Neve! | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 28 de agosto de 1917

Querido Reini,

A tua carta escrita no dia 7 de agosto recebi dia 22. Muito obrigada. A anterior não demorou tanto; eu em resposta escrevi uma longa carta e fiquei esperando uma boa alma que passasse e levasse a mesma ao correio. Então, de passagem, chegou o Arnolds Klavin trazendo a tua última. Então, como já tinha escrito tudo sobre aqui, hoje vou escrever menos, pois as notícias aqui estão devagar.

Aqui vamos todos bem, com saúde. Agora estamos trabalhando nas roças. Aquele capoeirão perto da ponte que vai para o “Kazbuck” terminamos de derrubar [Nota: Para nós o Kazbuck era a parte mais alta do morro do nosso terreno em relação ao oeste, onde sempre plantávamos as bananeiras e onde dificilmente a geada alcançava. A Bukovina eram os terrenos do lado do Rio Laranjeiras para a face poente. Kasbuck ou Kazbeck é uma corruptela de Karlsberg, uma cidade e também um pico da cadeia de montanhas chamadas Karpatos. Este lugar ficava na Bukuvina, que até o final da Primeira Guerra Mundial era uma província do Império Austro-Húngaro. A parte sul da Bukuvina foi incorporada ao norte da Romênia e a parte norte foi juntada ao Sul da Ucrânia. Era povoada por alemães, que até hoje são chamados de bukuvinos. A Bukovina tanto lá, como aqui, ficava atrás do Kazbuk], e também junto a divisa com o “Auggi” [Nota: Augusto Felberg, vizinho que morava para trás da nossa casa (norte) noutro lado do morro, próximo a um grande banhado] derrubamos até o caminho. Só não derrubamos mais porque lá é muito difícil de controlar o fogo e também ervas daninhas lá não vão faltar. Para fazer a plantação de mandioca roçamos a parte abaixo de onde tínhamos a mandioca no ano passado.

Hoje papai, Doca e o puise [Nota: Puise quer dizer rapaz e se refere ao Artur Purim – meu pai; Otto Roberto Purim] estão terminando a derrubada da coivara e eu e a Lúcia estamos capinando na beira da estrada. Hoje está um sol muito quente e um ar muito abafado e extremamente enfumaçado.

Agora vou contar como foi o tempo na semana passada. Na segunda-feira teve uma geada não muito forte, mas perto do meio dia começou a esquentar e ao anoitecer começou a ficar nublado. Na terça-feira amanheceu nublado, roncando forte trovoada e parecia que ia dar muita chuva. Mas a chuva foi muito pouca; mal chegou a molhar a terra e a tarde limpou outra vez e manteve-se até bastante quente.

Mas na quarta-feira amanheceu soprando um vento muito frio e do lado da serra vinham grandes nuvens negras. Lá pelas 7 da manhã começou a cair alguma coisa estranha! Neve! No começo devagar e cada vez mais Tudo ficou branco, inclusive os telhados. Às 09h30 parou e começou a limpar de novo, com sol e tudo. Na serra deu uma nevasca imensa — disseram que os serranos nos mandaram uma amostra da neve como lembrança. Esta maravilha foi primeira vez que eu vi de perto. Continuou ventando o dia inteiro, só parando ao anoitecer. Na manhã de quinta-feira deu uma geada tão grande que não tinha dado igual este ano, e na sexta-feira deu uma ainda maior. O frio matou tudo, nossas bananeiras e a cana-de-açúcar. Aqui em casa as laranjeiras e os pessegueiros se salvaram, mas lá nos Karklin foi tudo: as folhas e flores, tudo chão, os galhos inteiramente nus. Os pastos estão com a grama totalmente morta pela geada; o capim está inteiramente seco e o gado não tem nada para comer. Para qualquer parte que a gente olhe está tudo cinza e seco. Foi realmente um grande frio. Já no sábado, domingo e segunda o tempo tem estado quente e sopra um vento seco.

Como você pode ver, tivemos numa semana todos os tipos de clima e de temperatura… Agora está seco e quente, como se fosse verão, e [as coivaras] estão queimando muito bem. Se não for feito um bom aceiro, ninguém sabe onde este fogo vai parar. Muitos aqui na colônia tem sido prejudicados com grandes queimadas [fora de controle].

