Se gostar da carta eu respondo | Artur Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 29 de abril de 1920

Querido irmãozinho,

Esta noite vou escrever uma para você. Estou passando bem e com saúde.

Hoje está chovendo, mas não muito forte. O tempo esteve mais para seco do que para chuvoso. Hoje transplantamos as primeiras mudas de repolho e agora a chuva está regando.

Eu estou na escola. Tenho que estudar Gramática, Geografia, tenho que ler e traduzir a “Nossa Pátria” [Livro de História do Brasil de Rocha Pombo], e Aritmética daquele velho livro que era seu. Aquela parte dos cálculos decimais eu já terminei.

Na escola somos vinte e três alunos. Agora as carteiras estão no templo, porque naquelas salas não cabe mais. Toda manhã é cantado o Hino à Bandeira e no final das aulas o Hino Nacional. Agora a D. Marta está ensinando o Hino do Estado, e quem não canta ela passa uma reprimenda.

Os Grikis são uns sem-vergonhas; eles dizem que o Butlers olha para eles como se eles fossem lobos.

Breve a escola passará a ser do governo, e aí só se falará em brasileiro.

Os cantores [hinários] que chegaram logo os terei vendido todos: restam só três. O Natalis e o Kondes [Conrado Auras] cada um comprou um, e o outro o Augusto Klavim pois o que ele tinha usado também já tinha vendido. Você poderia mandar uma dúzia de uma vez. O meu preço é 2$200, pois neste acabamento o Augusto também vendia [por este preço]. Aquele outro com acabamento superior de 2$700 ele nunca teve, nem tinha um preço fixo para este tipo.

Você não teria um bom cachorro para mandar-me? Não temos mais nenhum. O Latzis [“Urso”] ficou doente e morreu, e aqui filhotes são muito difíceis de conseguir.

Bem, agora chega. Vou aguardar agora uma longa carta sua, e se gostar da carta eu respondo. Logo o Butlers vai ensinar a escrever cartas.

Com muito amáveis lembranças do

Arthur

A cama do capitão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15 de abril de 1920

Querido Reinold!

Primeiramente envio muitas amáveis lembranças e um grande obrigado pelas cartas que chegaram esta semana. Uma escrita em 19-3-20 recebemos na segunda-feira dia 12 de abril, e a outra escrita na Grande Sexta-feira [Sexta-feira Santa] recebemos ontem à noite, pois o Edis [Eduardo] Karp as trouxe de Orleans. Aquela primeira demorou bastante para chegar e é provável que tenha ficado muito tempo em Orleans, pois fazia bastante tempo que ninguém ia para a cidade e a Aninha é muito caprichosa: não entrega a correspondência para qualquer um. A outra já veio bem depressa.

Cartas até agora não faltaram nenhuma, mas os cantores [hinários] ainda não chegaram, pode ser que logo venham. Os livros e a carta do Butler já chegaram e ele vai escrever uma carta para você esta semana. A carta do Rubim [Robert Klavin] também já chegou. O Wileans conta que conhece a sua letra pelo subscrito mas não vai abrir porque o Roberto não voltou de Mãe Luzia. Das nossas, falta a resposta de uma que mandei no dia 26 de março e no envelope da qual também coloquei uma carta que veio do Artur Leimann onde ele autoriza S.S.S. a fazer o que desejar e quer que mande um cantor [hinário] que é muito bom, pois parece que ele quer cantar em brasileiro. Se precisar do S.S.S. você pode mandar; se não, ninguém vai conseguir pegar.

Você sempre pede que escreva bastante e desta vez tentarei escrever mais e pode ser que vai dar.

Então a tua viagem de volta [do Rio Novo para o Rio de Janeiro] foi maravilhosa. Bem, se tu soubesses que “maravilhas” aquela “dama” tem escrito para o pessoal daqui! [NOTA: Trata-se de Selma Klavin, que estava fazendo sua primeira viagem ao Rio de Janeiro] Todo o pessoal do Rio Novo está zombando dela, e o Blukis e o Emils se alegrando.

Nós tínhamos recebido o cartão postal teu de Itajay; na quarta-feira à noite, em cima da mesa de correspondências [na igreja], estava o cartão da Selma para o Paulinho, mandado de Florianópolis. Conta ela que fez boa viagem e também que visitou em Florianópolis os parentes do Diretor [Staviarski]. Conta que vocês passaram a noite também lá em Florianópolis e que, estando o navio super lotado, ela iria dormir na cabine do comandante.

