O FEITICEIRO | POR VILLIS LEIMANN

O FEITICEIRO

Escrito por Willis Leimanis

Traduzido do Leto por Julio Andermann

Revisado: Viganth Arvido Purim

Há 70 anos, próximo da estrada de rodagem que seguia para o Leste, pela margem esquerda do rio Dvina [Daugava], na Letônia, a primeira casa que era visível acerca da metade do caminho foi a suntuosa edificação branca da Taberna de Pedra e continuando o caminho, construída em tijolos vermelhos, a Tasca [Também taberna] do Silo.

Continuando, por esta mesma estrada aparecia, em sequencia, a casa do Didemo e o lar dos Russinhos, que se compunha de várias casinhas, assim chamada por que foram doadas pelo Tzar da Rússia, junto com um pedacinho de terra, como preço [Prêmio] a soldados que haviam servido a Coroa por mais de 25 anos.

Deste conjunto de habitações, cruzando a estrada, por um caminho secundário se chegava à casa dos Pliko. O seu proprietário era agricultor e guarda de florestas, que eram entremeadas por charcos.

Ali também nascia o rio Ezerva, afluente do Dvina. Ignoro se aquelas florestas pertenciam a Coroa ou a algum latifundiário abandonado.
Estas são as lembranças de um menino que tinha 4 anos, que hoje está com 74 lamentando a falta de oportunidade de visitar este cenário e rever como ele está hoje. Ao lado da casa do Pliko, próximo à represa, em condições de muita pobreza, habitava a família Leiman que era constituída dos pais, avô paterno e 3 garotos. O pai da família ganhava a vida como serrador de taboas e dormentes – quando e onde pudesse encontrar o trabalho escasso e mal remunerado – sem qualquer esperança no futuro.

Corriam notícias de que no Brasil era possível comprar terras e que as Empresas de Colonização financiavam a viagem e o assentamento.
Nas casinhas dos Russinhos morava a família de Pliederis e Rudzi [Deve ser Rudzit] que também levavam uma vida miserável. Não me lembro do número de quantas pessoas eram, mas sei que o meu pai combinou com eles que iria procurar um caminho que todos conduzissem ao Brasil.

No fim da última década do século passado, emigrou a família do Leimanis (comigo entre eles); junto com o pai e filhos dos Pleederis [a pronúncia é “Pliederis”.] ficando a mãe e a filha para virem, em outro grupo, junto com o Rudzit, mais tarde. Depois de uma viagem de 8 semanas enfrentando desconforto e tempestades, a minha família estava nas matas virgens do Brasil no Estado de Santa Catarina.

Logo depois que o primeiro pedaço de terra estava preparado para o cultivo e a plantação começou a brotar, os Leiman, pai e filho, carregando o serrote, saíram à procura de trabalho.

Nas noites frias e chuvosas, os Pleederis vinham visitar a família Leiman, que sentados em volta de uma fogueira aconchegante, falavam sobre a Terra Natal distante, dos vizinhos que lá deixaram e também sobre acontecimentos sobrenaturais.

A senhora Leiman animava os filhos para que fossem dormir. Mas como? E estas estórias! Então contavam a respeito daquele fazendeiro que tinha um olhar azarado. Bastava ele olhar firme para um animal, para que ele em breve morresse. Até para os próprios cavalos evitava olhar e para isto, por traz do cocheiro, foi estendida uma cortina. Sim senhor – existe cada tipo!

No sótão de uma certa casa trabalhava um alfaiate, que era um agregado. Num dia, de manhã, exigiu da senhoria que imediatamente lhe servisse carne para comer. A dona da casa prometeu sacrificar um galo para lhe servir no almoço, mas o alfaiate insistiu, quero comer carne agora mesmo no desjejum. Inquieto se retirou da casa e logo depois o pastor de ovelhas ali próximo começou a gritar:
“Socorro, socorro, olha o lobo atacando o rebanho”.
Muita gente acudiu, mas o lobo já havia sumido deixando um carneiro com a garganta cortada. Logo depois, a dona da casa entrou outra vez na sala e observou restos de lã de carneiro nos dentes do alfaiate que tinha voltado. Então, ficou entendido que ele era um lobisomem.

