Tradução da última carta escrita por Olga Purim para Reynaldo Purim – 1926 –

[Última carta escrita pela Olga numa data muito próxima ao seu falecimento]

Rio Novo 11 de junho de 1926
Querido Reini:
Saudações!!
A tua carta recebi na última sexta-feira e hoje já estou começando a escrever a resposta e talvez ache que seja rápido demais. Pela carta muito obrigada!
Se bem que esta carta realmente não me deixou satisfeita, mas você pouco vai se importar por que eu não gostei que você fosse embora para a América e a sensação que eu tenho que nunca mais vais voltar e eu nunca mais vou te ver por que lá e realmente muito distante.
Isto aconteceu um dia antes do recebimento das cartas. A Lúcia esteve com o Augusto Klavim pedindo que trouxesse a correspondência, pois nesta semana ninguém de nós foi à cidade. Naquela noite eu sonhei que tu tinhas chegado e trazido muitas coisas [“Mántinhas” Difícil tradução, pois “Mant” quer dizer riqueza, mercadoria, então como está no diminutivo poderia ser traduzido como” Coisinhas ricas”] lindas e disse que tão logo não iria embora. No sonho nós andávamos pelas roças lá perto da mata no alto do morro e eu ainda era forte e podia andar tão rápido como quando você ainda morava aqui e tudo era tão maravilhoso. De manhã quando acordei pensei e tinha certeza que o Augge iria trazer cartas suas e como realmente trouxe, mas com notícias todas ao contrário do que eu estava esperando, pois você quer ir para mais longe ainda. Eu e o Arthur tivemos combinando escrever para que agora que já os estudos estão terminados, você poderia tirar neste inverno umas férias mais prolongadas ou uma licença de 5 ou 6 meses para tornar a viver um pouco entre nós e é possível que os filhos do Leiman venham passar uns tempos entre nós. O Fritz escreveu que quer vender o terreno lá do Rodeio do Assucar. A Lúcia já te escreveu, mas parece que está foi extraviada. Se você tiver bastante dinheiro poderá vir aqui para comprar. Se o Arthur tivesse dinheiro ele compraria, pois ele gosta muito mais de lá do que aqui. Ele não pensa de estudar na América. Eu também gosto mais de lá, pois lá é bem melhor que aqui em Rio Novo, pois a topografia não é tão montanhosa, bastantes terras aráveis, a mandioca se desenvolve muito nos dois anos com raízes duas vezes maiores que aquelas aqui do Rio Novo e quando a farinha tem preço é muito mais fácil de fazer a farinha do que cultivar e colher feijão que é um trabalho muito mais penoso e também a mandioca pode ser usada para engorda de porcos economizando milho e assim não há tanta necessidade de plantar tanto milho. Eu de lá também gosto é do pasto. Nós agora necessitamos muito de pastagens, pois temos 20 animais entre bois e vacas e mais 8 cavalos entre os grandes e pequenos. Também lá não tem aquele maldito “matbaste” [“Matbaste” é a pronúncia e escrita incorreta de “Mata-pasto” a popular guanxuma] que infesta as pastagens aqui do Rio Novo. A renda proporcionada pelas vacas no verão é compensadora. O quilo da manteiga foi a 4 mil e se o Leiman vender o terreno para outros então nós também teremos vender as vacas por que aqui no Rio Novo não teríamos espaço no e qualidade da grama no pasto apesar do “matbaste” ter sido cortado com alfanje, mas a terra aqui é mais seca e então teremos plantar grama em outras áreas e capinar seguidamente senão o mato toma conta de tudo e a grama não sobrevive. O Arthur sugere que você venda o terreno da Bukuvina e compre lá o terreno dos Leimann. Lá não tem as tremendas grotas da Bukuvina que fizeram abalar inteiramente a minha saúde. Os Italianos correm como loucos atrás de terrenos com mata e capoeiras para comprar, mas não sei se algum deles vai levar.

