O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA

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Uma viagem a Urubicy | de Otto Roberto Purim (Artur) para Reynaldo Purim – 1924 –

Rodeio do Assucar, 28 de abril

Querido irmão! Saudações!

Agora desta vez chegou à hora de eu escrever uma carta para ti. A tua faz tempo que a recebi, mas não fiquei conformado, pois ela era muito curta, eu esperava pelo menos duas páginas, mas muito obrigado por ela assim mesmo.

Tu escreves pedindo que eu escreva uma longa carta para você. Mas eu não tenho máquina de escrever, nem material nem tantos assuntos para descrever e nem tempo para tanto. Portanto não espere como pediu aquelas descrições minuciosas [Sihki un smalki] e em ordem cronológica. Vou escrever o que estou fazendo e responder o que você perguntou.

Esta semana batemos [Bater arroz – O arroz era cortado e trazido em feixes para a eira a qual era coberta com um pano grosso (10 x 10 metros). No centro deste lugar era colocada uma caixa com a parte superior gradeada com sarrafos. Apanhando pequenos feixes de hastes do arroz cortado, estes eram batidos nesta grade com a finalidade de despegá-los das hastes. Depois era peneirado para eliminar a palha e outras impurezas e assim estava pronto para ser trazido para o paiol para nos dias subseqüentes ser posto no terreiro para secar. As hastes de arroz serviam para cobrir as ramas de mandioca para proteger da geada] arroz, pois eles já estavam maduros demais. Nós esperávamos você para ajudar-nos. Ainda na semana passada choveu e é por isso que passaram do ponto. Hoje trouxemos duas carradas [Duas viagens de carro de bois] para casa [Desta vez eles bateram o seu arroz no terreiro] e batemos e rendeu 15 quartas [Cada saco de 50 quilos tem 8 quartas ou 2 alqueires] ainda não bem peneirados. O arroz este ano cresceu bem agora no final e os grãos estão muito bonitos. Pena que aquela seca que deu logo que eles foram plantados foi que prejudicou no perfilhamento. Bem devemos aceitar com gratidão, pois muitos nem isso colheram.

Hoje à tarde eu juntei uma quarta [Uma Quarta de alqueire] de pinhões e agora enquanto escrevo esta carta estou comendo pinhões quanto quiser. Lá também tem pinhões? Dizem que nas Serras este ano tem pouco pinhão porquê a geada no tarde, a geada já bem na primavera prejudicou a florada.

Você se interessou muito por tudo sobre as Serras e quer saber como que é por lá. E sobre Urubicy [S 27.59’41,5 “- W 049.38’038”] eu já contei em outra carta. Lá as terras são planas como uma mesa, mas de ambos os lados tem morros bastante altos. O lugar é bastante lindo. As várzeas dos rios estão todas derrubadas, mas por toda parte existem imensas matas fechadas de pinheiros. Campos de pastagens naturais lá não existem. Se derrubar o mato então nasce grama parecida com os dos campos. Os Campos de pastagens naturais estão a 4 horas de viagem.[A pé ou no lombo de mulas]

Dos contrafortes [“Seras kante” –A parte visível da a grande distância mesmo do Rio Novo e outros lugares] da Serras, daqueles que avistamos daqui é caminhada de um dia inteiro até chegar em Urubicy. Explicando melhor logo quando a gente chega no alto dali até o Rio Pelotas são 2 ½ horas de caminhada e lá é considerado o meio do caminho do Rio Novo até Urubicy. [O Arthurs, meu pai contava que devido a viagem ser de 2 dias, eles precisavam pernoitar nas Serras. Como na Serra na beira da trilha não havia fazendas ou qualquer abrigo, eles antes do anoitecer, paravam enquanto havia ainda luz do dia e cada um cortava uma montanha de galhos de vassoura da serra ou vassoura lageana para si e deixava uma condição que pudesse enfiar-se dentro para proteger-se do vento gelado da noite. É claro que para tanto cada um levava o seu facão na cintura. Naturalmente cada um deles levavam também o seu palo ou capa de montaria para se enrolar. O caminho mais usado naquela época era a chamada Serra do Imaruí que passava pela Brusque do Sul- Morro da Palha- Rio Minador- Vaca Moura- Três Barras- não sei se exatamente todas essas localidades e nem se nessa ordem para chegar ao sopé da Serra que para subir levava 2 horas batidas. Eles atravessavam o Rio Pelotas. A chegada em Urubicí era pelo alto rio Urubicí onde hoje o lugar é chamado de “Baiano”. Muito depois no meu tempo, só usávamos para ir Urubicí o caminho chamado Serra do Grão Pará , também com outros nomes como Serra da Forcadinha ou Serra do Morro do Engenheiro, cujo roteiro ficava oeste da atual Serra do Corvo Branco. Mas esta vamos contar em outra ocasião.]

