Origens da colônia: O início no sul do Brasil

O INÍCIO NO SUL DO BRASIL

Devido a impossibilidade de se conseguir um pedaço de terra para o cultivo próprio, e ao processo de russificação ocorrido no final do século XIX, muitos lavradores da Letônia imigraram para o interior da Rússia, e até mesmo a gelada Sibéria, em busca de uma gleba para cultivar. Outros, do interior, deixaram as lavouras e mudaram para a capital, Riga, onde buscavam trabalho nas fábricas. Estes também enfrentaram muitas dificuldades até acostumarem-se ao tipo de trabalho e ao ar poluído.Seu sonho era transferir dois milhões de letos para o Brasil.

No ano de 1888 dois jovens, o pastor Karlis Balodis e o filósofo Peteris Salits, já pensando em planos de colonização e imigração, vieram ao Brasil – mais precisamente à cidade de Desterro, capital do Estado de Santa Catarina, mais tarde chamada de Florianopólis, – com a finalidade de conhecer este país, conhecido como “terras quentes”. Tendo retornado a Letônia, abriram em Riga um “bureau” a fim de incrementar a imigração em larga escala e tendo por meta a transferência de dois milhões de letos para o Brasil.

Em abril de 1890 vinte e cinco famílias deixaram o porto de Riga, conforme descreveu o pastor Janis Inkis em Varpa, no ano de 1947:

«O convés do navio está repleto de cidadãos muito bem vestidos, com suas famílias, e vejo também crianças. O navio tem por destino inicial o porto de Lübeck, na Alemanha, e de lá continuará a sua viagem para o Brasil. O ambiente é alegre e otimista. Durante a despedida os homens bebem ao sucesso da viagem e do empreendimento, e as garrafas vazias são jogadas no rio Daugava.»

O pastor Janis Inkis, naquela época ainda jovem, perguntava em seu coração: “que bênçãos poderão aguardar na nova terra?” (ver Kristiga Draugs de 1992, números 1 e 2).«As garrafas vazias são jogadas no rio Daugava.»

Neste grupo havia alguns batistas: Janis Arums, sua esposa, seu filho adotivo Adolfo, e a senhora Katrini Bitait. Ao todo, quatro batistas.

Logo após a chegada no Brasil, apesar da colônia Rio Novo não ficar tão longe da estação ferroviária em Orleans, surgiram os problemas: desinformação, reclamações e arrependimento. Janis Arums, no entanto, aprovou a colônia, e já no começo organizava e dirigia os cultos.

Aqueles que retornaram para a Letônia levaram muitas informações desairosas e prejudiciais sobre a terra, que foram publicadas no jornal Baltijas Vestnesis (O Mensageiro do Báltico). Porém a opinião de Janis Arums era outra, e através de cartas ele mostrava situação muito diversa aos batistas de Riga.

Mais uma vez o pastor Janis Inkis foi testemunha ocular da saída do novo grupo de imigrantes, cuja maioria era, ou melhor, consistia de quase a totalidade da Igreja Batista de Daugavagrivas (Foz do Rio Daugava) – inclusive o coro e seu dirigente, que com batuta na mão perguntava aos seus cantores: “Quem quer conosco ir a Sião?” Deus tinha desejado formar bases para a imigração de batistas letos ao Brasil.

A Igreja Batista Leta de Rio Novo foi organizada em 20 de março de 1892, com 75 membros. Foi a primeira Igreja Batista de Santa Catarina e do sul do Brasil.

Quando das visitas do pastor Janis Inkis à colônia de imigrantes letos em Nowgorod, na Rússia, ele hospedava-se na casa de seu pai pastor Jekabs Inkis, que era o líder daquela Igreja, e aproveitava para contar do grande movimento de imigração para o Brasil. Isso gerou muito interesse, e organizaram-se outros grupos de imigrantes para o sul do Brasil. A Colônia do Rio Novo mostrou-se muito pequena para tantos que chegavam, e os novos imigrantes, originários de Kurzeme, estabeleceram-se às margens do rio Oratório. Porém a terra, que era muito pedregosa, oferecia obstáculos para as culturas. Depois de contatar pessoas do vizinho estado do Rio Grande do Sul, da Colônia de Ijuí, este grupo transferiu-se para lá.

Os primeiros professores do Rio novo foram Wilis Butlers, pai da Dra. Helen Butler, e Alexandre Klavim, progenitor do falecido Dr. Alexandre Klavim e da professora Selma Klavim.

Os primeiros obreiros, que em 1903 foram estudar com o pastor Karl Roth, em lingua alemã, no seminário em Porto Alegre, foram Alexandre Klavim, Janis Nettembergs, Fritzis Leimanis e Richard Inkis – sendo que este último se tornaria mais tarde um expoente do ensino no Seminário Ba­tista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro. Mais tarde foram também a Porto Alegre Vilis Leimanis, Peteris Salits e outros.

O trabalho batista cresceu e alcançou Oratório, Ijuí, Mãe Luzia, Alto Guarani, Massaranduba, Rio Branco, Terra de Zimermann, Bruendertall, Linha Telegráfica e, por que não, a Primeira Igreja de Nova Odessa. Em 1934 chegou a Urubici. O crescimento do trabalho foi igual ao de um carvalho: lento, mas poderoso.

Destes trabalhos surgiram novos obreiros, talvez mais de 130. Nomes como Keidans, Inkis, Klava, Leimanis, Liberts, Andermanis, Saetz, Purins, Peterlevitz, Butlers, Araiums, Paegle, Frischembruders, Seebergs, Leepkalns, Strautmanis, e Strobergs são por demais conhecidos. Esses obreiros alcançaram o Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá.

Em 22 e 23 de março de 1992 a Convenção Batista Catarinense organizou, no Acampamento Batista Catarinense, a primeira parte da comemoração do Jubileu do Centenário da Organização da Igreja Batista do Rio Novo e, conseqüentemente, do trabalho Batista Leto no Brasil. Para esta comemoração vieram caravanas de diversos pontos do país. A semente tinha caído em boa terra.

* * *

Coligido e apresentado pelo pastor Ilgonis Janait por ocasião do Jubileu do Centenário em Varpa, no dia 11 de Julho de 1992.
Traduzido da revista Kristiga Draugs Nº 4 de 1992, por V. A. Purim)

Algumas informações sobre a Colônia do Rio Novo | Otto Purim a Janis Lepste

[NOTA de V. A. Purim: Carta escrita por meu pai, Otto Roberto Purim, em resposta a uma escrita pelo Sr. Janis Lepste, de São Paulo. Cópia do original gentilmente cedido pela senhora Brigita Tamuza, de Riga, Latvija. Traduzida do leto para o português por Viganth Arvido Purim]

 

[Curitiba, 23/08/71]

Sinceras saudações.

Há algumas semanas recebi a sua carta com os mapas da Colônia Rio Novo e a publicação “Melnu um Baltu” (Branco e Preto), pelos quais agradeço e os quais li e avaliei com grande interesse. Se tiver a oportunidade de publicar outros exemplares, não se esqueça de mandar alguns números para cá.