Mas como isto pode acontecer? É muito simples, quem tem esta dupla natureza, quando quer rasteja por baixo de uma raiz de carvalho [Na nossa infância em Rio Novo Orleans também eram contadas estórias deste gênero com a diferença que seria necessário passar três vezes. Nós crianças fazíamos experiências com raízes de figueiras, embauvas etc. ficando decepcionados por não acontecer nada] – torna-se lobo – rasteja de volta – é outra vez homem com dantes. É por esta razão que um lobo deste tipo, não se consegue capturar nem mesmo com auxílio de cachorros.

Mas tudo isto não é nada. Vocês já ouviram falar daquele sujeito que carregava no bolso aquele rublo de prata encantado do diabo? É… com este rublo de prata ele podia comprar tudo que desejasse, mas depois quando o vendedor dava o troco, grachos e copecos, [Moedas divisionárias do rublo que eram a moeda oficial do Império Russo da qual a Letônia na época era uma simples província].
ao sair da venda, o rublo de prata estava outra vez no seu bolso. Quando chegou a hora da morte por causa da sua velhice, surgiram as dificuldades; ele não conseguia expirar. Sua agonia demorou um dia e meio, por que a alma não queria se separar do corpo. Então começou a inchar, ficando tão inflado que as suas roupas ficaram apertadas. Era terrível ver a agonia daquele homem que ficou tão estufado que acabou explodindo com um grande estrondo que quebrou as vidraças da casa e da vizinhança. Mas quando foram examinar os seus restos mortais espalhados por todo lado, verificaram que tudo cheirava a enxofre, sendo obrigados a chamar o padre para defumar tudo com incenso.
Onde ficou o rublo de prata? Não se sabe, por que qualquer um que o quisesse gastar teria primeiro de fazer o juramento ao diabo, e recitar os seus mandamentos.
Agora no Brasil.
Lá no meio da mata virgem onde ainda se ouvia os uivos de animais selvagens notívagos no escuro inescrutável, nos os adolescentes, tremendo de medo, se achegavam mais ao lume de lenha, o queixo tremendo e os dentes batendo e depois que foram dormir, o menino menor vítima de um pesadelo, acordou gritando, então a senhora Leiman concluiu que este tipo de estória era imprópria para auditório de menores; com o que não concordavam os garotos sequiosos de ouvir novidades tão escassas no local.

O jovem Pleederis veio nos visitar para solicitar da senhora Leiman uma opinião sobre as moças da colônia. Disse que estava pensando em se casar para constituir família, mas ela respondeu que, neste momento, isto era desaconselhável, por que a sua mãe e as irmãs, ainda não haviam chegado ao Brasil.
Os Pleederis e Leiman falavam o idioma Letão com a pronúncia do interior, quase com sotaque de caipiras, enquanto a maioria dos colonos da redondeza era oriunda dos arredores de Riga e caçoavam deste modo de falar. Mas o jovem Pleederis estava decidido a procurar uma noiva e quando há força de vontade, abre-se o caminho como diz o poema Kr. Waldemar [Karlis Waldemar – famoso poeta leto] que talvez ele não tivesse cultura para conhecer:
“Quem tem vontade e a mente forte,
Não temerá o percurso,
Vencendo florestas e muros fortes.
Abrirá o seu caminho”.
E, assim o Pleederis, resoluto começou a abrir o caminho em busca de uma moça para se casar.