Nessa quarta-feira o Paulinho não tinha ido à igreja, então esse cartão passou nas mãos do Emils e do Peter, e de mais pessoas que iam procurar correspondências. O Peters contou que tinha lido cartas para a Inze, em que a ousada e maluca da Selma teria escrito que, devido ao navio estar lotado, o comandante teria cedido o camarote dele por falta de espaço, e que ela iria dormir na cama do capitão. Ela ainda se gabava que depois o Victor [Staviarski?] iria, veja, levá-la para passear. Seria bom que ela deixasse todo esse papo no navio! A Inze ainda contou que ela não ficou enjoada e que foi pelo capitão autorizada a ficar no deck superior; que quando foi visitar vocês, vocês nem das cabines não tinham saído de tão enjoados que estavam. Conta que ela vai muito bem nos estudos e que já está no sexto ano e tem aulas com duas professoras!

Agora a Inze e o Blukis estão brigando na justiça, e tem gente que conta que eles não podem vender o gado e outras coisas porque parece que estão empenhados; como vai terminar eu não sei.

Sobre a festa da Páscoa, nada importante tenho que escrever. Antes da Páscoa passaram-se duas semanas de tempo bom e seco. Na Grande Sexta-feira [Sexta-feria Santa] estava quente demais, com um sol abrasador, mas na manhã do Domingo de Páscoa começou a chover — assim toda a festa foi molhada e lamacenta. O Butler e a Marta, mais o Gustavo Grikis e outros foram passar as festas em Mãe Luzia.

No dia 6 de abril o Paps [papai] foi fazer o caixão da senhora Wilmanis que tinha morrido naquela manhã. Ela há muito tempo estava bem doente e ficou de cama mais de 4 meses; nas últimas 3 semanas dormia como que estivesse morta e era um sacrifício fazê-la tomar uma colherada d’água. No dia seguinte foi o enterro.

Na escola não é maior número de alunos. Depois da conferência que você fez, quando disse que quem não conseguir instrução suficiente terá que usar de outras pessoas como bengalas e seria facilmente passado para trás em cálculos e negócios, então todo mundo está arranjando uma bengala. Inclusive o Seeberg estava incomodado, porque achava que ninguém poderia proibi-lo de fazer o que quisesse com o dinheiro dele, e que ninguém tinha nada com isso; inclusive se ele quisesse vender o seu Jankus [Jahnis] por 50$000, sua mercadoria seria barata como foi a L…[ Laura], que ele negociou e ainda agregou mais dinheiro. Assim sai o pessoal da escola e o Butler alerta que nada pode fazer pois os alunos tem que passar.

Na última sessão de negócios da igreja o Seeberg e seus aliados excluíram o Grünfeldt e assim mesmo ele tentou mostrar a sua justiça, mas foi inútil. Agora ele vai se queixar ao Deter da administração do [pastor] Butler. Por que o Deter pagou a tua escola? Se alguém aqui soubesse desta intenção dele, teria tentado inventar alguma coisa contra você.

Mês que vem haverá aqui a Convenção, e aí deverão vir para cá muitas personalidades importantes. Agora o Butler está ensinando cantar em brasileiro toda quarta-feira à noite.

Bem desta vez chega. Breve deverão chegar mais cartas suas, então escrevo outra vez. Aqui em casa esses estudantes são preguiçosos demais para escrever cartas. O Puisse [Otto/Artur Purim] irá amanhã para a tafona e a Lusija até a cidade, então temos que ir dormir porque temos que levantar cedo. Então, pelos manuscritos deles desta vez não espere.

Tudo está como de velho, esta semana estamos cortando e batendo arroz. Se não tivesse havido algumas semanas de seca o arroz estaria mais bem granado. Tempestades não mais houve, mas o milho da coivara nova está muito derrubado. Na coivara junto da mata não houve muito prejuízo, também porque é uma parte em que plantamos mais raízes [mandioca, batata-doce, etc]. Na Bukovina não houve vento nenhum.

Lembranças de todos de casa. Fico aguardando longa carta sua.

Olga

[Escrito nas laterais a lápis:]
Os cantores [hinários] chegaram hoje e em ordem.

Nada do que acontece no mundo | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de março de 1920

Querido Reinold!

A sua primeira carta do Rio recebemos no dia 18 de março, e o Cartão Postal de Laguna recebemos duas semanas depois de sua partida. Quem sabe demorou por causa da grande distância de Laguna até aqui. O Cartão Postal de Itajay demorou só uma semana, e até agora todas as cartas e cartões foram recebidos; esperamos que continue assim e será muito bom. Eu mandei uma carta escrita no dia 7 de março e espero que já a tenha recebido e lido.

