Com exceção de Português | Reynaldo Purim a Lizete Purim

[Rascunho de carta, em bloco de papel, que parece não ter sido enviada.]

Rio, 15 setembro 1917

Querida Mamma!

Envio a você e a todos os familiares as mais sinceras lembranças. Na segunda-feira desta semana recebi a carta que a Olga escreveu no dia 13 de agosto e mais três dos Klavin; hoje recebi a carta da Olga escrita no dia 28 de agosto, na qual também vieram os 100$000 que a senhora mandou e a navalha que a senhora e Pappa me mandaram de presente. Por tudo isso agradeço de todo coração. Por essa demonstração de amor e carinho e pela grande preocupação, peço que aceitem o meu maior e mais profundo agradecimento.

Pretendo honestamente, com todas as forças, ser digno e diligente a minha vida toda, não aceitando [essas coisas] como dádivas para mim, e sim que [nelas] meus queridos pais estejam, através de mim, glorificando a Deus.

Estou passando bem e com saúde. Doente mesmo aqui nunca fiquei. Alguma vez aparece alguma tosse, mas em poucos dias desaparece. Quanto aos estudos, vou mais ou menos bem. No mês de agosto eu me saí melhor, e junto desta estou enviando o “boletim cor-de-rosa”. Nos exames me sai razoavelmente bem, com exceção do de português, no qual só tirei 78. Com as outras matérias me saí muito melhor.

Vocês já receberam aquela carta que mandei dia 20 de julho em nome dos Klavin? Naquele envelope tinha uma longa carta para a senhora, e também para os demais. Vou ficar muito aborrecido se souber que minhas cartas se extraviaram ou caíram nas mãos dos rionovenses. Eu ainda mandei registrada!

Vocês pedem que eu relate o que havia escrito naquelas cartas. Eu de bom grado o faria se lembrasse, mas devido ao muito trabalho não é possível, e cópias das mesmas não tenho. É muito difícil lembrar [de coisas assim] depois de um dia árduo de trabalho. Foi algo sobre as minhas férias, mas não havia nada de central ou importante, e sendo assim o assunto predominante não lembro.

Na sua carta você insiste que eu vá passear em casa. Bem que eu gostaria de passar as férias em casa, mas uma viagem longa sairia muito cara. O Ludis [Ludvig Rose] também me escreve convidando para passar as férias na casa dele em São Paulo. Já naquela vez em que estive lá ele insistiu para eu que eu passasse uns tempos na casa dele, e prometi passar uma semana com eles.

O que quero realmente é me exercitar na pregação do evangelho, dirigir cultos, etc. Reservar também algum tempo para estudar, porque o ano que vem promete ser bastante difícil, e assim não consigo o boletim cor-de-rosa. Quanto à minha permanência com o Ludis, vocês não precisam se preocupar com despesas etc., pois ele promete cuidar de tudo isso.

Bem, ainda não dei a palavra final, e aguardo o seu conselho. Em Orleans eu poderia ainda ter algum problema com as obrigações militares, não sei se vale a pena arriscar. Se for convocado aqui, terei que me apresentar algumas vezes por semana para alguns exercícios e aulas específicas. Além disso aqui há professores que tem muita força no Governo Federal; se necessário mudar alguma coisa, será mais fácil aqui do que lá. Outros já falaram sobre esse assunto e a conclusão é que é realmente possível. Dependeria mais do convocado do que deles. Talvez eu nem seja convocado, quem sabe.

Como vocês estão passando? Muitas lembranças para o Pappa e para você do seu querido

Reynhold

Principalmente as moças | Reynaldo Purim a Olga Purim

[Rascunho de carta, em bloco de papel, que parece não ter sido enviada.]

Rio, 15 de setembro [de 1917]

Querida Olga,

As tuas cartas de 19 e de 28 de agosto recebi esta semana. Obrigado. Ambas chegaram quase juntas. Alegro-me em saber que vocês todos estão passando bem.

