O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA

…fizeram uma viagem a cavalo para visitar a Igreja Batista de Mãe Luzia. De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1924

[Parte final de uma carta escrita pela tia Lúcia da qual não foi encontrada a parte inicial]

…. Lemos e buscamos respostas para 12 questões. São as seguintes:
1. Quem escreveu este livro?
2. Para quem foi escrito este livro?
3. Onde ele estava [o escritor] quando escreveu este livro?
4. Quando ele escreveu este livro?
5. Quem ou quais foram os motivos, para ele escrever este livro?
6. Qual era o objetivo dele ao escrever este livro?
7. Em que condições e que obstáculos encontrava o escritor quando escrevia este livro?
8. Em que condições se encontravam as pessoas ou o povo a quem ele escrevia este livro?
9. O que este livro revela sobre o autor e sobre as suas condições psicológicas e estado de espírito?
10. Qual é o tema ou a mensagem central deste livro?
11. Qual é a grande verdade deste livro sobre a qual as outras somente concorrem para a sua confirmação e esclarecimento?
12. Quais é o estilo do escritor deste livro que possa ser considerado semelhante ou original em relação aos outros livros?
Pode ser que ao terminarmos este trabalho e encontrarmos todas estas características, passaremos a estudar outros livros.

Quanto a Igreja vai tudo bem e é provável que o Strobergs já te tenha escrito. Porque ele disse que já faz tempo que mandou uma carta para você.

Faz pouco tempo, isso foi no dia 14 de novembro os Rio Novenses fizeram uma viagem a cavalo para visitar a Igreja Batista de Mãe Luzia. Daqui eles saíram logo depois do meio dia, ao todo 13 pessoas: O Stroberg com a sua irmã, dos Balod o Willis e a Alda, dos Felberg o Augges e o Aleksis, dos Match a Milda, dos Klavin o Augusts e o Willis, dos Leepkaln o Siguismundo, dos Auras o Oswald, e mais a tia Maisim e o Werner Grikis. Eles cavalgaram durante a noite e em dois lugares pararam para alimentar os cavalos e descansar. Também para eles próprios fizeram fogo e ferveram café. As moças se comportaram como estivessem soltas.[Trakas – doidas] O pastor passou uma grande reprimenda, mas nada adiantou. Ele mesmo entrou nas samambaias e foi dormir,[Acho que as samambaias deveriam ter sido cortadas e amontoadas em um lugar limpo, porque seria uma temeridade, entrar no meio das samambaias para dormir. Nas capoeiras tem skudras e tchuskas –formigas e cobras] chegaram pela manhã, todos estavam esperando, no Sábado a noite teve culto e no Domingo houve 3 cultos, um pela manhã, um à tarde e outro à noite. O filho do Klava levando de canoa o Stroberg e a Lídia virou o barco no meio do Rio Mãe Luzia, porque isto faz parte da tradição, para com todas as pessoas que vão lá pela primeira vez. Na Segunda feira foram passear nas casas dos letos de lá e a noite teve o culto de despedida e na Terça feira pela manhã cavalgaram de volta para casa. Esta visita deixou uma boa impressão e todas as reuniões foram muito bem concorridas.

O Robert[Klavin ] tem escrito? Ele agora está em casa.

Você poderia perguntar para o Wictor[Wictor Stawiarski ]porque ele não escreve para casa. Depois da visita dele aqui ainda não mandou nenhuma carta para os seus familiares. A mãe dele está muito preocupada porque lá está havendo uma revolução e o pequeno Wictors nada escreve para casa.

A tia Stekert pediu para que você fizesse uma visita ao Fredy, porque também é preciso procurar as ovelhas perdidas da nação de Israel.

Os Jornais que você diz ter mandado ainda não chegaram. Por que você não mandou mais “O Crisol”? Faz muito tempo que não tens mandado mais, se não me engano o último número parece que foi o 8.