Você quer saber o que faz o Peteris [Peteris Bruvers. Falta confirmar] e o Karlis [Karlis Karkle] e os outros. O Peteris não tem terra própria e ele trabalha em terra arrendada porquê o governo não vende terras para agricultura onde pretende fazer a cidade, mas somente arrenda. Ele está trabalhando em dois lotes, se bem que o governo só arrenda um, mas devido a curva do rio que chegava perto da rua e por isso ele conseguiu os dois. O valor que eles pagam é 2.500 por ano e por cada lote. O Karlis também morava em casa e lote arrendado, mas como ele não fez a vontade do proprietário ele vai ter que sair e ele vai para o lado do Canoas, também em terras arrendadas. Veja você como é a vida de arrendatário.

Onde o Bessa [ Manoel Bessa ] mora eu não sei se é de propriedade dele ou se é arrendada. Ele mora à distância de uma hora de viagem de Urubicy seguindo o rio abaixo. [Rio Canoas] Ele tem uma lavoura muito bonita, a casa dele é de madeira, mas é de dois andares. A esposa dele é costureira. [Schneiderene – Modista] Ele é agente do Ministério da Agricultura, com ele é possível conseguir as mais variadas sementes. Também com ele podem ser encomendadas máquinas e ferramentas e mudas de frutíferas. Ele tem uma trilhadeira muito bonita movida à força manual. O que ele ainda pensa da religião eu não sei porquê naquele tempo que nós tivemos lá ele estava em Desterro. [Ele era conhecido do pessoal da Igreja Batista leta de Rio Novo, pois tinha sido membro tanto ele como a esposa dele a Charlota. Era morador da cidade de Tubarão e muito bem relacionado com os letos. Em uma sessão regular da Igreja em Rio Novo em 24/11/1912 ele chegou a fazer uma comunicação que tinha entrado em contacto com o Seminário Batista do Sul do Brasil no Rio de Janeiro onde faria o treinamento para ser considerado pastor e a Igreja aprovou por unanimidade.] sei porquê naquele tempo que nós tivemos lá ele estava. Era esperado para chegar em casa por aqueles dias, mas não chegou. Para ele ir até Desterro, ele leva 4 dias de viagem.

[Sobre Manoel Bessa ainda persiste uma dúvida: No excelente livro “Urubici e Suas Belezas Naturais” é mencionado como nascido em 08 de janeiro de 1898 como em 1911 ele já casado com Carlota Costa Bessa (13 anos) então se percebe uma não conformidade e não só esta. Em 1912 ele pede Carta de Transferência e passa para a nova Igreja Batista de Pedras Grandes continuando morar em Tubarão. Ele era conhecido e admirado pelo meu pai e outros da Comunidade tanto é que meu pai na primeira viagem a Urubici tentou contacta-lo].

Não muito longe de Urubicy moram ainda outros compatriotas letos. Da família Kusemitsch o Martschus e o Saschu e ainda a família de um tal de Guba. Nenhum destes senhores eu não tive a chance de conhecê-los e nem sei direito para que lado eles moram. O Fritz Feldberg mora bem perto da atafona [Moinho para moer trigo e milho] do Gustis.[Gustavo Gricht] Quando o Gustis vem para o Rio Novo quem fica de moleiro e serrador, é o Fritz. O Gustis esteve na Páscoa em Rio Novo e depois voltou para cima. Na realidade ele mudou para cima já no começo do ano. Na Festa do Verão [Pentecostes] ele vai descer novamente para o Rio Novo com uma tropa de 10 mulas para trazer de lá ferragens e outras coisas. Ele vai pagar de aluguel 15$000 por mula para esta viagem. A terra dele aqui em Rio Novo ele vendeu para um italiano por 7 mil incluindo um arado e uma vaca nova. As demais ferramentas e ferragens ele vendeu em Orleans para o Hammerschmitd por 2:000$.