Eu também, graças a Deus, estou passando bem. Aprontei-me muito para os exames e acho que me saí muito bem. Na prova de Língua Portuguesa foi que tive alguma dificuldade. Nas outras matérias cheguei perto do 100. Em Aritmética [Arithmetica] tive a maior nota da classe: 98. Na nossa classe uns dez levaram pau e não conseguiram passar. Se continuar assim esses não vão passar para o 2º ano e vão ter de estudar tudo novamente. Em Inglês só um além de mim tirou 99. Em Geografia só um tirou 99, e nessa prova escrevemos 1 ½ hora sem parar. O professor deu quatro questões tão amplas que teria o que escrever o dia inteiro. Os alunos não ficam com a cópia da prova, que são entregues para o arquivo do Watson, como histórico escolar do aluno.

Há pouco tempo a Igreja Batista de São Christovão comemorou o seu aniversário. O coro do nosso seminário cantou um hino com a música do número 123 do Hinário Skanhas Ruota, e foi o próprio dirigente que escreveu a letra em português. Os baixos eram três: eu, o (b) e o (rv). O hino nós aprendemos de cor de acordo com os costumes dos corais brasileiros.

Aqui nas festas não é hábito dos homens e mulheres se apresentarem com números especiais como no Rio Novo. A maior parte do tempo entre a abertura e o orador oficial é preenchida com hinos e breves saudações de outras igrejas e outras associações.

Agora recentemente teve uma grande reunião no Salão Nobre e sobre isto já deves ter lido no Jornal; essa foi maravilhosa e muito bem organizada. Aqui o público da cidade é gente fina. Você deve estar pensando que as pessoas são muito bonitas. Mas [mesmo com] essa elegância toda, não acho nada bonito e beleza mesmo não há nenhuma. Principalmente as moças, não parecem
pessoas normais ou naturais: as roupas parecem esticadas no corpo e justas como o sapato no pé; outras usam penteados de mil coques, etc. Aqui na cidade consigo encontrar pessoas vestidas exatamente como naquelas “Folhas da Moda”. Todos inventam modas mil.

Perguntei na carta ao Ludi [Ludvig] se ele recebeu a carta que você mandou para ele. Ele respondeu que tinha recebido e disse mais: “Sim, agora que você sabe que ele recebeu pode ter a certeza que ele vai escrever respondendo”.

Eu por aqui não sei mais o que escrever. O tempo está quente. Ainda sobre o tempo na Rússia…

Meu alvo era ajudar as pessoas | Carlos Leiman a Reynaldo Purim

Cachoeiro do Itapemirim, 12-9-17

Querido Reinhold!

Saudações! Recebi tua enorme carta. Obrigado. Não sei o que devo lhe escrever, pois de grandioso nada há por aqui, e porque sobre o meu trabalho já sabes tudo.

A escola começa as 7 da manhã e vai até as 9 da noite, com todas aquelas matérias. Também na área de evangelismo toda responsabilidade recai sobre os meus ombros. Os recursos financeiros são muito escassos e o trabalho muito extenso. Com este ritmo tenho sentido estar perdendo a qualidade da saúde, e nessas condições não é nada alegre escrever sobre isso.

O Onofre me escreve perguntando se eu estou pronto para voltar a trabalhar em Laguna. Respondi que sim, mas no momento voltar atrás não seria possível, porque estou comprometido com o trabalho aqui. A escola cresce cada vez mais e tenho que lutar muito mesmo aqui.

Quanto ao trabalho aqui na igreja, não tem se desenvolvido muito. Surgiu aqui um “Stekert” [Nota de V. A. Purim: Nunca soube de alguém da família Stekert que tivesse ido para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Mais parece um exemplo de voluntários que, por falta de persistência ou determinação, terminam não conseguindo atingir os seu objetivos.] que queria fazer qualquer coisa, mas caiu através do fundo e ficou como nada tivesse sido feito. Nas igrejas ao redor, aí sim, o trabalho é feito, com novas conversões — e ali está a minha maior alegria, mas a dificuldade é estar com eles, por falta de tempo e também de dinheiro.

São muitas as dificuldades, e quando a pessoa para de lutar e começa a enumerar todas essas tristezas e se envolve nelas, aí chegam a falta de entusiasmo, a preguiça e a indiferença. E quem é o culpado por tudo isso? Eu mesmo. Mesmo nesta escola não vejo grandes esperanças, se quando eu sair não vierem outras pessoas com o mesmo propósito e a mesma determinação. Por isso quanto maiores forem as lutas e as dificuldades, no seu tempo virão as vitórias equivalentes.