Agora nós temos um novo agente dos Correios. Quando o Hercílio Luz morreu, todo o Governo de Orleans caiu do trono. O Evaristo com toda a sua turma inclusive o genro [Este genro era o Alfredo Balod, filho do Hermann Balod, que era pelos letos o malvisto Agente dos Correios.] estão fora. O novo superintendente é o Cardoso.

Há pouco tempo chegou de São Paulo um alemão chamado Gustavo Isernhgem. Ele é agente vendedor de terras. O Ludis o teria mandado para cá, porque souberam que o pessoal de Rio Novo está querendo sair indo embora. Ele veio convidar para ir para a colonização dele. As terras não são dele e sim de um irmão dele, em companhia do Ludis. Estas terras não estariam longe de “Varpa” em um lugar chamado “Rio Capivara”.[Falta descobrir esta herança do tio Ludis e também a localização deste lugar] Segundo ele as terras são extremamente férteis e o milho cresce 5 metros de altura. Ele ficou uma semana hospedado na casa do Ernesto,[Ernesto Grüntall era o nosso vizinho Enozis. Ele era uma pessoa muito dada e tinha sido amigo do Ludis no tempo que ele fugiu para Porto Alegre. O Ernesto também esteve em Porto Alegre no mesmo tempo. O que falta é saber se ambos foram juntos ou senão quem foi primeiro. A mãe do Ernesto era uma cozinheira profissional, pois tinha trabalhado com uma família alemã lá na Letônia. Ela entre outras coisas sabia preparar uma espécie de bolinho de carne muito especial que também ensinou a minha mãe a fazer.]para o qual trouxe uma carta de apresentação. Também veio aqui em casa fazer uma visita. O Ludis ainda é o grande Redator daquele mesmo jornal.

Bem eu tenho que terminar porquê já “imprimi” não sei se terás tempo de ler tudo isso.

Escreva bastante. Quem é agora o redator do “O Crisol”? Quem este novo, líder da Associação? A revolução ainda continua? Aqui falam que lá está havendo uma grande Revolução e que inclusive o Presidente da República teria sido ferido.

Muitas lembranças de todos. Luzija.

[Escrito nas laterais]
Ainda muitas lembranças do pessoal de Larangeiras e também do Frischembruder, ele diz ter escrito e você ainda não teria respondido. Muitas lembranças de todos.

