, 63p.
* ELEMENTOS DE METAFÍSICA COM VISTAS À TEOLOGIA CRISTÃ, 70 p.
* FILOSOFIA DA RELIGIÃO CRISTÃ, 104 p.;
* HISTÓRIA DA FILOSOFIA, 100 p.
* INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, 42 p.
* LÓGICA, APLICADA AO PENSAMENTO TEOLÓGICO, 68 p.
* METODOLOGIA TEOLÓGICA CRISTÃ, 42 p;
* TEOLOGIA BÍBLICA DO NOVO TESTAMENTO, 100 p.
Outro material que não foi produzido para uso em aula:
* A ESSÊNCIA DA OBRA DE CRISTO – Sua Tese de Ph. D, Com o título original “Um Introdução à Morte e Ressurreição de Cristo.”
* A EXULTAÇÃO DE CRISTO NO ESPÍRITO SANTO, 8p;
* A IGREJA DE CRISTO E SUA MISSÃO EVANGELIZADORA, 24 p;
* A IGREJA DE CRISTO, 52 p;
* A PREEMINÊNCIA DO INDIVÍDUO SOBRE AS CLASSES ORGANIZADAS, 10 p.
* ALGUNS PRINCÍPIOS EXCLUSIVAMENTE BATISTAS, 16 p.;
* AUTORIDADE NA RELIGIÃO CRISTÃ, 67 p.;
* DEMOCRACIA CRISTÃ (entrevista), 8 p.;
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. II, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. I, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. III, 99 p.
* JESUS CRISTO NO PANORAMA DA HISTÓRIA, 59p.
* JESUS CRISTO, O RECONCILIADOR, 76 p;
* O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO, 8 p.;
* O ENSINO DE JESUS SOBRE O ESPÍRITO SANTO, 10p.;
* O PODER DO ALTO, 20 p;
* ORIENTAÇÃO PARA OS NOVOS CRENTES, 24 p.;
* PREDESTINAÇÃO E APOSTASIA ou A PERSEVERANÇA DOS SALVOS, 70 p.;
* PRINCÍPIOS BATISTAS (tese para os pastores do Estado do Rio), 38 p.
Como já foi colocado acima, o Dr. Reynaldo Purim tinha uma cultura e um conhecimento geral de todas ou quase todas as áreas do saber humano.
Entretanto, para não incorrer em algum erro que alguém, algum dia pudesse incriminá-lo, ele era muito cioso aos expor suas idéias e pensamento. Esta, talvez, tenha sido uma das razões de ter produzido pouco. Antes de chegar à conclusão que o texto estava bom, ele corrigia e datilografava várias vezes (naquele tempo nem se falava em computador). Também ele perguntava, quem é que vai ler? Com isso dizia que, se ele expusesse o seu pensamento em sua profundidade, poucos iriam se interessar e ler.
O material que estou expondo, é o que encontrei em seus guardados em forma de apostilas e rascunhos datilografados. Como o que importa é o conteúdo estou colocando à disposição em forma de apostilas, sem muitas alterações.
Se o leitor estiver interessado, é só fazer o pedido.
Vem aí a 6ª Parte. Seus últimos anos – Morando no Seminário. Aguarde.

O PASTOR KARLIS ANDERMANIS – IGREJA BATISTA DE RIO NOVO -1905 –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

1ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman

O meu pai Carlos Andermann e minha mãe Emilia Kanzberg Andermann, junto com um casal de filhos, em 1905, emigraram da Letônia para o Brasil, com destino a uma Colônia que se estabeleceu em Rio Novo, nos arredores de Orleans e Lauro Muller em Santa Catarina. Sua missão era pastorear a Igreja Batista e de professor da escola primária.

Antes disto, o meu pai ainda solteiro, fora mandado pela Sociedade Missionária Batista Leta para Palestina a fim de cercar, naqueles lugares santos, os peregrinos russos em território neutro e pregar o Evangelho para eles que lá iam buscar graças e pagar penitencias, por que no Império Russo, ao qual pertenciam os paises Bálticos, não se permitia proselitismo religioso fora do recinto das igrejas.
Então o meu pai criou um estilo pessoal de abordar aqueles turistas individualmente ou em pequenos grupos, cativar o seu interesse e transmitir a mensagem da salvação. Esta maneira missionária de evangelizar depois ele empregou durante toda a vida.

Era um homem culto. Podia se comunicar em inglês, alemão, russo e por fim no idioma português. Sabia grego e lia fluentemente em hebraico, que havia aprendido o seminário para interpretar melhor as escrituras.
Naquele tempo os Batistas estavam começando a evangelização na Letônia, como também no Brasil, apoiados pelos recursos das Sociedades Missionárias americanas.