No que diz respeito aos mapas de Rio Novo, considerando-se que foi a sua primeira visita e sabendo-se das limitações de uma visita como essa, seu trabalho foi muito eficiente. Estou anotando algumas informações a lápis, pois poderão ser rapidamente apagadas com borracha e depois anotadas com aquele capricho, com tinta. Também colei ao lado do mapa alguns papéis indicando moradas de outros letos não mencionados no original. O que mais pede modificações são as curvas dos rios e das estradas e informações como distâncias, etc. Muitos lugares de moradas de famílias letas anotei de memória, outras me foram contadas pelos meus pais, porque eu não tinha condição de lembrar.

Você me pergunta das atividades cotidianas dos recém-chegados imigrantes letos. Inicialmente, logo depois da chegada, todos dedicaram-se à agricultura. Mais adiante aqueles que tinham alguma profissão começaram a procurar meios de exercer outras atividades.

Por exemplo, o Alexandre Grünfeldt, sendo marceneiro (fabricante de mesas), transferiu-se para Orleans, e nos fundos da casa improvisou uma cobertura onde fabricava móveis. A esposa e filhas trabalhavam de costureiras.

Também o Grüntall, que era também marceneiro, fazendo todos móveis manualmente. O filho dele, Ansis, abriu uma oficina de conserto de relógios.

O Gustavs Grikis, sendo ferreiro, abriu uma ferraria em Orleans. Karlis Match, Indricksons, e depois Roberto Klavin e outros, mesmo sendo agricultores, saíam pelas redondezas construindo atafonas movidas por rodas d’água e também engenhos para a fabricação de farinha de mandioca e de açúcar de cana, serrarias para cortar tábuas, etc. Outros trabalhavam em construção de casas, etc, e nesta categoria se incluía meu pai, Jahnis Purim.

Ainda, devido à sua importância e reconhecimento, devemos mencionar o sr. Karlis Zeeberg, que, sendo agricultor, também trabalhava cuidando da saúde das pessoas com bons resultados. Ele usava o sistema de hidroterapia preconizado pelo famoso Dr. Kneip, aplicando o sistema Bilts. O Zeeberg ia atender os doentes nas suas próprias casas. Ele conseguia curar enfermos que outros médicos já haviam desenganado, considerando-os casos perdidos. Mesmo em nossa casa foi chamado diversas vezes, com bons resultados.

Nenhum dos profissionais mencionados, no entanto, procurou aprender alguma profissão; quase todos que emigraram vieram da classe de empregados e eram dependentes dos seus empregadores na Letônia. Naturalmente muitos vieram com família e filhos, e esta nova geração criou novas necessidades. Por exemplo, o Julio Malvess, os filhos do Leimann, o Villis Vanags, meu tio Ludvigs Rose e muitos outros; não tentarei mencionar todos agora, mas é importante lembrá-los e reconhecer o seu esforço e suas conquistas.

Outra pergunta sua refere-se aos letos que moravam na Colônia Rio Novo e seguiam religiões diferentes, não pertencendo à igreja batista. Poderia resumir dizendo que a grande maioria dos imigrantes pertencia à igreja batista. Por exemplo, da Igreja Batista de Daugavagriva (Dünaminde, naquela época) veio o coro completo, inclusive o regente Karlis Matchs. Tendo embarcado no vapor no porto de Riga o coro cantou com potentes vozes o hino “Quem quer ir conosco a Sião?”; além do coro, um bom grupo de outras pessoas veio desta mesma igreja.

Aqui no Brasil a exceção foram algumas famílias luteranas que também vieram, mas depois, pelo batismo, uniram-se à Igreja Batista de Rio Novo. Só uns dois não pertenciam a igreja nenhuma. Um era o Ernesto Grüntal (não confundir com o outro acima mencionado) e o outro era o Herman Grunskis, ambos solteirões e ambos já falecidos — sendo que o sepultamento do primeiro foi em Rio Novo e o do segundo em Tubarão.

Havia também o Edvards Grunskis (Padre Grunskis) que frequentou um seminário católico em Porto Alegre; tempos depois ele largou a batina e aceitou o trabalho de correspondente de um jornal alemão no exterior. As últimas cartas e fotografias dele que chegaram em Rio Novo foi no ano 1920, despachadas de Moscou. É possível que os comunistas tenham posto ele de lado…

Dez anos passados… Os descendentes dos letos de Rio Novo se mudaram e outros se perderam nesta vastidão sem dar notícias, abandonando suas origens e sua religião.

Sobre o Rudolf Libeku não me lembro de nada. Só lembro de alguma coisa que minha mãe falava, que o Libeks tinha morrido repentinamente numa rua do Rio de Janeiro. Sobre a família e filhos não tenho nenhuma informação.

Desta vez devo terminar. Já escrevi bastante. Quem sabe seja difícil entender. Penso que seria muito mais fácil a assimilação dessas informações se pudéssemos sentar e conversar. E, sem interrupções, trocar opiniões e chegar mais rápido às conclusões. Se por acaso vieres para cá traga aquela planta para podermos aperfeiçoar. Por escrito é sempre mais difícil.

Finalizando, peço dentro de suas possibilidade ceder por empréstimo o livro “Muza meza Maldi” (Os enganos da floresta virgem) e o “Mernieka Laiki” (A época dos agrimensores) [NOTA: O primeiro conta de modo jocoso a entrada dos imigrantes letos nas florestas da Paulista, debochando daquele espírito de crentes que fugiam do Grande Urso Vermelho e da Grande Perseguição, e o segundo fala da Grande Reforma Agrária na Letônia.]. O que eu soube é que existem duas versões do segundo livro: um original, editado na época em que a Letônia era uma república independente, e outra versão retrabalhada pelos comunistas russos. Se você tiver as duas versões, a antiga e a nova, por favor me mande.

Devo terminar esta, se não com o tempo gasto na leitura desta carta os outros seus afazeres ficarão para trás.

Com grande consideração,

Otto R. Purim
Curitiba, 23/8/71

PS. Queria deixar assinalado que lembrei de que estou planejando ir em breve a São Paulo visitar alguns parentes. Nesta ocasião poderia conseguir uma oportunidade para visitar você. Como não sei nem o dia nem a hora, teremos de marcar uma ocasião em que você possa estar disponível. Para tanto não esqueça de mencionar a melhor alternativa em sua carta.

O mesmo

 

***

[Para ver o mapa mencionado nesta correspondência, clique aqui]

Origens da colônia: João Arums

HISTÓRIA DE UM PIONEIRO

No ano de 1889 foram publicadas no diário letão Baltijas Vestnesis [Mensageiro do Báltico] as primeiras referências sobre o Brasil, terra anteriormente totalmente desconhecida aos letos.