O Gustis elogia demais Urubicy e a região. Diz que é tão boa que melhor não se pode querer. As lavouras crescem maravilhosas e trabalhando, pode-se ganhar muito. Diz que pode ganhar até 10$ por dia com a moagem. Depois de ter tomado muito rápido a sopa quente, a solução é elogiar.
Desta vez acho que chega e não tem mais nada importante para escrever. Nenhuma outra viagem foi feita por isso não tenho mais nada para escrever. Agora aqui está chovendo bastante, mas não muito forte. Na noite do Domingo passado houve uma tempestade com uma ventania que passou derrubando o mundo inteiro. Aqui perto de nossa fábrica [Engenho de farinha de mandioca] tinha um tronco seco de uma grande canela. O vento derrubou esta árvore com raízes e tudo e caiu em cima da cerca de arame e arrebentou os 4 fios.

Para o feijão a chuva também é demais, em muitos lugares as vagens estão apodrecendo e os grãos pistolando. Na outra casa [no Rio Novo] o novo quintal já faz tempo que está pronto e está quase todo ocupado com o feijão que nos plantamos. Foi 6 ½ litros de feijão preto, 3 ½ de feijão manteiga, 1 ½ quarta de batata inglesa e ainda sobrou uma grande parte para plantar repolhos. No mês de janeiro eu encomendei sementes de repolho e outras de Minas Gerais e faz tempo que já chegaram e algumas já foram semeadas e então vamos ver o que vai dar. Os rabanetes já estão crescidos e no domingo passado nos já fizemos uma salada e estão deliciosos.

Esta carta eu comecei na semana passada e só terminei nesta. Não pode ser antes devido ao muito trabalho. Durante o dia nos cortávamos o arroz e noite nós batíamos e ainda bem que está tudo terminado. Rendeu 12 sacos. Agora nós os estamos peneirando e hoje nós ventilamos 5 ½ sacos. Agora você deve vir para casa comer arroz. Se bem que você não veio ajudar a cortar e bater pelo menos venha para comer.

Bem chega, já foi suficiente escrito. Se você escrevesse cartas longas como eu tenho pedido, então valeria a pena-me procurar e escrever mais alguma coisa. Mas você só escreve meia página e manda para cá. E ainda manuscrita.

Escreva uma carta bem longa com pelo menos 2-3 páginas. Descreva tudo minuciosamente.

Com lembranças Artur

Rodeio do Assúcar 6 de maio [Data do termino da carta]

[Escrito na lateral].
Espero que com esta carta você esteja realmente satisfeito.

Que a Paz e a Misericórdia de Deus esteja contigo!! | De Lilija Purens para Reynaldo Purim – 1923 –

Faz. Areias 20/11/1923

[Próximo à Nova Odessa SP]

Que a Paz e a Misericórdia de Deus esteja contigo!!!

Querido primo! Saudações!

Como os outros o Paulo Kalupnieks vai viajar amanhã de volta para a escola, então junto com ele, quero mandar para você uma pequena carta, se bem que muito não poderei escrever porquê já é muito tarde, então ficarei restrita a poucas palavras.

Graças ao amado Deus nós estamos passando razoavelmente bem, tanto espiritualmente, como na área material. Estamos sãos, todos trabalhando cada um na sua área. O verão está chegando. Logo vai começar o corte do arroz e logo em seguida a colheita do algodão. Quando a gente está trabalhando o tempo passa que a gente nem percebe.

Aos domingos são realizados cultos e o pequeno coro canta. Se bem que sejamos poucos os que cantam e nem as nossas vozes são aquelas especiais, nós cantamos para honra e louvor ao Nosso Senhor.