A novidade é que nós logo vamos ter um vizinho novo, pois o Butler vai vender o terreno dele para o Attis [Otto Slengmann]. Ele tem terreno e mora no Rio Larangera, mas está muito deslocado em relação à comunidade leta. Então ele vai vender lá e comprar junto, pertinho da própria Igreja. Eu vou te escrever contando tudo depois dele mudar.

Agora eu vou ter que dar uma bronca. Você mesmo não poderia tirar um tempo, uma semana só para visitar os nossos parentes de São Paulo. O Paps faz tempo que pediu para pressionar você. Se nós tivéssemos condições então já há tempo alguém de nós teríamos ido visitá-los. Nós somos tão poucos e ainda por cima se eu não estivesse tão doente então a Lúcia teria ido. Mas para você é realmente muito mais fácil. Numa semana sem avisar ninguém chegar lá e ver como vivem por lá. Sempre achei que eles não estivessem passando muito bem e terem que trabalhar muito. E também a alimentação deve ser muito difícil. Nós aqui a carne, o leite e os adoçantes (Açúcar e mel) nunca a gente consegue gastar tudo, mas lá tudo é tão caro. O Willis Ochs quando mudou para lá levou banha e carne e quando estes terminaram ele gastou um dia inteiro a procura de banha e não encontrou. Depois conseguiu um quilo de toucinho e por ele teve que pagar 8$000. E como comer então?

Agora alguma coisa sobre a minha enfermidade. Quando escrevi outra vez, eu estava em Orleans tomando injeções. Mas não aquelas que você mandou, pois o farmacêutico disse que aquelas não serviriam e que ficaria pior, mas umas outras que ele receitou. Então comprei uma dúzia e ele aplicou, mas não adiantou nada e ainda fiquei pior. Então depois o Stroberg também precisou aplicar umas injeções e o malandro do farmacêutico também disse que aquelas trazidas por ele de Varpa não serviriam. Mas ele enfrentou com braço forte e sangue nas veias; então ele aceitou aplicar as injeções prescritas pelo pessoal de São Paulo e que serviram em outras ocasiões e agora foram válidas outra vez. O farmacêutico ficou envergonhado, depois da melhora do Stroberg.. Agora não tenho forças para ir, a Orleans e estou me tratando com água [Hidroterapia] e chás. Estive consultando o doutor que vem todas as semanas das Minas [Lauro Müller] para Orleans e ele falou que o meu mal é de água [Não sei o vem ser mal da água – Será Hidropisia?] e o sangue envenenado [Asinis sagifetas] e com a circulação em contrário. Queria que fosse lá para as Minas para retirar a água com uma bomba e morar lá no hospital onde receitaria a medicação e onde ele diariamente poderia acompanhar e senão fosse procurar um hospital em outro lugar, idéias que realmente não me agradaram. A Mama trouxe do Zeeberg um livro em alemão com ilustrações onde existem figuras associando o problema do coração com o mal da água, mas bem certo o meu problema não aparece descrito nos desenhos. Comer, eu gosto de comer, mas não todas coisas que antes eu gostava. Dormir antes eu dormia bem, mas agora quando eu deito começa uma tosse então o sono não vem. O peito e o esôfago [Pakrutis] estão inchados e sensíveis e quando tento andar rapidamente, fico exausta e dá uma grave falta de ar. Forças não tenho nenhuma, somente posso ficar sentada então somente consigo tricotar ou costurar e o mais difícil é que eu sinto um frio terrível. Principalmente nas mãos e nos pés que já estão doentes. Quando está frio os lábios ficam roxos e pelas manhãs os olhos e a face amanhecem inchados e às vezes a cabeça dói um pouco. Também não suo. Nem no pleno verão quando os outros estão completamente suados eu sinto calor, mas não suo. Também no tratamento quando tenho me envolver em um lençol quente e ficar inteiramente coberta o suor não aparece. Estou escrevendo isto tudo, pois poderás ter um conselho e poderias fazer o favor de escrever. Quando às vezes eu penso que antes eu podia andar e trabalhar parece um sonho distante e impossível que nunca aconteceu.
Bem agora chega de escrever. Você sempre escreve cartas curtas. Esta saiu uma longa carta.. A Lúcia já começou e é provável que já tenha terminado. O Arthur na vez passada escreveu, mas agora ele diz que não tem tempo para escrever, pois ele está comprometido com a fabricação da farinha de mandioca. Você escreve que lá está tudo caro e aqui está tudo muito barato. A Farinha a 5$000, o toucinho a 15$ – 16$000 a @, mas aquelas coisas que a gente tem que comprar nunca podem estar baratas.—
Agora vou esperar uma longa carta sua. Escreva quem vai pagar a tua passagem e quando vais viajar e se terás o dinheiro suficiente. Onde você vai guardar as tuas coisas ou vai levar tudo junto?
Aqui o tempo está frio, mas as grandes geadas ainda não chegaram, mas vai esfriar demais, pois, sopra um vento gelado.
No domingo passado houve o funeral do Reinold, criança de 6 meses filho do João Leepkaln..
Ainda muitas e amáveis lembranças da Olga.

