Meu Pai Karlis Andermann | por Júlio Andermann

O MEU PAI CARLOS ANDERMANN
Por Emilio Andermann
Traduzido do leto por Júlio Andermann
Comentários e revisão por Viganth Arvido Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

A atividade missionária de Carlos Andermann no Brasil está intimamente ligada ao trabalho na Igreja Batista Leta em Rio Novo – SC – onde a sua peregrinação, neste país, teve início.
Esta Igreja foi fundada por diligentes Letões oriundos da cidade de Riga, que curtiram a falta de sorte por se estabelecerem num terreno bastante montanhoso e pedregoso. Este fato explica o motivo por que, hoje em dia, esta Colônia, está quase abandonada, embora esta região goze de um clima excelente.
Qual foi o motivo que animou os habitantes de Riga a viajarem para o Brasil? Os operários daquela cidade originários de todas as regiões da Letônia e de algumas “gubernhas” da Rússia – que conseguiram ganham algum dinheiro aproveitando os tempos floridos da industrialização moderna – foram dolorosamente atingidos pela crise mundial de 1889 – 1890.
O historiador da Comunidade Batista Leta de Rio Novo, Júris Frischenbruder, assim descreve este período:
“As fábricas pararam de funcionar, havia muito pouca produção e a maioria dos empregados estava sem trabalho. Também a construção civil diminuiu o ritmo e o povo perambulava pelas ruas procurando emprego.
P. Salit e B. Balodis, que já haviam pesquisado as possibilidades da emigração, faziam conferências elogiosas sobre o Brasil e também foi editado um livro sobre este tema. Aruns e outros patrícios, aqui já estabelecidos, escreviam cartas dando notícias animadoras sobre a nova Terra, que eram lidas com muito agrado. As dificuldades da Terra Natal nos esgotavam e as benesses os convidavam, isto posto, a caminho, embora com tristeza e lágrimas de despedida dos entes queridos.
Não se pode negar a grande significação do pioneirismo da emigração letã para a Colônia de Rio Novo. Estes homens que vieram fortes, decididos e de muita coragem; quando lentamente se dispersaram fundaram novos pontos de imigração“.

Sobre o ensino escolar, as palavras do historiador são as seguintes:
“Desde o início a Congregação Batista se preocupou com o ensino e para a construção da escola foi adquirido um terreno. O primeiro professor a estabelecer uma pequena escola – alguns dias por semana – foi Ansis Elbert, que durou algum tempo.
Mas o principal entusiasmado divulgador do ensino foi o pregador João Inke (que permaneceu um ano em Rio Novo).
Embora a primeira escola tenha sido fundada por iniciativa particular e que convidou o professor Wiliam Butler, pagando-lhe as despesas de passagem; depois de um ano de funcionamento, o empreendimento ficou sob a responsabilidade da Congregação Batista.
Este mestre iniciou a escola em junho do ano de 1900. Ele empregou todo o seu esforço para que esta iniciativa desse bons frutos, pois até fundou uma classe noturna da qual participavam até os irmãos mais idosos.
Wiliam Butler também elaborou um pequeno compêndio de ensino da língua portuguesa acompanhado de vocabulário.
Os alunos diligentes tiveram muito êxito, mas ele mesmo, sentindo a necessidade de ampliar os próprios conhecimentos, em julho de 1903, despediu-se e viajou para a América do Norte. Outra vez, durante dois anos, a escola ficou sem professor.
Mas a Congregação não desanimava e, novamente, juntou dinheiro para pagar a passagem de imigração para um novo professor, dando assim prioridade absoluta para a instrução dos filhos.
O professor Carlos Andermann chegou em 1905 e no mês de agosto teve início à atividade escolar. Naquela ocasião o número de crianças era maior e a sua esposa Emilia foi solicitada para ajudar a dar aulas. Tudo isto foi muito agradável e trouxe um bom resultado. Habitualmente ele dizia: “quando se afaga a cabeça de uma criança a língua se solta e o cérebro assimila melhor”.
Ele exerceu aquela função durante quase 5 anos, até que resolveram mudar-se para Mãe Luzia”.