Hoje a noite teve uma pequena reunião de apresentações e mais adiante na Páscoa vamos organizar uma outra reunião destas na casa do Pastor irmão Kraul e sem a presença dele os trabalhos se tornam um tanto monótonos. Você o conhece?

Bem hoje eu não posso escrever muito porquê está muito tarde. Então aceite muitas lembranças do Papa, da Mama, da Vilma, da Melania, do Teovils, do Vovô e minhas amáveis saudações.

Tua Prima Lilia.

[ESTA É A ÚLTIMA CARTA DE 1923]
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E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar 20 de junho de 1923

 

Querido Reini: Saudações!

 

Então agora tenho que começar a responder a tua carta escrita no dia 25 de maio, qual há mais de uma semana já está comigo. Muito obrigada. A tua carta escrita no dia 30 de abril não chegou e é bem provável que tenha se perdido por ai.. O que escrever eu tenho muita coisa, o problema é com que devo começar e onde terminar.

 

Na carta passada eu te convidei para vir ajudar fazer farinha de mandioca, então a chuva foi pouca e também tu não vieste então para as tuas festas também não iremos. Entre as guloseimas que você oferece estão o feijão, arroz e a farinha, quais nós aqui temos e bastante para comer a vontade e é provável que os nossos sejam melhores e ainda com a vantagem que não é necessário pagar. Aqui a farinha e o feijão estão com os preços muito altos e estes nós temos o suficiente. A farinha vale 13$000 a 14$000, a saca e o feijão está a 16$000. Feijão nós não temos para vender, mas somente para o gasto. Esta safra nós plantamos pouco porque elas dão muito trabalho e a gente não consegue fazer tudo. Este ano foi muito ruim para o feijão, pois no dia 13 de maio começou soprar um vento muito frio e nas manhãs dos dias 14 e 15 de maio amanheceram brancos com fortes geadas e quem tivesse o feijão ainda verde ficou inteiramente destruído. Para onde se olhasse estava tudo branco. Nos outros anos nunca as geadas aconteceram tão cedo. Este ano a primeira foi no dia 9 de maio, mas esta foi pequena.

Os profetas de plantão fizeram as suas previsões que indicavam um inverno muito rigoroso neste ano, mas parece que eles andaram falhando. Pois depois deste dia não me lembro um só dia que não estivesse chovendo ou pelo menos nublado. Nenhum dia depois das geadas amanheceu com tempo bom e o que tem chovido faz muito tempo que não tinha visto tempo igual. Desde a semana passada nem por uma hora apareceu o sol. Logo depois da Festa do Verão [Pentecostes] naquela semana houve as grandes inundações. Choveu duas noites e dois dias sem parar e os rios tornaram-se assustadores. Na ponte da Estrada de Ferro em Orleans faltou ½ metro d’água para chegar no nível dos trilhos da Estrada de Ferro. Na casa do Grüntall lá perto da Estação Ferroviária [Este bairro chamava-se Campos Elíseos] a água chegou ao nível das janelas e a ponte do final do Rio Novo [Na foz do Rio Novo] a água levou embora. Não era possível chegar em Orleans. Também a viagem de trem para Laguna ficou prejudicada, pois a linha férrea ficou interrompida em dois ou três lugares. A locomotiva que estava aqui em cima levava os passageiros e as cargas até depois da Estação de Pedras Grandes e daí um trecho a pé, em seguida tomava-se outro trem, outro trecho e assim por diante e na volta vice versa. Muitos prejuízos também para os tafoneiros que tiveram os seus açudes e represas destruídos pela força das águas. Até aqui no nosso pequeno riozinho ficou tão cheio que a noite a gente escutava o urro lá de casa. Por pouco a nossa represa também não foi embora. Cercas inteiras foram arrastadas, que nem os palanques ficaram. Nós além de mantermos a eclusa totalmente aberta e ainda tendo retirado mais algumas tábuas para facilitar a fúria da correnteza parecia que ela ia embora. Na noite do dia 24 a chuva mais parecia um dilúvio  e o ronco da água no rio dava até medo. O Arthurs [Purim]  enfrentando a noite escura e tenebrosa, foi até o açude que estava transbordando com uma lâmina de mais de 1 metro d água. Ele se aproximou, o mais que pode e conseguiu despregar mais algumas tábuas aliviando assim a pressão. Mais tarde no meio da noite a chuva amainou salvando assim o nosso pequeno açude. Na outra semana  repetiram-se os mesmos temporais e senão maiores foram pelo menos iguais. Mas assim mesmo chove sem parar. Hoje amanheceu um sol forte e quente  e agora chove novamente e imagine só a tremenda lamaceira que está tudo por aqui que chega nos deixar desanimados [deprimidos] porque o feijão e o milho estão apodrecendo nas roças e este ano vai dar menos. O preço já está a 10$000 a saca e no ano passado quando nós precisávamos comprar um pouco de milho em espigas custava 4$000 e logo que os brasileiros souberam que nós estávamos comprando vieram oferecer a 3$000, mas este ano ninguém tem nada para oferecer. A farinha de mandioca no ano passado estava a 5$000 a 6$000 a saca, mas chegando para o fim do ano já passou para 10$000 e agora estão já estão pagando mais de 15$000. Para o lado de Mãe Luzia também todas colheitas foram perdidas devido a estas grandes inundações. Nós este ano já fizemos 24 sacas de farinha de mandioca e temos muitas roças de mandioca mais velhas de 3 anos para arrancar. Até semana passada estávamos com o engenho em funcionamento, mas tivemos que parar porque sem sol não conseguimos secar o polvilho e os cochos estão todos cheios de polvilho molhado aguardando o sol para secar. Estas mandiocas mais velhas dão muito polvilho. Agora estamos emprestando o Engenho para os vizinhos brasileiros. Todos que tem alguma mandioca querem é fazer farinha. Os Klavim fizeram a farinha deles na época das grandes inundações e rendeu 35 sacas. Até o Jurka veio de Nova Odessa para ajudar e foi aquela festa. Já foi embora na semana passada e com ele o Harrys do Augusto Felberg, pois o Frantzis do Limor [Lövenstein] tinha mandado dinheiro para a passagem e ele precisa gente para trabalhar para ele em S.P.

