DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS – POR JOÃO REINALDO PURIN – FINAL

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN – 6ª PARTE
FINAL

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin

6ª Parte – Final
Morando no Seminário do Sul
Já nos últimos anos, quando o irmão Arthur Lakschevitz não tinha mais condições de tê-lo onde há muitos anos esteve, o Seminário arranjou um apartamento para ele no prédio 18. Lembro-me dele andando à noitinha pela pracinha do Seminário. Logo alunos se acercavam dele com perguntas as mais variadas. Uma vez foi impressionante. À noite estava assentado no degrau redondo do centro da praça onde está o mastro. Os alunos ao redor num silêncio impressionante. Uns pediam para os outros: “fiquem quietos, o homem está falando… queremos ouvi-lo”.Ele falava baixinho. No dia seguinte ele me procurou dizendo que isto “foi chato…” Ao que reverti esta falsa impressão dele. Falei que era um quadro lindo.
Ele era um verdadeiro sábio. Conhecia a Bíblia como poucos. Para todas as passagens e circunstâncias bíblicas tinha a interpretação completa e verdadeira, pois conhecia muito bem o hebraico, o grego e as circunstâncias em que o texto ou o caso aconteceu. Ia para o hebraico e o grego, fazia sua exegese e aplicava as regras de hermenêutica. Seu método principal era o de analisar uma doutrina bíblica em seu desenvolvimento. Por exemplo: como os discípulos chegaram à conclusão de que Jesus não era apenas um homem importante, um profeta, mas realmente, o Filho do Deus vivo, conforme a experiência em Cesaréia de Filipe. Assim, também as doutrinas da Igreja de Jesus Cristo, do Espírito Santo e as demais. Daí, então, os escritos e doutrinas esposadas por ele são de uma perfeição incontestável.
Dominava o Inglês, Português, Francês, Leto, Latim, um razoável conhecimento do Alemão. Além das línguas bíblicas, como o Grego e o Hebraico que foi professor no Seminário.
Deixou marcas profundas em centenas de alunos dos quais muitos já também terminaram sua carreira, outros ainda estão cumprindo sua missão como pastores e mestres em muitas instituições de formação teológica.
Muito poderia também falar de sua atuação no Seminário Betel nos tempos de seu início com o Pastor José de Miranda Pinto. Lá ele também exerceu forte influência sobre muito aspirantes ao ministério que ainda hoje atuam na obra do Senhor. Sobre este período, entretanto, como não foi do meu tempo, apenas menciono o fato.
O ético.
Era impressionante como ele era respeitador. Jamais se intrometia em áreas que não lhe competiam. Nunca procurou interferir na administração do Seminário, por exemplo. Tinha a chave. Entrava para o seu gabinete. Se a porta estivesse sem chave, assim ficava. Caso contrário, ele passava a chave.
Como não gostaria que alguém se intrometesse na função dele, tinha também por norma não fazer isso com os outros. Exemplo disso também repercutiu na realização de casamentos, com efeito, civil. Dizia que, como não gostaria que um juiz viesse realizar o casamento religioso, assim também não iria fazer a vez de um juiz. Essa era a lógica dele. Assim era o seu raciocínio.
O construtor
A Igreja Batista em Bangu funcionava em uma casa adaptada em terreno amplo. O plano de construir um grande templo esteve sempre em seus ideais. Assim é que vivia observando modelos e confeccionava plantas para o futuro templo. Queria um templo que chegasse à perfeição, ou próximo dela. Teve inúmeros contactos com o engenheiro acústico Dr. Del Nero, em São Paulo. Pretendia um santuário que não precisasse o sistema de som. Tudo isto foi feito, entretanto, talvez pelo tamanho, mesmo assim, foi preciso colocar som.
