… pois em férias você está e quando poderei conseguir as minhas? De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rio Novo, 23 de janeiro de 1923.

Querido Reini: Saudações!

Ah é assim! Ontem foi o seu aniversário por isso em primeiro lugar desejo muitas felicidades. Aqui nós não temos telégrafo nem telefone. Se tivéssemos, teríamos telefonado para avisar que era o dia de seu aniversário.

Desta vez eu teria isto e aquilo para escrever. Mas vou começando a me desculpar como habitualmente você faz. Tu não lembras mais nada da vida aqui em Rio Novo, mocinho novo, como tu eras, estamos cheios de serviços grandes e pequenos. Serviços nas roças e serviços em casa. Que as ervas daninhas têm ser capinadas e que a chuva nesta época é demais e diante de tanta coisa para fazer não podemos entrar em minúcias, pois não dá tempo para escrever tudo.

A tua carta escrita no dia 11 de dezembro com todas fotografias recebemos alguns dias antes do Natal. Muito obrigada por tudo. Fiquei esperando mais alguma carta para matar dois coelhos com uma carta só, mas desta vez não veio.

Você realmente veio e chegou para o Natal [nas fotografias], mas estava tão orgulhoso que não abriu a boca. Parecia mesmo um padre católico. Uma face mais gorda que a outra e o seu alfaiate esqueceu de colocar os botões no fraque. Se soubéssemos o tamanho e a quantidade dos botões, poderíamos mandar daqui. Apesar do muito serviço estamos deixando você dormir, pois chove demais. Continue na gaveta.

Nós todos os jovens de Rio Novo estamos esperando “Segundo convite” para a inauguração do novo templo de sua Igreja e daí todos vamos viajar para lá. Apronte-se bem e nós espere. Se não formos agora nos vamos outra vez.

Tu queres saber os nomes dos grandes homens que dirigem a União de Jovens e os cargos de cada um. O Presidente era o João Seeberg, mas como ele tinha ir servir o exército então foi eleito para o lugar dele o Alexis Klavin. O secretário é o Karlis Sanerip e o tesoureiro é o Oscar Karp, o regente do Coro é o Osvaldo Auras e o bibliotecário é o Augusto Klavin e como moderador ficou o Augusts Feldbergs. Os auxiliares serão recrutados entre os membros pelos próprios titulares. As reuniões são agora realizadas todos os meses. Em cada segunda-feira que sucede ao segundo Domingo do mês a noite é realizado o ensaio, onde tudo tem que ser feito em brasileiro. Os hinos e tudo que é apresentado somente em português. E mais todos têm que participar mesmo que seja com alguma coisa senão vêm broncas e é terminantemente proibido falar em leto e ainda para terminar é cantado o Hino Nacional Brasileiro, tudo isto é muito bonito.

Na noite do terceiro Domingo é o culto de oração dirigido pela Mocidade. Na Segunda-feira que sucede o terceiro Domingo de cada mês é a sessão regular administrativa. [Sessão de negócios] Na noite do quarto Domingo é a Noite das Apresentações. Quando as noites voltarão a serem mais longas então às terças-feiras vão voltar os ensaios do coro dos jovens, [Todos colonos aproveitavam o máximo à luz natural.]
Pois agora chove demais e o mato [Ervas daninhas] cresce demais e o serviço para dar conta é muito, então por isso nesta época não dá tempo para aprender a cantar.

Quem chegou sem ser esperado vindo a cavalo de Mãe Luzia no dia 2 de dezembro, um Sábado foi o Karlis Leiman. Chegou aqui em casa já de noite, pregou na Igreja no Domingo de manhã e de noite. Na Segunda-feira foi até o Rodeio do Assucar onde os pais e eles tinham morado e daí visitou muitos amigos e conhecidos e na mesma semana foi embora. Explicou que estava com pressa de voltar porquê na vinda tinha perdido muito tempo, pois o navio tinha encalhado num baixio e demorou aparecer outro para o resgatar.