Na semana passada foi construída a nova ponte na foz do Rio Novo.[Esta ponte fica na barra do Rio Novo um pouco antes deste rio entrar no Rio Tubarão, bem próximo ao antigo “paredão” que nada tem com o Paredão onde estão as esculturas do Zéca Diabo.] Os colonos queriam que o governo pagasse, mas qual nada.  Tiveram os próprios colonos com ajuda dos donos das Vendas de Orleans entrar com a mão de obra, cimento, ferro, madeiras, pregos etc. e fazer tudo sem ajuda nenhuma do governo. Desta vez fizeram com as ferragens chumbadas tanto no concreto como nas madeiras e tem certeza que inundação nenhuma vai conseguir levar esta nova ponte.

Nós te convidamos para vir para a primeira festa das músicas, mas nada, parece que tens esquecido ou desaprendido tocar o violino. Foram apresentadas músicas de todas variedades: foram tocados instrumentos de sopro, harmoniun, violas e violinos, guitarras e até cítaras. Todos coros cantaram; primeiro foi o coro da Igreja, depois o coro dos Jovens, o coro dos Homens, e o coro das vozes Femininas. Depois o quarteto de vozes masculinas com o Osvald, [Auras] Emils, [Anderman] Aleksis, [Klavin] e o Jahnis [Seeberg]. Marcou muito, agradou mesmo foi um solo pelo Aleksis acompanhado pelo Emils no harmonium. O Emils também se sobressai no violino e toca muito diferentemente dos rapazes daqui. O tempo, aquele dia, estava maravilhoso e veio muita gente. Havia visitantes de todas partes inclusive de Mãe Luzia. Quem dirigiu foi o Emils e o estilo foi bem segundo o capricho da senhora Anderman, isto é do modo que ela aprecia. Todos gostaram tanto da festa que embora sendo a primeira, espera-se que não seja a única.

 

Pois é, já tenho escrito bastante, entretanto não seria necessário, pois seria suficiente colocar as nove páginas que chegaram do “deserto”, [Palma, Varpa, Tupã SP] do tio Jehkabs, da prima Alma e a terceira carta da prima Lilija. Demora bem um meio dia para ler e assimilar todas as informações trazidas nestas cartas. Eles tem recebido todas as nossas cartas e logo se apressaram-se em responder. A Lilija é muito corajosa, pois conta tudo como realmente é e assim mostrando toda a verdade. Gente como ela é difícil encontrar por aqui.

