Vamos fazer bastante sopa azeda …. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar

24 de outubro de 1923

Querido Reini! Saudações!
O que outra coisa sei fazer vou ter que escrever também alguma coisa. Se bem nada, sabemos sobre você e outras pessoas e como elas estão passando. Agora podemos esperar meses para receber alguma carta quando antes recebíamos todas semanas alguma carta. A tua última se não me engano foi no começo de junho e depois disso nada tem chegado nem mesmo jornais. Em resposta àquela tua carta eu e a Lucija escrevemos longas cartas e mandamos dentro de um pacote junto com 6 pares de meias, porquê estava chegando o tempo frio. Não sabemos, se já recebeste ou não. Sempre estamos esperando alguma notícia, mas nada. Então a Luzija escreveu e mandou outra carta, acho que foi no mês de agosto. Agora aqui está uma estranha situação porque conseguir receber uma carta. O que no passado era tão fácil recebíamos as cartas todas as semanas normalmente, agora está complicado. Tudo por culpa daquele agente dos Correios, porquê ele é um bandido, sem compaixão. Ele não tem vergonha de destratar e xingar, pois porque nós estamos indo, procurar correspondência, se nada mandamos nada. Como não podemos confiar nele nós nos dias que tem o trem do meio dia nós descemos até a Estação Ferroviária e entregamos diretamente ao Agente do Correio do Trem e se nós entregássemos para aquele safado, na Agencia, temos certeza, que ela iria para o lixo. Quando mandares alguma carta, por favor, mande registrada. Fico imaginando algum meio de você mandar e elas chegarem nas nossas mãos sem passar por ele.
Da senhora Leiman chegaram duas cartas. Dos parentes de São Paulo, quase nada sabemos. Há mais de um mês a Luzija recebeu uma carta da Lilija. Ela recebeu as nossas cartas. A Lilija viajou para “Odessa” sozinha e escreveu de lá. Pois os outros continuam internados nos acampamentos lá no “deserto” e é bem provável que eles também tenham escrito, mas aqui nada chegou. Lá no acampamento tudo é difícil e nada de bom não pode ser encontrado por lá, só fome e desavenças sem fim e muitos já estão fora e tudo que era em comum foi à falência. Em Odessa agora está cheia de pessoas que abandonaram aquela vida e vieram procurar trabalho, um lugar para morar e simplesmente ter o, que comer. Agora a pouco este passeando por aqui o Arvido Karp e sua prima e esta também esteve naqueles acampamentos, mas agora mora em Nova Odessa com a família deste primo. A mãe dela logo que chegou veio a falecer e os demais continuam nos acampamentos.
O andamento da escrita desta carta que comecei há bastante tempo está indo lindamente. Aquela noite não consegui terminar. Queria mandar junto com a do Arthurs. Mas ele foi ao Rio Novo e eu fiquei aqui e lá a Lucija escreveu uma outra carta e mandaram juntas. Então a minha carta ficou em casa e inacabada. Então agora eu tenho que ir adiante. Nenhuma carta sua chegou até agora. Chegou mais uma da senhora Leimann e do tio Jekab. Ele já escreveu de Nova Odessa para onde ele viajou. Os demais ainda ficaram lá no acampamento porque não tinha dinheiro suficiente para todos. Daquele trabalho da derrubada de matas ele não conseguiu receber tudo. E quem sabe, não tenha ficado com a administração do acampamento. Ele está aprontando uma vivenda para eles perto do Alkschbirse onde todos possam morar. Dizem que Nova Odessa é realmente outro mundo. As pessoas vivem satisfeitas, cada uma na sua própria casa cada um com seus pomares próprios com “frutas deliciosas” e tudo tão maravilhoso e esperam trabalhar para ganhar o seu sustento. Bem lá no acampamento era o único Brasil que eles conheceram e agora encontraram um lugar melhor e acham que não há lugar melhor que aquele por eles encontrado. Realmente como os colonos vivem lá para eles era coisa desconhecida. Não sei quanto eles conseguirão ganhar trabalhando, pois nesta cidade acho que não há trabalho para tanta gente, mas ainda assim mesmo que será melhor que no acampamento.
Nós agora estamos plantando mandioca, o tempo estava bom e a terra bem enxuta, mas agora começou a chover outra vez. Mas teremos que parar por falta de mudas, nos recolhemos, cobrimos, [Com a aproximação das geadas as ramas de mandioca eram cortadas e amontoadas em lugares abrigados como debaixo de arvores ou em ranchos e ainda cobertas de vegetação como hastes de arroz (palha de arroz], mas se o frio fosse demais terminaria afetando assim medem o frio foi tanto que matou muitas mudas, principalmente de aipim. Quando você vier para casa poderá trazer mudas de lá de onde não dá geadas, então lá deve ter bastante. Por falar em trazer você deverá trazer uma porção de coisas, mas ainda não tive tempo para elaborar a lista. O Karlis Leiman também escreveu para que você venha nas férias para casa para descansar. Ele deverá vir para Laguna ou Tubarão, então será fácil para vocês encontrarem-se e acertarem os seus papos. Este ano nós temos muito mel, então você poderá comer bastante e recuperar o tempo perdido. Vamos fazer bastante sopa azeda [Skabu putru é feita de leite azedo + canjica ou quirera, etc] [Mais informações com Lili Purim Nieuhes]Geadas, Sopa,
porquê leite nós temos bastante. Tenho que ordenhar quatro vacas. Galinhas, patos e perus, tanta coisa gostosa. Só não vou repetir o que você ofereceu quando convidou para a sua festa: somente feijão, arroz.
Hoje não vou escrever mais nada. Nem tenho certeza que chegue ao seu destino. Gostaria muito de saber como estás passando e o que estás fazendo. Nós graças a Deus estamos passando bem. – Hoje queimamos uma coivara. Todos hoje resolveram aproveitar para queimar as coivaras e depois do meio dia começou uma chuva forte. Fazia tempo que não chovia e o tempo passou um tempo bom como antigamente. Agora estarei aguardando uma longa carta tua. Lembranças de todos. Olga.
Escrito na lateral
Na semana passada no dia 16 de outubro foi festejada a Festa da Mocidade, transcorreu bastante bem. Gente tinha bastante. Quem dirigiu foi o Roberto Klavim. No dia 30 de setembro a noite foi à festa de despedida do Emils Andermann, agora ele foi para Mãe Luzia, mas depois ele irá embarcar para América. O tio dele mandou a passagem e dinheiro para a viagem, então agora ele vai passar 10 anos sentado nos bancos da escola…….