…mande toda correspodência em nome da família Steckert, | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rio Novo 11 de outubro de 1923
Querido Reini!!
Saudações. Então eu estou de novo tentando escrever algo.
Porquê o Arturs começou a “imprimir” a sua carta e mandar uma só folha no envelope é um desperdício então eu também vou escrever algumas poucas linhas. Para escrever até que teria bastante notícia e acontecimentos, mas eu não sou tão desembaraçada na escrita como você e ainda por cima esta noite me veio um sono muito forte, porquê já são nove horas da noite e lá fora está chovendo forte e amanhã cedo eu tenho que ir a cidade levar toucinho, banha, ovos e manteiga.
Agora estamos passando suficientemente bem.
Estamos todos quase sãos, porquê na semana passada eu estive de cama e agora já estou melhor e já posso trabalhar.
Aqui as pessoas estão ficando sempre muito doentes e duas em pouco tempo vieram a falecer. No dia 22 de julho acompanhamos o funeral do Alberto Grikis e ele ficou doente somente uma semana. No dia 2 de setembro foi a vez do menino Eugênio Sahlit com um ano e meio de idade. Este ficou doente somente por dois dias. Os novos vão rápido enquanto os velhos ficam doentes sobrevivem.
Como você está passando? Você recebeu as cartas junto com as meias?
Agora você mande toda a correspondência em nome da Família Steckert, pois o Agente do correio, as dele ele não abre e entrega tudo direitinho. Melhor é solicitar, digo, você solicitar a outra pessoa escrever o endereço com outra caligrafia e se possível mandar registrado.
Outra alternativa é mandar em nome do Diretor da Cia. Colonizadora. De outras pessoas nós recebemos as cartas normalmente, mas as suas nunca chegam.
Ontem recebemos uma carta do “deserto” e eles escrevem que estão passando bem. O Tio [Jekabs Purens]
está trabalhando na derrubada das matas na fazenda de um brasileiro e ganha 6 mil réis por dia, mas com sua própria alimentação.
A Alma e a Melania estão trabalhando em plantações de café e a Lilija é diarista na casa do Sr. Fritz Puke em Nova Odessa. Ela recentemente me escreveu uma carta contando que escreveu para você com muito medo e para tanto teve acumular muita coragem para escrever para um tão culto e escolarizado primo e ela teve somente os 5 anos do primário este tempo todo ainda em russo. O que ela te escreveu? Os demais daquela família não te escrevem?
Bem desta vez chega de imprimir [Drukat = imprimir] senão não vou ter nada para escrever na outra na próxima. Mesmo assim não sei se você vai ter tempo para ler esta. Escreva sobre todas as coisas que por lá acontecem. Quem é o novo seminarista que o Inkis levou de Nova Odessa para o Rio?
Onde este ano vais passar as férias?
Você vira para casa ou vais para a América do Norte junto com o Emils? [Emils Anderman]
No dia 30 de setembro foi feita uma grande noite de despedida dele. Terminou o período escolar aqui e foi para a Mãe Luzia, pois depois das Festas deverá embarcar para a América para lá estudar. O Tio Bahlkites deverá mandar uma passagem de navio. Ele foi embora e os rio-novenses novamente sem professor.
No dia 6 de setembro chegou o Karlis [Karlis Leiman] e ficou até o dia 16. Neste domingo ele passou o dia aqui em casa e foi uma festa. Já tinha usado nossos cavalos e ele gosta muito de inticar [Inticar = irritar, perturbar, mexer, enfim não deixar em paz]
os nossos cachorros pode ser que ele mesmo tenha escrito contando tudo, porquê eu soube que ele estava escrevendo para você..
Se você vier para casa traga mais acordoamentos para os violinos, pois aqui nós não temos encontrado para comprar.
Apesar de nós termos 3 ovelhas, temos lã, mas da lã não dá de fazer cordas de violino. [Não foi possível encontrar a correlação entre os carneiros, a lã e as cordas do violino.] Se você vier para casa, vai poder tomar muito leite, porque agora nós temos 4 vacas dando leite. Também pêssegos e laranjas deliciosas.
Venha para casa ai você vai poder contar melhor do que escrevendo. Vem.
Muitas lembranças de todos e da Luzija

Agora nos temos 6 cavalos para montar…. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 12 de setembro de 1922

Querido Irmãozinho.

Saudações

Recebi a tua carta de 3-8-22 já há bastante tempo. Muito obrigada! Esta carta já estava aguardando há bastante tempo e chegamos a pensar que aquela nossa teria sido extraviada. Parece que ela foi muito devagar porque estava muito pesada porque parte de nós foi junto com ela. Você escreve que nós aqui ficamos mais distantes e desconhecidos. Não sei se é ou não e se você acha que é assim então você deve vir até aqui para ver senão realmente ficaremos inteiramente desconhecidos. Você escreve que tem muito trabalho e que está muito cansado.

Então é mais um motivo de você vir para casa passar uns tempos aqui. Será mesmo depois de ter se formado Mestre não pode planejar uns 6 meses de férias ou mais. Chegando aqui todo este cansaço tenho certeza que desapareceria, não teria pensar tanto etc.. Eu te convidei para a época da fabricação do açúcar, mas não sei se o convite não chegou atrasado e esta alegria você perdeu, mas agora você poderá vir para a festa da farinha de mandioca que vai começar breve pois agora nós temos 2 fábricas uma de açúcar e outra de farinha de mandioca e nesta tudo é diferente do que você conhece ou tenhas visto.