 E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, pois sabiam que ainda estavas lá. Ficaram atentas para ver se alguma pessoa tinha vindo que estaria perguntando pelos Purens, mas ninguém. Ficaram muito decepcionados e é com os corações muito tristes e pesados, o navio saiu da barra do Rio de Janeiro em direção de São Paulo noutro dia pela manhã. Quando chegaram em São Paulo souberam que nos morávamos longe ao sul em Rio Novo. Mas onde era esse Rio Novo elas não sabiam. As meninas quando saíram da Europa tinham como único interesse era vir para junto dos parentes e do “deserto” nada queriam saber. Mas assim mesmo ficaram maravilhadas com os magníficos parques cheios de muitas palmeiras e outras coisas lindas na cidade de São Paulo. Mas depois da longa viagem a chegada em Sapezal, [Estação da Alta Sorocabana, perto de Paraguassu Paulista] a mata espessa, a abandonada estação da estrada de ferro, os sujos casebres e tão desagradáveis a vista habitados pelos brasileiros relaxados e em seguida o longo e tortuoso e péssimo caminho para a Colônia. Foi demais…  Vieram as lágrimas em profusão… Quando chegaram derrubaram a mata da área comum e três semanas puseram fogo na coivara e agora o milho já está madurando na roça.. Também plantaram repolhos, nabos, batatas, mamões e bananas. A Lilija pergunta para a Lucija para que ela escreveu se aqui no Rio Novo tem bananas e mamões. E se tem rosas e georginas [ dálias etc]. Parece que eles já tiveram a chance de provar bananas alguma vez. Agora eles estão roçando as matas e os agrimensores estão a fazer o sorteio para cada um saber qual vai ser a sua gleba definitiva.. A Alma também comenta que o ambiente é bastante opressivo em uma época que na Letônia é primavera e a natureza lá explode em flores e a Lakstigala [Lakstigala – Pequeno pássaro típico da Letônia – Espécie de rouxinol] canta aquelas melodias maravilhosos enchendo o ar de alegria, aqui ela com a foice na mão, abafada dentro da mata fica a ouvir o marulhar desafinado dos milhares de papagaios. Mesmo para o Jehkabs, a história está mudando e se pudesse cairia fora, mas ai esbarra no problema da falta de dinheiro. Ele pergunta o tamanho da nossa colônia que era dos Leimann. Porque eles ao todo são 9 pessoas. O Tio, a Tia, a Alma, a Lilija, a Melania e o Teovils. A pequena Valentine com os seus cinco anos de idade faleceu antes da Páscoa. Ainda tem o sogro dele o Peteris Sagers e [Conforme informação da D. Melania Purens Minka, as malas do Sr. Pedro Sagers e de sua filha Vilma foram roubadas durante a viagem para o Brasil. Continham muitas roupas boas, jóias e muitos itens de estimação. Nenhuma informação foi conseguida sobre o seu paradeiro] com sua irmã [A D. Melania que foi testemunha ocular, pois veio no mesmo navio, também discorda da informação de teria vindo uma irmã do Sr. Pedro Sagers. Eram 9 pessoas com a menina que veio a falecer] e com a sua filha Vilma que tem 19 anos. Agora tu sabes quantos são os nossos parentes naquele “deserto”.

 

O sogro dele o Sr. Sagers tinha casas e propriedades na Letônia e tendo vendido deve ter usado o dinheiro para as despesas da viagem da Letônia para Hamburgo onde permaneceram 5 dias e de lá para Paris e daí para Cheburgo onde tomaram o navio. A Lilija fez a viagem razoavelmente boa, mas a Alma passou os 19 dias, deitada.. Bem acho que por hoje chega. Não poderei mesmo descrever tudo. Nenhum deles tem escrito para você? Opa eu ia me esquecendo!