O Karlis contou alguma coisa sobre você e seu trabalho e que este ano não podes vir para casa, devido à construção do Templo. Também contou que você é um homem muito importante, eles lá sem você, não conseguem sobreviver.

Reclamou de você que nunca escreveu contando do sucesso do João “Gigante” Klava que está lá na sua Escola. Agora ele esteve em Mãe Luzia na casa dos Klava e soube que o pupilo deles, o Jahnis era o mais inteligente e esperto que ele. Inclusive tinham mandado dinheiro para as passagens para que ele possa voltar e dar um passeio em casa, mas como não apareceu até agora, não sei se ainda virá. O Kahrlis disse se alguém não encontrar o velho Klava para ouvir os mil elogios ao seu filho e só lembrar da época que o velho Karklim elogiava o seu filho Jorge, pois ambos diziam que no mundo não tinham os filhos mais inteligentes que o deles.

E a festa de Natal está longe atrás. O tempo durante as Festas esteve muito bom. No dia 25 tivemos o pinheirinho e o programa da Escola Dominical. Na noite do último dia do ano nós também tivemos Festa na Igreja e esperamos o Novo Ano juntos. No dia do Ano Novo durante o dia houve a Festa de Missões, também na Igreja.

Não sei se você sabe que o tio Jekabs Purens com toda família estão em São Paulo e junto com o Inkis entraram naquela floresta? Sobre estas coisas você não sabe ou não se interessa por nada? Também não sabes quanto bem, eles estão passando.

O Schanis Sprogis escreveu aqui para o Alexis que quando o navio esteve ancorado no Rio ele subiu a bordo para ver os novos letos. Você bem que poderia ter ido também, pois tu moras ai mesmo. Ou mesmo não tens encontrado o Jahnis Inkis que estuda na mesma Escola ou não está mais? –

Eles chegaram em São Paulo como informaram seriam mais de 700 pessoas e quando desembarcaram foram encaminhadas para a casa do Imigrante e então após alguns dias sob a liderança do Inkis, do Malvess e de outros que chegaram antes, seguiram de trem, mata adentro. A última estação da estrada de ferro [Sapezal – Alta Sorocabana – Depois de Paraguaçu Paulista e antes de Quatá S.P.] está longe dentro da mata e de lá até se chegar o lugar ainda um longo caminho a pé através da mata fechada. O Inkis teria profetizado que o mundo seria atingido por grandes catástrofes e poderia mesmo acabar e a mata fechada seria o melhor lugar para ficar. O Inkis já teria profetizado antes que a Letônia seria atingida por grandes desastres e que todos que pudessem deveriam fugir da Letônia antes do dia 15 de outubro passado e por isso quem pôde veio embora.

O tio Jehkabs mandou um Cartão Postal de São Paulo que felizmente tinha atravessado o grande oceano, então iriam enfrentar a nova colônia em plena mata e também estava escrito que quando se encontrassem pessoalmente poderiam por os assuntos em ordem. Também prometeu escrever logo uma carta, mas até agora não chegou nada.

O que ninguém sabe é se o Inkis não está esperando ou prometendo para os outros que todos os Letos do Brasil estejam dispostos a o acompanharem nesta aventura. Uma coisa é certa, a quem o Inkis convencer, dificilmente poderá voltar atrás, porquê ele não permite não.

O Kahrlis contou que em Nova Odessa diversas pessoas acharam que o Inkis não estava bem da cabeça. O que ele vai fazer levando esta multidão diretamente para dentro da selva e fazer todos viverem do mesmo modo em que viveram os primeiros Apóstolos de Jesus com todos os bens em comum. Outros contam que já em São Paulo todos tinham que entregar a um comitê o restante de dinheiro que cada qual ainda tinha como reserva. Alguns que tinham mais e não teriam aceitado esta pressão e não sei então se não serão expulsos da comunidade por acharem isso uma extorsão ou roubo.