Esta falta de energia, esse comportamento morno, é facilmente explicável. Quando estava ainda lá em casa no interior eu achava que tudo seria mais fácil. Meu alvo era ajudar as pessoas, e que lugar seria melhor do que uma escola, para se ajudar mais pessoas ao mesmo tempo?

Mas não importam as dificuldades; a seu tempo, aqui na escola tem gente com muito mais capacidades do que eu, e isso digo com toda convicção. Em certas áreas sou um mero aprendiz, e nestes campos onde estou carente eu me apego com todo ardor.

Sempre comparo as minhas dificuldades com o trabalho de um ferreiro, pois quando quer um aço mais duro e tenaz ele aquece a peça que elaborou até o rubro e em seguida mergulha rapidamente na água fria; quanto mais fria a água, mais duro e tenaz será este aço. [Nota de VAP: Como já trabalhei nessa profissão, não concordo inteiramente com o seu processo de têmpera, mas como comparação o exemplo continua válido.]

Aprender é umas das necessidades inatas do ser humano, tanto que poderíamos chamar de necessidades sagradas. É como a necessidade de comer. [Nota de VAP: Esse anseio por estudos e conhecimentos marcou profundamente também toda a minha juventude e se mantém até hoje, talvez devido ao longo período em que ficamos distantes das facilidades das fontes de informações. Opinião pessoal nossa.] Mas comer e não mastigar é morte na certa. Por isso, para fugir destes obstáculos, é preciso procurar algo para fazer — então vais sarar, então vais queimar/encontrar o equilíbrio. Essa falta de objetividade e de determinação tenho encontrado em muitas pessoas, mas quanto a mim acho que sou tão ativo que chego a incomodar os outros. O caminho do centro será um caminho muito abençoado.

Neste momento devo terminar solicitando uma longa carta sua. Que o nosso Deus, o Pai, te abençoe e te auxilie.

Seu
Carlos Leiman

Um tiro no próprio pé | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 29-07-17

Querido amigo Reinhold,

A tua longa carta recebi e por ela agradeço, foi muito interessante. Desta vez demorei a responder, devido a diversos obstáculos.

Estive trabalhando na construção do engenho, e no momento estamos construindo a roda d’água. O açude está pronto faz tempo, e se você quiser dar umas braçadas e nadar um pouco pode vir para cá. A primeira idéia era fazer com que a água passasse por baixo da roda, mas depois de uma série de avaliações chegamos à conclusão que um rendimento muito maior seria obtido fazendo com que a água passasse por cima da roda. Para isso tivermos fazer uma valeta profunda costeando o barranco do rio (mais funda que altura de um homem) e colocar uma calha passando por cima da estrada da entrada e da construção da fábrica. Se não houver nenhum atraso dentro de um mês deverá estar pronta.

Sobre a Igreja de Rio Novo sei muito pouco. Dizem que o Frischembruders está demandando com o Slegman devido ao uso de um caminho. O Bankovitch não está morando com o Slengmann; está morando com Juris e este último está pedindo meia colônia pra ele também. A senhora Stekert reclama que o marido não está dando de comer, que ela está passando necessidades e ele ignora que ela existe.

Tem rionovenses reclamando que a escola está sendo dirigida por um professor ateu [Nota: Provavelmente o famoso João/Janis de Riga], e que nas noites de apresentações já estão sendo apresentadas participações com conotação inteiramente pagã. Dizem que o Professor é um grande Homem e é “intocável”; que a tradicional caixinha de perguntas sumiu de todo; que o Jenzis Frischenbruder e o Augustin Felberg estão indo a Orleans para aprender a tocar instrumentos de sopro com o pessoal da banda e que por enquanto estão tocando hinos, mas a qualquer momento poderão estar tocando marchas, polcas, etc.

Contam ainda que o Artur Paegle deu um tiro no pé com uma pistola Browning, e ainda bem que não aconteceu um desastre maior. O acidente foi assim: um freguês da serra trouxe a pistola para fazer uma revisão; [o Artur] tirou o pente de balas e, esquecendo que poderia haver uma bala na agulha (havia), fez o primeiro teste direto no pé.