Na Colônia Letã os livros no idioma pátrio eram escassos, a não contar a Bíblia e os hinários das igrejas. As famílias que tinham trazido livros de literatura emprestavam-nos aos vizinhos num intercâmbio, como também a outras pessoas que os desejassem ler.
Ficará em segredo o nome do proprietário que possuía o “Livro dos Noivos” que continha amostras e modelos de como escrever cartas de amor. De posse deste livro o Pleederis comprou papel de carta florido e deu início de elaborar cartas copiadas daquelas belas e amorosas sentenças insinuando amor, esperança e muitos outros sentimentos nobres.
Para entregar a correspondência a sua amada ele empregava aquela estratégia de emprestar e tomar emprestado livro, como era o costume, colocando a carta entre a capa e o título. Ele pegou o livro bem embrulhado e na reunião da Igreja no próximo domingo, na presença de senhoras e moças, aproxima-se da eleita do seu coração, devolve o volume e agradece a gentileza do empréstimo elogiando o seu conteúdo e pergunta se no próximo dia santificado, não lhe pode trazer um outro livro, acompanhando as palavras com aquele olhar furtivo que a moça entende imediatamente como um pedido de troca de correspondência.
Na Bíblia o Rei Salomão desaconselha a confiar em gente que se entreolha furtivamente; mas o que se pode esperar da decisão de uma moça inexperiente, cheia de paixão, embora ela tenha decorado o conteúdo do livro sagrado. Chegando em casa, sozinha e atenta, a eleita lê com agrado àquela carta escrita com aquelas palavras doces e enganosas que ele copiou do livro e o seu coração quase derrete esperançosa da felicidade.
Na vida monótona dos colonos que passavam os dias no trabalho pesado, tanto os homens como as mulheres, falta de recursos para pagar outras diversões, este era um momento fulgurante.
Finalmente as cartas acabavam marcando o encontro pessoal, que era um acontecimento difícil por que, durante o dia, todos trabalhavam na lavoura e a noite a família ficava reunida na pequena sala da primitiva habitação, até a hora de dormir, que tornava muito difícil manter o anonimato. Mas até para vencer este empecilho a “força de vontade” encontrou solução. Num breve diálogo com a sua eleita que tinha o nome de Ana, ficou combinado que este encontro se realizaria, numa manhã, na casa dos pais dela.
Enquanto todos trabalhavam na lavoura, ela encontrou uma razão plausível para dar uma chegada em casa. Absortos no namoro, os dois não notaram o tempo passar e eis que ouvem o alvoroço da família que estava voltando para o almoço. A única saída encontrada foi o Preedelis esconder-se num armário de roupas até que os comensais alimentados voltam para o trabalho vespertino, enquanto ele suava dos pés até a cabeça.
Este romance teve pouco tempo de duração. A Ana também tinha uma mente forte e afiada. Em breve ela verificou que o caráter do namorado não era bem aquele que transparecia nas cartas. Duro com duro não dá um bom muro e assim apareceu o desentendimento e o relacionamento acabou.

Mas o Pleederis não se deu por vencido e depois de algum tempo de espera, começou a agradar a outra moça. Mas também desta vez as mensagens daquelas cartas arrebatadoras, causaram boa impressão por pouco tempo e o resultado se repetiu, quando os namorados se aproximavam, num encontro pessoal, os rosados sonhos da noivinha se esmaeceram, deixando um coração ferido, humilhação e o amargor do engano.

O Pleederis tinha uma boa apresentação: a cabeleira avermelhada, bigodes, olhos da cor de azul celeste, face rosada, bem trajado até o ponto que isto era possível no meio da floresta; mas no seu relacionamento com outras pessoas, era desumano, empedernido e grosseiro com as palavras e na atitude. Quando procurava a noiva para se casar, não escondia a cobiça querendo saber quantos porcos, gado bovino e galinhas a noiva traria de dote e por causa destas exigências desmoronaram vários idílios.

Finalmente quando chegaram da Letônia a outra parte da família – a sua mãe e a irmã Elsa, se pode verificar que ele havia herdado a natureza da mãe. Esta senhora era rancorosa, ambiciosa, vingativa além de ter outros defeitos. Por motivos fúteis ela implicava com os vizinhos e num linguajar de caipira dizia: “Nunca, jamais, a minha Elise pensara em se casar com Frederico Leiman, [Fritz era irmão do Willis] porque nunca vou esquecer que sua mãe me xingava”, mas o máximo que a Sra. Leiman dissera para a Preedulis fora: “Você é fedorenta”.

Havia também uma diferença no modo de se expressarem, os colonos que vieram de Riga diziam: “Mas que rosa perfumada”, enquanto os caipiras diziam: “Esta rosa cheira bem”.

Mas na colônia as coisas se modificavam pela ação do tempo que se passava, a velha Pleeder de repente adoeceu e depois de alguns dias faleceu. Mais uma vez ficou comprovada a falta de sentimento no comportamento do filho. Mal o corpo da senhora chegou ao cemitério foi baixada a sepultura, e enquanto os assistentes ainda estavam rezando o “Pater Noster”, o jovem Pleederis jogou, com toda brutalidade, a terra em cima do caixão da mãe falecida, provocando aquele ruído seco de trovoada distante ao cair sobre a urna funerária, e embora esta gente tivesse acompanhado os outros enterros de patrícios falecidos anteriormente, nunca dantes se viu um procedimento tão irreverente. Meneando a cabeça alguns letões sentenciavam: “parece que este ato encerra alguma ciência oculta”.