Ficamos felizes que a sua viagem foi rápida e você chegou logo lá no Rio. Nós graças a Deus estamos passando bem e todos com saúde. Aqui nada de importante aconteceu.

O tempo está relativamente bom, já não chove tanto e alguns dias está parecendo realmente que o outono chegou. Mesmo os passarinhos não estão cantando mais como nas manhãs da primavera.

Você pergunta o que os rionovenses estão fazendo e qual é o assunto predominante em suas conversas. Como podem conversar alguma coisa com alguma classe, se a grande maioria não sabe nada do que acontece no mundo?

Toda a comunidade trabalhou cinco dias para a manutenção do templo: refizeram os muros dos alicerces do templo, consertaram as cercas, caiaram a parte externa e a interna e agora está com um aspecto bem mais agradável.

No dia 20 de março houve a Festa de Aniversário da Igreja. Na semana que precedeu a festa fez tempo bom até a noite que antecedeu: aí começou a chover forte. O outro dia amanheceu encharcado e lamacento, por isso não teve tanta gente como se esperava. Se o tempo tivesse estado bom teria aparecido muito mais gente.

De Mãe Luzia vieram algumas pessoas, mas o Roberto [Klavin] não veio porque não queria atrasar o serviço — e quando é para ganhar dinheiro ele deixa as festas onde elas estão, que ele não está nem aí. Ele até agora não voltou para casa.

Sobre a festa não houve nada que realmente tenha se sobressaído, que merecesse ser escrito. O Arnolds Klavim mandou uma carta de felicitações de Nova Odessa, SP, e da Igreja de lá veio um telegrama. Até o Oscar Karp foi falar em nome da União de Mocidade para felicitar a Igreja. Parece que ele queria fazer uma alocução, mas não se saiu muito bem. Estava com um Novo Testamento na mão, o qual folheava sem parecer achar o que procurava. Depois disse que a igreja devia ter mais paciência, compreensão e espírito de amor e tudo suportar, como Jó. Isto foi tudo que conseguiu uma pessoa que passou um ano acocorado em um banco de escola superior do Rio de Janeiro! Bem, assim foi.

O pobre rapaz foi complementado pelo Butlers, que explicou detalhadamente e com toda clareza que realmente devemos ter paciência e espírito de perdão, todas as vezes que alguém eventualmente ofende a outrem e acontecem mal entendidos. Porém quando uma pessoa está em pecado e deliberadamente fala mal ou prejudica diretamente outras pessoas, nem a igreja nem qualquer de seus membros precisa ter a paciência de um Jó. Deve-se usar toda firmeza e educação para explicar que ela vai ser afastada pelo comportamento inadequado, e isso nada tem a ver com paciência ou compreensão.

O Butlers esperava tempo bom e com isso visitas importantes e autoridades de Orleans, por isso ensinou para os alunos da Escola Anexa o Hino Nacional e o Hino à Bandeira, mas como eles não vieram as crianças cantaram assim mesmo, para que os adultos saibam que eles são bons para aprender. Outros disseram que nem em sete anos teriam apreendido um hino tão complicado, e as crianças aprenderam em apenas sete semanas.

Agora nas quartas-feiras e nos domingos à noite são cantados hinos em brasileiro. Espera-se que até a Convenção que vai se realizar aqui se aprendam muitos novos hinos em brasileiro. Aqueles hinários você conseguiu comprar? O Augusto Klavin acha que a edição está esgotada. Quando você tiver oportunidade de sair gostaria que comprasse papel de desenho de cor azul [Nota: talvez refira-se a papel-carbono]. Você pode embrulhar naqueles pacotes de jornais e me mandar.

Faz pouco tempo chegou uma pequena carta do Shepard em resposta àquela que você escreveu daqui. Ele garante o trabalho para o ano inteiro. Também chegou uma carta do Artur Leiman de Argentina, e estou mandando junto também esta beleza. O moço todas as línguas que aprende ele usa na mesma carta. Quando fores responder mande a carta para o endereço do Fritz Leiman, porque a Escola em que o Artur está vai mudar o endereço para fora de Buenos Ayres.

Aquele livro ainda está conosco e faça o que achar melhor. Você poderia conseguir aqueles prospectos do Seminário, pois o Arthur Leimann quer saber do Inkis e nesse prospecto tem inclusive a fotografia dele, assim [seria o caso de] mandar para ele. Aqui falam que o Deter vai abrir uma Escola em Curitiba e aí o Emilio Andermann e o Jahnis Klawa irão para essa escola, que será totalmente de graça.

[Nota de V. A. Purim. Emilio Andermann morou sempre em Urubici. Pessoa extremamente inteligente e agradável, mas com algumas idéias polêmicas.]

