Os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Observação em português no original]

Rio Novo, 8 de setembro de 1918

Querido Reinold!!

Envio muitas lembranças. Sexta-feira, dia 6 de setembro, o Arnolds [Leiman], voltando da cidade, deixou preso, enfiado entre os sarrafos da porteira da entrada de nossa casa, um rolo de jornais; enrolada entre eles estava uma carta, pela qual agradeço. Tinha demorado mais de um mês, mas enfim chegou.

Hoje fomos nos Leimann, e a senhora Leiman também entregou uma carta escrita em 24-8-18, em brasileiro, que o próprio Arnolds tinha trazido na sexta-feira. Esta veio muito rápido. A senhora Leiman tinha ficado feliz, achando que a carta era do filho Karl, que faz muito tempo que não escreve. Mas não era.

Chegou a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa.

Bem, agora preciso responder as duas cartas. Há três semanas escrevi uma longa carta registrada e é possível que já tenhas recebido, pois nela contei todas as novidades daqui. Das cartas sumidas nem notícia, e acho que estão perdidas para sempre.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Ficamos muito alegres em saber que também estás passando bem. Estamos todos com saúde; ficar doente não está na moda e também por falta absoluta de tempo, pois serviço a gente tem demais.

A época do plantio chegou. A derrubada da mata daquela parte perto da casa terminamos, como já escrevi. Aproveitamos para derrubar o capoeirão que ficava junto do lado da mata e o Enoz [Ernesto Grüntal] derrubou a capoeira do lado dele, assim vai ser uma grande queimada e uma grande coivara.

Plantamos 1500 pés de cana de açúcar e 2000 de rama de mandioca. Agora estamos capinando aquela coivara do ano anterior, perto da ponte, e está quase no fim. Lá vamos plantar o milho de cedo, onde mais tarde vamos plantar [intercalado ou consorciado] feijão.

Outras coisas não temos começado ainda a plantar, porque o tempo está tão seco e a terra tão dura que se torna difícil fazer uma simples cova. Já vai fazer um mês que não chove uma chuva de verdade. Fica nublado freqüentemente, mas não chove nada e quando começa já para. Todo o capim e as samambaias estão totalmente secos. Se por acaso pegar fogo, parece pólvora; se ainda houver vento, apagar nem pensar. Na nossa propriedade não aconteceu de pegar fogo em nada, mas no domingo passado teve outra vez uma tempestade de fogo.

A atmosfera está extremamente seca, esfumaçada e um clima pesado. Soprava aquele vento quente do lado da serra e se aprontava para uma tempestade com ventania e trovoadas. Quando estávamos voltando da igreja [na casa dos Leiman] estava queimando alguma coisa lá para os lado do Rodeio das Antas, mas parecia muito longe — e também estavam queimando as matas dos Klavin. Mas, quando chegamos na altura dos Grunski o vento estava trazendo fumaça e um calor que parecia uma sauna.

Mais tarde, quando escureceu, roncava trovoada por todos os lados e o vento parou, e parecia que fosse cair aquela tormenta de chuva. A noite estava por demais escura. Era a noite em que a Igreja do Rio Novo estava festejando a Festa da Colheita [Ação de graças], e as pessoas iam descendo como que seguindo um fio, pois não se enxergava absolutamente nada. A chuva começou, mas logo parou. Durante o anoitecer o morro dos Leepkaln estava já um pouco iluminado pelo fogo, mas lá pelas dez ou onze horas ficou tão iluminado que parecia que o fogo estivesse aí mais perto. Voltou soprar um vento forte que trazia redemoinhos de fumaça, e a trovoada continuando.

O pessoal que estava na Igreja do Rio Novo passava correndo para as suas casas. Aquele fogaréu era nas samambaias do João Leepkaln, e daí subiu para as colônias do velho Indrikson, depois para a do Grunski.

O povo que estava tentando apagar gritava e urrava, alertando e tentando flanquear a frente de fogo. Mais tarde começou a chover e apagou tudo, e se não fosse assim não sei onde teria terminado.

Queimou a maior parte das terras do Leepkaln e chegou mesmo a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa, mas aí os vizinhos e outras pessoas conseguiram apagar.