Também o Arnolds Klavin tem escrito que lá tem havido reclamações sem fim, com pessoas doentes, e muitas morrendo. Imagine sair de uma terra diferente e fria e passar para um calor destes. Sem alimentação ou pelo menos a comida que é parca e estranha para todos. Leite também não é possível se conseguir. Todos tem que comer numa mesa comunitária e nenhum melhor ou diferente de outro. Pela manhã pão de milho com uma sopa grossa, agora imagine sem leite. Na hora do almoço, feijão e arroz, mas sem carne. Parece que os que servem não são bastante justos e passam melhor.

Outros já estão morando em Nova Odessa e outros mais deverão sair. Como este movimento vai terminar, ninguém sabe. Se o Inkis não tivesse vindo antes aqui e conhecido o Brasil, quem sabe não tivesse se envolvido com estas profecias, pois ele depois de tanta violência e miséria da Grande Guerra começou a escrever para cá e também por lá e as pessoas começaram a acreditar que tudo poderia se repetir. Então porque não fugir para cá. Só de pastores devem ter vindo uns 20. Muitas Igrejas Batistas se dissolveram totalmente. Muitos pastores e líderes deixaram os seus pequenos rebanhos para trás e vieram para cá e eles que agüentem os males que estariam por vir. Como escreveu o Freij há pouco tempo: Aqueles que puderam viajaram e foram embora e nós aqui graças a Deus, mal não estamos passando e Deus está conosco e não sabemos como estão aqueles que queriam achar o Paraíso aqui na terra.

Aqui no Rio Novo todos dizem que aquelas mal orientadas pessoas que debandaram sem um plano definido e sem conhecer nada, bem que poderiam ter ficado lá vivido tranqüilamente os seus dias em vez de ouvir as profecias do Inkis. Dos que vieram não eram somente Batistas e sim também Luteranos todos que apóiam este movimento de Renovação Pentecostal. Pode ser que você saiba mais do que nós e não vale a pena ficar escrevendo e se eu escrever mais o que eu vou escrever outra vez.

O Arthurs vai escrever na outra vez. Ele não iria querer todas estas guloseimas de graça como laranjas, uvas, pêssegos, quanto quiser. Então comece a construir o navio para que nas próximas férias e venha com ele rápido e bem cheio de presentes.

Vou esperar de você uma longa carta, pois em férias você está e quando eu poderei, conseguir as minhas? Com lembranças de todos Olga.

[NT- Nesta carta já surgem comentários negativos sobre a futura colônia Palma]

Ontem foi o teu Aniversário, então hoje… | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 10 de janeiro de 1922

Querido Reinohld! –

Ontem foi o teu aniversário, então hoje à noite estou enviando votos de muita alegria, saúde e muitas bênçãos de Deus neste próximo ano.

A tua carta escrita no dia 20 de dezembro recebi exatamente na noite do dia do ano velho, quando estávamos na Igreja para esperar o Ano Novo. Acho que esta carta por conter “Boas Festas” para todos, ela veio mais rápida e chegou a tempo e hora para fazer valerem estes votos. Por tudo isso obrigado.

Os jornais recebi no dia 26, junto ao Festa do Pinheirinho na Igreja. No dia 28 mandei uma carta para você, que provavelmente já há tenhas recebido. Nesta carta, eu mencionei que na próxima eu iria descrever as Festas do Natal e do Ano Novo, mas não sei onde começar e onde terminar e o que mais poderia te interessar. Mas vou ter que começar pela ordem:

Primeiramente que aqueles grandes e ilustres homens que viriam, não puderam vir. Vieram somente o Arthurs Leiman e o irmão Willis Leiman com a esposa Lucija com os dois pequenos Waldis e o Aleksis. O Fritz também queria vir junto, mas devido agora ao rigor das exigências da fronteira argentina, quais exigem passes que são demorados para se conseguir. –

O Butler também não pode vir. Amanhã começam as Conferências da Convenção em Rio Branco [Entre Massaranduba e Guaramirim] e se o Inkis tiver chegado ao Brasil, talvez eles venham ambos até o Rio Novo.