Agora nós temos muito açúcar, muito polvilho e então poderemos fazer muito” thissel” [Geleia doce feita com sucos naturais de frutas mais açúcar e a consistência apropriada era conseguida com adição de polvilho de mandioca ou de araruta] também muitas roscas de polvilho [Ainda encontradas em Sta. Catarina. Também chamadas de “corujas] e também “ Bijús ” [Bolos feitos de massa de mandioca com açúcar]

Laranjas há ainda em grande quantidade. Estas delícias você não encontra por lá. Quando ficares entediado em uma casa, você poderá ir a cavalo para a outra. Agora nós temos 6 cavalos para montar e se tiveres esquecido como andar a cavalo o Artur pode leva-lo no automóvel puxado por dois bois brancos, se bem que não tão rápido como os da cidade, mas assim mesmo eles chegam no destino. Será que ainda assim você continuaria cansado?

Você escreve que nós colhemos muito milho este ano. Na realidade este ano o milho não cresceu como devia e os Leiman não tinham muito milho. Nos compramos 60 sacos de espigas. Você parece pensar que a casa dos Leiman esteja vazia, mas não está não. Como poderá estar vazia se nós estamos morando nela. Agora estamos morando em duas casas. Nós dos Leiman compramos: 3 cavalos, 2 vacas leiteiras, 1 touro, 1 junta de bois junto o carro e pertences, 2 novilhos, 2 bezerros pequenos, 17 porcos.

As galinhas em grande quantidade a senhora Leiman deixou para nossa Lucija que morava lá cuidando dela. Deu ainda para ela 4 leitões e dois perus. Ainda você acha que a casa esteja vazia e abandonada? Ainda os arados, 3 selas, os pertences da sala e todos trens da cozinha.

Nas roças 20 mil pés de mandioca de 2 anos passando da hora de colher, com raízes grandes e bem crescidas pois elas foram plantadas em terreno preparado com arado e assim com a terra mais solta fica mais fácil também o trabalho de arrancar. Também ainda bastante aipim e batata doce. Então tudo bem.

O Fritz não queria e nem podia levar tudo então nada melhor que deixar para os parentes. Agora o Fritz é um grande parente ou pelo menos muito importante.

Tudo estaria certo se depois de longa espera, na semana passada recebemos 5 cartas todas de uma vez, 2 escritas pelo velho e 3 pelo Fritz e todas ainda do Brasil. A viagem por mar até o porto da cidade de Rio Grande foi maravilhosa e todos bem de saúde. E daí eles foram de trem para passear na casa do Willis [em Ijuí RGS] e o Fritz aproveitar para visitar as Igrejas alemãs onde ele tinha trabalhado. Daqui do Rio Novo eles saíram no dia 12 de julho e então somente no dia 20 de agosto eles saíram de viagem de Ijuí para irem para casa. Lá em Ijuí o velho Leiman foi acometido por uma tosse muito forte e a Senhora Leiman começou a apresentar os sintomas da antiga doença voltando….

De Ijuí eles saíram no dia 20 e chegaram em Uruguayana na fronteira dia 22 a noite. Então o velho escreve no dia 23 que a senhora Leiman está tão doente que nem conseguia andar. E ainda muito pior que o Fritz não consegue autorização para eles entrarem na Argentina, pois lá eles não deixam pessoas de idade entrarem no país para morar. Chegou a oferecer 20 pesos para eles acharam muito pouco. Então o Fritz seguiu na frente e foi direto tratar com as autoridades argentinas e trouxe a autorização.

Mas assim mesmo foi uma grande dificuldade ter que deixar os pais doentes e sós. Então dia 24 o Fritz escreve que a tarde eles vão embarcar para atravessar para a Argentina e daí mais dois dias de viagem para chegar em casa. O Fritz não escreve quase nada sobre o estado da mãe, mas o velho este sim explica tudo direito. Agora estamos aguardando novas notícias e possivelmente não sejam as melhores, pois nem sabemos se ela chegou lá viva.

Imaginem a decepção da Cristina e do pequeno com a chegada da vovó se ela não puder pelo menos falar.- – – Você bem que poderia escrever uma carta para o Sr. Leiman e eu tenho certeza que ele vai responder porquê ele agora tem uma quantidade imensa de novas experiências da viagem ele sabe descrever muito bem.