Agora chega. O que agora andas fazendo? O Fritz [Janowoski] também já chegou? E onde você pôs aquela gentil dama? Ou ela logo estará logo de volta ao Rio Novo?

Então lembranças de nós todos aqui e que tudo te vá bem. Viva feliz e com saúde.

Com sincera saudação da

Olga

A série de conferências que você fez aqui | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 7 de março de 1920

Querido Reynold!

Primeiramente envio amáveis lembranças. Recebemos o teu cartão postal enviado de Itajay na sexta feira dia 5 de março e ficamos alegres que até aí fez boa viagem.

Desta vez a comilança de bananas deu certo? O cartão que você diz ter mandado de Laguna ainda não foi visto por aqui, mas pode ser que esteja em Orleans no correio. Quando o Paulinho voltou de Laguna ele disse que no domingo o navio iria partir. Você conseguiu no navio comprar uma passagem direta até o Rio? Quanto custou? E o Victor [Staviarski] viajou de primeira classe? E como foi a Selma [Klavim] , sabes se ela logo voltará para casa? Aqui certas “pessoas” dizem que você não convidou a Selma para viajar junto, mas quando chegaram no Victor terias dito com boa vontade que ela poderia viajar junto porque és um bom rapaz.

Sobre a série de conferências que você fez aqui, existe também um bando de invejosos que teriam dito que, soubessem antes [que você seria o preletor], não teriam dado um vintém sequer. E que 50$000 é um grande dinheiro. E que se macacos tivessem a mesma chance de frequentar escolas superiores e assimilar conhecimento com uma concha, teria sido o mesmo resultado. É pena que não sei quem falou isso.

Quanto tempo você viajou? Na noite de sexta feira você já estava [na sua igreja] em Pilares? Este ano vieram mais alunos [para o seminário]? Também o número de estudantes letos aumentou? E o Fritzis [Leimann ou Janauskas], também já chegou?

Você já esteve na Casa Publicadora para comprar os cantores [hinários] em português? Se você conseguir, mande bastante. O Butlers falou que todos que sabem ler devem comprar um, pois agora nos cultos das quartas-feiras à noite também serão cantados hinos em português do Cantor Christão, e a Marta [Anderman Butler, esposa do Wilis Butler] vai ensinar novos hinos, porque neste cantor existem lindos hinos que aqui ninguém conhece. Quem fornecia era o Augusto Klavim, mas ele não tem mais tempo para encomendar e revender.

Nós graças a Deus estamos bem todos com saúde. Na semana passada o tempo estava razoavelmente bom e choveu pouco, mas hoje não nem estava quente nem nuvens grandes, mas no começo da tarde começou uma chuva fina. Mais tarde começou um vento do lado do morro do Leepkaln [norte] e em seguida desandou uma chuva cada vez mais grossa, e finalmente parecia que estivessem despejando com baldes e também bem um pouco de granizo.

Na nossa nova coivara o milho foi todo derrubado e não sei como foi na coivara da mata virgem e nem o que aconteceu na Bukovina: em ambos lugares os milharais estavam pendoando.

Você pergunta se eu fui na igreja domingo passado; sim, eu fui. E depois na sessão regular, que também foi muito tranquila porque o Grünfeldt não veio. O encrenqueiro não estava e então foi decidido excluí-lo, pois o Butlers estabeleceu a condição para ficar e não ter que aguentar um fofoqueiro e intrigante.

Hoje os homens da igreja estão dando um dia de trabalho para a manutenção e limpeza do templo, da escola, do jardim e do cemitério. Ninguém quer pagar os 3$000 que é o preço da diária para pagar um substituto; na semana que vem serão mais dois dias.

Neste mês na escola são 21 alunos e a nossa Lucija também vai. O Karklin e o Seeberg fizeram uma campanha e conseguiram 1.600$000 para os refugiados de guerra dos países bálticos, principalmente os da Letônia, importância que foi mandada para o Comitê Central de Ajuda na França, o qual encaminhará para o destino final.

Desta vez chega, pois não tenho nada de novo para escrever, Quando receber alguma carta escreveremos mais. Amanhã o Suts Grikis levará esta para o Correio. Ainda lembranças do Papa, Mamma, Lucija e Arthur e também minhas.

Olga

Desta vez controlaram os velhos | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 9 de novembro de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente mui amáveis lembranças!

Bem, desta vez terei muito o que escrever.