Lembro-me de que no começo da obra, numa segunda-feira, em seu gabinete no Seminário ele me mostrou, com muita alegria, um pacote de cédulas que iria levar para depositar na Junta Patrimonial Batista. Dizia, “não sei como aqueles pobres irmãos conseguem tanto dinheiro…?” Pensei comigo, isto não será nada…
Marcou o dia do lançamento da pedra fundamental. Dia 1º de maio de 1962.
Como naquele tempo já estava começando a Cidade Batista – Lar da Criança em Campo Grande, organização da para as crianças órfãs e abandonadas, consegui uma carona na Capela ambulante da Convenção Batista da Guanabara que ia para lá. O motorista/responsável era o seminarista Pedro Litwinchuk, conhecido como Pedro Capela. Depois de muitas voltas, pois pouco conhecia do Rio, chegou à Rua Francisco Real esquina com a Silva Cardoso. Disse: segue à frente que é logo ali. Realmente já havia muita gente reunida para o evento. O terreno estava limpo. A cerimônia foi à tarde. A mensagem foi entregue pelo Pr. Dr. José Lins de Albuquerque. Lembro-me de que após a mensagem, tomou as suas anotações e colocou-as dentro da “caixa/pedra” de que também constavam: uma Bíblia, Jornal Batista, Jornais do Dia. Com esse conteúdo, foi lacrada e enterrada.
A história da construção do templo foi também uma epopéia de fé e sacrifício. Lembro-me de tê-lo visto levando massa em carrinho de mão pelos andaimes até a galeria em construção.
Fui informado, também, de que em várias ocasiões em que a construção exigia grandes esforços financeiros, ele pedia ao tesoureiro que usasse os seus honorários na obra.
Passados alguns anos chegou o dia da inauguração. Lembro-me dele no púlpito, ao lado do pregador, chorando, não contendo as lágrimas de alegria e emoção.
Para quem não conhece, o templo é realmente muito grande. Embaixo há muitas salas e também um amplo salão que comporta bem umas 400 pessoas. Em cima o santuário para mais de 1.500 lugares. Tem muitas salas, gabinete pastoral e tudo que se espera para uma grande igreja.
Homem temente a Deus
Foi dito logo no começo, que ele era lógico e que usava muito o raciocínio em sua vida, entretanto, creio que a tônica maior foi o seu temor a Deus.
Lembro, quando eu ainda era pequeno, de minha avó e sua mãe Lisete me contar que adolescente, na roça, ele parava, por alguns instantes o seu trabalho, encostava a enxada, tirava o chapéu e passava uns bons momentos em oração a Deus.
Lembro-me também de que todas as noites, em meus contatos com ele, depois de ler algum livro, como vinha sempre fazendo, antes de se deitar, tomava a Bíblia e lia um texto e fazia sua oração de forma audível em sua língua materna. O leto eu podia acompanhar por também ter sido a minha língua da infância. Na noite em que estávamos em Belo Horizonte, véspera de irmos ao médico oftalmologista, pude ouvi-lo clamando a Deus que restabelecesse as suas vistas, “manas acis” (pronúncia atzis) = “minhas vistas”.
Tudo para ele era equilibrado. Bíblia e oração e vice-versa. Para ele a vida cristã tinha que ser mesclada, a espiritualidade com a doutrina bíblica.
Seus últimos anos
Certo dia, o vice-moderador da igreja em Bangu, irmão José Maximino me telefonou dizendo: “o seu titio não está bem de saúde. Ele não consegue mais ler. Eu é que tenho que ler para ele…”
Devido à falta de alguém que o vigiasse, especialmente quanto à saúde, alimentação etc., chegou o tempo em que a diabetes atingiu graus muito altos, degenerando os nervos óticos. Como ele e ninguém imaginava que isto poderia estar acontecendo, a igreja logo procurou tratamento com o melhor oftalmologista da época. Mais que depressa, o irmão Joel Cabral se dispôs a nos levar a Belo Horizonte, para uma consulta com o famoso Dr. Hilton Rocha que tinha na época tratado o jogador de futebol Tostão. Depois de consultado, o oftalmologista o encaminhou para um colega em Copacabana. E nada de melhoras. O estado geral cada vez pior a ponto de tê-lo que internar no Hospital Evangélico do Rio de Janeiro. Lá ficou em estado de coma. Foi constatado que a taxa de glicemia estava em 570. Pensou-se que dessa, ele não iria escapar. Os irmãos de Bangu já estavam dizendo que o corpo iria para o templo de Bangu…