Dados biográficos de Lisete Rose Purim, mãe de Reynaldo Purim

Dados Biográficos de Lisete Rose Purim
Por V.A.Purim

Antes de falar de Lisete Rose vamos contar o que sabemos do seu pai e de sua mãe:

Jekabs Rose o pai:

Nasceu em Wirtzawa próximo à fronteira da Lituânia, mas a data não sabemos e também não sabemos o nome de seus pais.
Casou-se em primeiras núpcias com Magriet Kleber Rose também não temos a data.
Em segundas núpcias casou-se com a cunhada Lavise Kleber Rose e também não temos a data já em Rio Novo.
Nas terceiras núpcias casou com uma viúva com muitos filhos chamada Wilhemine (Minna) Kujmanne (e era conhecida como Kujmanieta) de Rio Novo.
Os filhos foram Lizete e Ludwig (ambos da 1ª esposa)
Morreu em 03 de março de 1925 na região de Rio Branco ou Jacu Assu
A religião era Batista e depois passou a ser sabatista
A instrução a gente só sabe que era alfabetizado
A profissão definida não pode ser conferida e aqui no Brasil ele trabalhou como agricultor
Dados históricos:
• Morou em Daugava Griva (foz do Daugawa); Dünamünde em alemão, antes de emigrar para o Brasil
• Pertenceu a Igreja Batista deste bairro da cidade de Riga.
• A primeira esposa morreu ainda na Letônia
• O Sr Jekabs aqui no Brasil casou com uma cunhada (irmã da Margriet) chamada Lawise, que tinha vindo já cuidando das crianças, isto é, os sobrinhos Lizete e Ludovico (Ludvig).
• Ela parece que não era para vir junto para o Brasil, mas devido à insistência dos sobrinhos ela terminou vindo. Esta era costureira e mais tarde também veio a falecer.
• Mais tarde o Sr. Jehkabs casou pela terceira vez, e desta feita foi com uma viúva chamada Wilhemnne (Minna) Kusjmane (Kusjmamnieta) qual tinha muitos filhos. A vovó Lisete não se relacionava bem com esta madrasta por ter um gênio muito belicoso e tiveram uma desavença devido à posse de um famoso Lenço de seda.
• Uma característica do mesmo (Jehkabs) era não gostar dos netos, o Reinaldo, Artur, Lúcia e Olga não eram muito benquistas.
• O Sr. Jehkabs morava no Rio Carlota no mesmo lugar em que depois morou o Felipe Karkle
• Mas a primeira colônia (gleba) de terra dele adquirida nos primeiros tempos era no vale do Rio Laranjeiras, que ficava em direção oeste em relação ao vale do Rio Novo, numa região conhecida por nos como Bukovina. Uma vez, após passar o dia nos Purins, na caminhada pela mata o Sr. Jehkabs em direção ao seu terreno, que era muito acidentado, aproveitou para levar um rebolo de pedra [Rebolo é uma ferramenta feita de um pedaço chato de arenito deixando rendondo com um furo no centro onde era encaixado um eixo e numa das extremidades uma manivela para ser instalada em forquilhas ou cavaletes para uso] para ser usado na afiação de ferramentas. Mas começou a ficar tarde, o que levou a se perder na mata Atlântica extremamente fechada. Então ele teve a idéia de aliviar o peso deixando guardado o dito rebolo entre as lages de uma cascata de um riacho. Quando voltou para procurar, não encontrou mais. Talvez tenha sido encoberto pelo musgo ou outra vegetação. Bem mais tarde, aquele terreno onde ele tinha passado continuava mata virgem, pois pertencia ao Tio Reynaldo e nós íamos colher jabuticabas nas árvores nativas e, às vezes, passávamos perto destas cascatas em busca do rebolo desaparecido. Junto desta cascata havia muitos xaxins sem espinhos entre eles alguns imensos que devia ter mais de 1½ metro de diâmetro.