Alguma coisa havia sido relatada antes disso por marinheiros que transportavam em veleiros, ao porto de Santos, o conhecido e apreciado ‘’Pinho de Riga’’. Suas lembranças do Brasil não eram nada favoráveis, dadas as condições de trabalho no porto: durante o ano todo um calor insuportável, as montanhas ao fundo impedindo os ventos, dias a fio suando por todos os poros, carregando montanhas de madeira para fora do veleiro. Naquele tempo ainda ameaçava a febre amarela, que não havia sido combatida. As poças de água estavam em toda a parte; nas proximidades plantações de bananeiras estendiam-se por toda parte, espalhando sua cor verde pela redondeza. Era essa a imagem que os marinheiros transmitiam. Os navios da Letônia que descarregaram o ‘’Pinho de Riga’’ no porto do Rio Grande [do Sul], onde o clima era mais ameno, tiveram deste porto imagem bem mais favorável.

As impressões dos marinheiros sobre o Brasil não tiveram muita repercussão, tendo permanecido entre suas estreitas relações familiares. Não encontramos registros de que algum leto tivesse estado ou residido no Brasil, ou escrito alguma coisa sobre esta terra, anterior ao testemunho do pastor J. Balod e de Pedro Zalit. As primeiras referências, como já dissemos, ocorreram no Baltijas Vestnesis, de hábil autoria dos dois citados personagens, que lançavam aos lavradores a idéia de fundarem colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas em Novogorod, Simbriska, Ufa e na Sibéria – todas na Rússia. As agruras desses agricultores J. Balodis conhecia, tendo sido pastor luterano durante muito tempo na longínqua Sibéria.J. Balod e de Pedro Zalit lançaram a idéia de colônias agrícolas em condições melhores do que as estabelecidas na Rússia.

Naquela época havia entre os letos um grande sonho pelo que chamavam de ‘’meu cantinho, meu pedacinho de terra’’, não importava onde fosse. Os autores, ambos de cultura esmerada, um teólogo, outro filósofo, ainda em sua juventude e por natureza idealistas e otimistas, divulgavam suas amplas esperanças de conduzir seus patrícios às ‘’terras quentes’’. Eram parâmetros ideais as grandes colônias alemãs em Joinvile e Blumenau: suas escolas, comércio e liberdade políticas na província de Santa Catarina, de clima ameno e terras férteis.

Balod e Zalit contataram as melhores condições de imigração junto às autoridades de imigração e a empresa de colonização Grão Pará com sede na capital, Rio de Janeiro. A Grão Pará franqueou aos colonos europeus uma enorme área de terras com mata ainda intocada na comarca de Tubarão, que se estende de não distante do oceano Atlântico até a cordilheira da Serra do Mar. O acordo oferecia terras baratas, pagamento em longo prazo, passagens gratuitas desde Lisboa até a nova morada e sustento durante o primeiro ano, a ser pago com a produção das lavouras.

Os primeiros a aceitarem essas propostas foram operários da indústria cimenteira de Riga. Eram em sua maioria trabalhadores rurais que haviam deixado a agricultura por falta de condições de subsistência. Procurando trabalho, muitos haviam se juntado às indústrias de madeira e de cimento.

A terra das palmeiras
Nas industria de cimento o trabalho o trabalho era insalubre e o ambiente poluído: só poeira e fumaça. O combustível utilizado produzia mau cheiro, e a fumaça expelida pélas chaminés, levada pelo vento, poluía toda a redondeza, prejudicando continuamente a saúde da população. Os homens lembravam sua mocidade no interior, ao ar livre, e desejavam voltar a suas origens: tornarem-se outra vez agricultores, viver em suas propriedades e em suas casas. Em sua terra natal isso não era mais possível.

Entre esses operários interessados na imigração estava também o nosso irmão batista João Arums, pessoa sincera, de postura e linguagem elegantes e educadas, otimista ao extremo, líder respeitado entre seus companheiros. Podemos concluir que tenha sido graças à sua liderança junto aos operários da fábrica de cimento que durante o período de inverno um grupo organizou-se para, na primavera de 1890, quando o degelo do rio Daugava permitisse, embarcar para a cidade de Lübeck (na Alemanha) e depois Lisboa, e de lá para o Brasil.

Havia também interessados entre os batistas de Riga, que não puderam acompanhar este primeiro grupo. Porém na primavera seguinte também eles deixaram as costas de Riga rumo ao Brasil.

Enquanto esse outro grupo se preparava para o longo curso começaram a circular notícias desagradáveis. Os jovens colonos [recém-chegados ao Brasil] estavam inquietos, sentiam-se desapontados. As mulheres, nascidas na cidade, choravam pelo futuro de seus filhos. Parte dos colonos, com mais recursos, foram para os Estados Unidos, que ultimamente conquistou a fama de país de mais futuro.

Nosso Arums, no entanto, tem outras perspectivas. Ele estima a ‘’terra das palmeiras’’ com sua imensidão territorial, suas leis liberais, o romantismo da mata virgem. Comunica-se por carta com seus irmãos de fé em Riga, dizendo que não aceitem os lamentos dos descontentes: esses não confiam em Deus, não têm paciência nas agruras da vida, não possuem clara visão do futuro, sentem falta dos prazeres mundanos e da tranqüilidade da vida material. Arums assevera que as condições oferecidas pela colônia são aceitáveis e o governo correto.Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans. Dentro das possibilidades é possível viver e prosperar, e os parâmetros para esta avaliação são as já estabelecidas colônias alemãs. As rotas de comunicação entre as novas colônias e os pequenos portos à margem do Atlântico, bem como a ferrovia de bitola estreita (construída com a intenção de explorar as minas de carvão mineral), asseguram a possibilidade de se manter a comunicação via postal e a troca de mercadorias.

As margens do Rio Novo
Os imigrantes do grupo de batistas de Riga estavam com firmes esperanças de que no próximo ano estariam a caminho do Brasil, [o que de fato aconteceu]. Ao final de sua viagem desembarcaram na estação ferroviária de Orleans, onde foram encaminhados ao barracão coletivo da empresa de colonização.

Os recém chegados eram os “cimenteiros”, e foram recepcionados pelas duas famílias remanescentes, os Arums e os Indrikson, essa a última de estonianos (mais tarde, após algum desentendimento com a empresa colonizadora, os acima citados pioneiros mudaram-se para outra colônia).

Sem demora os batistas mudaram-se para as áreas destinadas dentro da mata virgem, às margens do pequeno riacho que os agrimensores haviam denominado de Rio Novo, distante oito quilômetros da sede do município e da estação ferroviária. Ali se estabeleceram, uns próximos aos outros. Começaram as derrubadas e fizeram suas culturas: plantaram milho, arroz, feijão e raízes comestíveis como mandioca e batata doce.

Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi em 1891.

Logo no primeiro ano fundaram também uma igreja batista com cultos regulares. Na falta de pastor, designaram entre seus membros homens dignos e responsáveis para a administração da igreja. Nos cultos o coral entoava hinos em quatro vozes. Isto foi no ano de 1891.

Cada acampamento, sua história
A estes seguiram-se novos grupos de imigrantes das igrejas batistas de Riga, de Além rio Daugava, da Foz do Daugava e também de Liepaja e de outros lugares; mais tarde ainda da colônia leta de Novogorod, na Rússia.