Agora não vou mais escrever mais nada. Do Rio Novo não sei nada. Estão dizendo que os jovens vão ser convocados para o exército. Você sabe algo sobre este assunto? Dizem que em Orleans foi instituído um Tiro de Guerra. Hoje mesmo a noite o Roberto, o Arnoldo e o Arthur foram para o Rio Novo, pois o Butler teria uma relação dos convocados e seria apresentada na Igreja. Vamos ver o que acontece.

Conta-me onde vais passar os feriados (dias livres). Ou virás para casa?

Chega. Envio sinceras lembranças de todos nós. Tudo de bom para você e fico aguardando uma longa carta sua.

Olga [Purim]

(Nas laterais)~Junto desta carta mando 100$000 e noutra vou mandar mais. Neste envelope segue um papelzinho verde. Semana que vem pode ser que eu mande um pacotinho — saiba esperar…

[Notas de V. A. Purim]

SOBRE A VIDA NO BRASIL E SEUS RESULTADOS | Parte 1/2

por Alexandre Klavin, primeiro pastor a chegar da Letônia para pastorear a Igreja Batista do Rio Novo

 

Informo apenas que estou aqui em Rio Novo [NOTA: Rio Novo, a colônia, encontra-se a 12 km da estação ferroviária de Orleans do Sul. A jusante do rio Tubarão, até o porto de Laguna, percorre uma ferrovia]. Na colônia, pela observação, vejo que aqui as coisas andam e andarão…

Minha viagem durou quase dois meses. Ao chegar [a Orleans] fui recebido por amigos, irmãos e irmãs da colônia leta de Rio Novo. Cavaleiros e carros de boi vieram me receber na colônia Rio Novo. Fomos honrados com diversos portais elaborados com palmeiras e guirlandas de flores, bem como um jantar preparado com muito amor.

Então, no primeiro domingo, assumi como pastor da igreja. Surgiram dificuldades: onde arranjarei terra? Nas proximidades não há. Soubemos que um colono próximo da igreja quer desfazer-se das suas duas propriedades e mudar-se para outro lugar. Na terceira derrubada a terra já está exaurida e nada mais se desenvolve.Então teremos que negociar, mas negociar com a seguinte condição: terei que comprar as duas casas com todos os pertences.

O assunto foi devidamente avaliado: o lugar está à mão, bonito e agradável, com pastagem formada e diversas fruteiras, reconheci que não poderia demorar e comecei a negociar. No inventário havia sete animais grandes e alguns pertences. Somando tudo, no contrato paguei 600 mil réis (mais ou menos 200 rublos, mas a terra terei que pagar em separado). pelo conjunto das duas colônias, perfazendo 150 “purvietas”.

[NOTA: Cada “purvieta” (medida de área usada na Letônia) mede 0,4 hectares. 150 purvietas, ou seja, 60 hectares, custaram 600 mil réis; então cada hectare custou 10 mil réis, e o comprador ainda continuou pagando à Empresa Colonizadora o saldo devedor.]

Assim de imediato tornei-me proprietário com sete animais grandes. Fui presenteado com mais ou menos 70 galinhas, porcos, gansos, perus, cabras e ovelhas, somando umas 100 cabeças…

Agora, com a chegada do líder espiritual dos letos, a igreja achou por bem doar 100 diárias em regime de mutirão. Imediatamente encaramos o trabalho, para que até o Natal a casa esteja pronta.

Embora estejamos vivendo na mata virgem, quando o problema é construção há grande dor de cabeça, porque madeira apropriada para construção não há muita e temos que transportá-la por duas ou três [purvietas] de distancia, e é bastante difícil.

Porém quando há boa vontade e um pouco de dinheiro é possível construir uma boa residência, e pelo visto terei a melhor e mais bonita casa em Rio Novo. Ela está sendo construída com diversas madeiras fortes e valiosas. Aqui as casas são construídas com esteios, e entre os esteios são colocados pranchões. A minha casa é construída com as seguintes madeiras: os esteios são de “louro” e “canela”, os barrotes e linhas são de “peroba” e “pinheiro”, e as paredes de “cedro” e forro de “baguaçu”. De madeiras duras e valiosas há acima de dez variedades, que devemos conhecer bem antes de construir.

[NOTA: Nos esteios era feitos sulcos onde eram encaixadas as pranchas para as paredes.]

Ao adquirir a propriedade, havia uma considerável derrubada, onde plantei mais ou menos uma “puspura” de milho [maiz (espanhol) ou grão-turco (italiano)], e pelo que vejo, creio colher em torno de 30-40 “puru” pelas contas habituais.

