Breve histórico dos Batistas da Letônia | Por Ilgonis Janait

A003-1992

Breve Histórico dos Batistas
Da Letônia

Coligido e apresentado pelo Pastor Ilgonis Janait no dia 11 de julho de 1992 em Varpa por ocasião dos festejos do Jubileu do Cente¬nário da organização do Trabalho Batista Leto no Brasil.

Publicado na Revista “Kristiga Draugs”( O Amigo Cristão) número 03 de 1992.

Traduzido por V.A.Purim.

(Fontes históricas do autor: Janis Riss, Adolfs Klaupics, Osvald Ronis, Andrejs Ceruks, Janis Inkis, Arvids Eichmanis, Janis Eisans, Karlis Grubers, Yolanda Krievin e outros)

A Letônia, os Letos e suas Crenças.

A Letônia é um pequeno país situado entre a Estônia e a Lituânia e com uma área aproximada de 66 mil metros quadrados. O clima é temperado frio e a temperatura média anual fica entre os 6 a 11 graus centígrados positivos. A população atual situa-se aproximadamente aos três milhões de habitantes. As raízes históricas são encontradas na Idade da Pedra, isto é, mais ou menos 2 mil anos antes de Cristo e pertencem ao tronco Indo-Europeu. O termo Leto ou Letoniano vem do “lett” que significa cavar a terra ou arar, deduzindo-se assim ser agricultor. A língua leta é mais antiga que o Latim ou o Grego e suas bases não são encontradas nas línguas germânicas ou eslavas, mas, sim no Sânscrito. Até o nome da moeda no passado era, e agora novamente se chama, “latt”.

Durante sua História o povo Leto foi dominado pelos alemães, poloneses e russos.

A religião dos antigos Letos era o panteísmo naturalista. Era mais crença e tradição do que propriamente adoração. Não tinham nenhum ídolo fabricado pela mão humana nem sacrifício de sangue. Viam nas forças da natureza algum mais forte poder. A mais alta divindade era o “Velho” Pai dos Céus e todo poderoso sobre todas as coisas, doador da vida. O qual sempre tinha um bom conselho, que ajudava o agricultor nas suas dificuldades e não esquecia das viúvas e dos órfãos. Esta entidade era cantada em verso e prosa como dum homem curtido pela vida e estava em toda parte e em derredor, ora a pé, ora montado em seu cavalo branco ou ainda arando a terra…

Criam também estes na “Laima” que pode ser traduzida por felicidade ou sorte, a qual trazia alegria e felicidade. Os seus deuses os antigos Letos veneravam em plena natureza, e, para estas havia algumas árvores que tinham um caráter sagrado (carvalho e Liepa (tília cordata) e, segundo o historiador Janis Riss, a última destas teria sido derrubada em 1.875. Os antigos Letos criam na vida além túmulo, refletindo o mito do sol dos antigos Indo Europeus, que no fim do dia se põe, mas ressurge esplendoroso no dia seguinte. (Berzis=bétula -Svetberzis verif. tradução)

As primeiras tentativas de levar o Cristianismo ao povo Leto foram feitas sob a ameaça da espada. Quando o Monge católico alemão Meihard chegou à Letônia, ele obrigou os primeiros Letos ao batismo pela força. Depois dele veio o Bispo Bertholds, com a bênção do Papa e um exército de legionários cruzados pagos pelos príncipes e pelo Papa, para obrigar os Letos se tornarem cristãos à força. Na batalha contra os lívios, perto de Riga o Bispo Bertholds foi morto, o que ainda mais acentuou a ira dos cruzados obrigando mais ainda o povo a aceitar o batismo. Mas uma vez que os cruzados foram embora, os Letos foram “lavar “o batismo nas águas do Rio Daugava. O período do Catolicismo dura aproximadamente 300 anos e os Letos aos poucos vão perdendo as suas crenças e sua terra…

Com a chegada da Reforma de Lutero, pouca coisa muda. As mudanças são mais evidentes na área política e econômica. Na área religiosa pouca coisa mudou. O que estava escrito nos livros de uma igreja foi copiado pela outra.