Letônia era eminentemente Luterana e aquela denominação tradicionalista nos seus cultos usava mais ou menos os mesmos ritos da igreja Católica. Cantavam os velhos corais de Bach; a maioria dos seus membros visitava a Igreja quando eram batizados, quando casavam, batizavam os filhos e por fim, no próprio funeral.
A preferência pela religião Luterana foi à conseqüência da colonização da Letônia pelos Junkers alemães que a ocuparam depois da Reforma e independentemente de qualquer opção pessoal do povo que passaram a dominar, mandaram batizar todos e depois os pastores doutrinavam insistindo naquelas idéias que facilitavam a servidão – a vinculação do homem a terra e obediência aos seus senhores. Não foram convertidos e por isto continuavam na vida mundana com todos aqueles excessos de vícios e maus costumes, que transmitiam as novas gerações.

Então vieram os Batistas com aquela teoria da Salvação, entoavam aqueles hinos brilhantes do Ira D. Sankey magistralmente traduzidos para o idioma Leto e aquela gente que cantando nasce, cantando cresce e cantando leva à vida – foi sensibilizada e não há outro meio mais eficaz de chegar-se à alma humana do que através dos cânticos harmoniosos, rítmicos e bem entoados.

Mas o entusiasmo dos evangelizadores Batistas tinha ainda outro motivo de insistir nesta conversão, por que a religião Ortodoxa, a oficial da Rússia naquele tempo tinha uma conotação de obscurantismo, do qual a maior expressão foi o monge Rasputin, infiltrado na família imperial. Então os crentes acompanhavam o seguinte raciocínio:
“Se nos grandes países tais como Inglaterra e América do Norte, onde”.
predominavam os Evangélicos com a sua moral havia prosperidade
e abundância, então também o mujique, através da luz do evangelho,
poderia fazer surgir na Rússia aquele progresso espiritual e “material”.

Durante a sua estadia na Palestina o meu pai tinha estudado Teologia num Seminário Teológico Luterano alemão situado numa Missão na Palestina, por que ainda não havia este curso na Letônia.

Era músico, poeta, escritor. Escreveu um livro sobre a Palestina intitulado “Terra de onde emana Leite e Mel” do qual não sobrou nenhum exemplar.

Escolhido pelas características da sua personalidade para aquele trabalho permaneceu na Palestina por 4 anos, de onde mandou também reportagens para a imprensa e teve de deixar aquele posto por que contraiu uma febre maligna, razão pela qual retornou para a terra natal.

Minha mãe Emilia Kanzberg Andermann era filha de madeireiro, homem grande, forte, querido das mulheres, dado a bebida e a dança do sabre e outras extravagâncias.
Ela possuía uma bela voz que me fez lembrar a da Janete MC Donald. Apaixonou-se por aqueles lindos cânticos, converteu-se ao evangelho, foi batizada, mas, por que contrariou a opinião doutrinária Luterana de seu pai, foi expulsa de casa e deserdada. Mudou-se para Riga, foi acolhida pela Comunidade Batista, trabalhou e fez um curso noturno de Administração do Lar – com noções de medicina, primeiros socorros e parto. Sabia identificar pelos sintomas, as doenças endêmicas tais como: crupe, sarampo, coqueluche. Gerou 6 filhos, sendo 3 homens e 3 mulheres, que todos cresceram e alcançaram a velhice, com exceção do Teófilo, que faleceu nos Estados Unidos.

Os meus pais casaram na Letônia onde tiveram dois filhos, os outros quatro nasceram no Brasil. Enquanto ainda na Letônia o meu pai cooperava com a Junta Batista como missionário itinerante a minha mãe o acompanhava implantando escolas dominicais.
Quando ele contraiu pneumonia provocada pelos rigores do clima nórdico, para facilitar a sua convalescença num clima tropical, a Junta Missionária Batista o mandou, junto com a família para o local que já foi mencionado.

Vale dizer que na mesma época, somente um pouco antes também veio para o Brasil como Missionário o Pastor Klavin designado para Ijuí no Rio Grande do Sul, o pai do eminente professor e médico Dr. Alexandre Klavin, diácono recentemente falecido, da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, que era nosso parente afastado.