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…acho que para o Rio Novo ainda não nasceu um Pastor… | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar 12 de Setembro de 1923

Querido Reinhold

Saudações!

Estou vagando pelo vales do município de Orleans.

Exatamente como “hóspede e desconhecido”. Entre os crentes existe paz.  Ou aparência de paz. Tudo corre na mesma rotina de sempre. Sábios, orgulhosos e convencidos – duros fariseus.

Ontem eu dirigi um estudo sobre Evangelismo.  Mencionei o Seminário, o velho Karklim levantou e fez um longo enunciado contra o Seminário e os Seminaristas fechando a sua fala dizendo que o Seminário erra ensinando demais os seus alunos e nenhum deles aceita trabalhar no interior e todos ficam nas grandes cidades. Que a Igreja de Rio Novo está cansada de sustentar o Seminário e os seminaristas por 32 anos e não recebeu do Seminário um pregador para a Igreja de Rio Novo. – Eu respondi que a Igreja devia escrever para o Seminário reclamando. – Depois pensei para cá comigo mesmo; acho que para o Rio Novo ainda não nasceu um pastor para esta Igreja.

A mocidade está trabalhando diligentemente – Penso que até Novembro já possa ter mudado para Laguna.

Você não virá nas férias descansar em casa?

Daqui eu irei para Mãe Luzia e daí para Rio Branco, Porto União e então para casa.

O teu pessoal está se queixando que você não tem respondido as cartas no mesmo ritmo que eles escrevem.

O agente dos Correios é o Alfredo Balod, considerado por todos como ladrão que todas cartas escritas em leto ele abra para ler.