• Bem depois ele já morando em Timbó, próximo a Blumenau, voltou para junto da filha Lisete quando trouxe algumas lembranças como o famoso Lenço de Seda histórico, pois durante a guerra dos Prussianos, [Prusch karsch?] este lenço ficou enterrado para não ser levado, uma Balança em £ e as alianças dos pais dele e ainda se mostrou arrependido de ter casado com a referida senhora
• .
• O Sr. Jekabs quando chegou ao Brasil era Batista, mas depois passou para a denominação Sabatista.

Agora a Mãe
Magriet Kleber Rose

Não temos a data de nascimento nem o nome de seus pais
Casou-se com Jekabs Rose, mas não sabemos a data.
Os filhos foram Lizete e Ludwig
A irmã Lavise Kleber
Morreu ainda na Letônia antes da família emigrar para o Brasil
A religião dela era Luterana.

Dados históricos:
• Morreu quando a filha Lizete tinha 12 anos.
• Quando morreu na Letônia era hábito de fazer o funeral que durava uma semana, depois para dar tempo de todos parentes se reunirem para um encontro quase social. A Senhora Magriet era Luterana e o marido era Batista e, no dia que foi o último dela antes de morrer, ela reclamou por que todos estavam tristes e pareciam estar em um velório na presença de uma pessoa falecida. Que não era para eles estarem assim e sim que cantassem hinos e, enquanto cantavam, ela faleceu. Foi o Ludwig que foi o primeiro a perceber.

Lizete Rose Purim

. Nasceu em 16/02/1878 em Daugava Griva ou em alemão Dünnaminnde
. Pais: Jekabs Rose e Magriet Rose
. Casou-se em 10/03/1895 – Na Igreja Batista Leta de Rio Novo com Jahnis Purim
. Filhos: Reynaldo, Olga, Lúcia, Otto e Alvina.
Irmãos: Ludwig.
Morreu em 08/ 04 /1953 em Rio Novo Orleans Santa Catarina
Religião: Batista.
Instrução: Primária.
Histórico:
• Daugava Griva (foz do Rio Daugava) é Dünnamünde em alemão. Fica perto de Riga.
• Ela tinha sido Babá dos filhos do casal Freijs que foi editor e proprietário de uma gráfica onde eram produzidos muitos livros e literatura cristã.
• Lisete era alta e muito bonita. Era muito culta e atualizada porque lia muito. Falava russo, alemão, leto e português. Tinha uma memória prodigiosa, lembrando de aniversários de uma infinidade de pessoas.
• Na Letônia ela ia prá escola com o seu irmão Ludwig, mas o mesmo não era de estudar então saindo de casa iam recapitulando as matérias e antes de passar a ponte prá chegar à escola o esperto sabia tudo e tirava ótimas notas na escola.
• Ainda sobre o Ludwig aqui em São Paulo as pessoas contam que quando iam visitá-lo na redação do Jornal alemão ele estava escrevendo em alemão e continuava mesmo conversando sobre um monte de assuntos como isso fosse normal.
• O vapor em que vieram os Rose era o “ Santos” da “Hamburg-Südamerikanishe Dampfschifffahrt” e saiu de Hamburg no dia 12 de novembro de 1891.
• Ela chegou ao Brasil com 13 anos de idade.
• O navio que trouxe os Rose também trouxe até Recife locomotivas para uma estrada de ferro. Como não havia cais, estas foram descarregadas em barcaças, no largo, fazendo com que o vapor adernasse muito, quase virando e causando muito temor entre os imigrantes.