Entretanto, passados alguns dias, o hospital informou que fizeram o mal principal baixar e que nada mais tinham a fazer com ele. A sua mente estava, também, totalmente confusa. Não aceitava injeções. Certo momento pisou um comprimido que deveria tomar. Fazer o que com ele assim? Deixá-lo na Igreja em Bangu, não tinha como. Então, com muito custo foi colocado no meu velho fusca e levado para o aeroporto de pijama e tudo e assim o levei para a casa de meus pais em Curitiba. No aeroporto, lá estavam meu pai e o meu irmão Carlos Ademar já nos aguardando. Um detalhe interessante: lá também estava o Pr. Herculano Ribeiro que o conhecia e foi logo dizendo, sou o pai do Pr. Ageo. E o Tio logo reclamou: “fala com ele que estou esperando o livro que emprestei para ele…”
Chegando em casa de meus pais, queria ir logo para o Seminário dar suas aulas. Eu disse que estávamos em Curitiba, muito distante geograficamente. Ele brigou comigo, dizendo que eu nada conhecia de geografia. Queria quebrar o portão e sair a pé para o Seminário. Foi uma luta.
Minha mãe tratou de colocar o homem nos eixos quanto à alimentação. Assim, passadas algumas semanas, fui informado por telefone que o titio estava melhorando. Semanas depois quando fui passar as férias em Curitiba, conversei bastante com ele. Foi a hora em que ele começou a se recompor mentalmente. Reconheceu: “Você é o João Reinaldo, foi meu aluno no Seminário” e tantas coisas mais.
Tive, então, um momento muito impactante. Passados alguns meses, veio passar uns dias em nossa casa no Rio, levei-o novamente à sua igreja em Bangu. Como aqueles irmãos e irmãs se alegraram com a presença daquele que deu 43 anos, o melhor de sua vida, por aqueles amados irmãos!
Biblioteca e mudança
Pensava-se que ele iria deixar os seus livros para a Biblioteca do Seminário no Rio, mas qual nada. Arranjamos inúmeros sacos e assim foram colocados todos nos mesmos e tudo foi transportado para Curitiba.
Depois disso ainda viveu vários anos junto dos familiares. Como não podia mais ler, sempre pedia para que alguém fosse ler algum livro para ele. Tive que fazê-lo por várias vezes, bem como meus irmãos. O Pastor Mauro Serafim leu a sua tese de doutorado, em inglês e tantos outros. Desta forma, a sua sede pelo saber era amenizada.
Assim passou seus últimos anos com seus irmãos, meu pai e com a irmã, a tia Lúcia.
Partiu para receber o seu galardão no dia 26 de dezembro de 1986 alguns dias antes de completar seus 90 anos. Em 9 de janeiro completaria essa idade.
Seus funerais aconteceram na Igreja Batista em Cajuru. Foi sepultado no Cemitério Iguaçu em Curitiba.
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Dou muitas graças ao meu Deus pelos contatos que tive com ele. Muito “bebi” daquela fonte inesgotável de sabedoria.
Sempre reconhecia que eu era diferente dele em tudo. Nunca procurei imitá-lo, uma vez que cada um é cada um.
Também creio que Deus me colocou no Seminário e também como pastor da Igreja Batista em Senador Camará, a mais próxima estação de Bangu, para ser alguém da família para essas horas difíceis por que ele passou.
Deus foi maravilhoso a ponto de ele poder passar seus últimos anos com a família. Prova de que Deus não desampara aqueles que O servem com fidelidade, até o último instante de suas vidas.
A Deus toda a glória e louvor!