Nesse ritmo de expansão, começaram a faltar terras férteis a serem cultivadas na colônia do Rio Novo. Inconformados, os colonos começaram a buscar outras áreas para moradia e cultivo.

João Zarin, um dos pioneiros no Brasil e que foi designado como agrimensor, liderou um grupo até as margens do rio Mãe Luzia. Os oriundos de Liepaja mudaram-se para o Rio Grande do Sul e fixaram-se na grande colônia de Ijuí, próximos às colônias alemãs.

Cada acampamento, sua história. Um grupo de Novogorod dirigia-se para Rio Novo, mas diante de notícias a bordo de que em Blumenau havia terras e infra-estrutura em boas condições, desembarcaram no porto de Itajaí e por via fluvial dirigiram-se para Blumenau.

Jacu-Açú
Em Blumenau sentem-se à vontade com a forma de vida dos alemães. Buscam terras onde desbravar e morar, e encontram terras devolutas a 40 quilômetros de distância, numa colônia de poloneses, entre as montanhas de Guaraniassú. Com suas oito famílias ocupam toda a área de uma baixada onde há um córrego; os que chegaram mais tarde tiveram que se contentar com outras áreas mais distantes e montanhosas.

Anos mais tarde foram chegando mais parentes e conhecidos da região de Novogorod. Estes se fixaram nas margens da estrada, onde haviam terras devolutas, embora improdutivas, por isso não ocupadas. Eram os chamados ‘’beiradeiros’’.

Chegam mais imigrantes. Onde colocá-los? Um comerciante do local, polonês inteligente, amigo dos letos, conta que em uma de suas caçadas, além do rio Patanga, encontrara numa região ainda desabitada uma várzea com um riacho. Observou que, com as frutas silvestres e as árvores, devia ser uma área de terras produtivas.

Organizam uma pequena expedição ao local conduzida pelo amável polonês, senhor Eduardo, de sobrenome polonês impronunciável. O lugar é agradável; os proprietários determinam as medições, e verifica-se que está situado nas fronteiras de três municípios: Blumenau, Joinvile e Parati. O agrimensor imagina que o riacho pertença ao município de Blumenau.

São distribuídas aos novos colonos as áreas na localidade que ainda não tem qualquer denominação. O agrimensor abate a tiro, para seu almoço, uma ave que na língua tupi-guarani chama-se Jacú-Acú – e naquele momente entende que encontrara um nome o para a localidade: Jacuassú!

Aumentaram os pretendentes às terras. Nas proximidades encontraram outro riacho, este já com nome, Ponta Comprida, reduzido a simplesmente Comprida. Verificou-se mais tarde que a área colonizada pertencia ao município de Joinvile. Correram boatos de que as áreas ocupadas a mais de dez anos, onde moram sem qualquer pagamento, é de proprietário desconhecido, de procedência realmente obscura. Não demorou a ser esclarecido: a propriedade é dos descendentes do famoso Barão do Rio Branco. Após o esclarecimento a área passou a chamar-se Rio Branco.

Um pouco do céu azul
Notícias sobre Guarani e Jaguassú alcançam Rio Novo e Mãe Luzia. Surgem famílias em uma e outra parte que se mudam e chegam para morar aqui. O primeiro a transferir-se e chegar é o nosso amigo Arums. Ele prefere a mata romântica, inóspita e desconhecida, caminhos por abrir e mudança de condições de vida. Prefere novos empreendimentos, os primeiros passos do desbravamento da natureza ainda virgem. Arums ama o Brasil e nutre por ele verdadeiro entusiasmo; lamenta não ter chegado aqui nos seus anos de juventude.

A família de Arums é pequena, três pessoas: a esposa e um filho adotivo, adotado ainda em Riga. Vivem alguns anos na colônia de Guarani. Quando falece sua esposa, fiel companheira de vida e de fé e exemplar dona de casa, Arums liquida seus bens e visita a nova colônia [leta] de Nova Odessa [no estado de São Paulo].

Volta a sua terra junto a seu filho Adolfo, que adquire uma gleba de terras em Bananal, nas proximidades de Rio Branco. Nos cultos da igreja a atmosfera espiritual é das melhores.

Com boa vontade e prazer Arums participa com o filho nos trabalhos de derrubada de árvores, abrindo novos espaços para agricultura. Não há dúvida de que a derrubada produz experiências: são árvores milenares, que sendo cortadas começam a lentamente a declinar e com grande estrondo vão ao chão, quebrando seus próprios galhos e as arvores menores. O chão estremece aos pés e na mata verde, sempre na penumbra, onde o sol não penetra, um facho de luz ilumina e aparece um pouco do céu azul…

Inesperadamente, ao cair uma destas árvores, nosso Arums foi vítima fatal. Ele amava a mata e a mata o levou. Sem enfermidades, sem sofrimentos e sem a fraqueza da velhice chegou à sua verdadeira morada, onde as arvores da vida estão sempre verdes, florescem e produzem seus frutos ‘’no meio do paraíso de Deus’’.

Um silencioso companheiro
Nós o vemos sorridente no seu retrato, tirado em sua residência – como ele andava pela vida.

Em sua memória acrescentamos algumas citações da recordação de amigos. Num discurso entitulado Letos no Brasil, impresso no Kristiga Drauga [O Amigo Cristão] de janeiro de 1948, J. Inkis referiu-se a Arums com estas linhas:

Neste grupo de imigrantes de Riga encontrava-se um silencioso companheiro, um batista com sua pequena família. Era o irmão Arums, que mais tarde passei a conhecer melhor. Vivendo numa colônia após outra, transmitia seu entusiasmo pelo Brasil, pela liberdade aqui reinante em comparação à Rússia, pela fertilidade das terras e o clima ameno, onde recuperou sua saúde.

Nas ocasiões festivas ele usava da palavra e com seu sincero semblante e sua amável figura e palavra entusiasmava a igreja dos pioneiros. No meio da mata virgem ele clamava alegremente “onde outrora os macacos em seus galhos cantavam, agora os crentes cantam louvores a Deus!’’

Numa carta o evangelista F. J. Janoskis escreve sobre ele, entre outras coisas:

João Arums foi um verdadeiro cristão, de coração ardente, sempre disposto a colaborar em qualquer atividade. A ele cabia perfeitamente a expressão bíblica a Barnabé, “filho da alegria”. Sua alma continha uma alegria inesgotável que transbordava, derramando seu entusiasmo a todos os que com ele se comunicavam.

Ele compreendia muito bem os jovens e as crianças. A cada um distribuía seus conselhos e experiências. Conhecia todas as crianças da redondeza, carregava-as no colo, afagava seus cabelos e falava meigamente de Jesus.

