..subir em algum morro bem alto e ver se avista um navio cheio de letos..De Olga Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 11 de abril de 1922

Querido Reynhold!

Primeiramente envio muitas lembranças. Pensando bem, eu não tinha nenhuma obrigação de escrever esta noite, pois tu estás devendo respostas de duas cartas, uma escrita no dia 13 e outra no dia 23 de março.

Aquele grande pacote com jornais e outros impressos recebi no dia 26 e muito obrigado por tudo. Agora nós temos dois prospectos do seu Colégio. Vocês deverão ser mais de mil alunos com tantos letos que foram para lá. Você conhece aquele alemãozinho de Paranaguá, o João Henke. Este é um dos que vieram para as Conferências da Convenção no Rio Novo.

Bem desta vez eu terei alguma coisa de novo: – – O tempo esta semana está mais ou menos bom, pois chovido tem pouco.

Uma coisa muito importante é que a universidade de Rio Novo depois de 8 meses de aula, já encerrou o ano escolar e os Rockfellers já estão prontos para enfrentar a vida. [Parece que naquela época a neurolingüística não era muito difundida. Alguns professores tentavam fazer com que os alunos adotassem os grandes homens como modelo e assim como que, atrelando o seu carro a uma estrela, mas não eram bem compreendidos por todos]

O próprio Treiman, como fosse acossado por fogo, foi abrir uma escola na casa do João Leepkaln lá no Rodeio das Antas para os filhos dos brasileiros. Isto faz parte da filosofia dele de não maltratar os alunos por muito tempo com tanta matéria.

O Karlos Sanerip já voltou do Quartel onde esteve servindo o Exército. O Augusto Klavin que estava em Kuritiba servindo o exército, agora está fazendo “manobras” no Rio Grande do Sul junto com a fronteira da Argentina que são muito necessárias para gastar o dinheiro do governo. Este ano foram convocados o Wilkan Karkles e o Kirz Stekert, isto é dos letos. O Wilks está muito satisfeito, pois só assim poderá conhecer o mundo ai fora e ainda sem pagar a passagem.

A Igreja convidou o Deter [Deter era um missionário batista norte americano trabalhando no campo Paraná Sta. Catarina] para visitar o Rio Novo, pois o Lupers tinha prometido vir, mas, acabou viajando para outro lugar. Quando o Deter vier, vai haver uma festa de Batismos dos 10 novos membros que foram aceitos pela Igreja. São eles o Willis Klavin, o Willis Slengmann, o Edward Karklin, o Victor Maisin, a Hulda Maisin, o Karlis Leepkaln, o Alfredo Burmeister, o Harris Feldberg e os nossos Lucija e o Arthurs.

Outra novidade é que na semana passada recebemos qual não estávamos esperando. Veio do nosso parente (tio) Jekabs Purens da Letônia. Ela conta que eles estão determinados e convictos da necessidade de vir embora para o Brasil. Eles estão todos vivos e sãos.

O irmão dele, o André é que está numa situação mais difícil, pois mora na Rússia, junto a fronteira da Letônia onde grassa muita fome e doença e nenhum socorro pode ser enviado para lá. Ele vai tentar passar para o lado de cá da fronteira e viajar junto para cá.

Pelo que ele fala ele pensa que o Brasil é do tamanho da Latvia, pois, pede que quando eles chegarem no navio cheio de letos, alguém vá ao seu encontro. Ele pensa que é como lá que o navio ou chega em Riga ou então em Leepaja, pois outros portos não existem e quando você pode pegar um trem e em poucas horas estar lá. Também não falam nada se eles estão vindo por conta própria isto é com dinheiro deles e nem quando e nem onde eles deverão chegar.

Mas aqui há outras pessoas que contam que o Inkis e o Malvess [ Malvess era do Rio Novo e agora agente de Imigração do Governo em São Paulo] conseguiram passagem livre, sem custo algum e por isso deverão vir muitos letos. O Malvess é novamente um agente de imigração do Governo e tem colocado anúncios para venda de terras no interior do estado de São Paulo em jornais alemães. Se eles realmente estão viajando livres por conta do governo é justo e certo que eles irão direto para São Paulo. Você sabe alguma coisa acerca deste assunto?

Pelo que o Jekabs escreve parece ou ele pensa que vem direto para o nosso lado. Mas diz, também que não sabe se nós estamos ainda vivos ou não e se nós estaríamos satisfeitos que eles viessem para cá. Também fala que lá as coisas não estão nada boas e sem muita esperança de alguma melhora. Diz ainda que teria muito que contar e perguntar, mas iria deixar para quando depois da chegada teria mais oportunidades para conversar. Pelo que parece ele pensa que São Paulo fica junto de Sta. Catarina, assim como a Vidzeme fica junto com a Kurzeme.