Fazia muito tempo que aguardávamos cartas suas. A última foi a que recebemos no 24 de setembro; depois disso passou o mês de outubro inteiro. No dia 24 de outubro a Luzija mandou um cartão postal e no dia 31 de outubro outro cartão, porque não tinha chegado nenhuma carta. Então, na quinta-feira passada a Luzija foi novamente para a cidade e… quando chegamos da roça no meio-dia havia a mesa cheia com cartas com muitas cartas: 5 cartas e ainda jornais. Uma de 12 de outubro, outra do dia 19 de outubro. E mais aquelas três: uma do dia 11 de março de 1918, onde dentro veio também aquela carta de nosso parente da Rússia. Outra de 8 de abril de 1918 e a terceira do dia 19 de maio de 1918. Estas três tinham sido abertas pela censura e, pelos carimbos, ficaram no Rio até 28 de outubro de 1919. Em duas aparece também o carimbo de quando foram colocadas no correio em 1918 e uma em 1919, e por aí você pode imaginar o tempo que demoraram.

Nós não tínhamos mais esperança, achando que as extraviadas estariam perdidas de vez. Agora esperamos que cheguem aquelas outras que vinham com aqueles desenhos que você diz ter mandado no ano passado, e pode ser que estejam paradas em algum lugar.

Também os Leimann receberam cartões de Páscoa e outras cartas escritas no começo do ano. Agora das recentes está faltando a que foi escrita em 28 de agosto, as outras todas chegaram.

Esta última remessa de dinheiro foi muito rápida e sem custo qualquer.

Tu pedes que escreva as novidades do Rio Novo. Neste momento não há nada importante. O último evento importante foi a Festa da Mocidade [Dia 16 de outubro, aniversário da União de Mocidade da Igreja Batista Leta de Rio Novo]. Esta foi realmente grandiosa. Começou as 10h30 da manhã e foi até ao escurecer. O tempo que antecedeu a festa estava muito chuvoso; quando ia chegando o dia parou de chover porém continuava nublado. Mas o dia da festa amanheceu com um tempo magnífico, sem a menor nuvenzinha mas não calor demais, e tudo enxuto como fazia tempo que não tinha sido assim.

Foi um domingo muito bonito. Já na segunda começou a chover novamente. Esta Festa da Mocidade foi feita em conjunto com a Festa da Banda de Música. Havia gente demais, uma verdadeira multidão. Não sobrou lugar pra ninguém. Tinha muita gente de Orleans, inclusive o pessoal das vendas.

O programa foi dirigido pelo Butler. Desta vez controlaram os velhos, pois eles falam demais, tomando muito tempo. O programa consistiu de hinos, poesias e música. O número de rapazes da União é 32 e moças 36. O número de músicos é 15. Fizeram um relatório de atividades, mas não me lembro de tudo. Às 12 horas teve um intervalo quando foi servido um lanche com café, pão, etc, e não foi cobrado nada de ninguém.

Houve uma coleta com a finalidade de ajudar aos refugiados da guerra no Báltico, que rendeu 132$000. O coro dos jovens cantou quatro hinos, inclusive dois em brasileiro. O coro da igreja cantou cinco hinos, e também cantaram dois quartetos.

Notável mesmo foi a mensagem proferida pelo Butler. Esta valeu a pena mesmo. Se todos seguissem os conselhos e ditames, tudo seria melhor. Mas será que todos entenderam?

Depois do programa ainda teve um Bazar da Banda de Música, onde tudo que foi oferecido e vendido será destinado para compra de novos instrumentos. Houve muita animação e foi até ao escurecer. O melhor músico de sopro é o Ilris do Augusto. Mas o Grünfeldt não gosta de música e acha uma bobagem gastar dinheiro e tempo com isso. Mas nós achamos que é muito melhor que os jovens fiquem ensaiando e aprendendo música aos domingos à tarde do que por falta do que fazer terminem procurando alguma bodega. Agora não existe aquela liberdade, e qualquer que começar a balançar é seguido e advertido.

A família Balod faz tempo que foi embora para Porto Alegre. O Hermans lá ficou um pouco melhor. Mas agora está louco outra vez e não sei se não está em algum hospício. Acho que ele tem culpa desta situação, pois quando os filhos deles eram menores ele permitia que fizessem o que quisessem, e agora não consegue mais controlá-los. Eles fazem artes e safadezas, uma em cima da outra, e agora ele fica reclamando dessa situação triste.

Então foi o Arthurs [Leiman] que te escreveu sobre aquelas brigas e disputas. As moças daqui brigavam por causa dele e ele tratou de dar o fora daqui. Parece que ninguém escreve pra ele, e ele não fica sabendo nem metade do que você sabe.