Na sua vida cristã cavou profundos fundamentos. Nenhum vento de doutrina poderia abalar suas convicções: era, para os demais, um anteparo seguro. Reconhecia que o objetivo e dever de todo cristão é anunciar o evangelho. Constantemente estimulava os jovens a estudar o vernáculo para poderem anunciar com eficiência a bela mensagem do evangelho aos outros cidadãos, ainda no obscurantismo. Este seu grande desejo ele chegou a ver começando a ser implantado…

Um homem como ele, de qualidades apreciáveis, foi, perceba, o primeiro batista leto a desbravar as matas do Brasil – e isso embora não tenham faltado seguidores batizados com mesmo espírito de amor. “Bem-aventurado o homem cuja força esta em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados. Aquele que leva preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo seus molhos… Esses vão de força em força.”

* * * *

Autor: Um de seus seguidores (anônimo)

Extraído do BRAZILIJAS LATVIESU KALENDARS (Calendário Leto do Brasil), Ano 1952
Tradução: V. E. Purim
Revisão: V. A. Purim e Paulo Brabo

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

continuação da primeira parte

A idéia central dos participantes convergia para a urgente necessidade de se conseguir um templo, mesmo que provisório, mais amplo para as reuniões. Para escolher o local foram escolhidos os nomes dos seguintes irmãos: J. Ochs, J. Neiland, J. Simpson, K. Match e J. Stekert.

O lugar foi encontrado, bem no meio da colônia, numa encosta do terreno pertencente ao irmão J. Simson. Todos pegaram firme no trabalho. Até as irmãs mais novas, adolescentes mesmo, ajudavam a amarrar os feixes de resistentes folhas de palmeira [guaricana] para a cobertura, isto é, a confecção do telhado. Também as paredes foram confeccionadas com este mesmo material.

Para a confecção dos bancos foram assentadas estacas no chão até uma altura conveniente e sobrepostas travessas para sustentação feitas de ripas retiradas dos troncos de palmito [jussara]. O resultado foi satisfatório e os bancos até que ficaram confortáveis. Todos juntos trabalhando, em três dias a obra ficou pronta.

No fundo da construção estavam os assentos para os coristas. Organizaram-se dois coros. No lado direito ficava o coro do Rio Novo e no lado esquerdo ficava o coro do Rio Carlota.

Aqui cabe um esclarecimento: nesta imigração do pessoal da igreja de Dinaminde veio o coral quase completo, incluindo o seu dirigente, e como as terras do vale do Rio Novo já tivessem sido todas tomadas pelos que tinham chegado antes, estes se instalaram ao longo do outro vale — que os agrimensores haviam denominado de Rio Carlota. Durante algum tempo os colonos foram distinguidos pelo nome dos pequenos rios ao longo dos quais moravam, mas com tempo a denominação de toda colônia passou a ser Rio Novo, talvez por ter sido onde ela realmente começou.

Durante os cultos os corais se revezavam. O coro de Rio Carlota, composto pelos de Dinaminde, era dirigido pelo irmão K. Match, enquanto o do Rio Novo, composto por oriundos de Riga, era dirigido pelo irmão Frischenbruder. O último hino do culto de cada domingo era cantado por ambos coros unidos e dirigido alternadamente por um ou outro dirigente.

Como líderes da igreja foram eleitos os seguintes irmãos: J. Bachul, J. Neiland, J. Stekert e M. Indrikson. Para servir a ceia do Senhor, o irmão J. Bachul. A direção dos estudos bíblicos foi confiada ao irmão J. Simsom e mais tarde ao irmão J. Stekert. Para a direção da Escola Dominical apresentaram-se voluntariamente J. Neilands, K. Matchs e Julia Balod.

O progresso da igreja era lento mas firme, sempre em frente. A vida do irmão Simson foi curta, pois neste mesmo ano de 1892 ele veio a falecer. No lugar dele foi eleito, como secretário-geral, o irmão K. Seeberg. Como tesoureiro foi eleito o M. Leepkaln e, como responsável pelo livro da tesouraria, o irmão J. Klavin.

Continuavam a chegar novos colonos seguindo os que vieram de Riga, bem como uma nova leva oriunda das colônias Letas de Nowgorod (Rússia) — onde muitos tinham se inte­ressado pela vida nas terras quentes. Os recém-chegados, tanto de Riga quanto da região de Nowgorod, eram batistas, e com isso a igreja crescia ainda mais.

O salão se tornava pequeno demais, e além disso os dentes do tempo tinham feito o seu estrago no templo improvisado. Estando situado em local alto e descampado, os fortes ventos haviam desfiado as folhas de palmeira. Por diversas vezes havia sido discutida a necessidade de se adquirir um terreno para a sede definitiva do templo da Igreja e da Escola, mas este assunto ia sendo adiado por que os pioneiros tinham tarefas inadiáveis para tratar, coisas como a construção de seu próprio abrigo, cercas e as plantações — e isso tomava todas as suas forças.

Ao mesmo tempo a igreja começou a aspirar a visita de algum líder espiritual da Letônia. Começaram as trocas de cartas. Surgiu a possibilidade da visita do notável líder e editor de literatura batista de Riga, porém a prioridade dele era visitar a “Terra onde Jesus andara” (que mais tarde descreveu em forma de livro), ficando Rio Novo para depois. Aguardou-se então Karlis Ruschevitz, mas como este foi convidado para ser pastor da igreja de Riga, essa viagem também não pode ser concretizada.

Foi então decidida a construção de uma nova casa de cultos, maior e melhor construída. O local foi escolhido a colina perto da casa dos Leepkaln, junto ao túmulo do irmão Simson, em terreno pertencente ao irmão Jahnis Klavin. Na sessão da Igreja do dia 1º de julho de 1894 foi eleito um comitê de construção composto de sete irmãos, porém na sessão seguinte dois desses irmãos solicitaram a sua retirada do comitê, por não concordarem com as responsabilidades a eles atribuídas.

Os trabalhos de construção foram dirigidos pelo construtor profissional Karlis Matchs. Todos os trabalhos foram executados por voluntários sem qualquer remuneração, e assim mesmo todos trabalhavam com muita vontade. Os trabalhadores eram muitos e o trabalho avançava com rapidez. Tanto o telhado quanto as paredes foram feitos de lâminas lascadas com plaina. [Nota de VAP: Havia uma plaina própria, acionada pela força de 3 homens, na qual eram colocados pedaços do tronco de madeira, que eram por sua vez cortados em lâminas de aproximadamente 25 x 12cm e 0,5 mm de espessura. A madeira preferida era o louro. Na Letônia esta técnica é ainda usada para restaurar edifícios antigos; veja esta página (em leto).] Este templo foi construído no mês de agosto de 1894 em quatorze dias corridos, perfazendo a soma de 437 dias-homem de trabalho.

Skaidas Basnitza - Segundo templo

O primeiro templo era chamado de Lapas Baznitza/Templo de folhas e o segundo passou a ser chamado de Skaidas Basnitza/Templo de lascas de madeira — com a firme esperança de que num futuro muito próximo pudesse ser construído um templo definitivo.

Também no novo templo ambos os coros cantavam em união durante os cultos, e os líderes tudo faziam para que o trabalho fosse executado o melhor possível. Porém, com o tempo surgiram na vida da igreja dificuldades de harmonização de opiniões e até mesmo divergências sérias.