• Veio via Hamburg Alemanha e chegou em xx/11/1891 em companhia do irmão, da tia e do pai e muitos outros letos. Ficou de quarentena 2 semanas em Ilha das Flores no Rio de Janeiro. Ela viu os primeiros negros em Salvador. E também bananas. [deve haver erro no tempo da quarentena, pois no dia 25 de Dezembro eles já estavam em Rio Novo.]
• Tinha o espírito aventureiro e não reclamou de ter que entrar na bruta selva da Mata Atlântica, só nos contava que no Natal anterior 1890 na Letônia eles fizeram uma ceia onde comeram bolos, doces e tomaram café com leite e esperando no outro ano estar no Brasil fazendo o mesmo. Mas nesta data estavam morando no Rancho comunitário e comendo pirão de farinha de mandioca com carne seca cozida.
• Ela sempre mostrava onde era o Rancho Comunitário que ficava onde era a nossa horta, isto é bem perto da casa onde eu nasci.
• Os inícios não são fáceis era a teoria dela.
• Ela tratava muito bem dos netos e nunca se esquecia dos aniversários. Em cada aniversário de cada neto, ela dava uma moeda de prata de 2 mil réis que nós guardávamos numa lata. Sempre conferíamos os dizeres escrito na moeda e sempre pesava “XX Gramas”, quando era 2$000,00 e somente X Gramas quando era 1 mil réis.
• Ficava de tocaia na gente éramos pequenos quando íamos para a roça ela ia avisando que não saísse prá dentro da mata ou capoeira onde poderia ter algum bicho [kads bichs]. Quando entravamos no chuchual para colher chuchu ou colher frutas na beira da estrada da roça como amoras pretas e brancas, araçás, goiabas, laranjas, maracujás roxos, cocos de palmeira tucum, cortiças (agora chamadas de frutas de conde) nativas ela ficava monitorando o tempo todo.
• Quando saia pra Igreja ou algum lugar para algum evento social se vestia apropriadamente. Nós notávamos que não usava soutiem e sim enleava umas longas faixas nos seios para deixá-los mais firmes.
• Ela tinha uma farmácia onde tinha uma infinidade de vidrinhos de medicamentos homeopáticos e também algumas infusões como para mal estar estomacal era uma garrafa com losna e outras com um monte de plantas dentro cobertas de aguardente. Se estivesse nervosa a garrafa era de Valeriana também na cachaça.
• Ela na roca fazia o fio de lã, mas antes de torcer era necessário lavar muito bem a lã, depois desfiar deixando totalmente solta e volumosa, depois ir prá carda que são conjuntos pentes de dentes de arame móveis quando era penteada até deixar em forma de bisnagas. Para nós que éramos crianças ficava a tarefa de desfiar que era feito em horas de chuva ou de noite a luz de uma lamparina.
• Depois de feito o fio ficava pronto era hora de inverter isto é torcer dois fios em um só tendo o cuidado para que a torção dos mesmos se encontrasse e os dois fios agora num só, ficassem se apertando e não se soltando serviço este feito na própria roca com cruzamento dos fios que fazem girar a roda maior para o carretel..
• Depois era passado na doubadeira e feito conjuntos de fios que iam para a lavagem final em água quente e daí já podiam ir prô tingimento.
• Muitos destes fios eram enrolados e novelos daqueles que os gatos gostam de rolar.