Do ano de 1.562 até 1.795 a igreja é luterana, mas sob domínio da católica Polônia. Em 1.689 os Letos ganham a Bíblia Sagrada em sua própria língua, traduzida por Ernesto Glück.

Durante o século 18, ainda que pudessem ser encontrados Letos que nunca iam a Igreja, e zombavam do Cristianismo e ainda cultivavam as crenças de seus antepassados, já se podia ser considerada completa a “cristianização” da Letônia.

Sob o domínio da Rússia, os grandes proprietários de terras são os barões alemães. Os Letos tornam-se uma categoria de “servos”, mais para escravos, pois os barões tem poder sobre o seu corpo e alma. Podiam carregar de taxas e obrigações e muito mais Na parte pessoal chegava ao cúmulo da primeira noite da noiva leta pertencer ao barão alemão ou, também, poder obrigar ao rapaz leto a casar com a empregada leta que o barão tinha engravidado.

O barão e o pastor sempre estão de mãos dadas. Do púlpito o pastor ensina obedecer o barão. Pouca era a influência do pastor leto. A principal recomendação dos opressores é: “Esqueça que em suas veias corre sangue leto. Esqueça seu povo, seus irmãos, comporte-se como estivesse entre estranhos e não como entre os seus amigos e em sua pátria”. E a recomendação em relação à Igreja: “Esqueça que este é teu conterrâneo, não pense que ele veio à igreja para cultivar algum sentimento nacionalista, mas con-sidere-o um estranho que tem uma alma pela qual deves zelar. Teme-o e honre-o como a cada um de nós”. (A. Klaupics-“Dzivibas Cels”) (O Caminho da Vida).

As principais conquistas da época foram a Bíblia Sagrada em língua leta e a música coral, ainda até hoje muito em evidência.

No ano de 1.729 vieram da Alemanha um grupo denominado “Congregação dos Irmãos ou Irmãos Morávios” movimento pietista que pregava o arrependimento, mudança de vida e abandono das crendices familiares tão ao gosto do povo.
Seus lugares de encontros também chamadas “Despensas de encontros”, chegam a ser mais de 140 e alcançam mais de 30 mil seguidores, mas, já no ano de 1.743, todo este trabalho foi terminantemente proibido. Desta época ficaram de muito importante o conjunto de Hinos sacros (Garigas Dziesmas) ou “Hinos Espirituais”, sobressaindo os de autoria de Loskiel que são cantados até o dia de hoje.

Os Começos dos Batistas na Letônia

Para muitos é completamente desconhecido como se deu o início do trabalho batista na Letônia, se bem que nós somos os seus descendentes. Por isso vou dar a conhecer.

Durante o século 19 foi dada muita importância para a abertura e desenvolvimento das escolas nas propriedades dos barões.
No ano de 1.841 o Barão de Drächenfell fundou uma escola em sua propriedade e para dirigi-la, convidou um professor chamado Hamburgers, que era pessoa muito culta e religiosa. Devido as distâncias da sede da escola e do local onde os alunos moravam, os mesmos compareciam a escola às segundas feiras com o farnel, isto é, com a comida para a semana inteira, e retornavam para as suas casas somente ao fim da semana. O professor Hamburgers tinha por hábito, antes de dispensar as crianças nos finais dos períodos, ler textos das Sagradas Escrituras e orar de joelhos pelos alunos, pela escola. Nas segundas feiras ele conversava com os pais das crianças. Assim, um e outro deixava da bebida e deixava de trabalhar aos domingos.
Mais tarde o Barão dispensou este professor.