A filha dos Pleederis, Elsa, viajou para a cidade a fim de servir como empregada doméstica e assim ganhar algum dinheiro, deixando o pai e o irmão sozinhos no sítio. O velho era um homem fraco. Já no primeiro ano de atividade, uma secreção leitosa de um cipó cortado, caiu num dos seus olhos que vazou. Portando uma barbicha e cabelos brancos, tendo as faces rosadas, ele deixava uma impressão estranha. Solitário, perambulando pelas estradas gesticulava ameaçadoramente. Falava sozinho e o que ele dizia, ninguém entendia nem mesmo os meninos adolescentes que se escondiam nas moitas da beira do caminho.

O jovem Pleederis continuou a perseguiu o casamento e quando ele estava bem humorado, se vangloriava, contando aos adolescentes as suas conquistas.

A estrada que cortava a colônia passava pelo terreno e perto da casa dos Leiman e o Frederico, já quase adulto, dizia caçoando como se fosse um diálogo, mas com a força da voz suficiente para ser ouvida pelo caminheiro: “Ele está febril e vai à consulta médica”. Diziam que outro costume que Pleederis tinha é que no meio da noite, para não levar um tombo ele andava com as pernas abertas. Sobre a estrada, em frente da casa dos Leimanis, passavam a noite, deitados os bovinos. Distraído ele acabou trepando no lombo de um novilho, que assustado levantou-se inesperadamente, com ele aboletado nas costas. Então o Pleederis escorregara ao solo, não se machucando, por milagre, por que caiu em cima de bosta ainda quente.

Já mencionei que ele gostava de andar bem trajado. Não tendo mulher em casa, ele próprio escovava, lavava e passava o seu traje. Certo dia com o ferro quente estava engomando a roupa, costume que adotara dos Letões de Riga. Inesperadamente os cães começaram a latir enquanto as galinhas cacarejavam. Correndo foi acudir as galinhas, por que um lagarto estava engolindo os pintos. Quando adultos estes animais mediam mais de um metro, pareciam crocodilos e não tinham medo de cachorros. Quando Pleederis se aproximou o lagarto fugiu o liberando para continuar o trabalho interrompido. Então viu que em vez de colocar o ferro sobre o suporte o havia deixado em cima da roupa, verificando que havia queimado nas calças um buraco do seu tamanho.

As calças ficaram inutilizadas e o usuário ficou muito zangado e ainda mais por que não tinha com quem desabafar, e por causa disto resolveu procurar outra vez uma esposa. Então ele se conscientizou que estava desmoralizado em toda a colônia em que morava [Rio Carlota] onde já não era mais levado a sério e se insistisse em alguma nova conquista, não teria êxito, por isso resolveu procurar a noiva em outro local, longe dos conhecidos.

Ausentou-se e por não ter amigos, ninguém percebeu, que durante algumas semanas, o Pleederis não fora visto, até que num dia, em que o seu pai, o velho Pleederis, foi procurar os vizinhos para pedir socorro a fim de capturar um leitão que havia fugido do chiqueiro. Mas onde estaria o filho? Viajou para o Rio Novo onde existia uma outra colônia Letã. Já muito antes de Marconi ter levantado o telégrafo sem fio, nas matas virgens entre as colônias se usava este meio de comunicação. Isto foi comprovado por que os comentários de um conglomerado eram ouvidos em outro e de forma exagerada. Logo que o pai havia deixado transparecer que o filho havia viajado, na outra ponta da linha todos já sabiam que ele fora contratar casamento.

As mais interessadas em espalhar notícias desabonadoras foram as suas ex-noivas. Algumas caçoavam, outras choramingavam, outras ficaram zangadas e mais alguma – por puro ciúme. Mas a despeito disto ele foi a Rio Novo e lá se casou.

Nesta colônia moravam os seus antigos conhecidos desde a terra natal, os Russinhos, que ele visitou para saudá-los e o encontro foi revestido de tanta alegria quanto pode haver quando se encontra um antigo vizinho numa reunião que acontece na terra estranha, embora nunca tivesse havia dum convívio assim tão amigável.