[Aqui uma parte ilegível que trata de dificuldades de locação de casas em Orleans e algo sobre a demanda entre o Slegman e o Match sobre uma indenização de um trecho de estrada em algum lugar]

Agora que já conheces bem a tua cidade e também a tua nova igreja, gostaria que contasse com detalhes a tua nova vida, e quais são as atividades nesta Igreja.

Concluindo, desejo que te vá bem e que Deus te ajude. Receba muitas lembranças de meus familiares e finalmente as minhas.

Roberts [Klavin]

Um mar de fogo | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 26 de julho de 1917

Querido Reini,

A tua carta escrita em 10 de julho recebi ontem a noite, quando fomos ao culto lá na casa dos Leimann, e foi o Jurka quem me entregou. Muito obrigado. Você escreve que aguarda resposta de duas cartas. Há duas semanas mandei um rolo com as cartas e na semana passada, mandei escrevi outra aproveitando os dias livres, e como podes ver as cartas vão e vem muito devagar.

Nós estamos passando bem, estamos todos com saúde. O tempo está bom e quente e parece um ar de primavera. Ontem e hoje está soprando um vente quente, do lado da serra parece que está se aprontando para chuva: estão aparecendo nuvenzinhas planas e está ficando tudo enfumaçado, por que na serra a queima dos campos está medonha. Ontem a noite quando voltávamos dos Leimann [trajeto Rodeio do Assucar – Rio Carlota – Rio Novo] podíamos ver no alto da Serra um mar de fogo. Até o Limors quis ver como é linda uma queimada e pôs fogo na samambaia seca no lado de baixo da estrada; esta queimou com tanta violência que o assustou. Ele teve que gritar chamando os vizinhos para ajudar a apagar, pois estava queimando demais.

Se o verão for tão seco como agora vai queimar demais, pois a vegetação está toda morta por causa das geadas. Hoje começamos a cortar a cana de açúcar. As canas novas cresceram pouco e
têm poucas folhas novas; as canas velhas estão bem ressequidas e por isso não vão dar grande coisa. A arroba do açúcar está valendo 10$000 mil réis.

Sobre [a igreja d]o Rio Novo vai diferente e nem por isso muito bem. A mocidade tem uma apresentação mensal de temas livres, onde todos participam, e que é feita numa das noites. Fazem também uma caixinha de perguntas, mas dizem que são tantas as asneiras perguntadas que se se fizesse uma revisão pouca coisa restaria. Dizem que os grandes desta área são o Emils e o Blukis.

Até o Arnolds Klavin tem para lá corrido, para ouvir desta sabedoria. Pode ser que ele te escreva mais do que eu saiba.

Do Oscar nada foi anunciado do púlpito, porque ainda não foi tão longe. A senhora Frischembruder, depois de muita luta, conseguiu levar o Osvaldo, até a declaração oficial e pública. Por isso o Oscar foi para o Rio. A mãe dele queria afastá-lo da Lida; a intenção do coração dele não era esta, mas o menino não é tão bobo que possa esquecer tão rápido.

O Oscar conta que no Rio não tem nada de bom e que quando você não tem dinheiro ninguém te liga. Em relação aos estudos, não poderia ir em frente, pois todos os exames são comprados a dinheiro e se não o tiver você não passa; os professores não gostam de pobres e os bons lugares são só reservados para os ricos.Todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever. Que o dinheiro domina o mundo. Diz ele que se dará por feliz quando conseguiu sair fora deste pesadelo.

O Ludi [Ludvig] te escreve? Temos escrito várias cartas mas não obtemos dele nenhuma resposta. Nesta última mandei a fotografia do Fater e, como não tenho resposta, não sei se recebeu ou não. Pode ser que ele tenha escrito e a resposta tenha caído na mão dalguns rionovenses que você sabe…

Bem por hoje chega. Muitas lembranças de todos, todos aguardam tuas cartas, mas nem todos têm facilidade para escrever.

Viva com saúde.

Olga [Purens]

[Nas laterais da carta] Nesta carta coloquei um papelzinho verde. Fio de lã preta não temos mais, quanto nós tínhamos você levou; será que lá não tem para comprar? E os buracos maiores podes remendar com tecido.