Para onde foram os Letos de Rio Novo ? | Opinião da “Bacia das Almas” por Paulo Brabo

Horizonte perdido • na Bacia das Almas

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Horizonte perdido
Posted: 14 Nov 2015 12:28 AM PST
SONDRA. Ah, como eu queria que o mundo inteiro viesse para este vale!
CONWAY. Se acontecesse ele não permaneceria um jardim tranquilo por muito tempo.
Os protagonistas de Horizonte Perdido (1937), de Frank Capra, falando sobre Shangri-Lá

Uma pessoa singular nos pode revolucionar a vida, mas essa em geral é uma transação que leva tempo. Uma comunidade singular – o encontro com uma cultura e com uma solução de convívio diferentes das que conhecemos – tem potencial para nos derrubar e desarmar imediatamente.
É por isso que a literatura e a experiência recorrem com tanta frequência à metáfora do deslocamento como iluminação, e que o traçado do nosso crescimento interior pode muitas vezes ser desenhado a partir dos nossos relatos de viagem. Em parte saímos de onde estamos porque decidimos finalmente crescer, em parte crescemos porque finalmente saímos de onde estamos.
Grandes viajantes como Joseph Conrad, Jorge Luis Borges e Richard Francis Burton encontraram no trato com diversas culturas as ferramentas de empatia e de lucidez que se refletem em sua produção literária. Os profetas de Israel só foram aprender a compaixão no exílio, longe de casa, e no exílio intuíram que se Deus era para ser realmente grande não podia ser tribal como eles vinham acreditando: um Deus grande tinha de ser universal, e universalmente preocupado com a justiça social.
Viajar coloca em grande risco a rigidez da alma. Não é de admirar que, num mundo em que a experiência de deslocar-se poderia ser muito mais frequente e factível do que jamais foi, continuemos a inventar artifícios técnicos e legais que dificultem a experiência para todos. Não é de admirar que recebam permissão para deslocar-se com maior frequência pelo mundo somente aqueles que foram treinados para não se deixar iluminar pela experiência: militares e capitalistas.
Nada destelha a alma de modo mais radical, nada recalibra mais irreversivelmente o nosso giroscópio interior, do que sermos submetidos a um lugar em que a matéria-prima mais familiar e mais barata de todas, o ingrediente do ser humano, gerou como produto final uma cultura e uma comunidade diferentes daquelas a que estamos habituados.
Encontrar gente que vive de modo diferente tem o potencial de nos revelar, pela dádiva da perspectiva, o que até aquele momento permanecia oculto sobre o nosso mundo e sobre nós mesmos. A perspectiva cultural pode revelar a gente calejada o quanto o ser humano é maleável, e em alguns casos nos dará de volta o sonho de sermos maleáveis nós mesmos.
Quando caminhamos, o horizonte perdido pode em alguns casos ser recuperado.
Urubici: uma vida legítima
Ao longo da vida creio ter tido quatro grandes epifanias antropológicas, encontros equalizadores com sociedades em que o ingrediente familiar do homem encontrou modo de fabricar uma vida fora do comum – uma vida além e acima do que eu tomava não só por usual, mas do que tomava por possível.
A primeira dessas experiências aconteceu quando eu tinha oito ou nove anos, e meu pai levou-nos para passar as férias em Urubici, na serra catarinense. Aparentemente eu, minha mãe e minhas duas irmãs deixamos claro o nosso desagrado diante da ideia de desperdiçar o tesouro das férias num lugar que àquela altura não nos dizia nada, ainda mais que nos cabia a tarefa maçante de visitar (e, como acabou acontecendo, ficar na casa de) gente que só o meu pai conhecia.
Naqueles dias eu ainda era capaz de me enganar, porque ficou provado que eu estava muito errado tentando me manter longe de Urubici e dos amigos do meu pai. Ao longo das décadas fiz na verdade o que pude para corrigir com frequência essa distância.
Santa Catarina é por si só uma província singular, e não só por ter sido (mais do que qualquer outro estado do Brasil) esculpida por levas mais ou menos recentes de imigrantes europeus. Santa Catarina teve sua paisagem rural inteiramente desenhada por pequenas propriedades em vez de grandes – condição que muda a face de tudo mais do que a mão estrangeira dos colonizadores, e é pelo que sei única no Brasil. E essa cultura particular veio emoldurada por uma beleza natural intensa, variada e peculiaríssima.