O Paps quer que eles venham para cá, pois se eles forem para São Paulo onde deverão ir muitos Letos é interior, terra totalmente desabitada, onde eles, com certeza vão sofrer penúria por não ter onde trabalhar para ganhar dinheiro, onde vender e onde comprar. Com certeza no Rio Novo será melhor. Nós ainda não respondemos, pois eles não pedem que façamos, pois é possível que eles já estejam em viagem para cá. Pois a carta tinha sido escrita em 22 de fevereiro de 1922. Então você poderia subir em algum morro bem alto e ver se não avista um navio cheio de letos e entre eles os nossos parentes, vindo para o Brasil.

Eu acho que não sabem que você ainda está estudando. Pode ser que eles não tenham a chance de conhecer o Rio de Janeiro. A não ser que ainda que levem a alguma Ilha das Flores onde dizem que as casas e alojamentos de quarentena estão sendo reformados

(Escrito na lateral)
Bem por hoje chega. Vou aguardar de você muitas novidades. O desejo de todos é que tenhas uma Feliz Páscoa. Olga.
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Pois, segundo os jornais alemães o Pão de Açucar está derretendo |De Olga Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 23 de março de 1922

Querido Reynohold.

Saudações!

Recebi a tua carta escrita no dia 1 de março ontem. Obrigado por ela.

Você sempre foi bastante detalhista e agora na costura o que é muito raro eu fazer, mas agora que você já é Doutor eu tenho que me aperfeiçoar mais.

Os Prospectos já faz bastante tempo que os recebemos. Se soubesse que o Victor tinha prometido contar tudo acerca você teria explorado mais. O que ele contou que estás com saúde, que estás bem e que trabalhas em uma boa oficina. Que vocês são grandes amigos e é isso tudo que a senhora mãe dele contou para a Mamma. [Mamma é a Lisete Rose Purim mãe de Reynaldo, de Olga, de Lúcia, e de Otto Roberto Purim que foi o meu pai] Também contou que tu não gastas tanto quanto o Victor [Staviarski] que precisa muito dinheiro quando na viagem para casa.

Nós entregamos para o Victor levar para você as lembranças e se quiseres saber quanto custou depois me escrevas que eu te conto.

Foi a própria Selma [Klavin] que entregou o pacote prá você ou mandou através de outra pessoa? Eu perguntei se ela poderia entrar no Colégio Masculino e ela disse que ela podia entrar onde quisesse.

Quais são os nome daqueles rapazes letos lá de Rio Branco e gostaria de saber se há mais letos de outros lugares. Do Rio Novo ninguém quer ir porque lá tem falar em brasileiro.

E agora está bastante perigoso viajar ao Rio de Janeiro. Pois segundo jornais alemães o Pão de Açúcar está derretendo. Dizem que apareceram dois imensos buracos do lado do mar e que durante o dia se consegue ver a fumaça e a noite vêem-se claramente chamas e que se torna perigosa a navegação pela baía pelo risco de incendiar algum navio. O que você sabe sobre isso? Tu não tens medo? Dizem que a fumaça sulfurosa poderá sufocar a todos. Dizem que chega a chiar quando está queimando. [Devia ser alguma brincadeira de 1º de Abril antecipada deste jornais]

Você que é grande artista na oficina poderia fazer um cocho para alimentar as vaquinhas. Vocês têm alguma vaca ou é de alguma outra pessoa?

Agora você trabalha na confecção de caixas. Aqui você não sobreviveria com a fábrica de caixas, pois ninguém iria comprar e lá você pode até ficar rico com esta indústria.

Agora não poderei escrever muito porque as suas férias terminaram e assim você não terá tempo de ler.

Aqui no Rio Novo nada de importante aconteceu.

Na segunda feira foi a Festa de Aniversário da Igreja e choveu o dia inteiro. O Inkis não veio e não havia visitas de outros lugares. A Festa foi dirigida pelo Frischimbruder [Júris Frischembruder grande líder da comunidade] e até que foi muito boa. Quando as pessoas chegaram de volta em casa, estavam molhadas devido à chuva que não parou.

A chuva parecia que como fosse em janeiro. Nesta época em março já não devia estar chovendo tanto.

As ervas daninhas este ano crescem como nunca. O feijão parece que não vai dar grande coisa devido ao excesso de umidade. Também apareceram lagartas de tamanhos diferentes das do ano passado.

O milho este sim está com as espigas muito bonitas.

– Bem agora chega, tenho que ir dormir. Começou uma dor de dentes. Você não poderia mandar aquele pó para dores de dente que você tinha trazido quando esteve aqui?

Ainda mui amáveis lembranças de todos daqui. Escreva bastante agora.

A carta que mandei através do Victor acho que não tinha chegado. – Olga.