A preocupação dos irmãos era evidente, principalmente por parte dos que conheciam pessoalmente o irmão [Janis Aleksandrs] Freijs. Estes começaram a se corresponder com ele na esperança de que com conselho ou mediação dele se pudesse conseguir um obreiro para o trabalho espiritual da igreja de Rio Novo, mesmo que fosse por um período [limitado] de tempo.

Janis Aleksandrs Freijs

Neste mesmo tempo haviam sido fundadas outras colônias letas no Brasil, como em Ijuí, no de Rio Grande do Sul e, aqui mesmo em Santa Catarina, as colônias de Mãe Luzia e Guarani — lugares cujos nomes não eram desconhecidos para o irmão Freijs, pois essas pessoas mantinham contato com sua editora de literatura cristã em Riga. Porém junto ao seu coração estavam principalmente os da igreja de Rio Novo, que tinham sido membros das igrejas de Riga e Dinaminde. Por ocasião das últimas imigrações o irmão Freijs era pastor da igreja de Dinaminde, e esses dirigiam-se a ele como se fosse ainda o seu pastor, pois ele realmente se preocupava com a situação da igreja em Rio Novo. Então, no início de 1897 Freijs informou-nos que saíra de viagem para o Brasil um colaborador da sua editora e agora zeloso evangelista, Jahnis Inkis.

A tão esperada visita chegou ao Rio Novo em plena festa de São João, isto é, no dia 24 de junho de 1897, após dois meses de viagem. Com muita sinceridade e entusiasmo a igreja o aguardava e, como antecipadamente havia sido deliberado em sessão, foi celebrada sua chegada com dois dias de festa na igreja.

No domingo seguinte, dia 27 de junho, nova da sessão da igreja, agora sob a liderança do irmão Jahnis Inkis, que propõe à igreja uma reunião de perdão e reconciliação entre os irmãos, e que no domingo seguinte se comemore o memorial da ceia do Senhor. Nova sessão da igreja no dia 4 de julho: irmãos perdoam-se entre si, alguns excluídos pedem a sua reconciliação; outros irmãos e irmãs, esquecendo o passado e perdoando uns aos outros, acertavam-se entre si.

O Irmão Fritz Karp foi eleito para continuar dirigindo as sessões da igreja, e os batismos foram marcados para o próximo domingo. Naquele dia, pregação da palavra pela manhã e em seguida uma solene caminhada até o local dos batismos, a poucos quilômetros dali, no próprio Rio Novo, entre as casas dos Irmãos Ochs e Frischembruder. Após os batismos nova caminhada, agora para a igreja, para a celebração do memorial da Ceia do Senhor.

Assim começou o trabalho do pastor evangelista Jahnis Inkis na igreja de Rio Novo. Inkis cuidava da vida da igreja tanto na parte interna quanto na externa, dando especial ênfase ao trabalho de missões, especialmente entre os vizinhos alemães e outros das colônias adjacentes.

Cada domingo repartia uma porção da Palavra de Deus, mas foram estabelecidas também outras atividades — cultos de oração, cultos de missões e reuniões de treinamento, nas quais eram lidos trabalhos diversos, proporcionando a todos a possibilidade de falar e de se apresentar em público — pois sempre, após a leitura de um trecho de alguma publicação religiosa, era dada oportunidade para que se acrescentasse um breve comentário, fazendo com que a pessoa ficasse cada vez mais segura.

Essas reuniões de treinamento, dirigidas pelo irmão Inkis, aconteciam duas vezes por semana: nas noites de terça-feira, na casa do irmão Ochs, numa das extremidades da colônia, e nas noites de quinta-feira na casa do irmão Grauze. Eram também lidos e feitos breves comentários dos livros da Bíblia (tais como os livros de Samuel e os livros de Reis), do livro de John Bunyan, “Luta Santa”, e de Adolf Sasir, “Cristo e as Sagradas Escrituras” — e nos intervalos cantava-se muito louvando a Deus e elevando-se a Deus fervorosas orações.

Os cultos missionários eram celebrados aos domingos. Os estudos bíblicos eram durante os dias da semana. O povo todo diligentemente colaborava em todos trabalhos. O pastor Inkis amava a Escola Dominical e dela participava. Organizou também o trabalho com os jovens, com a formação de uma união de moços e uma união de moças. Neste trabalho com os jovens ele se dedicou de todo o seu coração, promovendo novas atividades, inclusive culturais. Fundou um coral jovem sob a regência do irmão Gustavo Grikis, orientando na escolha das músicas e dos textos, e foi naquela época que sugiram as famosas festas da Mocidade.

conclui na terceira parte

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte

Autor: Juris Frischembruders
Prefácio: Janis Inkis Senior
Texto publicado na Revista Kristigs Draugs (O Amigo Cristão), números 09, 10 e 11, nos meses setembro, outubro e novembro de 1940
Traduzido para o português por V. A. Purim

PREFÁCIO

Li no Jornal Batista, publicação periódica da Convenção, que a Igreja Batista de Rio Novo, a mais velha das irmãs entre as Igrejas Batistas Letas do Brasil, estava se preparando para comemorar os seus 50 anos, isto é, o seu Jubileu de Ouro, e naquele momento me veio à mente que durante muitos anos tenho em mãos material referente à história desta igreja. Este material, desde há sete anos, foi coligido e cuidado com carinho pelo irmão Juris Frischenbruders.

O irmão Juris mandou-me este material esperando que eu o publicasse nas páginas da Revista “Kristiga Draugs” para que todos tivessem pleno conhecimento destes fatos. De boa vontade eu o teria feito, porém lendo este trabalho sobre o início da igreja, encontrei por diversas vezes o meu nome e elogios sobre a minha atuação e meu trabalho naqueles tempos. Decidi então, naquela época, que uma publicação dessa natureza não deveria vir à luz por minha iniciativa, pelo que este importante trabalho ficou um bom tempo engavetado.

Bem, agora que águas dos tempos já correram, que as enchentes já baixaram, que os seixos rolados da memória pelo tempo estão brancos; agora que a primeira geração de imigrantes já se foi para o descanso eterno e a terceira da geração do início da colônia e da fundação da igreja pouco sabe, sinto-me então constrangido a lidar com recordações tão personalíssimas como as do irmão Frischimbruders, que tirou a maior parte das informações de sua própria memória. Neste momento não vejo mais como alguém poderia antepor obstáculos ou levantar dúvidas sobre a nossa honesta participação nessa história. Entendo que nós dois, ele como o escritor da narrativa e eu como seu guardião, somos para a querida e inesquecível igreja de Rio Novo eternos devedores e, para tanto, neste Jubileu de Ouro, oferecemos a sua história. Esperamos que em nenhum momento isso seja entendido como algum elogio a nós próprios, mas a toda família leta no Brasil.