Você pode vir para casa e aí na volta vai ter companheiros de viagem. Tem gente que está se aprontando [para partir]: são o Janka Klawa e o Emilio Andermanis de Mãe Luzia — por aí você pode avaliar que tipo de heróis. O Janka é negociante de cavalos e vive com os brasileiros das serras, comprando e vendendo. O Emílio é um dos irmãos “espirituais”; não entendo que como esses pentescostais, que não querem nem saber de estudo ou de escola. vão mandar um deles para lá. Dinheiro para pagar a escola eles não têm, dinheiro só têm para as passagens. Como eles vão trabalhar, vocês podem “economizar” algum serviço para os jovens que vão chegar. Se continuar tudo de graça não sei quantos espertos não vão querer ir para lá.

Tenho mais coisas para escrever. Nós estamos bem, graças a Deus. Com saúde estaríamos se a Mamma não tivesse aqueles problemas nas pernas: iguais àqueles [que tinha antes], só que muito mais [intensos]. O Pappa também teve ficar de cama também devido a problemas das pernas, e reclama que doem muito. Calcule, com tanto trabalho nas roças e eles quase inválidos.

O tempo está bastante chuvoso, mas nas últimas duas semanas choveu menos. A nova coivara nós queimamos no dia 1 de novembro, Não estava muito seco, mas como estava ameaçando a chover resolvemos tocar fogo. O Augusto e o Hari nos vieram ajudar. O fogo pulou o aceiro e passou para o mato só em um lugar, mas nós prontamente apagamos com vassouras [feitas de galhos de plantas], em poucos instantes. À noite começou a chover. Na coivara plantamos quatro quartas de semente de milho. Ao todo já plantamos sete quartas. Também plantamos 10.000 de mandioca, 2.000 de aipins, mais batata inglesa, arroz, batata doce, amendoim, carás e melancias. Começamos a roçar a “voadeira” na coivara do ano passado e está indo rápido. Se o tempo melhorar, poderemos queimar.

Este ano tem muitos ratos e ratazanas atacando o milho guardado.

Então agora chega, esta é a última carta que escrevo, pois nas férias não sei onde você estará. Você pode vir para casa e trazer os seguintes remédios: Aconitum, Belladonna, Sulfur e, se conseguir achar, o tal Pain Expeller que dificilmente se consegue e quando aparece é muito caro.

Você tem se correspondido com o Ludis [Ludvig Rose] e sabe o que ele anda fazendo? Você poderia passar as férias com ele [em São Paulo]. Quem sabe ele poderia arranjar um trabalho temporário [pra você], porque na cidade sem trabalho sai muito caro. E [você poderia] aproveitar para ver se o seu priminho está crescido.

Lembranças de todos,

Olga

Nas curvas do rio | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de setembro de 1919

Querido Reinold!

Estamos enviando muitas e amáveis lembranças. Recebi a tua carta escrita a 13-09-19 no dia 24 de setembro. Aquela carta escrita no dia 29 de agosto não chegou e deve estar extraviada. Faz tempo que estávamos esperando cartas suas, pois a última tinha chegado 21 de agosto e a resposta desta mandei dia 4 de setembro. Gostaria de saber se você recebeu a minha carta que mandei dia 1 de agosto.

Eu teria bastante o que escrever, pois durante este mês aconteceram diversas coisas por ai. Neste momento estamos passando muito bem. Hoje está chovendo um típica chuva de verão com trovoadas e tudo. Faz poucas semanas que houve grandes enchentes, pois choveu vários dias sem parar. Mesmo aqui o nosso pequeno Rio Novo estava maior que o Rio Novo lá na ponte onde desemboca no Orleans em épocas normais. Então ida à cidade nem pensar, porque em muitos lugares nas curvas do rio a estrada estava debaixo d’água.

Com os trabalhos das roças estamos um tanto atrasados. Ano passado tínhamos plantado bem mais. As capoeiras estão derrubadas e logo que for possível vamos queimar. Plantamos 2.300 mudas de cana de açúcar e mais de 1.000 de cana para animais [cana sal]. Agora estamos capinando perto da ponte onde vamos plantar aipim, mandioca; na semana passada plantamos uma carga de cavalo de baraço de batata-doce, mais de 2.000 mudas de mandioca.

Mandioca este ano nós vamos plantar bastante, pois este ano não houve geadas e há bastante rama para preparar mudas. Agora a farinha de mandioca está barata, 5$000 o saco, mas já esteve a 12$000. Tudo o que a gente tem para vender está barato: o açúcar está a 5$000 a arroba, o toucinho a 13$000. O que a gente tem que comprar também está ficando mais barato: o petróleo está a $700 a garrafa e já é possível comprar em latas.