A partir de agora se o governo descobrir quem são as pessoas que põem fogo por aí, é cadeia na certa — ou terão que pagar pesadas multas. Neste caso foram alguns rapazes brasileiros que resolveram por fogo nas samambaias secas. Agora com estas ameaças do governo acho que eles vão ficar mais temerosos.

Como já escrevi na outra carta, passamos pelos tempos [das medições] dos agrimensores: agora está tudo medido e pago. Este ano foi tudo bem, porque não tivemos que pagar ninguém para ajudar. Pessoas para ajudar [voluntariamente] havia bastante: dos Karkle o Velho e o Karlis, o Enoz, Papai e o Puisse e mais o Joaquim Flontim, que agora mora na casa do velho Balod. Agora ele comprou o terreno que fica perto daquele do Frischembruder, portanto faz divisa com o nosso: agora é nosso vizinho. Por isso mesmo ele ajudou a medir, porque assim ficou sabendo direito onde estão as extremas [divisas]. Ele mesmo é brasileiro, mas é casado com uma alemã de Orleans, filha do velho Jung.

Do lado dos agrimensores eram quatro ao todo: três brasileiros e o Hermans Hilberts, que é o responsável, pois ele dá o início e deixa para os outros o trabalho de abrir a picada, assentar os aparelhos e puxar as correntes. Ele fica só com os cálculos.

O pagamento também não é por dia e sim por metro. Por mil metros o preço é 10$000 réis; se medem bastante ganham bastante, e se medem menos ganham menos. Se passarem o dia inteiro e nada medirem, não será pago nada.

O pagamento de nossa parte foi a meia com o Karklis, e a nossa parte deu 12$600 Réis. Para o diretor [da Empresa Colonizadora Grão Pará] pagamos o que faltava para a quitação final, que era 116$000 réis.

Agora as terras estão muito caras, 0$35 a braça [quadrada], e para aqueles que não pagaram regularmente todo ano foram estabelecidos novos preços. Já foram os tempos em que cada um fazia o que queria. Agora se um não consegue pagar, é passado para outro que quer trabalhar. Este ano novamente os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram e ficam acocorados nas suas benfeitorias [palavra escrita em português no original].

A senhora Karkle teve a honra de engordar os agrimensores. Ela dava o “broukast” [café da manhã reforçado] e o Karlis e o Ernests levavam o “pusdienu” [“janta” do meio-dia] para o nosso rancho na Bukuvina, onde era ponto do almoço. Para nós sobrou a “vakarinhas” [ceia da noite] e o pernoite, e algumas vezes o café da manhã.

Ocorreram diversas mudanças em nossa colônia. O magnífico Firmanis Peteris logo vem para morar no fim da estrada do Grikis, naquela capoeira do Limors, e vai construir uma casa nova. A madeira já trouxe e logo vai começar a construção.

Também o genro do velho Geda, com sua Leni, foram para a sua propriedade nos fundos, e lá moram como se fossem realmente brasileiros.

Também a senhora Sanerip veio de Campinas [Araranguá] para morar aqui. Ela comprou dois terrenos do Bekeris, e assim uma família leta a mais.

Mas também o Matiss e o pessoal dele foram para São Paulo. E ainda o Juris Klavin foi para Nova Odessa, com aqueles imensos salários ganhar!

Agora as passagens de navio estão extremamente caras, porque os navios que saem de Imbituba tem somente primeira classe, e esta dizem que custa mais de 90$000.

Você durante as férias virá para casa? Se outros navios tivessem a terceira classe, como antigamente, por 50$000 Réis, até não custaria tanto. Mas, agora quase 200$000 Réis de ida e volta e mais a parte de trem.

Você diz que vai procurar lugar para ficar, mas será que vais encontrar? E se conseguir um lugar para ficar vai precisar ganhar para o sustento; será que vale a pena? O Ludis tem escrito e convidado para passar as férias com ele? Quem sabe fosse mais fácil. O que o Victor te escreve? Poderias escrever mais sobre os parentes de São Paulo.

Tens recebido cartas do Arthur Leiman? Na última ele reclamava que fazia seis meses que estava prá lá [na Argentina] e não tinha recebido nenhuma carta dos rapazes do Klavin. E do Rio Novo também nada sabia. Tu sabes por onde anda o Karlis Salit e se está vivo? O pessoal de Rio Novo alardeava que ele estava preso ou enforcado. Certo ninguém sabe. Tens escrito para o Karlis Leiman? A senhora Leiman disse que você teria escrito para ele diversas vezes e, como não tinha recebido respostas, deixara de escrever.