J. Inkis Sen, 1940

 

PREÂMBULO

Anos atrás a igreja [batista do Rio Novo] determinou ao professor Ans Elbert que escrevesse a história da vida da igreja; porém sendo a vida dele cheia de sofrimento e de dificuldades (após anos de doença ele veio a falecer), seu trabalho não teve solução de continuidade. Minha grande preocupação era que a história da igreja fosse colocada por escrito. Antes da comemoração do jubileu dos 40 anos de estabelecimento da igreja (a 28 de fevereiro de 1932), foi a mim designada esta importante responsabilidade. Para minhas debilitadas forças a tarefa pareceu realmente difícil, mas assim mesmo admitiram que eu escrevesse do melhor modo possível.

Procurei ficar bem no centro do caminho da verdade. As notícias e datas tirava do livro de atas da igreja, mas grande parte do conteúdo tirava diretamente da memória. Esforcei-me para anotar todos quantos labutaram na igreja: pastores, professores, pregadores itinerantes — até mesmo os guardas das portas (introdutores). Pensei: do mesmo modo que foi importante atribuir essas tarefas a eles, também é importante mencioná-los na minha narrativa. Cristo disse: “Aquele que oferecer um copo de água fresca não ficará sem o seu galardão”. Assim também aqueles que, mesmo numa função humilde, desempenharam com boa vontade e com coração dedicado ao bem estar dos irmãos e da igreja, certamente terão também o seu reconhecimento.

Tomei por certo que a igreja me havia autorizado escrever a história de modo geral e abrangente. Assim mesmo, em assuntos polêmicos, tomei cuidado, sendo prudente e deixando tudo nas mãos de Deus. Nestes casos, escrever só o necessário, e sempre com espírito pacificador.

Como moto para o seu trabalho o autor escolheu um verso do poeta Bilnisch:

Tu não podes parar e sonhar
Tu tens que amarrar os feixes colhidos
Ou és um navio a fazer água,
Que está prestes a afundar…
Tu tens que terminar alguns trabalhos
Mesmo com o seu coração cansado,
Mesmo que ao derredor uive o vento cortante,
E o temor da morte se faça presente.

E ainda um verso do poeta Ciruls:

Se surgisse dos nossos
Antepassados pais, o espírito
Então para o trabalho e saber
Ganhariam novo alento…

Juris Frischembruders, 1933

 

A IGREJA BATISTA DO RIO NOVO NO PERÍODO DE 40 ANOS — 1892-1932

Os colonizadores letos do Rio Novo foram sem dúvida os primeiros desta nacionalidade a imigrar para viver no Brasil. Com as providências de cultos e ilustrados conterrâneos como o Balod, o Salit e o Lübek, e sob a sua liderança, em plena primavera (deles) de 1890 saíram de Riga os primeiros colonizadores em busca da distante e desconhecida Terra das Palmeiras. Tinham escolhido para a próxima etapa da vida um local no estado de Santa Catarina em que uma companhia de colonização havia sido aberta e onde vendia, com facilidades para os imigrantes, terrenos em plena mata virgem, não longe da estação de estrada de ferro de bitola estreita de um local chamado Orleans do Sul.

Os primeiros imigrantes eram luteranos, mas entre eles havia três membros das igrejas batistas de Riga: Janis Arums, sua esposa e Katrine Bitait.

Um ano depois, em 1891, cerca de cinco famílias de batistas letos de Riga seguiram as trilhas recentemente abertas até a recém-inaugurada Colônia de Rio Novo/Jaunupe. Esse nome tinha sido dado a um pequeno rio em cujas margens, de um lado e de outro, os letos se instalavam. Entre esses estavam este que agora escreve (Juris Frischenbruder) e sua família, Janis Ochs, Aleksandis Grinfelds, Janis Baschulis e Fritz Malves com suas respectivas famílias.

Após dois longos meses de viagem, no dia 13 de julho, chegamos à estação da estrada de ferro em Orleans do Sul. A direção da Colonizadora providenciou para que as nossas coisas fossem arranjadas no lombo de mulas e levadas para a nova colônia, onde fomos alojados num alojamento comum, construído para o abrigo inicial dos imigrantes que chegassem. Nosso irmão Janis Arums e outros letos nos ajudaram a chegar a este acampamento em plena mata virgem. Esses oito quilômetros de caminhada por dentro da mata, através de trilhas escorregadias, lamacentas, subindo e descendo morros, só foram vencidos com grandes e desconhecidas dificuldades.

Quando cada um dos recém-chegados já havia recebido sua terra e se instalado nela, e dessa forma dado início à sua vida de legítimos pioneiros, a preocupação de nós, batistas, voltou-se para nos organizarmos a fim podermos realizar os cultos a Deus.

Os cultos de oração eram dirigidos alternadamente por nós e a ceia do Senhor era servida pelo irmão Janis Baschulis, enquanto o coro quem dirigia era eu, Juris Frischimbruders. Éramos muito alegres e cantávamos com tanto entusiasmo que a própria selva respondia com eco.

Neste mesmo ano de 1891, no mês de novembro, quando lá na Letônia era outono e aqui primavera, surpreendeu-nos numa manhã de domingo a chegada de mais letos que nos haviam seguido de Riga. Eram esses Jahnis Neilands e Jahnis Simsons. Foi um feliz encontro e grande a confraternização; agora o nosso pequeno coro havia sido reforçado com duas realmente potentes vozes masculinas.

Um mês depois, em dezembro, chegou uma leva realmente grande de imigrantes, cerca de 25 famílias de Riga, membros das igrejas [batistas] de Angelskalna e Dinamindes (Daugavgrivas/Foz do Daugava).

Como naquela época quem tinha dentre os colonos a maior sala em sua casa era o J. Ochs, os cultos eram realizados lá na casa dele. Os primeiros desta leva entraram na colônia durante os festejos do Natal de Cristo; participaram ativamente do nosso culto a Deus os irmãos Fritz Karps e J. Klavins, da Igreja de Dinaminde, e o irmão Bankovitz de Riga.

Demorou um bom tempo até que todos os companheiros de viagem ocupassem os seus lotes na colônia. Alguns estavam muito satisfeitos [com sua nova vida], porém outros se sentiam enganados. Com amargo ressentimento esses inquiriam em especial o autor das cartas (Arums), que teria pintado um cenário mais pitoresco e colorido do que a dura realidade da vida de pioneiros, e indicado uma visão de futuro promissor que eles não conseguiam antever.

A verdade é que os recém-chegados não tinham escolhido uma época propícia para emigrar. A melhor época teria sido quando aqui é outono, nos meses de abril e maio, pois durante o inverno poderiam ter sido derrubadas as matas e aprontadas as coivaras para as plantações da primavera, de agosto em diante. O clima do final de ano pareceu excessivamente quente aos recém-chegados. Diante das primeiras impressões, meu sogro [Juris Bankovitch] disse: “Melhor teria sido trabalhar em pedreiras, carregando pedra sobre pedra na Letônia, do que ter vindo ao Brasil”. Mais tarde, devidamente acomodado, ele mostrou-se feliz por ter optado em vir morar no Brasil.