Agora vai fazer quase um mês que inesperadamente chegaram visitas na casa dos Leimann. Chegaram de Ijuy a Luzija Osch (Leimann) com o filho Walderim e a Mina Ukstin. Estiveram passando também um domingo conosco. O Willis Osch escreveu para a Luziha dizendo que a senhora Osch estava muito doente e ela não teve dúvidas, veio direto sem mesmo escrever ou avisar. E por isso ninguém estava esperando.

Quem ficou feliz foi a senhora Leimam com o neto Walderim, ele ainda não tem 3 anos mas é gordo e saudável e fala mais que um papagaio. A Maria ainda mora com os Leimann. A senhora Leimann tem uma auxiliar que melhor seria impossível. Semana passada as visitas foram embora. Também o Ermans Balod foi embora com a família para Porto Alegre.

Ainda alguém do Rio Novo te escreve? Quem te escreveu que na Igreja de Rio Novo aparecem aquelas divergências como antigamente? Eu sempre pensei que o único que te escreve é o Robert Klavin, e ele nunca escreveria o que não fosse verdade.

A verdade é que não existe aquela situação como antigamente, em que havia dois partidos. Existem aquelas briguinhas do Karklis e da mulher dele. Ele veio dar queixa dela na igreja. Também o Grünfeldt tem suas rusgas com o Bruver. O Butler desdenhou e não deu muita atenção porque o Grünfeldt sempre precisa ter alguém para brigar, e principalmente perturbar a vida da igreja e dos pastores.

Agora aqui está havendo uma campanha de coletas para a Convenção do Paraná/Santa Catarina para a compra de um barco a motor que, quando em condições, deverá ajudar um pastor a fazer um trabalho na baía de Paranaguá, para visitar as pequenas Igrejas e abrir novos trabalhos.

Do Rio Novo foram eleitos dois membros para a junta que decide sobre as prioridades dessa Convenção: o Robert e o Sebeergs. De agora em diante o dinheiro todo vai ser enviado para o tesoureiro geral, que é o Deter; ele reunirá o grupo para decidir sobre as prioridades e dividirá o dinheiro entre as diversas juntas missionárias.

[a parte final da carta não foi encontrada]

Você é um ignorante | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 2 de setembro de 1919

Querido Reinold,

A tua carta escrita em 17 de agosto recebi no dia 21 de agosto. Obrigada! Precisava ter respondido mais rápido, mas como ninguém ia para a cidade para levar ao correio, foi ficando e demorei a escrever. Ainda estou esperando resposta de duas cartas: uma mandei no dia 1° de agosto e outra no dia 15 de agosto, as quais espero que tenhas recebido.

Fiquei muito alegre em saber que você está sempre passando bem e que estás com saúde. Nós também, agora estamos bem graças ao bom Deus, e todos com saúde. Mas semanas atrás estivemos todos com influenza; doía muito a cabeça e [tínhamos] moleza em todo corpo. O Pappa ficou vários dias de cama. Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água.Nós, os demais, com tanto serviço não tínhamos tempo de ficar de cama.

O tempo está muito variado, ora quente ora frio. Houve dias tão quentes que parecia verão, e soprava um vento quente do lado da Serra [noroeste]. Depois, na semana passada, deu três dias de chuva e vento frio; hoje está meio nublado e é possível que volte a chover.

Agora as laranjeiras estão em plena floração e as árvores estão literalmente brancas. O milho terminamos de colher no dia 20 de agosto; uma plantação de 17 quartas de semente rendeu 135 cargas, que foram despejadas no paiol. Ano passado foi plantada uma área menor e rendeu 195 cargas. Era porque naquele ano as espigas eram grandes, e este ano são menores, tanto que podem quase diretamente ficar para as vacas.

[NOTA: Espigas de milho pequenas eram chamadas de “restolho” e as vacas podiam comer direto sem perigo de se engasgarem e se afogarem, o que acontece com frequência com o gado.]

Este ano não foi um ano bom para o milho; em Orleans o preço da saca já está 6$500. Comprar milho para o gasto está fora de qualquer cogitação. Se faltar milho, os porcos vão passar somente com inhame, pois este ano eles não pegaram geada e na Bukovina em toda baixada está correndo água (mesmo em lugares em que nunca havia nascentes), então vai dar para passar.

Agora estamos derrubando uma capoeira lá perto do monjolo, mas você é um ignorante, não sabe mais nada daqui, então vou dizer que é lá onde antigamente tínhamos uma horta — assim é possível que você se lembre. Agora, como um morador de cidade grande, caso vier para cá você seguramente vai se perder logo no primeiro dia.