• Acima já falei sobre o tear uma verdadeira obra de arte e engenhosidade que foi construído inteiramente pelo meu avô Jahnis Purim e minha avó que manobrava este aparelho.
• Mas o forte era fazer coisas de lã era o tricô como blusas, gorros, luvas e meias. As meias ela fazia até na cama de noite no escuro quando acordava e perdia o sono, Quando chegava ao momento de aumentar o diâmetro ou coisa assim ela parava e contava as casas com os dedos em plena escuridão. Quando errava desmanchava a fila e isto era feito reclamando baixinho, Às vezes ela falava sozinha, Depois decidia a modificação e continuava.
• Gostava de trabalhar na roça com todo mundo, mas a horta era o lugar que ela plantava pepinos, repolhos, couves, alface, beterrabas, cenouras, rabanetes, nabos, batata salsa, ervilhas, carás, taiovas e outras especiarias como o endro, erva doce etc.
• Na administração dela na horta a função dos netos onde eu era incluído era carregar água para regar as plantas recém transplantadas e seguir os caminhos da formigas carregadeiras que sempre atacavam a horta. Uma vez encontrado o formigueiro o mesmo era eliminado com latas e latas de água fervente.
• Também os tatus vinham de noite mexer na terra molhada para catar coisas para comer, mas para estes não tinha nada para ser feito senão xingar.
• Para nós ajudar a cuidar da horta tudo bem, o que eu não gostava mesmo era de panelas e panelas de repolho, couves, batata salsa que ela fazia e insistia que a gente comesse.
• Além da fiação de lã (desde a tosa do carneiro até a roupa pronta), costurava, bordava e fazia crochê. Fazia muitas meias de lã para vender. Sabia muitos pontos para confecção de artigos de lã e se preocupava com o fato que quando ela morresse ninguém mais no mundo saberia.
• Tinha um tear onde ela era confeccionava cobertores de lã e também tecidos rústicos para confecção de roupas para inverno.
• Lembro dos preparativos quando muitas porções de fios de lã prontas eram colocadas para tingir em vazilhas de água quente com anilinas importadas da Alemanha, pois os cobertores eram feitos com faixas coloridas. E uma cor que eu lembro bem era a cor rubi e na embalagem em caracteres góticos estava escrito “Rubin Root”.
• Eu ficava muito admirado de como ela jogava rápido as lançadeiras alternando as cores, puxando os pentes e pedalando o cruzamento do tapume com o ordume.
• Também em bordados e tricô ela tinha caixas cheias de jornais e revistas com moldes e “receitas” de trabalhos roupas e moda para todas as ocasiões.
• As comidas que mais usava eram baseadas em produtos da lavoura, frutas e hortaliças cultivadas por eles próprios. De frutas fazia o tchissel (uma espécie de gelatina de frutas onde se usava polvilho ou farinha de trigo para dar a consistência de gelatina) e o tchilltchann (massa que era jogada em colheradas dentro de uma sopa de frutas, doce quente e que tomava as mais variadas formas e depois servida fria. Também o mesmo tchiltchan feito com leite e tomado frio ou quente). Do leite, além do requeijão, nata, queijo e outros, fazia a biezzu putru que é uma sopa grossa de leite azedo com canjica de milho [quirera]. Da carne de porco era feito o salame tipo Blumenau, os salames feitos com a fressura, a morsilha, a carne cozida e guardada