“Ans Elbert deu continuidade a este trabalho de junho de 1910 até junho de 1913. Pegou os alunos já mais crescidos e por isto desobedientes, e o número deles aumentou, mas a sua atividade deu bastante resultado”.
“Carlos Leiman foi professor desta escola no ano seguinte, mas teve que deixar o cargo por que assumiu o trabalho de missionário itinerante. Ansis Albert foi o continuador desta obra, mas não conseguiu lecionar por muito tempo por causa da debilidade da sua saúde. Outra vez passou um período sem escola por falta de professor, até que os pais que tinham filhos na idade escolar, convidaram João Frischenbruder, que para reiniciar o trabalho, que recebeu uma pequena ajuda financeira da Congregação, e trabalhou no período de janeiro de 1917 até 1918, com bons resultados. Nova interrupção de meio ano até junho de 1918 quando a Congregação convidou Wiliam Butler, junto com a sua esposa Marta (nascida Anderman) para ser professor e ela sua substituta eventual. Ele também conseguiu uma verba do Governo para apoiar esta Escola. A Congregação estava satisfeita, mas esta felicidade não durou por muito tempo por que foi convidado para ocupar o cargo de professor do idioma Inglês em Curitiba para onde viajou em julho de 1920 causando grande desilusão. Emilio Anderman exerceu o cargo durante um ano com bons resultados, mas com uma despedida festiva ele viajou para estudar nos Estados Unidos. Em continuação F. Freiman trabalhou durante um ano e fez o que pode.
A Congregação continuou procurando um bom mestre, até que em junho de 1924 chegou Carlos Stroberg e durante meio ano ocupou o cargo de pastor. Depois teve licença de dois anos para completar os próprios estudos, em Curitiba, para exercer legalmente a profissão e novamente reiniciou a escola em 1927 lecionando com muito êxito. Ele trouxe a esperança de que a colônia italiana também mandaria os seus filhos para estudar; mas em vão… depois de festejar o término do ano letivo em 1928, esgotaram-se as esperanças – o mestre deixou Rio Novo”.
“A cada ano que passava a Congregação ficava menor em número de membros e possibilidades financeiras, mas não ficou totalmente sem a escola; em 1931,

através do empenho de Oscar Karp, sob a direção da professora Zichman as crianças foram bem assistidas”.
O desempenho do trabalho de Carlos Andermann em Rio Novo, o historiador Júris Frischenbruder ainda apresenta com mais detalhes e é interessante anotar as suas observações; embora o escritor, ele mesmo, na infância tenha chegado como imigrante junto com os seus pais; tenha dado mais ênfase as considerações sobre a vida da Congregação Batista, mas que também abrangem a vida da Escola. A principal preocupação de Carlos Andermann foi à vida espiritual. Frischenbruder assim descreve este período de sua existência:
“Na reunião extraordinária da Congregação no dia 24 de abril de 1904, o irmão Janson foi encarregado de escrever uma carta ao professor e pastor Carlos Andermann, para a Letônia, a fim de convidá-lo a ocupar os cargos, Na Congregação Batista e Escola Primária, em Rio Novo. Este convite ele aceitou com entusiasmo. Então foram enviados 505 mil reis para pagar as despesas de mudança, ao que ele respondeu que esta oferta foi para ele uma surpresa agradável.
A família Andermann foi recebida numa reunião cordial e festiva, em agosto de 1905. Aos domingos ele dirigia os Cultos e nas quartas-feiras à noite – reuniões de oração; que foram as suas principais preocupações e que trouxeram muitas bênçãos.
Nos dias da semana ele lecionava como professor da escola primária. Sendo um homem de uma índole mansa e introspectiva, em outros trabalhos da Igreja ele teve um desempenho modesto. A sua principal preocupação foi o trabalho missionário nos logradouros vizinhos, ação na qual foi estimulado por vários irmãos e apoiado pelo coral da Igreja, que muitas vezes se deslocava junto com o pastor para abrilhantar os cultos. Neste trabalho os principais cooperadores foram W. Lieknin, W. Leiman, G. Auras e principalmente Artur Leiman.
Eles saíram para pregar a palavra de Deus em Pedras Grandes, Brusque do Sul e nos povoados do alto da Serra. Vários brasileiros se converteram, foram batizados e se tornaram membros estáveis da Congregação.