[NOTA: “Puspura” quer dizer “metade de um purs”. “Purs” é uma unidade antiga de capacidade usada na Letônia; equivalia a algo entre 70 a 100 litros e era usada para centeio, cevada, ervilha, etc. Por exeplo: “Neste saco cabem dois purs de batatas.” Talvez haja alguma semelhança com o nosso alqueire, mas o nosso tinha somente 36.7 litros.]

Plantei também algumas raízes para os animais e para os humanos. As raízes são mandioca, aipim, cará, batata doce, batata baroa ou salsa e batata inglesa. No período do inverno podemos plantar todas as raízes e sementes cultivadas na Europa. Parreiras são cultivadas em todas as propriedades e há boa produção.

Quero contar como aqui se cultiva a terra. O colono, ao entrar pela primeira vez na mata virgem com a serra, o machado e a foice, utiliza primeiro a foice. Ela é uma ferramenta como um machado curvo, na ponta de um longo cabo. Com esta ferramenta, ou “faca de mato”, cortam-se os cipós e a vegetação baixa antes de aproximar-se das grandes árvores.

As derrubadas de agosto podem ser queimadas em outubro e em seguida planta-se milho, arroz, feijão preto, outras culturas e raízes. A plantação é feita com auxilio da enxada. Uma bolsa com sementes é pendurada ao pescoço e a cada quatro pés cava-se o chão, colocando-se no burcao de cinco a seis sementes de milho.

Assim, com aproximadamente uma “pura” [0,4 alqueire, medida de capacidade] pode-se com uma garnicu plantar, quando se tem, quatro “purvietas” [1,6 alqueires, medidade de área] de derrubada; já é suficiente.

Uma derrubada como essa é melhor quando da primeira queimada: no primeiro ano quase não há necessidade de limpeza. Numa derrubada como esta pode-se plantar durante dois anos seguidos, depois [deve ser] deixado para recuperar. Após dois anos já cresceu um mato alto com muita folhagem.

Na outra roça — derrubada a foice a capoeira de 2-3 anos de idade e após um mês de secagem, — pode-se queimar e plantar o que desejar. Essa roça é às vezes melhor do que a primeira, porque a terra é fofa, as raízes e tocos das grandes árvores terão apodrecido em sua maioria.

Numa terra como essa todas as raízes da Europa podem ser semeadas: elas crescem aos pulos. Porém há um problema: enquanto as plantas de desenvolvem tenho que com frequência usar a enxada para eliminar as plantas invasoras, que crescem com grande velocidade.

Uma roça como essa é chamada de “roça de capoeira”, e nela podemos plantar por três anos seguidos, mas todos os anos após a colheita devem ser queimadas as ervas daninhas.

Depois de três anos de uso da terra deixamos para que cresça nova capoeira, que aniquila as plantas daninhas. Após 3-4 anos de recuperação uma “nova mata” terá crescido, e será beneficiada como da primeira vez.

Na terceira derrubada a terra já está exaurida e nada mais se desenvolve. Ainda assim, com a enxada se capina a camada superior: a vegetação rasteira é queimada e se planta mandioca ou aipim. Essas raízes se desenvolvem em terras desgastadas. Quando a cana de açúcar é cortada, aí planta-se mandioca ou aipim.

continua

 

Alexandre Klavin, 1900
Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) número 12, de 21 de março de 1901
Traduzido Por Valfredo Eduardo Purim
Notas por V.A.Purim

1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia | Parte 3/3

As primeiras famílias de letos deixaram a Letônia para o Brasil em abril de 1890; nos anos seguintes foram seguidas por muitas outras. Jahnis Inkis (leia sobre ele aqui) foi o primeiro pastor enviado da Letônia para conhecer a colônia do Rio Novo, em 1898. Apresentamos, em três partes das quais esta é a terceira, as porções do seu relatório de visita pertinentes à história dos letos de Rio Novo.

 

As moradias, maiores ou menores, todas de madeira. Cada colono se esforçou em construir maior número de quartos. Dois compartimentos, no mínimo devem existir, onde se alimentar e onde repousar. Com este principio até os antigos citadinos aderiram. A cozinha, conforme costumes dos brasileiros, é separada dos outros compartimentos; a vantagem é que a fumaça não penetra.