Quando o Pleederis falou de sua necessidade e solicitou do Russinho uma ajuda para encontrar a esposa, então o anfitrião indicou as famílias onde havia moças casadoiras e o convidou para ser o hóspede da sua casa. O Russinho nada sabia a respeito daqueles romances do seu hóspede; se tivesse conhecimento daquelas trapalhadas talvez teria convidado ele a se retirar da sua casa.

Ficou um tanto admirado por que o moço não era persistente na constância no relacionamento da namorada escolhida, não firmou com a primeira, nem a segunda, menos a terceira; até que visitou a família Salit, observou a Valentine e disse: “aquela me agrada” contratou casamento com ela e a trouxe para a sua casa.

Este acontecimento não despertou nenhuma curiosidade na colônia nem foi levado muito a sério, por que ele era motivo de chacota. A moça recém casada se apresentou bem vestida. O seu perfil e o seu rosto pareciam aceitáveis, mas as relações dos Pleederis com restante dos Letões, nunca foram muito cordiais e por causa disto assumiu uma vida solitária ao lado do marido. Eles recebiam visitas raramente e assim não necessitavam retribuí-las

Passado algum tempo chegou do Rio Novo o irmão de Valentine, de nome João e ficou hospedado na casa dos Pleederis ajudando nos urgentes trabalhos da lavoura. Depois da hora do almoço o João subiu pela escada ao sótão, onde ele dormia, e ficou surpreendido com o grande número de manuscritos espalhados pelo chão. Em alguns destes escritos ele reconheceu as letras dos hinos cantados na Igreja que eram copiados dos cantochões, por que não os havia em número suficiente para manuseio, facilmente identificáveis. Mas então veio a surpresa, as maiorias dos escritos eram cartas recebidas das namoradas assinadas “a tua Kátia”, “com todo amor Betia”, etc.
Estas missivas eram tantas que o João formou um colchão para dormir sobre elas. Então o João tentou convencer o cunhado: “Você agora é um homem casado, por que não queima aquelas cartas lá do sótão”. “Elas desagradariam muito a tua esposa se ela as descobrisse”; ao que ele respondeu: “Eu nunca mandei ela ler aquelas cartas”.

“Mas como foi possível você prometer casamento a uma que aceita o seu convite e ao mesmo tempo procura amizade com outra” ao que o Pleederis retrucou: “Você é muito moço e não entende destas coisas”. É verdade o João nunca entendeu.

De Rio Novo também chegou a velha Salit com os dois filhos mais jovens, mas o Pleederis recusou-se a hospedar a sogra e os cunhados obrigando os parentes procurar amparo junto de outras famílias, onde trabalhavam por uma pequena recompensa.
Ele tinha todas as condições para ter uma vida sossegada e feliz, mas não era, embora a sua esposa já houvesse desmamado o seu segundo filho. Não frequentava a Igreja, era rancoroso e desconfiado sem qualquer causa aparente. Todos os colonos possuíam uma espingarda de caça, mas Pleederis comprou uma pistola automática Browning, e esta já era uma arma de bandido.

Então ele fez aquilo que, antes dele, nenhum imigrante Letão ainda tinha feito – procurou o conselho de um feiticeiro. Nas encostas montanhosas do rio Capivara morava um ex-escravo famoso, por que diziam que ele podia resolver casos difíceis, principalmente mau olhado, inveja e ainda outros assuntos.
Havia muitos deles e estes feiticeiros conseguiam grande fama através do misticismo, falsidade e tapeação. Como se sabe, as dores de dentes ou do aparelho digestivo, muitas vezes aparecem e somem espontaneamente. Acontece que a dor some no momento em que o feiticeiro apalpa a região do corpo do consultante e assim fica a fama da cura milagrosa.
Em outras ocasiões ele prepara bolinhos de batata ou de pão recheados com pelos e cabelos enrolados, ou então outra substância, que manda o enfermo engolir. Minutos depois manda ingerir uma porção que causa vômito, tudo isto acompanhado de ritual e pronunciamento de palavras misteriosas como demonstração de sua sapiência e força oculta. Quando o freguês regurgita, aparecem os cabelos e outras coisas que ele considera como se fosse de geração espontânea do seu organismo enfeitiçado.