Os Leiman estão bem e vivem como sempre. Construíram novo paiol e até Papai também foi ajudar a levantar. Agora o Robert [Klavin] às quartas-feiras nos ensina a cantar, mas ele não tem a desenvoltura do Arthur [Leiman].

Desta vez chega, noutra vez tem mais. Esperaremos de você longas cartas.

Ainda muitas e amáveis lembranças do Papai, Mamãe, Luzija e do Arthur. Fico sua resposta aguardando,

Olga

Fotos por toda a colônia | Lizete Rose Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 28 de maio de 1917

Querido filho,

Recebemos sua carta, que nos alegrou bastante.

Aqui estamos todos com saúde e trabalhamos o mais que podemos, mas os serviços não têm fim. Arrancamos feijão, quebramos o milho e engordamos os porcos, dos quais quinze agora estão no chiqueiro. De arroz recolhemos mais de doze quartas em todas as roças. Os outros [vizinhos] que plantaram no cedo tiveram colheitas espetaculares.

Nós estamos passando bem, graças a Deus, e estamos felizes que tu também estejas te saindo bem. Como estás em matéria de dinheiro? Estás precisando? Escreva e mandamos o que pudermos. Aqui nós pouca coisa temos vendido: um porco gordo por 44$000 mil réis e 4 latas de mel por 38$00 mil réis; mas dinheiro ainda temos suficiente.

Do tio Ludvig [Rose] não temos notícia, e não sabemos se está ainda vivo, se foi enforcado, fuzilado ou talvez afogado. O Matias e a senhora Burdes espalharam boatos de que ele fora enforcado nove vezes, mas quem está vivo, vive, e quando eles mencionam o tio Ludi, mencionam também você. O Karklin alardeia por todos os cantos que três redações de jornais alemães foram explodidas: do Deutsche Zeitung für S. Paulo [onde era redator o Ludvig], do Germania e do Diário Alemão – e junto com eles o tio Ludi. O Sr. Zeeberg teria contado parte desta história para o tafoneiro1, assinalando que também o Karlis estaria em má situação, pois teria alugado uma pequena casa e viveria à procura de trabalho na companhia de uns negros. Isso ele teria lido em jornais.

O Fahter2, quando recebeu as fotos do tio Ludi, andou mostrando-as por toda colônia, começando pelo Sr. Butler e terminando pelos estonianos de Orleans. Mencionou também o seu nome, pois também estivestes em São Paulo. Tudo isso causou aqui muita inveja, porquê:
1) O tio Ludi tem uma alta posição;
2) Tu também tiveste alguma vantagem, sendo íntimo do tio.
[Por isso] agora sempre apareces como motivo de conversa.

O Butler está escrevendo cartas para o Father enviar ao Ludi, mas o assunto eu não sei.

Ainda muitas lembranças nossas e as bênçãos de Deus, do Papai de da Mamãe3.

* * *

1. Tafoneiro. Moleiro, aquele mói grãos de cereais (na tafona/moinho) para fazer farinha.
2. Fahter. “Pai”. Seria Jahnis Purim, meu avô, ou o pai do Ludvig (e da autora da carta), Jekabs Rose? Provavelmente o Jekabs Rose, pois o Jahnis Purins não iria pedir para o Prof. Butler escrever nenhuma carta.
3. Do papai e da mamãe. Escrita pela mãe, Lizete Rose Purim.

O Museo Nacional | Robert Klavin a Reynaldo Purim

28-V-17
A.B. [Antunes Braga]

Ao muito confiável amigo Reinhold, Rio de Janeiro

As tuas cartas recebi na quarta-feira. A primeira foi aquela que tinha uma para mim, uma para o Arthur [Purim] e uma para os seus pais, as quais imediatamente distribuí. O engraçado é que agora que eu tinha uma carta sua na mão esta deveria ser uma longa carta — E uma outra, escrita no dia 12-V, que recebi hoje e pela qual agradeço.

Alegro-me bastante, pois fiquei sabendo que estás passando bastante bem nos estudos e tens tirado boas notas.