DR. REYNALDO PURIM – DADOS BIOGRÁFICOS | POR JOÃO REINALDO PURIN -3ª PARTE

Dr. Reynaldo Purim
Dados Biográficos
3ª Parte

REYNALDO PURIM
Memórias de seu sobrinho João Reinaldo Purin
3ª Parte
As minhas primeiras lembranças do Tio Reynaldo em casa são de quando ainda era muito pequeno. Talvez uns três ou quatro anos.
A biblioteca dele era bem grande e constituída das maiores e melhores obras em teologia, filosofia, comentários e dicionários bíblicos. Grande quantidade delas foi trazida dos Estados Unidos. Mesmo assim não se cansava em comprar livros e estar em dia com o mais atualizado do pensamento humano.
Gostava de freqüentar as feiras de livros na Praça Sans Peña e na Cinelândia. Sempre me convidava para irmos juntos. Orientava-me que ao comprar um livro devia olhar logo quem era o autor, o que fazia e o que faz na área.
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Era extremamente responsável em seus compromissos. Tudo era anotado em sua agenda. Não faltava às suas aulas. Podia cair a maior chuva, às 7 horas da manhã, lá vinha ele subindo a ladeira do Seminário, debaixo do seu guarda-chuva, pois não queria que alunos ficassem esperando pelo professor.
Tinha também os seus conceitos irremovíveis. Por exemplo: aposentado é só para quando ficar inválido. Assim foi muito difícil ele ser demovido do seu trabalho no Colégio Batista Brasileiro, quando já tinha tempo suficiente para se aposentar. Considerava-se em condições de trabalhar dando aulas de inglês a alunas da 1ª e 2ª séries do então ginásio, podendo estar fazendo outra coisa. – Na igreja foi também assim. Só saiu depois que as diabetes atingiram seu nervo ótico a ponto de não poder ler a Bíblia direito. Mesmo assim, já nos últimos meses de seu pastorado em Bangu pedia ao vice-presidente, que a lesse para ele. Conta esse irmão que numa tarde o encontrou de pé, à luz da janela, tentando ler sua correspondência.
Ele nunca foi de pedir ou exigir coisa alguma de ninguém e especialmente da igreja. Contou-me outro irmão que nos primeiros anos de seu pastorado, por exemplo, aos sábados, quando tinha alguma programação especial, ele não ia de volta para onde morava, bem distante, no sul da cidade. No dia seguinte, domingo pela manhã, lá estava ele já bem arrumado esperando o povo chegar. Então resolveram observar o que ele estaria fazendo. Viram, pela fresta da janela, que ele se deitava no tapete do púlpito e assim passava a noite. Foi, quando os líderes da igreja tomaram providências e colocaram um sofá-cama no escritório para o pastor.

Recordações de suas férias em nossa casa – Rio Novo
Todos os anos, especialmente no começo de janeiro, era o tempo da espera da chegada do “Unkuls” que em leto, nós crianças o chamávamos, que significa Tio. Ele não era de avisar. Assim, todos em casa ficávamos na expectativa. Geralmente achávamos que na primeira sexta-feira de janeiro, à noitinha, ele iria chegar. Naquele tempo os aviões da TABA já desciam na lagoa em frente do mercado de Laguna [eram anfíbios] ou no Aeroporto de Tubarão [sul de Sta. Catarina]. De lá viria de trem até Orleans depois a pé até nossa casa que ficava em Rio Novo, a uns 12 quilômetros de caminhada pela estrada cheia de curvas e sobe e desce. Morávamos na subida conhecida como o “morro dos Purins”, bem nas nascentes do Rio Novo. De lá, nós crianças, ficávamos com os olhos fixos na distante estrada, bem lá em baixo onde havia uma reta além da propriedade da Igreja Batista de Rio Novo, em que, no final, poderia surgir um homem alto que seria o Tio. A decepção, infelizmente, acontecia. Na semana seguinte quando meu pai ia para a cidade, no correio encontrava o telegrama comunicando que este ano não viria. Decepção geral.
Já era alta noite. Lá na roça tudo era sem chaves. As porteiras e portas, naquele tempo, só eram fechadas com tramelas que qualquer um podia abrir a qualquer hora do dia ou da noite. Assim é que lá pelas tantas, quando ninguém imaginava, eis que se ouviu a expressão em leto: “Esmu máias”, por várias vezes. Estava dizendo: “estou em casa”.Todos acordaram e foi aquele rebuliço. A vovó Lisete e o vovô Jahnis (João) também apareceram. As alegrias começaram. Lembro-me que nos dias seguintes ele me chamou de “Poadjis” cuja tradução talvez seja “Pirralho” ou coisa semelhante. Ele muito nos queria bem, tanto é que gostava de nos aconchegar, fazendo-nos “cavalinho, cavalinho” em seus joelhos.
Desta feita, o Tio Reynaldo já estava há alguns anos morando e trabalhando no Rio de Janeiro como pastor em Bangu e professor em várias instituições de ensino, inclusive no Seminário. Pelo que parece, era a primeira vez que ele estava a passar as férias em casa, depois que tinha voltado dos Estados Unidos. Lembro-me de que ele apanhou um Atlas Geográfico antigo para mostrar para a vovó Lisete onde se situava Bangu e como ele tinha que tomar o trem da Central do Brasil para lá chegar, uma vez que morava em Ipanema, zona sul daquela cidade. Eu só ficava observando tudo, sem nada entender.

Continua…</strong