Existem muitos empreendimentos deste tipo, mas se entre eles realmente funciona alguma com força positiva ou sabedoria, isto ainda não foi comprovado. Os negros trouxeram os seus rituais e cerimoniais da África e os preservaram durante o período da escravidão, apesar de muito sofrimento e perseguição eles foram cultuados, o que já por si causa admiração. Nos subúrbios das grandes
cidades existem centros de magia, onde os antigos escravos cultuam as cerimônias que tiveram origem nas florestas africanas.
Não são apenas os negros que lá comparecem para por em ordem o rumo da sua vida. Um jornalista com o auxilio de uma generosa gratificação em dinheiro, conseguiu assistir estas reuniões e imaginem o que ele viu – senhoras de famílias aristocratas abastadas, altos funcionários do Governo, deputados, todos lá estavam para confidenciar e receber orientação.

Ainda não haviam passado 20 anos de quando a escravidão foi legalmente extinta, o Pleederis foi procurar o seu salvador. Enfrentou uma caminhada no dorso do cavalo de longo percurso. Havia começado a cavalgada a meia noite. Quando despertou a madrugada encontrou colonos alemães de quem indagou a localidade onde o feiticeiro morava, dizendo o seu nome e assim obteve o rumo que deveria seguir, mas de tão absorto nem encarava estas pessoas.
Já passava do meio dia quando finalmente Pleederis encontrou o seu destino. Felizmente o feiticeiro estava em casa fumando o cachimbo sentado na sombra, em frente da sua choupana. Agora surgiu um novo obstáculo, o consultante conhecia apenas 10 palavras em português de objetos de uso diário. Ele sabia falar alguns substantivos, mas desta vez tratava-se de assunto abstrato e sobre esta matéria, o nosso personagem somente sabia dizer “diabo” e que assim mesmo pronunciava como “quiabo”, “grabu” ou “grebu”. Com auxílio deste vocábulo e “força de vontade”, gesticulando, o Pleederis conseguiu fazer-se entender. O feiticeiro não seria digno do seu oficio se não fosse um psicólogo nato para entender as aflições do cliente.
Depois de mandá-lo a entrar em casa, mandou que ele tirasse toda roupa deixando o corpo nu, da cabeça aos pés e continuando, com giz vermelho e branco, alternadamente, riscou o seu corpo verticalmente. Disse “grebu”, colocando a mão no seu peito, meneando negativamente a cabeça. Repetiu novamente a palavra “grebu” e agora apontou par o próprio peito, apanhou uma vara e começou a chicotear o ar em todas as direções, desde as paredes, nos cantos, no teto e o piso da casa, fazendo o zunir com aquele sibilar que acontece quando a atmosfera é cortada por uma haste devidamente preparada como se fosse uma espada, a ponto do paciente ter se apavorado, por que o objeto passava rente a sua cabeça.

De volta a colônia, numa fluente linguagem do idioma Letão, o Pleederis contou aos mais achegados, o que ele havia entendido. Os riscos de giz defendiam e fechavam o seu corpo expulsando o diabo para nunca mais dele se aproximar. Mas tendo saído o espírito maligno queria se abrigar outra vez num outro aconchego que estivesse por perto e assim queria invadir o do feiticeiro, que então energicamente agiu em defesa própria enxotando o demônio.
E depois desta sessão do exorcismo, ele foi advertido para tomar cuidados com os vizinhos, dizendo em português: “inimigo”.

Satisfeito e aliviado por este “trabalho” pagou a consulta ao feiticeiro com a importância que havia recebido na venda de um porco, assim satisfazendo a sua ambição.
Mas apesar deste empenho o Pleederis tornou-se cada vez mais pessimista, diferente. Poderia se imaginar que este estado de nervos abalados fosse consequência daquele período de noivados repetidos que o deixaram isolado dos conterrâneos respeitáveis.