 

Gostaria que descobrisse quem são os letos que moram a mais tempo aqui no Brasil que tem falado com a Lilija que aqui nós somos muito ricos mesmo e todos tem feito boas escolas. Não sabia que éramos ricos e nem que tivéssemos estudado em boas escolas. Logo que eles chegaram ao Brasil e ainda não tinham recebido nenhuma carta nossa, chegaram a conclusão que nós nada queríamos  com os parentes pobres. Descubra quem soltou este boato..

 

Do Karlos [Leiman] recebi uma carta agora mesmo. Ele não vira para cá agora. Diz que lá o pessoal vive muito doente e chove muito. Ele vai viajar para Rio Branco.

 

Bem eu sei que terás dificuldade de ler esta tão longa carta, mas não fique procurando erros, pois deverá achar, pois eu não tenho muito tempo para escrever. Com saudações espero uma carta tão longa quanto esta. Olga.

Escrito na lateral

A sim! Como tudo passa tão rápido. Quando comecei a imprimir esta carta também, comecei a tecer um par de meias de lã. Lembre-se que aqui não temos aquelas imensas máquinas a vapor que são usadas nas grandes cidades. Aqui tudo tem que ser feito na mão, mas para a tua sorte, ficaram prontas junto e então que sigam a viagem juntas. Estamos com temor que você congele como um Tarkans, [?]  Bem agora lá haverá grandes festas, mas daqui a algumas semanas você terá férias, então escreva bem devagar uma longa carta que eu estou aqui aguardando.

 

Lembra que nós escrevemos para você ir até o navio para dizer …….| De Olga Purim para Reynaldo Purim- 1923

Rio Novo 26 de abril de 1923

 

Querido Reini: Saudações!

 

A tua carta escrita no dia 2 de abril já há algumas semanas atrás e como a minha tinha ido muito depressa e a tua resposta também veio rápida, porque tu foste bem malandro e não esperaste o outro coelho para matar os dois com uma cajadada e ainda porque a Luzija logo escreveu uma carta  por isso não me apressei em responder. Outro motivo, que estava esperando cartas dos nossos outros parentes para matar os meus dois coelhos, mas não tive esta sorte e não sei se eu terei.

Nós graças ao bom Deus estamos todos bem. O tempo na maior parte está lindo e quando chove, é pouco e agora nós estamos esperando chuva para aumentar a água do rio para poder começar fazer a farinha de mandioca. Esta semana nós queríamos começar, mas como o arroz estava maduro e os passarinhos estavam atacando muito, tivemos que colher logo e outros serviços, também temos bastante.

No mês que vem são os Klavim que estarão fazendo farinha no nosso engenho. Ai você poderá apreciar toda a nossa tecnologia.  E ainda no dia 21 de maio haverá a Festa da Música que a Luzija já te convidou. Festas, farinha de mandioca recém saída do forno, laranjas começando a madurar. Poderás andar a cavalo, andar de carro de boi.

Quando os teus automóveis chegarão a esta altura?

Aqui no Rio Novo nada de novo tem acontecido. Há pouco tempo o Auras foi a Ijuy buscar a mãe da mulher dele (sogra) para trazer para cá porquê o pai (sogro) morreu e o outro filho que mora lá é um desmiolado e ela já velha, fica sem ninguém para ajudá-la.

O Alfreds Leepkaln viajou para São Paulo já há algum tempo para ver as terras como são por lá. Se achar melhor ele vai mudar para lá. Mas ainda não voltou, mas já tem gente dizendo que ele está gostando, mas também a passeio na casa de parentes, quem não vai gostar, pois ele está com os Burschis que são parentes dos Leepkaln.

Nós recentemente recebemos cartas do Karlos e do Fritz. O Karlis promete este ano visitar-nos. O Fritz escreveu que o Arthurs tinha sido ordenado pastor e que no dia 10 de abril ele está planejando casar com quem ele não disse, mas, nós há muito tempo sabíamos, pois o Karlis já tinha contado que ele o Arthurs estaria noivo da Victorija Ochs e a própria senhora Ochs contava para todos que quisessem saber, que a Victorija iria já junto com o Fritz. Ela já estava contando esta vantagem quando o Arthurs ainda estava aqui.