em latas na banha, o toucinho pendurado no fumeiro. Também era feita uma geléia de carne [galet] onde os ossos e a cartilagem eram cozidos até derreter e depois de coada numa peneira grossa ao esfriar virava uma gelatina que era por demais apreciadas pelos letos que simplesmente adicionavam pimenta. Também era feita uma super sopa com a cabeça do porco inteira que elês chamavam de “Bullion”. Dos italianos aprenderam fazer a polenta que era um prato muito apreciado. A carne de galinha depois de ficar uma noite no tempero em vinha d´alhos era cozida numa panela de ferro com um pouco de banha e quando começava estalar era adicionado um pouco de água quente e dada uma mexida com uma colher de pau [os alemães chamavam para este processo de “schmoret”] que praticamente assava a carne na panela e o molho super escuro que sobrava era uma delicia.
• A carne predominante era a de porco do qual era derretida a banha para as frituras e saladas e ainda usada para a conservação de carnes já cozidas, pois não havia outros meios para conservá-la. Também eram feitas lingüiças que também ficavam no fumeiro junto com os ossos salgados e as mantas de toucinho. Quando era feita a “schlackfest” ou o porco era carneado que era feito praticamente todos os meses a Dª Lisete junto com a Dª Verginia minha mãe comandavam o bom andamento das tarefas.
• A Dª Lisete foi premiada com uma nora brasileira e era esperado que houvesse muito conflito entre as representantes de etnias diferentes, mas que na realidade raramente ocorria. Qualquer contratempo não chegava a durar quase nada, mas isto não quer dizer que não havia nenhum ressentimento diante da superioridade e certa arrogância em relação aos brasileiros por parte dos letos.
• O pão de cada dia era feito de farinha de milho e merece uma página especial.
• Casou no dia 10 de março do ano de 1895 com Jahnis Purim
• A Dª Lisete quando era nova e recém-casada, o marido foi trabalhar na região de Lages, deixando-a sozinha com um nenê pequeno. Neste período um temporal muito violento numa noite de verão pôs a rancho deles abaixo ao lado da mata virgem que uivava com a tempestade, relâmpagos e chuva e neste completo caos ela teve que passar a noite com o nenê (Reinaldo) no galinheiro, com as galinhas.
• Ludwig Rose, seu irmão, foi importante jornalista e redator do jornal Deustch Zeitung, publicado em idioma alemão, editado na época da 1ª Guerra Mundial em São Paulo, vindo a falecer em 1925 tanto que merece um capítulo especial à parte.
• Outra grande qualidade de Dª Lisete era atender a enfermos, muitas pessoas da comunidade foram atendidas por ela.
• Em minha opinião a minha vovó Lisete foi uma lutadora com qualidades e defeitos que todas as pessoas eventualmente têm, mas sempre foi muito honesta em seus propósitos e eu senti muito não estar presente no dia que ela faleceu principalmente que dizem que ela pedia prá chamar-me, pois ela queria falar alguma coisa, mas nesta ocasião eu já estava morando e trabalhando em Urubici e nada pode ser feito.
• O tio Reynaldo Purim devia muito a ela e bem como a família toda pelos imensos esforços em sustentar este filho estudando no Colégio, no Seminário inclusive nos Estados Unidos.