Numa tarde ele abateu um leitão para o próprio consumo. O animal morto era raspado sobre algumas tabuas colocadas no quintal, derramando-se sobre ele água quente para soltar a epiderme e os pêlos que caiam no chão e eram calcados dentro da lama com os tamancos. As águas pluviais apagavam as pegadas e levavam os pêlos que ficavam agarrados nas raízes de alguma touceira no canto da casa. Chegando o verão no quintal cresceram ervas daninhas. O Pleederis então capina uma clareira em torno da casa para impedir que as cobras invadam-na furtivamente. Quando ele chega à esquina encontra um arbusto espinhoso que ele precisa cavar mais fundo para livrar as raízes. Imaginem a surpresa dele ao ver embaraçados nas suas raízes um monte de pêlos, então ele conclui que isto é magia negra. Este feitiço tem de ser queimado imediatamente antes que faça efeito, mas o fogo da cozinha está ocupado na preparação do jantar. Ali mesmo ele faz uma fogueira com gravetos e folhas secas e com a enxada vai jogando nas suas labaredas este “atraso de vida”. A combustão exala um cheiro de cabelo queimado. ‘“Pfui” (interjeição de nojo), esta é a fumaça de cabelos de uma bruxaria e conclui: “Sim senhor – na semana passada sumiu uma porca, o bezerro está com diarreia; dos 12 pintinhos da galinha amarela sobraram apenas 4. Ainda bem que descobri em tempo; mas será que não existe mais em outro lugar? Quem poderia ter feito este trabalho”?

Há muito tempo ele não recebia visitas de quem pudesse desconfiar. Os cães guardavam a casa com zelo agressivo desanimando qualquer intruso. Então conclui que isto só pode ser obra da velha Salit. Já faz muito tempo que tinha notado o seu mau olhado; tinha de expulsá-la da casa.

A providência seguinte foi fechar a estrada que cortava a sua terra para impedir a aproximação de estranhos. Mas quando ele mesmo por ela perambulava e sentiu alguém atrás, atirava com a Browning por cima do ombro, por sorte não acertou ninguém. Por esta razão ninguém se amedrontava, considerando este procedimento como uma atitude besta e apenas motivo para chacota.

Nos dias da semana combinados todos os colonos se reuniam na escola para o ensaio do coral. O Zeeberg vindo do povoado trouxe a correspondência dos vizinhos e manda avisar que Pleederis tem uma carta no correio trazendo dinheiro, mas, quem se disporia de dar a noticia sabendo que ele era meio louco. O destemido filho de Leiman se prontificou a avisá-lo na volta para casa e assim perturbar o seu sono com a boa notícia. O Wilis monta num cavalo meio xucro ainda amansando que sempre quer andar galopando. Noite de lua cheia irradiando luz como se fosse de dia. Ele entra no quintal de Pleederis enquanto os cães latem raivosos querendo atacar. Então ele grita a frase legal: “Oh de casa”. Nem tique nem taque. Repete a chamada mais duas vezes e não entende por que o dono da casa não acorda. Talvez estivesse fora, mas na sua ausência estariam o pai e a esposa. Chama mais uma vez. O cavalo indócil quer galopar e já pensa em desistir quando ouve um ruído. A porta se abre um pouco e na fresta aparece o nariz do dono da casa. “Boa noite, mas como você tem o sono pesado”. Ele abre a porta e sai com as mãos atrás das costas e o Wilis deduz “o homem está armado”. Ele responde: “muito boa noite, ainda bem que o reconheci, senão, teria atirado”. Então ele concluiu que isto não era brincadeira, mas perguntou “por que teria atirado? Estou trazendo boas notícias, para você ir ao Correio da Vila retirar o dinheiro que chegou”. Dá meia volta e sai galopando para casa.

Numa outra ocasião a sua irmã Antonia e a Matilde, filha do vizinho, foram fazer uma visita de cortesia a Valentine. O velho e o moço Pleederis olhavam para as visitas com o branco dos olhos e quando elas se retiraram, o velho espalhou cinzas na estrada por onde elas haviam passado, com o tição de lenha aceso fez o sinal da cruz, para destruir qualquer mau olhado.