Com sinceras saudações

Teu

Carlos Leiman

[Escrito na lateral]

Laguna  – 18/8/23 [está errada a data] Não foi possível deixar no correio em Orleans porquê lá o agente é o Alfreds Balod filho do Germano que segundo as informações ele abre todas cartas escritas em leto  e rouba os selos das cartas, por isso trouxe a esta carta até aqui. Em Rio Novo tudo bem. Espero em Novembro mudar para cá. Todos querem inclusive eu. – Carlos – Escreva-me a Paranaguá.

 

[Nota do Tradutor: Estas acusações precisavam ser comprovadas, para não incorrer que a acusação toda seja intriga da oposição.]

 

 

Viva saudável e alegre | De Olga Purim para Reynaldo Purim 1921

Rio Novo 10 de fevereiro de 1921

Querido Reinold!

Primeiramente, te envio muitas lembranças, nossas. Recebi as tuas cartas na quinta feira passada. Você está admirado que a minha carta demorou 36 dias para chegar lá. Agora calcule o tempo que demorou a tua que foi escrita no dia 1 de janeiro e chegou aqui no dia 4 de fevereiro. Quase empatam as duas andaram preguiçosamente. A outra escrita no dia 21/1/21, chegou junto com àquela devagar. Junto também veio um pacote de jornais, prospectos que ainda não tive tempo de ler, pois aqui tudo está indo bem devagar. –

Nas tuas cartas não encontrei nenhuma pergunta que eu tivesse que responder. Comecei a pensar que talvez não tenha mais nenhum interesse das coisas daqui ou que as nossas cartas talvez estejam tomando muito, do seu precioso tempo para ler e depois ter que responder atrapalhando assim o bom andamento dos estudos e trabalho e daqui somente problemas e preocupações, que possivelmente não tenha mais muito interesse de saber. Por coincidência, aqui, quase, nada ou muito pouco tenho para contar. É bem possível que esta carta seja bem curtinha.

Nós, graças a Deus estamos passando bem. O trabalho de limpeza das roças, também já terminou. A última roça terminamos de capinar no dia 30 de janeiro. O tempo estava muito seco e as ervas daninhas secavam imediatamente. Este ano foi diferente dos anos anteriores que você capinava pela manhã e a tarde chovia voltando a crescer novamente. Agora faz duas semanas que está chovendo, todo dia com aquelas chuvas típicas de verão. Domingo passado deu um temporal que fez que o pequeno e ressequido Rio Novo, depois de tanto tempo, voltasse a correr. Agora nós estamos plantando feijão entre o milho (consorciado) e está indo até que bem rápido, pois em duas semanas em 3 pessoas plantamos uma quarta. (?) Grandes temporais com ventanias este ano não aconteceram. Já temos parte do milho “virado”[ NT – Era uma prática utilizada com tripla finalidade 1) Forçar o amadurecimento mais rápido. 2) Permitir mais luz para o feijão que plantado intercalado.3)Atrapalhar as aves como papagaios e outros tivessem acesso fácil as espigas. Quando o milho mostrava sinais de amadurecimento, a haste era dobrada logo abaixo das espigas] e as espigas são bastante grandes apesar do tempo bastante seco este ano. Os papagaios faz tempo que chegaram e estão por aí. O Arthur todo dia sai para atirar e caçar.

Na Igreja e comunidade do Rio Novo tudo vai como de velho. Não é como lá que é festa atrás de festa. Logo o Victor, a Nanija e Silvija dos Karklin vão viajar para São Paulo. A Milda Match foi trabalhar em Laguna. O Augusto Klavim viajou apara São Paulo e logo que foi, chegou a informação que ele deve servir o Exercito.

Vamos ver se vai mesmo. No ano passado o Jurka foi sorteado, mas, quando no exame médico foi considerado doente com “mal da terra” [Ancilostomiase ] e foi dispensado por não prestar para nada.