Também recebi uma carta do Carlos Leiman e esta demorou quase dois meses para chegar. Acho que escrevi o suficiente se não demais. Com muitas lembranças de todos. Olga.

Escrito na lateral: O endereço dos Leiman é: Ramirez Entre Rios Argentina.

Ainda é noticia que no dia 1 de setembro o Jahnis Ochs casou.

No dia 16 de outubro vai ser festejado o Jubileu de Prata da União de Jovens da Igreja pois estará completando 25 anos. Você vindo pode trazer um sermão ou uma palestra que será muito bem vindo.

Escreva bastante. Junto com os jornais podes mandar papéis azuis [Deve ser papel carbono muito usado para tirar moldes de roupas de jornais e revistas, ] que estão muito velhos e estão acabando.

…está bem, o que ninguém esperava que voltasse a sarar… | de Olga Purim para Reynaldo Purim – 1922

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Rio Novo 15 de março de 1922

Querido Reini – Saudações

Faz já bastante tempo que não temos recebido nenhuma carta. A última eu recebi no dia 6 de fevereiro e depois daquela nenhuma mais. Assim não tenho respostas de 2 cartas. Uma mandei no dia 10 de fevereiro e a outra foi dentro do pacote que a Selma Klavim levou no dia 19 de fevereiro.

Você conseguirá encontrá-la e receber esta encomenda. Também não sei se a Selma já chegou lá no destino.

Bem desta vez não tenho muito que escrever. O tempo continua chuvoso e agora as estradas estão tão destruídas como nunca e os rios tão cheios que como o Rio Novo lá no que a gente passa quando vai a Orleans a água cobre a barriga dos cavalos.

As ervas daninhas nas lavouras também crescem bem. Tormentas nas nossas roças não tivemos, mas tem muita gente que reclama delas. Difícil está para as pessoas que tem que secar o milho para moer e fazer a farinha para comer. O milho está demorando a madurar e sol tem brilhado muito pouco. Todos falam que estas chuvas estão em toda parte este ano.

Então este ano você vai ter muitos colegas letos no Colégio. Pois até aqui do Rio Novo vai o Schanis Sprogis tem escrito contando vantagem que já tinha chegado ao Colégio e assim pode ser que tenham vindo letos de outras partes. Assim me escreva contando como você está passando bem. Se tem muitos colegas novos. Se o João Klava e o Linkites ainda estão lá. Qual é o relacionamento entre os outros descendentes dos letos. Eles ainda sabem falar o leto?

Sobre o Rio Novo nada de novo. Os pastores todos foram embora.

O Willis [Leiman] faz tempo já foi embora e sobre isso eu já escrevi.

O Arthur [Leiman], a Lucija com os meninos e mais a Vitorija Ochs viajaram dia 21 de fevereiro. A Vitorija foi junto com a irmã Lucija. O Arthurs também foi para o Rio Grande visitar o Willis [Leiman] e daí de trem até o Fritz [Leiman] em Corrientes de daí para Buenos Airi e agora todos devem estar no seu devido lugar.

O Karlos [Leiman] e o Fritz não vieram para cá. O Fritz não vem mais e sobre o Karlos a gente não sabe, se ele vem ou não. E como à senhora Leiman está bem, o que ninguém esperava que ela viesse a sarar, mas a quem não está designado a morrer nada acontece. Podem as pessoas pensar o que quiser.

Hoje teve novamente um funeral no Rio Novo. Desta vez foi o velho Butlers. Fazia dois anos que ele tinha dificuldade em caminhar e agora o Butler fica mais sem a preocupação do pai aqui sozinho.

Na próxima segunda feira será a Festa de Aniversário da Igreja, mas o Inkis não vira. Bem por hoje chega.

O Viktors [Victor Stavirski , filho de Etienne Staviarski diretor da Empresa de Colonização Grão Pará, estudava no mesmo Colégio Batista] trouxe os Prospectos e por eles obrigado. O Victors disse que mandasse lembranças, mas arranjamos algumas coisas para mandar por ele. Ele diz que você e ele são grandes amigos.