1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia | Parte 3/3

As primeiras famílias de letos deixaram a Letônia para o Brasil em abril de 1890; nos anos seguintes foram seguidas por muitas outras. Jahnis Inkis (leia sobre ele aqui) foi o primeiro pastor enviado da Letônia para conhecer a colônia do Rio Novo, em 1898. Apresentamos, em três partes das quais esta é a terceira, as porções do seu relatório de visita pertinentes à história dos letos de Rio Novo.

 

As moradias, maiores ou menores, todas de madeira. Cada colono se esforçou em construir maior número de quartos. Dois compartimentos, no mínimo devem existir, onde se alimentar e onde repousar. Com este principio até os antigos citadinos aderiram. A cozinha, conforme costumes dos brasileiros, é separada dos outros compartimentos; a vantagem é que a fumaça não penetra.

Com o aquecimento ninguém está se importando, também não há chaminés em nenhuma das moradias. Durante as geadas todos tremem, principalmente durante o anoitecer e pela manhã. É só cobrir-se com lenços, mas logo após o sol raiar o frio desaparece e o sol aquece tanto quanto no verão na Europa; então os trabalhadores tiram as roupas pesadas.

Os compartimentos das moradias são bastante simples. Uma mesa e bancos sem pintura para sentar. Cadeiras com encosto são coisas raras. Não houve tempo para cuidar do conforto e da ornamentação. E assim mesmo há grande diferença nas moradias entre os colonos de outras origens. Aqui há assoalho e forro, nas outras sentam no chão e observam coberta de palha. No barraco dos brasileiros, em poucas palavras, não há nada. Comem, dormem e sentam no chão.

[…] Ao par de uma bacia com uma galinha frita com mistura de raízes cozidas, que chamam de batata-doce e aipim. Ao provar, preferimos as batatas, de sabor adocicado e farinhentas. Após saborear as raízes e os tubérculos, também experimentamos pão feito com farinha de milho,e a dona da casa nos oferece uma torta de bananas.

O arroz os colonos produzem em suas plantações. O beneficiamento é feito no pilão e com os grãos e o leite é feita uma deliciosa sopa. Plantam-se nabos, repolhos, beterrabas…

Ao prudente colono também não falta carne. No cercado vibra uma meia centena de galinhas, gansos e perus.

Enquanto observamos, o colono aparece com um machado nas mãos, vai ao mato para a derrubada. Nós, certamente iremos juntos. Pela porteira, pelo caminho, pela pastagem, vamos em direção a mata.

A pastagem por onde estamos passando foi implantada com grande sacrifício. Anos antes aqui havia mata. A mata foi derrubada e queimada. Após a queimada foi plantado milho e depois grama. O quê, a grama foi plantada manualmente? Sim, com as mãos. Na mata não havia grama, o capim que cresce espontaneamente nas plantações não serve para pastagem. A grama é uma pastagem própria.

As árvores derrubadas que ainda não apodreceram são utilizadas em parte para lenha e o restante permanece na pastagem. Em alguns lugares as palmeiras levantam sua majestosa copa para o alto. O colono derruba todas as árvores, mas as palmeiras, quando há, são poupadas pela sua beleza. Além disso, a palmeira não produz sombra, inconveniente, para as outras plantas. Com exceção da árvore ganoba, que os letos comparam à liepa, todas as demais são pesadas como chumbo — ao derrubar as árvores, o colono deve estar atento.

A mata virgem possui muitos cipós e arrastam junto outras árvores. A área de mata a ser derrubada é primeiramente roçada; eliminam-se em seguida as árvores menores e os cipós com uma foice, para depois as árvores maiores serem derrubadas com auxílio do machado e do serrote (topiador). A mata, depois de derrubada, permanece secando de agosto a novembro. Em outubro o sol escaldante da primavera e os ventos secos secam totalmente a mata derrubada.

As folhas e os galhos menores estão totalmente secos. Então, num dia de muito calor, um grande rolo de fumaça branca sobe da derrubada. À fumaça seguem chamas ardentes: o colono faz sua queimada.

Alguns dias depois, com uma enxada e sementes, ele começa o plantio. O trabalho da derrubada e sua plantação é a mais difícil das atividades do colono. Especialmente durante o plantio, o sol é escaldante…

No centro da colônia, numa elevação, levantaram uma casa de oração, onde cada domingos todos religiosamente comparecem. Os moradores, com mínima exceção, são todos batistas: a Igreja foi fundada e durante seis anos permaneceu sem pastor. Os membros contam mais ou menos com 200 pessoas.

Com a dispersão dos mais crescidos, à igreja comparecem crianças para o seu culto. São aproximadamente 30 crianças. Sem escolas, os rionovenses carecem também de um médico.

No que se refere ao governo e a justiça, os rionovenses não tem nada melhor a desejar. Todas as divergências são discutidas na chamada assembleia dos colonos. A presidência da assembléia é função de delegado da justiça. Além das assembleias dos colonos também há em sua sede as chamadas assembleias administrativas, onde todos podem participar e são discutidos assuntos pertinentes a administração.

Por Janis Inkis

Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) 1898, números 46-48 (inicio do registro no n° 45). Traduzido por V. A. Purim. Cortesia de Brigita Tamuza.