Essas particularidades vinham todas acentuadas em Urubici, uma cidadezinha definida por uma reta impossivelmente longa ladeada por casas de sítio que subiam muito satisfeitas em direção a morros relvados crivados de macieiras. Essa rua comprida nascia no centro oficial da cidade, ao sul, e encontrava perpendicularmente no norte, quilômetros de sítios depois, a linha do rio Canoas, patrocinador do vale mais bonito e mais fértil que meus olhos já tiveram ocasião de beijar. Essa configuração geral era interrompida aqui e ali por outros vales cavados por rios de menor porte, sendo que o efeito era de tirar o fôlego: vales e esquinas de vales, rios e encontros de rios, matas de araucária e matas subtropicais, pastos reluzentes, várzeas férteis cintilando hortas verdíssimas, molduras de montanhas e molduras de cascatas, promontórios de verde e curvas de água crepitante, pontes pênseis longas e estreitas que vacilavam entre os pés da gente e correntes cristalinas, cercas de madeira que abraçavam pomares e jardins, pés-de-serra meio revelados pelo sol e meio ocultos pela névoa – e, tanto na cidade quanto nos sítios, casas de madeira infundidas da beleza, da legitimidade e da personalidade que os sonhos e os contos de fadas reservam para palácios.
Essa paisagem assombrosa, a meio caminho entre o vale alpino e a vereda tropical, era bela de um modo cru, penetrante e imediato que eu jamais havia experimentado e jamais voltei a encontrar.
Porém a beleza natural do lugar não foi o que me desnorteou em Urubici. Havia as pessoas, meu caro, as pessoas e seus modos de vida, e sobre eles seria necessário escrever volumes.
Chegando a Urubici ficamos no Hotel Andermann, onde dormimos sobre assoalhos de madeira e debaixo de acolchoados de pena enormes, brancos e pesadíssimos, mas no dia seguinte fomos arrebatados dali para a casa de amigos que se tornariam imediatamente e ao longo dos anos família, a nossa família em Urubici: Seu P., Dona C. e seus filhos.
Como resumir os nossos dias nessa casinha atracada entre macieiras? Meu amigo, a abundância de hobbit que experimentamos ali. Os pães, os bolos, os biscoitos, o toucinho do céu, as compotas, as tortas de maçã, o mel e a nata, o suco de ameixa vermelha. As refeições, a conversa, as risadas, o piquenique no alto do morro, a paisagem do Avencal, as maçãs do pomar – maçãs que eram tão abundantes que com elas vi alimentarem-se os porcos. Eu, Paulo Brabo, nesta vida e neste universo, derrubei aos porcos mais de uma baciada daquelas maçãs pequenas e ácidas, aquelas que me agradam mais do que todas as outras e que só voltei a encontrar no vale do Serchio décadas depois, porque simplesmente superabundavam e a Dona C. não permitiria que se estragassem e me deu essa incumbência, e os porcos davam testemunho de apreciá-las tanto quanto eu.
Aquela primeira casa do Seu P. e da Dona C. ficava do lado do pasto da casa do Mano, em cujo paiol a moçada vinha jogar pingue-pongue depois do culto de domingo à noite, depois de atravessar a pé o pasto escuro debaixo de um céu imaculado de estrelas. A meio caminho entre a porteira e a casa do Mano o caminho passava entre duas araucárias enormes, colunas de um templo romano em ruínas ou em construção. Atrás da casa uma muralha de mata e por trás dela uma curva resplandecente do Canoas, precisamente onde pesquei o meu primeiro (e único) lambari.
Com exceção do Seu P., que trabalhava numa oficina de motores na cidade, todos os amigos do meu pai que fomos conhecendo viviam na roça e da roça. Havia o caro Z., sua esposa Dona I. e seus três filhos, custódios da curva mais bela do mais belo dos rios que me atravessam a vida. Na varanda atrás da casa do Z. aguardava uma maravilha da graça e da engenharia: um tanque que se elevava do chão até a altura dos quadris e vivia cheio da água mais pura, sendo alimentado sem pausa – dia e noite aquela embaraçosa dádiva – pela água que descia do morro vizinho por um aqueduto suspenso feito de meias taquaras. Em 2009, quando fui a Urubici pela última vez, o tanque ainda estava lá, e o mesmo Z. lavou naquela água alguns pêssegos antes de estendê-los na minha direção.
Havia o Seu G. e a Dona M., que moravam mais longe da cidade e num lugar mais elevado. Três porteiras depois da estrada principal um retângulo de cerca se elevava da relva, a cerca abraçava um jardim e o jardim abraçava a casa de madeira de G. e M.
Naquela casa comi o melhor almoço da minha vida (temos até uma foto em algum lugar, preciso lembrar de rastreá-la), nós cinco e a família de G. e M. dispostos ao longo de uma mesa inteiramente tomada de ofertas culinárias, as paredes ao nosso redor repletas de prateleiras, as prateleiras repletas de compotas.