Com o aquecimento ninguém está se importando, também não há chaminés em nenhuma das moradias. Durante as geadas todos tremem, principalmente durante o anoitecer e pela manhã. É só cobrir-se com lenços, mas logo após o sol raiar o frio desaparece e o sol aquece tanto quanto no verão na Europa; então os trabalhadores tiram as roupas pesadas.

Os compartimentos das moradias são bastante simples. Uma mesa e bancos sem pintura para sentar. Cadeiras com encosto são coisas raras. Não houve tempo para cuidar do conforto e da ornamentação. E assim mesmo há grande diferença nas moradias entre os colonos de outras origens. Aqui há assoalho e forro, nas outras sentam no chão e observam coberta de palha. No barraco dos brasileiros, em poucas palavras, não há nada. Comem, dormem e sentam no chão.

[…] Ao par de uma bacia com uma galinha frita com mistura de raízes cozidas, que chamam de batata-doce e aipim. Ao provar, preferimos as batatas, de sabor adocicado e farinhentas. Após saborear as raízes e os tubérculos, também experimentamos pão feito com farinha de milho,e a dona da casa nos oferece uma torta de bananas.

O arroz os colonos produzem em suas plantações. O beneficiamento é feito no pilão e com os grãos e o leite é feita uma deliciosa sopa. Plantam-se nabos, repolhos, beterrabas…

Ao prudente colono também não falta carne. No cercado vibra uma meia centena de galinhas, gansos e perus.

Enquanto observamos, o colono aparece com um machado nas mãos, vai ao mato para a derrubada. Nós, certamente iremos juntos. Pela porteira, pelo caminho, pela pastagem, vamos em direção a mata.

A pastagem por onde estamos passando foi implantada com grande sacrifício. Anos antes aqui havia mata. A mata foi derrubada e queimada. Após a queimada foi plantado milho e depois grama. O quê, a grama foi plantada manualmente? Sim, com as mãos. Na mata não havia grama, o capim que cresce espontaneamente nas plantações não serve para pastagem. A grama é uma pastagem própria.

As árvores derrubadas que ainda não apodreceram são utilizadas em parte para lenha e o restante permanece na pastagem. Em alguns lugares as palmeiras levantam sua majestosa copa para o alto. O colono derruba todas as árvores, mas as palmeiras, quando há, são poupadas pela sua beleza. Além disso, a palmeira não produz sombra, inconveniente, para as outras plantas. Com exceção da árvore ganoba, que os letos comparam à liepa, todas as demais são pesadas como chumbo — ao derrubar as árvores, o colono deve estar atento.

A mata virgem possui muitos cipós e arrastam junto outras árvores. A área de mata a ser derrubada é primeiramente roçada; eliminam-se em seguida as árvores menores e os cipós com uma foice, para depois as árvores maiores serem derrubadas com auxílio do machado e do serrote (topiador). A mata, depois de derrubada, permanece secando de agosto a novembro. Em outubro o sol escaldante da primavera e os ventos secos secam totalmente a mata derrubada.

As folhas e os galhos menores estão totalmente secos. Então, num dia de muito calor, um grande rolo de fumaça branca sobe da derrubada. À fumaça seguem chamas ardentes: o colono faz sua queimada.

Alguns dias depois, com uma enxada e sementes, ele começa o plantio. O trabalho da derrubada e sua plantação é a mais difícil das atividades do colono. Especialmente durante o plantio, o sol é escaldante…

No centro da colônia, numa elevação, levantaram uma casa de oração, onde cada domingos todos religiosamente comparecem. Os moradores, com mínima exceção, são todos batistas: a Igreja foi fundada e durante seis anos permaneceu sem pastor. Os membros contam mais ou menos com 200 pessoas.

Com a dispersão dos mais crescidos, à igreja comparecem crianças para o seu culto. São aproximadamente 30 crianças. Sem escolas, os rionovenses carecem também de um médico.

No que se refere ao governo e a justiça, os rionovenses não tem nada melhor a desejar. Todas as divergências são discutidas na chamada assembleia dos colonos. A presidência da assembléia é função de delegado da justiça. Além das assembleias dos colonos também há em sua sede as chamadas assembleias administrativas, onde todos podem participar e são discutidos assuntos pertinentes a administração.

Por Janis Inkis

Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) 1898, números 46-48 (inicio do registro no n° 45). Traduzido por V. A. Purim. Cortesia de Brigita Tamuza.