Receba da Escola Dominical de Rio Laranjeiras muitas lembranças; eles nunca te esquecem, mas sempre perguntam se estás passando bem e aí e conto a todos das novidades e dos teus sucessos. O número de alunos é mais ou menos o mesmo, mas alguns que tem faltado não puderam ser visitados. Agora, por solicitação deles, todo domingo depois dos trabalhos normais da Escola Dominical nós lemos a lição do próximo domingo e é decorado o texto áureo – então podes ver que não sobra tempo para mais nada.

Três dos nossos alunos estão aprendendo a ler e escrever: Margarida, Augusta e José da Silva. Eu tenho ido regularmente e poucas vezes tenho falhado. A Sra. Kolegene tem se aprontado e prometido visitar o pessoal de Rio Laranjeiras há mais de dois meses, mas não foi por falta de companhia. A Isolina prometeu ir junto no Dia da Ascensão do Senhor; era para ter ido, mas daí surgiu uma dor de dentes que não permitiu, ficando assim para outra ocasião.

A “calça larga” [“moça”, pejorativo] do Slengmann esteve lá algumas vezes, mas depois saíram umas conversas desagradáveis por parte de alguns rapazes que começaram a contar vantagens. Depois de tudo investigado nada foi confirmado, mas causou muita tristeza e muitas lágrimas à pobre moça.

Aquela gente é muito unida; em qualquer caso, quando alguma coisa diferente aparece ou não dá certo, serão todas as condições avaliadas e naturalmente opiniões diversas surgirão – que deverão ser totalmente esclarecidas para que não paire nenhuma dúvida em nenhum componente do grupo.

Sobre o caso do Artur Paegle, a igreja nada pôde fazer, porque em 1912 a igreja em Pedras Grandes discutiu e deliberou que quando um membro da igreja se casar com um de fora não será reconhecido, mas também não será excluído como é praxe nas Igrejas Letas. O Arthur Leimann teria estado presente nessas deliberações mas não se lembra deste detalhe, e acha que alguma coisa teria sido alterada – mas assim mesmo ele não pôde ser disciplinado ou excluído.

No primeiro domingo deste mês, na igreja em Orleans, foi apresentado o novo casal, Artur Paegle e Frida Hilbert – e anunciado que a outra filha menor da Eeda também vai casar. Também ontem no Rio Novo noivaram o Osvaldo Auras e sua “gorda” [Emile Frischembruder].

Sobre o Rio Novo sei muito pouco. Agora na Escola regular o professor é o João Frischembruder, de Riga. Num trabalho muito esforçado, durante as aulas nos dias de semana, ele já organizou duas apresentações de trabalhos feitos pelos próprios alunos tendo em vista o desenvolvimento cultural deles – dando ênfase a saúde, higiene, comportamento responsável, correto e irrepreensível, etc.

Eu já queria ter escrito recomendando que você visitasse o “Museo Nacional”, sobre qual tenho lido bastante e que tem muita coisa interessante; agora soube que você já foi, e fico feliz que tenha aproveitado bastante.

No dia da Ascensão do Senhor o Arthur Leimann e o Avelino foram visitar o Leonardo lá no Rio Importe. Ele mora bem perto das serras, é bem o último morador antes das serras. Eles gastaram quatro horas a cavalo do Rodeio do Assucar até lá, isso avançando bem rápido pelos vales e pelos morros afora.

Quanto ao Rodeio do Assucar, nada importante há para ser assinalado: tudo correndo na melhor ordem. No domingo passado foi feita uma coleta que rendeu 10$000 para ser enviada ao Jornal Batista, para que seja distribuído gratuitamente nas cadeias. Outros deverão mandar mais 10$000 depois.

O Arthurs [Leiman] está as noites ensinado hinos brasileiros. A senhora Kolegeene ficou tão entusiasmada que encomendou da S.S.S. inglesa um hinário com notas.

Muitas lembranças de meus pais.

Que Deus o ajude a ser bem-sucedido, a seguir em frente com bons resultados em todas as atividades.

Também lembranças minhas.

Seu amigo Roberts [Klavin]



A grande revolta | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 27 de maio de 1917

Querido Reini!

Na semana passada, no dia 24 de maio, recebi sua carta que você mandou em nome do Roberto [Klavin]. Muito obrigado por ela. Ainda não tinha escrito a resposta porque não tinha ninguém que fosse a Orleans para levá-la até os Correios.