Atrás da casa o morro continuava a subir gentilmente e lá do alto, quando a elevação finalmente dava lugar à descida da roça, descortinava-se a mais cinematográfica vista do vale: as oscilações gentis dos contrafortes do morro no lado oposto, e lá embaixo o rio e a guarnição larga e plana de sua várzea fértil, inteiramente pontuada de plantações e pequenas propriedades.
Aquele foi o meu primeiro contato com gente da roça, e minha impressão não poderia ter sido mais vívida e duradoura. Eu não saberia articular isso desse modo naquele tempo e quase não consigo fazê-lo agora, mas naquelas pessoas havia de um lado uma dureza e de outro uma doçura e uma gentileza que eu jamais imaginaria serem capazes de viver juntas em meros mortais. Se me tivessem dito esses são os seres humanos originais, aqueles que você conheceu até agora são cópias funcionais, eu não encontraria como contra-argumentar.
Todas as pessoas que conhecemos em Urubici (essas que mencionei e tantas outras; outros cafés em casas de fazenda e outros jantares na cidade) tinham algumas coisas em comum. Primeiro, eram todos descendentes de imigrantes da Letônia. Muitos deles, como meu pai, tinham subido a serra em busca do clima mais ameno de Urubici (910 metros de altitude e cercada por morros muito mais altos) para escapar do calor da Colônia Leta do Rio Novo, no município de Orleans (130 metros de altitude e tremendamente quente).
Eram ainda todos amigos entre si, tendo a relação intermediada pela religião batista e pela etnia. E, ainda mais extraordinário, eram todos amigos do meu pai, que com dezoito anos de idade tinha se mudado de Rio Novo para Urubici, onde foi aprendiz de mecânico por algum tempo antes de tentar (e de conseguir) a vida em Curitiba. Ver tanta gente singular tratando meu pai como amigo interpretei como um claro e inesperado brasão nobiliárquico. E eu que até aquele momento acreditava que ele era um cara comum: meu pai fazia secretamente parte da nobreza e só fui descobrir entre seus amigos em Urubici.
Da perspectiva dos anos não encontro nada que condenar na minha admiração pelos modos de vida que encontrei no vale do Canoas e seus protagonistas. Ao contrário: eram pessoas vivendo uma solução de convívio extraordinária num lugar extraordinário – e, claro, achavam que tudo aquilo era muito comum.
Não creio ter entendido isso de modo completo naqueles dias, mas os nossos amigos de Urubici me transmitiram uma impressão de selvagem independência. Eram gentis e generosos, mas ao mesmo tempo implacáveis. Seu aperto de mão informava que não podiam ser domados.
Em retrospecto, é muito compreensível que se sentissem independentes. Tanto na cidade quanto no sítio, os urubicienses àquela altura dependiam pouco do mundo exterior. Um ou outro tinha televisão (creio que, naquela primeira viagem, nenhum) e telefone. Em suas casas o que vinha de fora eram coisas como utensílios, ferramentas, lâmpadas, livros, remédios, algumas roupas e em casos extremos uma geladeira. Todo o resto era provido por eles mesmos ou por produtores locais.
O pão que se comia era o que se fazia em casa, e o mesmo valia para doces, geleias, compotas, sucos, biscoitos, tortas e bolos, manteiga e nata. O mel, o leite, a carne e os ovos eram produzidos para consumo doméstico ou traficados entre vizinhos. A mesma regra – consumo local da produção local – valia para verduras, frutas e hortaliças. O pessoal do sítio trabalhava duro na roça não para ter o que comer, mas para com a venda da produção ganhar o dinheiro que comprasse o que não se podia produzir localmente. Viviam no século vinte com a integridade de colonos de um filme de faroeste.
Não tenho como condenar o Brabo de nove anos de idade por concluir que caminhava entre semideuses. Aquele modo de vida vinha imbuído de uma legitimidade vital que não vi replicada no sertão do nordeste, na Itália ou na Austrália, embora tenham esses lugares cada um a seu modo contribuído para arruinar o meu cinismo essencial.
Às vezes suspeito que meu pai levou-nos a Urubici naquela ocasião para que pudéssemos admirar devidamente a façanha que foi ele ter conseguido sair daquele lugar: algo tipo vejam de onde eu saí e olhem onde eu cheguei. Meu pai, a própria imagem do self-made man, é muito capaz de ter pensado nisso.
Se era essa a sua intenção, no que me diz respeito o tiro saiu pela culatra do modo mais formidável, e ao longo dos anos meu pai foi entendendo isso. Incompreensível para mim, desde o primeiro instante, era alguém ter escolhido deixar aquele modo de vida para trás. Eu o queria adiante de mim.
Foto: Ramperto
Este relato foi postado na Forja Universal em 28 de maio de 2014

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