No alto da Serra foi realizada uma festa de batismo, a qual compareceram 20 irmãos e irmãs, ocasião na qual foi batizado Emanuel Bessa e senhora. Este trabalho missionário corria pleno de bênçãos; os ouvintes se comportavam com educação e respeito. Foi pena que com a saída do Pastor este trabalho não tivesse continuidade. Na Congregação de Rio Novo também eram realizadas festas de batismo.
A irmã Emilia Andermann (nascida Kantzberg), tomava participação ativa na direção da Escola Dominical. De acordo com a opinião de W. Karklin, ela foi uma líder e sob a sua orientação a escola muito se desenvolveu. Tinha uma boa voz e gostava de cantar e com este dom servia no coro da Igreja, na parte musical da Escola Dominical e nos cultos de oração. Lentamente a Congregação foi se desenvolvendo satisfatoriamente.
Em um domingo por mês, com a participação da Junta das Missões, a Congregação realizava um culto onde se divulgavam noticias missionárias da China, Índia e outras partes do Mundo, quando no jornal doutrinário mensal “A Fonte” apareceram as primeiras notícias sobre o movimento pentecostalista de Los Angeles, dos Estados Unidos; movimento sobre o qual J. A Frey líder dos Batistas tradicionais da Letônia assinalou; “Se isto é verdade então esse movimento espiritual suplanta aquele dos Atos dos Apóstolos”. Nesta doutrina o pregador Andermann acreditou e aderiu, esperando obter estes dons espirituais de falar línguas estranhas, profetizar e curar os enfermos.
Assim pouco a pouco surgiu o desentendimento na interpretação doutrinária entre a Congregação e o Pastor. Por várias vezes os membros da direção da Igreja dialogaram com Carlos Andermann, solicitando para que ele continuasse a dirigir os trabalhos da Igreja como já vinha fazendo, mas em 29 de novembro de 1908 ele propôs a Igreja para convidar o Pastor Wiliam Butler para substituí-lo. Depois de uma despedida na qual foram apresentados cânticos e pequenas falas… nossos corações estão tristes por causa desta separação… o Pastor deixou o cargo, em boa situação econômica”.
Ainda transcrevendo as observações do historiador:

“Carlos Andermann tinha o diploma de ginásio do regime escolar do Tzar Russo. Antes de vir para o Brasil havia trabalhado na livraria de J. A Frey e também como Colportor (vendedor ambulante de livros). Enquanto viajou pela Rússia como missionário ele havia observado o extremo estado de miséria dos lavradores; mas o que mais nos impressionou como crianças era uma fotografia na qual ele aparece montando num cavalo árabe branco, vestido de “xeique”, com uma espingarda de cano longo nos ombros, que era uma lembrança da sua estadia na Palestina. A Junta Missionária Leta o havia mandado para lá, durante vários anos, a fim de converter os peregrinos russos que visitavam a Palestina por que era proibido fazê-lo na Rússia, mas ali na Terra Santa esta determinação era inútil. Lá ele adoeceu com uma febre tropical e a sua vida foi salva da morte graças aos cuidados de um centro missionário alemão. Esta enfermidade interrompeu o seu empreendimento na Palestina”.
“Emilia Andermann (nascida Kantzberg) na sua juventude trabalhou numa Fábrica de Tecidos. Uma senhora da nobreza alemã, Firsten Liven, deu-lhe a oportunidade de estudar numa escola de economia doméstica, para depois empregá-la na sua mansão da fazenda como administradora feminina. Ao mesmo tempo exercia a função de professora primária, mas sem receber salário, proibido pelas Leis do Tzar, por isto sendo recompensada em forma de presentes. Quando já no Brasil, recebeu a notícia de que um dos seus ex-alunos fora fuzilado pelos Kossakos, pelo crime de ter sido surpreendido hasteando uma bandeira vermelha na passagem do ano para 1905”.
Carlos Andermann quando emigrou para o Brasil, trouxe em sua bagagem uma vasta biblioteca sobre vários assuntos, nos idiomas letão, russo, alemão e inglês, incluindo enciclopédias, dicionários, tratados de teologia e pedagógicos.
Dominando vários idiomas foi fácil para ele assimilar a língua portuguesa que ele aprendeu através de um método de ensino moderno alemão. Então ele usou estes livros de ensino em alemão, incluindo o dicionário, para aprender o português, por que não os havia em letão.