Hoje fui ao culto na casa dos Leimann e recebi A Folha da Moda e mais uma carta sua. Agora tenho, em vez de responder uma, que responder duas cartas suas. A carta do Klavin já devolvi.

Naquela primeira carta você pergunta se recebemos todas cartas. Você menciona que teria mandado uma longa carta para o papai, e esta ainda não foi vista. As outras todas foram recebidas. Essa que falta deve ter caído na unha de algum rionovense daqueles, então nunca mais a veremos. Eu já recomendei à encarregada do Correio para não entregar nossa correspondência a mais ninguém, mas nem sempre ela está lá e talvez algum outro entregue a qualquer um.

Sabe, os rionovenses vivem extremamente curiosos para saber o que está escrito em tuas cartas. Eles “sabem” que você está muito mal e que ainda nem chegou ao Rio de Janeiro, mas ficou em São Paulo com o Ludi. Agora o Ludis está na prisão, por ter sido o causador da grande revolta, e você estava junto. O Ludis está condenado a morte e ninguém sabe o que vai acontecer com você. Só sabem que não é nada bom.

Você pode mandar as cartas no rolo junto com os jornais e registradas, ou no nome do Roberto Klavin. Aquelas Folhas da Moda você não precisa assinar mais, pois quase não temos tempo para ler e trabalhos manuais elas não tem.

Agora estou passando muito bem. Você pergunta se já tivemos geadas. No dia 11 de maio teve uma grande geada aí para baixo, mas aqui em casa ainda não deu. Para os outros trouxe grande prejuízo, pois matou todo feijão. Tem italianos que perderam um saco de plantas, pois faz tempo que não geava tão forte e tão cedo.

Do [pessoal da igreja do] Rio Novo não sei de nada bom. Tenho ouvido um boato de que alguns rionovenses querem mandar o professor embora, como já é costume. Mal ele se instala no trabalho e tem gente querendo mandar embora – não entendem que ele é necessário e pode ficar desempregado.

Tu tens encontrado o Karlis? O Seeberg (Zeeberg) diz ter lido em “seu jornal” que o Karlis teria ido ao Rio para procurar emprego, mas não teria conseguido. O Zeeberg só sabe que os outros estão passando mal, mas ele mesmo o Zeeberg não sabe como está passando.

O que você pensa do grande e pretensioso Bruveris, que antes morava com os Ochs agora esta morando com o Zeeberg? Ele anda pela colônia fazendo jacás e balaios e tirando o trabalho do coitado do velho Malvess1. O Bekeris está lascando tabuinhas2 na casa do Seeberg e mora lá também. São muitas bocas para alimentar.

Você escreve que talvez o Ludis apareça por aqui – isso seria bom, ele poderia nos ajudar colher milho e bater feijão, ou será que ele já esqueceu esse tipo de trabalho? Poderíamos conversar em alemão e ainda discutir muitos assuntos (discordando). Ele poderia comer muito feijão e muita carne e ainda as laranjas que já estão ficando doces. Poderia engordar e ficar ainda mais gordo.

O comércio não está comprando feijão e a carne está barata demais, como nunca tinha sido antes. O toucinho está entre 11$500 a 12$000, e se tiver muita carne cai para entre 7$500 a 8$000. A carne tem pouca saída.

Bem, desta vez chega. O envelope estará cheio de papéis.

Com saudações sinceras,

Olga

* * *

1. O velho Malvess. Fritz Malwes chegou ao Rio Novo em 1891. Era pai, entre outros, do conhecido Julio Malwes.
2. Lascando tabuinhas. Para a cobertura de casas. A madeira mais utilizada era o louro (Cordia excelsa).

Corrida às compras | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 29-04-17

Querido Reini,

Muito obrigado pelas cartas. Sexta-feira fui a Orleans e recebi três cartas: a do papai, a da mamãe e a minha própria. Esta última veio muito rápido, pois pelo carimbo já estava em Orleans desde o dia 21 de abril. Trouxe também uma carta tua para o Roberto [Klavin] e um cartão postal para o Arthur [Purim], que eu pude ler. Agora sei como estás passando e como vives. Pensei que esta carta de hoje deveria ser curta, porquê faz só uma semana que mandei uma carta muito, muito longa e depois disso aqui não aconteceu nada importante.