O movimento espiritual iniciado pelo professor Hamburgers é continuado pelo seu ex- aluno, chamado Ernests Eglites. Os interessados pela melhora de sua vida espiritual reuniam-se aos domingos. Liam a Bíblia, oravam e conversavam entre si sobre o melhor modo de livrarem-se de seus erros e pecados. Nestes encontros comparecia Adams Gertners, o qual mais tarde seria o primeiro pastor batista leto.
Adams Gertners foi visitar o pastor luterano Grött e pedir esclarecimentos porque a Igreja nem sempre seguia as Escrituras Sagradas, principalmente em relação ao pecado (Mateus 18:5). Então, o Pastor Grött, que até aí tinha elogiado a Adams Gertners, no domingo seguinte advertiu a igreja contra o “falso profeta”chegando a dizer que o mesmo tinha perdido o juízo.

No ano de 1.855 na cidade de Liepaja moravam 9 batistas, todos alemães, membros da Igreja Batista de Memel, que naquela época pertencia a Prússia Oriental. O Pastor Nímecs desta Igreja visitava regularmente estes irmãos, até que o número deles chegou a 14. Entre eles havia um chamado Brandmanis, que na vida profissional era fabricante de cordas.

Durante este período ainda não conformado, o Adams Gertners com a resposta do Pastor Grött, foi a procura de outros pastores, os quais nada puderam ajudar na sua busca de respostas para a sua vida espiritual. Então Adams resolve passar os domingos lendo a Bíblia e orando. Aos poucos foram se chegando curiosos para conhecer o “falso profeta ” Estes encontros foram se transformando em conversas sobre assuntos espirituais e terminando em cultos.
Um dia Adams vai ao culto dos Batistas alemães e é recebido pelo Brandmanis e por Grobins. Após o trabalho da noite, uma conversa que durou até o amanhecer. Depois desta ficou claro o que ele devia fazer. Retornou para partilhar do culto com os irmãos alemães, agora acompanhado com Dravnieks e com Jankovskis. Este foi o primeiro culto batista na Letônia onde os irmãos letos participaram mesmo ainda não sendo Batistas.
Um dia, Brandmanis, do grupo dos alemães, foi convidado a visitar a localidade de Uzav onde moravam aqueles letos interessados e ficou várias semanas. Durante o dia trabalhava na sua profissão, confeccionando cordas, e a noite realizando estudos e cultos. Convencidos na fé, demonstraram vivo desejo de serem biblicamente batizados por imersão e para tanto solicitaram que Brandmanis assim o fizesse. Brandmanis esclareceu que para tanto a pessoa teria que ter a plena autorização da Igreja em Memel-Klapeida, pois não havia nenhuma outra no Báltico. Começaram as correspondências e, em seguida o convite para viajar à Prússia Oriental.

No outono de 1.860 mais ou menos 10 homens de Uzav e Zirah saem em viagem. Primeiramente imaginam conseguir autorização para a viagem em Ventspils já que as localidades onde moram fazem parte de sua jurisdição. Lá são grosseiramente atendidos e a permissão para viagem negada por não haver um motivo convincente para ir para o estrangeiro. Chegaram a ameaçá-los com açoites. Assim mesmo, em agosto deste mesmo ano, saíram de Uzav com destino a Memel: Janis Dravnieks, Andrejs Jankovskis, Krists Berzins, Jekabs Jeka, Andreis Kezis e Kaspars Zirnieks. Em Labrag juntaram-se a eles Adams Gertners e Anna Gertner. Em Liepaja aguardam os viajantes o amigo Brandmanis e outros membros da Igreja de Memel residentes nesta cidade. Ao grupo juntam-se batistas alemães entre os quais 3 candidatos ao batismo: Johanns Jansons e duas irmãs: Marija e Karoline Kronberg. Brandmanis era o guia.

Na fronteira os alemães não têm nenhum problema. Os letos sim. Quem resolve é o escrivão da Fazenda Perkons: cada leto pagou a importância de 50 kapeiks, 15 para a Fazenda e 35 para o bolso dele. As licenças foram expedidas em nome de pessoas da localidade… Os viajantes chegaram a Memmel num sábado à tarde. Naquela mesma noite foi convocada uma sessão da igreja.
Os letos, através de intérprete, foram aceitos como membros da igreja.