Quando todos tinham entrado para a colônia e já estavam alojados no acampamento comum, mais gente procurava lugar nos nossos cultos. Mais tarde, quando cada um já tinha construído para si o seu teto, sua casa em sua própria terra, e já havia se restabelecido das dificuldades da mudança, ficou evidente que o local de cultos tinha ficado pequeno demais — e que era também, para alguns, longe demais do local em que moravam. Surgiu então uma idéia e sobre ela todos falavam uns com os outros: a necessidade de organizar uma igreja e construir para ela um templo.

Era uma bela tarde de domingo, 20 de março de 1892, quando se reuniram os irmãos e irmãs na casa de Jahnis Ochs para uma deliberação. O culto foi aberto pelo Irmão Fritz Karps; por unanimidade e aclamação ele mesmo foi eleito para dirigir esta e as próximas sessões, e o irmão J. Simsons apontado como secretário.

Após a inscrição, a relação de todos membros da nova igreja era a seguinte:

Jahnis Balodis
Katrina Grausis
Katrina Bitait
Gederts Feldmanis
Lavise Feldman
Made Bankovitz
Ans Grinfelds
Auguste Grinfeld
Auguste Grinfeld
Juris Frischembruder
Anna Frischembruder
Anna Feldmann
Jahnis Arums
Karlote Arums
Jahnis Ochs
Katrina Ochs
Júris Bankovitz
Sofija Vanag
Ilse Dobit
Jahnis Baschulis
Marija Baschul
Elizabete Grinfeld
Katrina Grinfeld
Katrina Grinfeld
Jahnis Neilands
Johana Neiland
J.Simsons
Martinch Leepkaln
Darta Leepkaln
Jekabs Rose
Jekabs Karklis
Lavise Karklis
Lavise Rose
Lisete Rose
Evalds Martinsons
Lihsa Balod
Krischjahnis Akmenhgrauzis
Anna Akmenhgrauzis
Karlis Match
Katrina Match
Getrude Grintal
Ieva Indrikson
Anna Engel
Fritz Karps
Fritz Malwes
Anna Malwes
Olga Malwes
Julija Balod
Auguste Balod
Jahnis Fridembergs
Ieva Fridenbergs
Amalija Fridemberg
Wilis Grintals
Gederts Netembergs
Nitenbergs
Ans Witinchs
Ilse Witinh
Matilde Witinh
Emília Witinh
Woldemars Stekerts
Hedwigs Stekert
Jahnis Stekert
Karlote Stekert
Jahnis Binemans
Dore Bineman
Lihse Bineman
Anna Bineman
Lavise Bineman
Lihsa Akmenhgrauzis
Martins Indrikson
Davids Grunskis
Jahnis Klavins

— totalizando 74 membros.

[Nota de VAP: Nesta relação existem algumas irregularidades. Nela são encontrados vários nomes e sobrenomes semelhantes sem que se mencione, por exemplo, se se tratavam de mãe ou filha, e há ainda sobrenomes sem o nome próprio, pelo que fica difícil determinar quem desta ou daquela família era realmente membro-fundador da igreja. Não sabemos se o autor da história não conseguiu ou não achou relevante preencher estas lacunas.]

continua na segunda parte

Para ler temos bastante tempo | Lilija Purens a Reynaldo Purim

Nova Odessa

Que a Paz de Deus e sua misericórdia estejam com todos os teus!

Reinhold!

Sinceros cumprimentos a você e aos teus. Agradeço a tua carta, que recebi semanas atrás, mas, querido primo, desculpe por ter demorado a responder. Agora estamos agarrados a tanto serviço que as cartas tem de ser escritas à noite.

Hoje é domingo e, como estava com um pouco de dor de cabeça pela manhã, não quis ir à igreja. Então vou aproveitar para escrever algumas linhas.

O coro da sua igreja têm muitas e boas vozes? Quem canta solo soprano? Quem canta contralto? Quem canta tenor e baixo?

Como estão os primos Olga, Luzija e Arthurs? Como vão o tio e a tia? Quais são as idades de todos? Como foi a viagem de Rio Novo de volta ao Rio? Os teus familiares estavam te esperando no Rio Novo?

Escreva e descreva tudo que for possível, pois quero saber de tudo e de todos.

Bem, por hoje chega de escrever. Você pode me escrever quantas páginas quiser, pois nós para ler temos bastante tempo, e não estamos vivendo sob pressão como você perguntou.

Sejas saudado por mim, Lilija, e lembranças da minha mamãe e do meu papai e da Alma, da Vilma, da Melania e do Teófilo, e também do meu avô.

Lilija Purens

[NOTA: Esta carta não tem data, mas estava arquivada com as de 1920. Em hipótese nenhuma a carta pode ser deste ano, pois os Purens só chegaram ao Brasil em 1922. Deverá ser transferida para 1924.]

Será porque eu também não escrevo | Artur Leimann a Reynaldo Purim

Buenos Aires
Argentina
Ecuador 952

Júlio, 24 de 1920

Querido Reini no Brasil,

Eu já faz um bom tempo que não tenho escrito nada para você. O último livro que você enviou já recebi faz bastante tempo, mas fazer o quê. Enquanto estou dependurado por uma forte gripe estou me aprontando para os exames, e atravessando este fogo de provação o tempo passou despercebido.

Teria muito o que escrever contando as novidades e os planos para o futuro, mas é uma pena que o tempo não permite. No que se refere aos exames, eu passei muito bem até agora. Agora estou aprontando material para outro.

Você está também amargando este forte e desagradável inverno? Tem dias que não tem outro jeito a não ser ficar embaixo das cobertas e enfrentar os livros.

Por exemplo, no dia 13 deste mês teve uma razoável tempestade de neve e o dia inteiro soprava um forte vento de mais de 50 klm por hora (desculpe el borrón) [havia um borrão de tinta na palavra “klm”] e com isso empurrou todas correntes do Plata para dentro do oceano. Toda a cidade ficou sem iluminação e os bondes ficaram todos parados, enfileirados e aos montes. No porto os navios ficaram no raso e tombavam e é uma pena que por causa da gripe e dos exames eu não pude ir ver. Preferi ficar com as minhas lições e meus exames do que sair e deixar o dever pela metade. Não faz mal.

Não sei o que tem acontecido no Rio Novo porque ninguém me escreve. Será porque eu também não escrevo?

Bem, no começo eu queria voltar para o Brasil mas aqui também há necessidades e muito trabalho. Acho que não vou voltar não. Aqui também há grande necessidade de obreiros.

Não me lembro o que você tinha me perguntado na sua última carta e sobre o que querias que eu escrevesse, mas espero de qualquer modo satisfazer a sua grande curiosidade com que escrevo, se realmente tens tanto interesse por nós aqui.

Receba lembranças do teu companheiro e camarada nas lutas,

Arturo Leimann

Argentina

Buenos are, tani Bohblé

Nota: Cuando escribes mi dirección, ponga simplesmente
SÑR i no Illmº. – pues todos me tomam en farra. Please?