Este sistema de ensino ele também usou na sua escola primária, ensinar primeiro o idioma alemão aos descendentes de letões e a partir daí, a língua portuguesa simultaneamente. Os alunos mais diligentes acabaram dominando os dois idiomas, mas os menos dotados e aqueles que ajudaram os pais, na parte da tarde, nos trabalhos da lavoura, ficaram no meio do caminho, também por que, naquela época, a língua alemã era mundialmente muito considerada, devido à expansão do Imperialismo germânico; mas não me consta que aqui a sua literatura tenha resolvido algum problema técnico ou estabelecido intercambio cultural com aqueles alemães que imigraram para Santa Catarina e que tinha pouca escolaridade.
Aqueles alunos que dominaram os idiomas podiam conversar com os alemães e os brasileiros e usá-las na prática como: comerciantes, construtores e artesãos de outras profissões.
A forte corrente de nacionalismo letão, no meio dos Batistas, se apresentou como um avivamento religioso. Nas aulas de Carlos Andermann também se aprendia o idioma letão, mas não com tanta insistência que conseguisse, a nacionalidade dos antepassados, imprimir no seu caráter.
A não ser a religiosa, não havia literatura accessível para praticar a leitura da linguagem escrita. O que se fazia e que na ocasião era o suficiente é que toda a mocidade conseguia se comunicar no idioma letão falado. Agora, as novas gerações evitam falar o idioma, por que não tiveram a oportunidade de aprende-la.
A influência da escola da Congregação Batista do Rio Novo deixou uma impressão forte em toda da redondeza. As famílias alemãs que habitavam o local, mandavam os seus filhos estudar naquela escola – embora por pouco tempo – por que eles não eram persistentes e muitas vezes mudavam de lugar. Entre os alunos havia um tal M. Cruz, de nacionalidade brasileira que adotou os costumes, o modo de vida dos letões e a religião Batista, aprendeu o idioma e os seus filhos, hoje encanecidos, ainda não esqueceram esta língua.
Uma menina de cor preta, oriunda de uma antiga família de escravos, por muito tempo trabalhou para uma família leta. Aprendeu a falar o idioma, adotou os

costumes. Depois casou e foi morar em outra localidade, mas apesar o isolamento ensinou aos 6 filhos a falar o letão.
Continuando a avaliação do trabalho do professor Carlos Andermann, devemos adotar como exemplo de que falou Cristo: “a árvore se avalia pelos seus frutos”. A juventude daquele tempo teve poucas oportunidades de estudar. O seu trabalho era derrubar florestas e arrancar raízes e tocos; mas apesar disto, muitos alunos do meu Pai progrediram como profissionais artesãos, comerciantes, professores, pastores entre os quais destaco o W. Leiman.
Mas o expoente máximo foi Charles Salit que exerceu o professorado em Nova York e alcançou o grau de professor de Filosofia e ficou amplamente conhecido como pensador e conferencista. Descrevendo a própria biografia, em várias páginas, ele lembra o “profundo caráter” de Carlos Andermann.
Então surge a pergunta – por que ele não se contentou em Rio Novo? A sua principal preocupação sempre foi à espiritualidade que lá não foi correspondida, mas apesar disto ele conseguiu realizar muita coisa, talvez mais do que os seus sucessores; mas certamente também lhe interessavam as várzeas marginais do Rio Mãe Luzia – aquelas planícies que prometiam poder ser cultivadas com técnica agrícola mais avançada. No entanto quando ele chegou, as melhores terras já estavam ocupadas e o que sobrou para ele, era plana, sim, mas também tinha charcos. Num país como Brasil onde a agricultura se caracteriza como seminômades (os lavradores cultivam a terra em sua superfície, mas esquecem as camadas mais profundas, por isto ela se esgota, eles se mudam e reiniciam o ciclo), o agricultor letão é uma exceção, por que se firma, constroem casas confortáveis cercadas de pomares e horta. Comentando o último período de sua vida no Estado do Rio Grande do Sul, pode-se dizer que ele alcançou o seu objetivo perseguido durante toda a sua vida – incluindo a idade bastante avançada.
Até o fim permanece o fiel cooperador dos Pentecostalistas (Assembléia de Deus), contribuindo na tradução de sua literatura dos idiomas inglês e alemão para o português.

Estes trabalhos que incluem hinos podem ser contados em milhares. Eles nunca foram colecionados e a maioria não traz o nome do tradutor.
Jaz no cemitério protestante da cidade do Rio Grande, numa sepultura perpetuada pelos filhos na intenção da colocação de uma lápide.

Traduzido do Letão em agosto de 1991 por Julio Anderman

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