Em 02 de setembro do ano de 1860, domingo, foram realizados os primeiros batismos de letos batistas e quem realizou foi o co-pastor Albretchs. Após duas semanas, na volta as suas casas, começaram os interrogatórios e a firme proibição de não voltarem a Memel. Os primeiros a serem presos devido à realização de cultos e nova fé foram Adams Gertners e Marija Krombergs. Assim mesmo as viagens para Memel continuaram às escondidas, agora via marítima. Para aqueles viajantes: julgamentos, prisões, castigos corporais e expulsão de casa. Diante de tantas dificuldades para viajar, a Igreja em Memel resolveu ordenar a Adams Gertners ao santo ministério da Palavra e pastor para a Província leta de Kurzeme.

Os primeiros batismos realizados na Letônia foram à noite, isto é, à uma hora da manhã da noite de 9 para 10 de setembro, no rio que corta Zirah. Adams Gertners, postado à margem, pregou um curto, mas eloqüente sermão, após qual foi cantado um hino do hinário luterano e depois de uma oração pelo próprio Adams desceu a água e batizou 72 pessoas. Logo em seguida, ainda na beira do rio, foi celebrado o memorial da Ceia do Senhor.
Naquele mesmo ano, em 14 de outubro, são realizados novos batismos, agora no Lago Klapar.

Adams Gertners- Nascido nos arredores de Kuldiga, no dia 24 de junho de 1.829. Após a sua conversão e ordenação ao santo ministério da Palavra passou muito tempo preso. Falecido em 23 de agosto de 1.876 na localidade de Velda. Desde que foi proibida a vinda do Pastor Nímecs de Memel para visitar os crentes residentes na Letônia o Pastor Adams foi designado como líder e planejador do trabalho.
O historiador Janis Riss diretor do Seminário da Associação das Igrejas Batistas Letas no seu livro “Latviesu Baptistu Drauzu Ieselsanas un vinu talaku atistiba” (O início das Igrejas Batistas Letas e seu desenvolvimento) transcreve trechos de duas Atas de sessões das Igrejas em Kurseme, a primeira de 24 de maio de 1.870: “Iniciando o Bispo Adams Gertners da Igreja Batista de Kur¬zeme…” e o segundo em novembro de 1.870 “Resoluções da Igreja Batista no dia 15 de novembro de 1.870: “Nesta sessão o Bispo A. Gertners das igrejas batistas de Kurseme e Venstpilis e arredores cumpre as suas funções no dia determinado, orientando esta grande conferência, na qual participaram muitos dirigentes, auxiliares, bispos e escrivães… ”
(Do Livro de Atas e Resoluções da Igreja de Zirah ). Outro historia¬dor que descreve e comprova as atividades do Bispo Adams é Adolfs Klaupiks, obreiro da Aliança Batista Mundial, em seu livro “Dzivibas Cels” “Nas Igrejas era muito respeitado e em todas atas das sessões das Igrejas da época é mencionado com Bispo da Igreja de Kurzeme”.

Estes foram os começos. Veio a Primeira Guerra Mundial. Depois da Guerra nos anos 20, deu-se a grande imigração para o Brasil quando os Batistas da Letônia perderam para o Brasil muitos membros de Igreja, dirigentes e os melhores pastores. O trabalho na Letônia ressentiu. Veio a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, o regime comunista sob forte pressão, durante 50 anos tentando por todos meios e forças suprimir toda e qualquer demonstração de fé ou as Igrejas…

No final do ano de 1991 havia na Letônia 63 Igrejas Batistas com 4.669 membros ativos, 37 coros onde cantam 868 coristas, 37 Escolas Bíblicas Dominicais onde estavam matriculados 2.026 alunos e orientados por 159 professores. Grupos de jovens eram 22 com 373 participantes.

A Deus toda glória pelos começos na Letônia!

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