O velho Leiman lá na Argentina está cada vês mais gordo, só que não tem forças. Passa os dia inteiros tocando violino e cantando.

 

Após longa espera também chegou uma carta do “deserto” esta eu estou mandando anexa, pois seria muito trabalhoso transcrevê-la. Você sempre pergunta por eles e agora poderás ficar sabendo que lá não é nenhum paraíso. Na primeira carta eles quase nada escreveram, somente dizendo que está tudo bem. Mas agora que já estão instalados naquele “deserto” viram que não era bem assim. É muito triste saber que em relação ao sustento e habitação eles estão passando tão mal. E como será depois que a terra estar dividida e cada um terá que fazer o seu próprio rancho e quanto de terra que cada um vai receber? E as construções que agora eles fizeram decerto vão ficar para a Administração.

Eu e a Luzija na semana passada escrevemos longas cartas explicando porquê não mandamos nenhuma carta para a Latvia porquê achávamos que eles não estavam mais lá. Lembra que nós escrevemos para você ir até o navio para dizer que eles viessem para cá para o Rio Novo. Se você tivesse ido e não deixado recado aos dois Sprogis e o Inkis que foram ao navio e não disseram palavra alguma, para eles virem para cá.

Se eles viriam ou não é outra coisa. Se você tivesse ido pelos menos teria os visto e conversado com eles. O Paps determinou que escrevessem que quando arranjassem dinheiro suficiente viessem embora para o Rio Novo. Não tenho muitas esperanças que isso aconteça. Quando tiveres lido bem, aquela carta deles que eu te estou mandando junto então, por favor, nos devolva porque a Luzija tem uma caixinha onde ela guarda todas em ordem, qual está quase cheia.

Bem agora chega. Você quando escreve usa somente um lado do papel. Você nada escreve como vive etc. Ainda lembranças de todos Olga.

 

…o Troykis anda pelo telhado e mia. | De Lúcia Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 5-9-1922

Querido Reini!!

Saudações. – Tua carta escrita em 3-8-22 recebi faz bastante tempo, mas porquê ninguém ia para a cidade e nenhuma coisa mais importante aconteceu, assim eu fui deixando.

Nós estamos mais ou menos bem. Hoje à noite eu estou sozinha em casa. Os demais foram para a outra fazenda para arar a terra para plantar mandioca. Agora é sempre assim, onde se faz mais necessário nós corremos para lá e para cá.

Você não quer vir para casa e ser o gerente de uma destas fazendas? Hoje à noite a casa está muito quieta se não fosse a Ledi que às vezes late e o Kramzis cochila enquanto o Troykis anda pelo telhado e mia.

O tempo hoje está bom. Hoje queimamos a palhada onde foi cortada a cana.

Semana passada terminamos a festa do açúcar, renderam 9 tachos e daí 5 formas cheias. Você ficou com preguiça de vir nos ajudar, pois faz bastante tempo que o convidamos para ajudar a cortar cana e assim poderias tomar garapa com a concha e comer açúcar a colheradas.

E se demorasse aqui mais um pouco poderias acompanhar a festa da mandioca que ainda no teu tempo você não conheceu. Poderias ajudar a raspar as raízes da mandioca e secar a farinha no tacho do forno assim poderias comer farinha com melado que é muito delicioso. Este ano não vamos fazer muita farinha, pois ela está com o preço muito baixo.

Vocês somente comem arroz. Deviam comer feijão preto com farinha e assim aumentaria o consumo e também o preço. Planeje para a próxima temporada vir ajudar arrancar a mandioca e fazer a farinha lá no engenho do Leiman que agora é nosso.

Você poderá me ensinar os grandes conhecimentos e eu te ensinarei como se arranca um pé de mandioca. Então você vai ficar com a força e eu com a inteligência.

Quando nós formos lá não queremos que você fique com outras pessoas e nos ignore e também não queremos comer arroz com feijão preto que qualquer “mujike” come e sim vamos querer assados e pratos especiais e ainda na sobremesa àquelas deliciosas frutas.

Desta vez chega terei que ir a cidade.

Como estas passando? Você vai ter que responder com uma carta igual ou mais comprida. Mui amáveis lembranças de todos. Luzija.