Nós aqui estamos todos bem e com saúde. O tempo está maravilhoso e no domingo passado soprava um vento muito frio. Chegamos a pensar em geadas, mas essas ainda não aconteceram. Porém os dias quentes estão longe para trás. Nas manhãs de neblina a gente já pode congelar. E como está o tempo por lá, está quente ou frio?

Numa das cartas você escreve sobre os rumores do Brasil e a guerra: aqui nada acontece e nada altera a nossa vida. Tudo continua como sempre. Há duas semanas correram rumores ou boatos de que o Brasil teria declarado guerra contra a Alemanha, porque esta teria afundado quatro navios cheios de café com destino a Inglaterra. Depois fiquei sabendo que não era verdade. Aqui o povo tem por moda, quando ouvem qualquer coisa, fazer um estardalhaço tremendo. Não tendo mais navios não haveria mais comércio; nem toucinho conseguiríamos vender, devido à interrupção total da ligação com outros portos. Durante uma semana o único comprador de toucinho foi a venda do Pinho, que através de sua fábrica de banha continuava trabalhando.

Devido a esses boatos [sobre a guerra] houve uma corrida às compras. Todo mundo saiu a comprar, pois com a chegada dos invasores “prussianos” nada mais haveria para ser comprado. Agora voltaram a comprar o toucinho, só que pagando menos, 10$300 a arroba – e agora que voltaram a comprar não querem pagar o preço anterior, mais alto.

Agora correm notícias, através de jornais de Porto Alegre, de que lá houve grandes desordens e que os alemães se comportaram com hostilidade contra os brasileiros em defesa de sua “Faterland”. Também em todo Rio Grande, porque os sócios das Sociedade de Tiro trazem em seus chapéus o emblema da “Deutschland”, brasileiros e italianos teriam se vingado destruindo os grandes estabelecimentos comerciais, metalúrgicas, etc, de propriedade dos alemães.

Dizem que aqui mesmo em Braço do Norte os soldados brasileiros estão vigiando os alemães. Mesmo aqui em Orleans, o Grünfeldt começou a se vangloriar e contar vantagens defendendo os alemães e logo foi ameaçado de levar uma surra. Ele tratou logo de fugir para não terminar na cadeia. Até agora realmente nada de mal aconteceu.

Quanto à Igreja de Rio Novo, nada de novo parece ter acontecido, e nada do que acontece em suas reuniões de negócios eles contam – mas com o passar do tempo eu fico sabendo. Hoje mesmo teve uma longa sessão, na qual o Maisin foi excluído do rol de membros e o Anz foi admitido. Continua a disputa pelos bens do Manemes, pois até o Butler e o Seeberg foram a Tubarão. Não sabemos quantas vezes eles já foram e ou quantas vezes terão ainda que ir. Pois aqueles quatro que vieram de baixo, quando você ainda estava em casa, tiveram que pagar 400$000 de seu próprio bolso.

Quanto a nossa Igreja [do Rodeio do Assucar] nada de novo tem acontecido, tudo velho.

Bem, hoje penso que chega. Você não está precisando de blocos para cartas? Se você quiser posso mandar, pois aqui posso conseguir estes blocos por 1$300, e são bem melhores que os
seus. O papel ai é caro? Como tu te vestes? Você tem com que se vestir (com orgulho)? E o Inkis é orgulhoso? E como é a esposa dele? Há entre os teus professores algum deles que sejam duros? (além do normal)

Desejo a você tudo de bom. Viva saudável.

Com muitas lembranças,

Olga

(Escrito nas laterais)
Se você mesmo lava a sua roupa, não deixe fora no varal durante o tempo em que está na aula, pois a senhora Leiman contou que o Karlis teve as dele roubadas durante o tempo que estava na escola, e por isso você deve ficar atento a essas coisas…

(No outro lado)
Se você quiser saber notícias da guerra pergunte ao “Jurka“1, pois ele sabe mais que todo mundo junto. Nas quartas-feiras ele conta notícias em roldão. A última é que sob a ponte de Laguna (Rio Pratas?) os alemães teriam colocado minas explosivas, para levar tudo pelos ares quando quiserem. Se fosse para escrever tudo que ele conta numa noite só já daria para encher o couro de um boi inteiro. Ele ganha do Ludi de longe; é pena que não tenha como ele uma gráfica…

* * *

1. Jurka. Provavelmente algum Juris; talvez o Juris Klavin.