Muito bem! Então a família do meu pai cruzou o Oceano numa viagem de vapor até Laguna, de lá pegou o trem da Estrada de Ferro D. Teresa Cristina até Orleans e depois num carro de bois foram levados para o novo lar em Rio Novo.
Vizinha, distando cerca de 12 horas a cavalo, havia uma outra colônia Leta de Mãe Luzia onde também havia uma dezena de famílias, que às vezes se visitavam. As terras destas colônias eram pouco férteis e ficavam longe da civilização.
A aventura desta imigração consistia em duas motivações:
1ª a espiritual: ٠formar um grupo de Batistas coeso onde uns eram vizinhos dos outros sem a interferência de doutrinas estranhas para abalar a fé;
٠evangelizar os habitantes da terra para convertê-los a doutrina Batista com mesma finalidade que tiveram na Rússia, evangelizar as mentes no intuito do progresso material.
2ª a material: ٠posse e ocupação de uma gleba de terra em seu nome que pudesse ser transmitida por herança aos filhos, aspiração impossível na Rússia.
O meu pai veio com a dupla missão: – ser o professor da escola primária para alfabetizar os filhos dos imigrantes; ser o Pastor da comunidade Batista. A minha mãe cooperaria na organização da escola dominical e ajudaria na prestação de primeiros socorros em virtude dos seus conhecimentos de medicina; fazendo partos, na ausência de uma outra alternativa melhor.
A Igreja Batista Leta do Rio Novo estava edificada na encosta de uma elevação [Ao pé da encosta e não na encosta] onde em cima havia o cemitério da comunidade.
Descendo do Templo uns 20 metros adiante para uma ravina havia uma fonte de água cristalina que jorra até hoje [Eram bem menos de 20 metros, talvez uns dez metros. Era chamado de “Avotin” isto é a pequena fonte. No meu tempo tinha sido feito um muro de pedras onde tinha sido introduzido um tubo de ferro de aproximadamente 1. ½” por onde a água escorria de uma altura de 50 centimetros. Também eram de pedras o leito e as calçadas de ambos os lados onde a água caia. A parte superior era fechada com uma grande pedra chata. Aos domingos era trazido um copo para uso comunitário e que se destinava a mitigar a sede dos seus membros] e também para lavarem os pés, calçarem as meias e os sapatos que traziam pendurados no pescoço enquanto vinham descalços pela estrada enlameada que destruía o calçado [Era sim pela economia, mas também pela dificuldade de andar no pântano, a pronúncia era sem o acento. Pois se alguém arriscasse a enfrentar lamaçais de palmo ou mais o calçado ficaria preso no fundo. Naquela época não existiam as botas “Sete Léguas”.]. Faziam isto para assistir ao culto dominical descentemente trajados e com os pés calçados. Terminado o culto e depois o ensaio do coro que duravam até as 14 horas, descalçavam os sapatos, davam nó de laçada nos seus cadarços, penduravam-nos novamente no pescoço e voltavam para as suas casas.
Era uma medida de economia que acabava saindo caro por que a anquilostomose, verme que penetrava pela planta dos pés e depois se localizava no intestino, trazia uma doença que se chamava “amarelão” deixando as vítimas exangues e até matava; isto antes do Monteiro Lobato ter escrito o “Jeca Tatu” e Rockfeller destinar uma verba para a erradicação desta moléstia no Brasil.

O meu pai como Professor deve ter sido muito eficaz. Lembro-me que um ex-aluno me contou que havia aprendido com ele a calcular na cabeça a grande tabuada que se destinava à multiplicação de fatores de dois dígitos.

Não tenho nenhuma notícia sobre o pastoreio do meu pai exercida naquela Igreja por mais de cinco anos. Creio que com o passar do tempo ele foi esmagado pela frivolidade daquela congregação e não era para menos, pois todas as horas do dia eram poucas para cultivar aquelas terras magras que se esgotaram com as primeiras colheitas. Com a chuva o solo ficava lamacento por que por baixo havia uma camada de carvão de pedra, conforme foi descoberto mais tarde e então era necessário duplicar o esforço para arrancar dela os meios de subsistência para uma existência digna, posto que aquele solo era impróprio para ser arado e assim tudo era plantando a custa de ferramentas manuseadas pelo braço humano.
Desta época na minha memória ficou guardado um sonho que o meu pai contou várias vezes. Neste sonho ele viu um homem pálido pregando no púlpito daquela Congregação Da Igreja Batista de Rio Novo, mas todos aqueles membros cujos nomes ele mencionou, mas que o tempo apagou da minha memória, estavam distraídos conversando entre si não lhe dando a mínima atenção.
Então o homem pálido que pregava naquele sonho lhe dissera: “Este mundo se acaba e a eternidade se aproxima e esta gente não quer ouvir falar de Jesus Cristo e tu Carlos, vai e diga isto para eles”.

Foi naquela época que começou a expandir-se pelo mundo a doutrina de Pentecostes, vindo até o meu pai da Alemanha e dos Estados Unidos e ele se deixou se empolgar por aquela doutrina que vinha divulgada em revistas artisticamente ilustradas em cores e impressas em papel da melhor qualidade. Em tese eles insistiam que na Trindade Divina o maior peso devia ser dado ao Batismo pelo Espírito Santo; Pentecostalismo do qual o meu pai passou a ser maior divulgador pela tradução daqueles textos.
Destacou-se principalmente a doutrinação de uma tal de Emmy Mc Pherson, uma senhora muito bonita nos retratos, que muito especialmente empolgou o meu pai. Ela era uma grande líder da seita nos Estados Unidos onde possuía um gigantesco templo. Anos depois li nos jornais a noticia de que ela havia sumido. Surgiu a hipótese de seqüestro para extorsão de um resgate por que a seita tinha muito dinheiro, mas em noticiário posterior ficou esclarecido que na realidade ela fora encontrada num Balneário em companhia de um playboy, viciada no uso da morfina.

Certamente o meu pai contou aquele sonho na Congregação e foi mal interpretado, insistiu, não foi atendido desligou-se da Congregação Batista e mudou-se com a família para a Colônia Leta do Rio Mãe Luzia, não mais como Pastor Batista e Professor, mas como inflamado divulgador do Pentecostalismo [É uma pena que os historiadores que escreveram a história da igreja Assembléia de Deus não mencionem este fato].
Continua…