Bem acho que chega, o sono está chegando e então preciso ir dormir. Logo vamos mandar algumas coisas para você. Tenho meias compradas, faz já bastante tempo, estava esperando para ver se não aparecia alguém indo para lá, pois assim poderia mandar. Mas acho que você não poderá esperar tanto tempo assim. Os outros “escrevedores” aqui de casa estão prometendo que na semana que vem vão também começar a escrever cartas. – Esperamos que se cumpram as promessas e só aí você terá muito o que ler…

Ainda lembranças de todos. Estarei esperando longa carta sua com muitas novidades de lá. Na semana passada eu te mandei um cartão postal. Viva saudável e alegre. Olga.

Está um luar maravilhoso…. | De Olga Purim para Reynaldo Purim

25 de novembro de 1920
Querido Reini! Saudações!
Eu não pensei que tão rápido teria que te escrever, porquê cada ano que ia e ano que vinha, as tuas férias, nunca sabia onde ias passar e como não podia ser diferente este ano também você nada escreveu onde estás e para onde irias. Recebemos no Domingo passado os papéis azuis com os jornais, mas lá também não veio nada escrito. Já estava conformando-me em ficar aguardando o seu endereço temporário, não sei quando. Mas ontem a noite recebi a carta escrita no dia 11-11-20, a qual chegou muito rápido. Por tudo muito obrigado. E hoje a noite já estou escrevendo a resposta, pois é provável que alguém de nós vai para a cidade e logo esta chegará ao seu destino. Também não te admires se não tenho novidades, pois não faz muito tempo uma dia 4 de novembro acompanhada de uma fotografia e a outra dia 9 de novembro. As tuas cartas foram todas recebidas e extravios não houveram nenhum. – Dos nossos parentes da Rússia você mandou alguma carta para nós?
Tempos atrás pensávamos que você viria para casa, mas há pouco tempo atrás, recebemos “O Baptista”, onde está escrito que estão te convidando para trabalhar no Paraná. Então deduzi que se fostes convidado então irás para lá, mas veja infelizmente não deu.
Se tivesses vindo para casa poderias ainda chupar muitas laranjas e também os pêssegos estão muito bonitos. O Rubis (Roberto Klavin) como grande cientista previu que este ano será um ano bom, também para as uvas e tudo vai se desenvolver-se muito bem. E ainda tem o mel, enfrentar as abelhas para colher o mel, você não vai mais precisar, porque a colheita já terminou e todo o mel já foi tirado. O que você poderia fazer era negociar, comprando barato e vendendo com lucro em outros lugares. Nós das 55 colméias antigas tiramos 17 latas. Todos produtores de mel fizeram boa colheita. O tempo hoje à noite está muito bom, está um luar maravilhoso, tão claro que é possível ler um livro ao luar e também a temperatura está amena e nada quente. Nós agora estamos capinando a mandioca e o milho e ainda tem tantos outros serviços. Na semana passada choveu e tudo esta crescendo bonito inclusive o mato. A coivara da Bukuvina, nós queimamos no dia 9 de novembro. Foi uma queimada formidável. Naquele dia o vento também estava forte e fez uma fumaceira sem fim. O fogo pulou o aceiro para dentro das samambaias em diversos lugares, mas foram imediatamente controlados (apagados) e a grande vantagem é que os troncos e outros tocos de árvores, não estavam muito secos. O Enoz como vizinho veio ajudar e foi muito bom queimar naquele dia porquê não estava tão seca ainda e se tivesse esperado ai o perigo seria muito maior. Por mais de uma semana depois da nossa grande queimada o povo por todos os lados continuou fazendo as grandes fumaceiras. A roça da Bukuvina nós plantamos em 3 dias 4 ½ quartas de semente de milho. No total nós já plantamos mais de 10 quartas.(Quartas de alqueire – Um alqueire tem 4 quartas)
Bem por hoje chega. Nada de novo tem ocorrido e tudo continua velho. Pode ser que receba alguma carta, então ai eu escrevo de novo. Ai também é possível que você tenha também mais tempo, porque já estará de férias. Lembranças de todos. Viva com saúde. Olga.

NT A espressão ” recebemos os papéis azuis ….” deve ser papel carbono usado para copiar modelos de vestuário de Revistas e Jornais