No primeiro dia do Natal o tempo estava nublado e começou a chover forte e ainda com vento e assim as pessoas que estavam dirigindo-se para a Igreja apanharam bastante chuva. O Culto foi dirigido pelo Arthur. [ Leiman] A noite foi à vez das apresentações da Mocidade e ai também o Arthur contou fatos e experiências de sua vida. Uma das coisas que ele contou que na escola dele, eles são ao todos 20, 9 homens e 2 moças que são escalados para trabalho como preparar (cozinhar) o café da manhã. O que geram os conflitos é que todo mundo quer saber mais que qualquer um e ninguém realmente sabe coisa alguma. Ai entra a esposa do Diretor e determina a reconciliação dos grandes mestres da cozinha [no Seminário em Buenos Ayres].

No dia da segunda Festa de Natal [dia 26] o tempo amanheceu maravilhoso, não estava fazendo calor e soprava uma brisa fresca, como fosse inverno. A reunião da manhã foi dirigida pelo Willis [Leiman]. À noite, o trabalho junto ao Pinheirinho, era por conta da Escola Dominical e quem dirigiu foi o Karlos Zeeberg. Foram apresentadas poesias, mensagens, Hinos, Apresentação do Conjunto Musical de Instrumentos e ainda outras apresentações de conjuntos de violinos e harmonium e detalhar tudo isso não seria possível, mas o resto você pode imaginar.

Na noite do ano velho ou último dia do ano teve a Noite de Vigília [Culto de Ação de Graças pelas bençãos do ano findo] e quem dirigiu foi o Willis. Ele contou sobre o seu trabalho no Rio Grande do Sul e o Arthurs do trabalho dele na Argentina. Cantou o Coro principal e também o Coro dos Jovens e foram declamadas diversas poesias e o tempo passou rápido e ainda foi servidos um lauto lanche com café com leite, pães, bolachas e logo chegou há meia noite e junto com ela o Ano Novo de 1922.

E como já era dia Primeiro de Janeiro e também como Dia Santo, deveríamos, depois de horas estar de volta na Igreja. Este dia pela manhã foi excepcionalmente quente e de tarde veio uma tempestade com direito a ventos, raios e trovões. O Arthurs passou este dia conosco como nosso hóspede.

A semana seguinte foi a semana de Oração. Estes cultos foram dirigidos alternadamente pelo Arthur e pelo Willis. O tempo nesta semana foi muito chuvoso e as estradas muito lamacentas. Assim mesmo a freqüência das pessoas foi muito boa. Esta semana o tempo está bom, pelo menos estes dois dias não choveu nenhuma vez, apesar de que nas costas da Serras, hoje à tarde ainda choveu.
O Willis está semana vai embora, mas a Lucija [Lucia Ochs a primeira esposa do Willis] ainda vai continuar por aqui.

Eles, os Leiman, não conseguem chegar a um acordo sobre o que devem fazer. Nenhum deles quer morar aqui, com os velhos.

O Willis quer que venda tudo isso ai e que vão morar com ele no Rio Grande.

O Fritz quer também que vendam tudo e ele quer levar ambos os velhos para a Argentina. O velho não quer vender e a senhora Leiman ainda está doente se bem que esteja melhor e já consiga caminhar até a cozinha, mas fazer algo ela não pode.

Bem agora chega, já é tarde e o sono não me deixa em paz, ele está persistentemente me incomodando e ainda o cansaço de estar o dia inteiro capinando a nova coivara que devido estas chuvas o mato e as ervas daninhas estão muito desenvolvidas.

Escreva-me uma longa carta como foram estes períodos de lutas. Onde você vai passar o dia das Férias.

Ainda muitas lembranças de todos. Olga.
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