E que você está muito bem. Aqueles colarinhos acho que deverão servir. Nós, os rematamos num Bazar da Igreja, as cinco peças.

Agora tu sabes deves escrever bastante. Daqui uns tempos teremos que pedir para você compre cordas para os violinos que estão quase no fim.

Não tenho mais tempo para escrever mais nada.

Com lembranças de todos – Olga
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Ele é malandro demais. | De Lucia e Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Duas cartas no mesmo papel

Rio Novo 17 de fevereiro
Querido irmão!!
Primeiramente envio muitas lembranças. Nós todos estamos com saúde, somente a mãe reclama que doem as pernas.
O tempo está chuvoso. Ontem houve um grande temporal e o vento vinha de cima [noroeste, lado das Serras] e quebrou muito milho na roça do lado de cá do mato e na roça do outro lado do mato o milho estava muito altos, quase 4 metros de altura e agora estava começando a pendoar. Não sabemos o que aconteceu na Bukovina,[no outro lado, através da mata, atrás do Kasbuck] pois hoje nós não fomos lá.
Hoje passamos o dia plantando feijão e se tudo correr bem esta semana, vamos terminar.
A nossa Zebra tem um cavalinho novo e ele já tem 4 meses. Ele é marrom escuro, com a testa e as pernas brancas. Ele é malandro demais. Só quer brincar. Quer arrancar todo que botão da roupa da gente. Ele se chama “Sírio” e é um nome que os árabes dão a uma raça de cavalos muito velozes. Quando você vier para casa, já, poderá montar.
Este ano vamos ter muitas melancias, mas ainda não estão maduras. Você consegue melancias para comer?
Já colhemos a batata inglesa, pois ele cresceu muito bem este ano. Já vendemos 3 sacos e amanhã vamos levar mais um. Os homens das Vendas estão pagando 7$ por saca.
Junto com esta carta estaremos mandando calças e tudo que vai junto costurado à mão é serviço meu. Em troca eu quero que você mande cordas para o meu violino. Já poderia ter aprendido a tocar, mas devido ao medo de ao afinar, ocasionar o rompimento de alguma corda que infelizmente terminou acontecendo. O meu arco também é muito velho, mas eu vou tentar fazer um novo. Se não conseguir terei que procurar algum especialista para que este o faça.
Você já aprendeu a tocar piano? Estás aprendendo com quem? Quem está pagando estas aulas?
Você mandou algum alfaiate fazer as tuas roupas de lã?
Tens comido muito mamão? Aqui nós não temos mamões. Laranjas, ainda têm em algumas laranjeiras. As uvas este ano foram muito boas, bem melhores que ano passado.
Bem, desta vez chega, quando vier a resposta, eu escrevo mais. Eu acho que vais conseguir ler.
Muitas lembranças de todos de casa. Lusija.

(Escrito no mesmo papel)
– Neste pacote você vai receber muita mercadoria. – E você como sendo seu próprio alfaiate poderá refazer o que não estiver certo. Pois, para nós, sem as medidas atuais fica difícil. As calças, você poderá soltar a barra se tiveres crescido muito. Se teus colegas começarem, a perturbar por causa da tua roupa, você diz que é a moda que está em voga em Sta. Catarina ou é “Moda do Rio Novo”. Nós aceitamos figurinos de lá, pois não sabemos se a moda lá é de calças largas em baixo e estreitas em cima. Nós de lá, não sabemos nada. O tecido para uma calça custa 6$800, para camisa 11$000, Meias 1$800 o par, colarinhos $500, gravata vermelha 700, agora como grande sabichão, você pode calcular quanto isto tudo custaria, sem calcular os forros e botões. Você poderia aproveitar os dias livres das férias e confeccionar tudo isso na moda de lá. Bem se alguém não gostar que não olhe.
Hoje não vou escrever mais nada, pois podes estar exausto de ler os “manuscriptos” e na semana passada eu já mandei uma carta.
As tuas todas foram recebidas. Viva com saúde. Com saudações. – Olga.