Quanto ao Rio Novo, vai indo de modo variado [em leto, “eet raibi”]. Os mensageiros da Convenção enfim voltaram, chegaram dia 14 de agosto. Como tinham saído no dia 31 de junho, você pode calcular quanto tempo eles ficaram fora.

A viagem foi boa, a falta de sorte foi com os meios de condução (navios) em todas ocasiões. O Robert ainda não esteve aqui em casa para contar as peripécias da viagem. Pode ser que ele tenha escrito minuciosamente para você. O Butler aqui na Igreja contou uma coisa e outra, que de modo geral a viagem foi boa.

Saíram na segunda-feira com informações de que haveria um navio em Laguna, mas lá chegando o navio já tinha levantado ferros e partido. Seguindo informações e palpites de que em Imbituba estaria um navio grande sendo carregado, no outro dia pegaram o trem e foram até lá, mas este também já tinha ido embora e para o outro lado, para o sul, Porto Alegre. Então voltaram: o Butler ficou em Tubarão, na casa do Ziguismundo Anderman, e o Robert e o Klava vieram até Pedras Grandes para visitar o Onofre.

Então na sexta-feira pegaram o “Max” da Karl Hoepke e foram até Desterro [Florianópolis], porque ele não segue mais longe. Mas ali souberam que havia um navio atracado na parte norte da ilha, e daí pegaram uma lancha a motor e conseguiram embarcar; mais dezenove horas e estavam em Paranaguá.

Resumindo, de Rio Novo até Paranaguá foi exatamente uma semana de viagem.

Sobre a Conferência não tenho muito que escrever, pois o Deter ainda não mandou as estatísticas e as atas [em leto, “protokulus”]. O Butler foi o presidente [dirigente] da Convenção e todos os dias havia três reuniões; os letos tiveram que cantar muito.

Os letos eram ao total quatro, porque veio também o Broks de Blumenau.

Depois das conferências ainda estiveram em Antonina e daí viajaram para Kuritiba pela mais bela estrada de ferro do Brasil. Ficaram então uma semana em Paranaguá e uma em Kuritiba. O Klava ainda viajou para São Paulo.

Curityba é uma bela cidade, só que falta muita água. Se de manhã você lava o rosto, à tarde não pode mais lavar porque não tem água.

Ainda estiveram em Blumenau: o Robert se acomodou na casa do Janausks e o Butler ficou com os Suti. Ambos moram perto da igreja. Mas eles não ficaram muito tempo por lá, porque foram também visitar a Linha Telegráfica, onde moram os Straus e outros pentecostais. Ali os cultos são “extraordinários”, pois de longe se pode escutar como gemem, correm de um lado para outro, andam de quatro, etc. Os nossos chegaram atrasados e assim não foi permitida a entrada; eles ficaram “apreciando” pelas janelas. O Butler disse que o comportamento deles nada tem com o movimento espiritual que ele conheceu nos Estados Unidos. Este mais parece certo povo que adora ídolos na Índia.

Neste mês vai haver a festa de aniversário da União de Mocidade. Estamos aprendendo a cantar todas as quartas-feiras à noite. O Oswaldo Auras é o dirigente que ensina. E nas noites dos últimos domingos de cada mês os jovens apresentam um programa livre, de partes práticas. Cada um pode apresentar o que quiser: poesias, partes musicais, opiniões, comentários, etc.

Durante as férias você bem que poderia viajar para casa. Falta pouco tempo para fazer três anos que estás longe de casa.

Você escreve que o Deter quer que você venha para o Paraná. Quanto isto vai custar? Sem 200$000 nem pensar, e de trem fica mais caro ainda. E porque ir para um lugar de pessoas estranhas? Nós pensamos que você poderia vir para casa ou então ficar na Escola como no ano passado. Mas ir para outros lugares nunca dissemos.

Agora os navios que vêm para Laguna tem a terceira classe, e esta não custa tanto quanto a dos grandes navios que aportam em Imbituba.

Nós o dinheiro vamos mandar, mas no correio de Orleans não tem aquele “vale postal” porque são muito poucas pessoas que mandam dinheiro daqui. Se existissem, seria muito prático e barato mandar por este sistema.

Você sabe se o Fritz Janausks vai viajar ou vai ficar aí mesmo? Hoje, 3 de outubro, enviei através do Pinho 100$000 e eles garantiram que desta vez vai chegar mais rápido do que na outra vez. Se demorar, podes perguntar lá se ainda e porque não chegou. Amanhã é dia da mala postal, pode ser que chegue alguma carta sua.

Se você não pode ficar aí, venha para casa. A Mamma não quer que você viaje para outro lugar.

Com lembranças,

Olga