No centro da Colônia moravam os Grunzis, uma família composta de 5 filhos, deles o mais velho já casado. Disseram que o terceiro filho foi participar da guerra dos Boers (África do Sul) como voluntário, onde morreu. Era gente pacata, mas falava-se que os pais não se entendiam. O velho então começou a beber até o porre. O velho Leiman sentia pena por ele e numa ocasião em que os dois cavalgavam juntos pela estrada, Grunzis estava bêbado e balançava no lombo do cavalo. Então o velho tentou convencer o viciado para deixar a bebida ao que o outro respondeu: “Mas meu estimado e caro Leiman, qual é o prazer que ainda me resta. Estou velho, mas ainda tenho tino, se desejo aquecer o coração então uso o copinho”.
Não havia botequim na colônia Leta e também ninguém produzia aguardente, por isso o Gruntzis procurava os italianos, além dos limites. O caminho mais curto para se chegar naquele local passava pela casa dos Pleederis que proibiu o seu uso para o público, o que era contra a Lei, por que este caminho foi demarcado pelo Governo e se esta irregularidade fosse denunciada certamente ele teria levado um pito que o faria esquecer esta manha.
“Mas onde não existe reclamante também não há justiça”. Não faltavam desavenças entre os Letões, mas apelar para justiça por causa fútil, quem consegue ganhar a demanda também adquire um inimigo para o resto da sua
vida. Além disto, não se dominando a língua falada no Brasil, o querelante não conseguia expressar-se por que lhe faltavam palavras.

Os imigrantes poloneses e alemães, bem que tentaram procurar a polícia, gesticulando, não dizendo coisa com coisa entremeando algumas palavras inteligíveis sobre questões irrelevantes, irritando as autoridades, que resolviam a contenda da seguinte maneira: Quem apresentasse a queixa iria direto para o xadrez. Depois traziam preso o réu, trancafiando os dois na mesma cela e lá deixavam, os dois passar 24 horas um encarando o outro, como havia acontecido com o Pawub e Kenzio.

Depois eram apresentados ao comissário de polícia que os xingava e destratava empregando todo um vocabulário de baixo calão, brandindo ameaçadoramente um relho e aumentando ainda mais a rispidez da voz numa admoestação de que os querelantes não entendiam palavra. O queixoso pensava que a descompostura era contra o outro como culpado, mas por fim, tanto um como outro apanhavam de palmatória, como gatos num saco.

Os Letões já sabiam deste método de fazer justiça; então quando um ameaçava o outro dizendo que iria apresentar queixa na polícia, o outro dizia: “Vai, vai esquentar o lugar”.

Quanto àquela estrada que passava pela terra dos Pleederis, ela tornara-se inútil. Antigamente sim, quando os italianos, que moravam além do rio que rolava a sua água em muitas cascatas, possuíam um moinho para moer os grãos, então era uma passagem obrigatória. Mas depois que os Letões construíram o próprio engenho, aproveitando um outro rio, ficou desnecessária, pois não se precisava mais dela. Por esta razão a proibição de se usar aquela via, não incomodava ninguém a não ser ao Gruntzis, que precisava dela para ir a colônia italiana “esquentar o coração”. Quando interpelava o Gruntzis, surgia uma grande e acalorada discussão. Pleederis berrava que era o dono das terras; o ofendido alegava que a estrada era pública e continuava o seu percurso.

Num belo dia o vizinho Karp precisou convocar um mutirão de gente jovem para realizar um trabalho pesado. Todos então observaram Grunzis montado num cavalo, por aquela estrada se dirigindo para o lado dos italianos. Pouco depois, à distância, ouviram-se vozes ásperas e iradas, que, devido à distância, não se conseguia entender as palavras, mas sabia-se que os vizinhos estavam discutindo outra vez.
Inesperadamente ouve-se um estampido de tiro seguido de gritos desesperados por socorro. Vários rapazes correram para lá e encontraram o Grunzis caído na estrada dentro de uma poça de sangue e um ponto vermelho no peito. A bala havia varado o seu tórax e examinando o seu pulso e a respiração verificou que ele estava morto. Mais adiante o velho e manso cavalo em pé aguardava a volta do dono.

Improvisaram uma padiola e removeram a vítima para o prédio da escola que também funcionava como centro comunitário e Igreja aos domingos. A seguir tomaram todas as providências que se fazem necessárias para em consequência de uma tragédia assim, incluindo a captura do assassino.
Emilio, [Anderman] o filho mais jovem do professor estava admirado com este grande movimento. Num dia de semana, nunca viu um tão grande número de pessoas dentro e cercando o prédio da escola. Nos domingos e dias santificados sim, ele estava habituado a ver muita gente, quando havia Culto, o pastor falava e o coral cantava. Então os fiéis vinham bem trajados, sorrindo e conversando alegremente, os rapazes e as moças trocavam olhares e arriscavam alguma palavra. Hoje todos estavam usando a grosseira e remendada roupa de trabalho e trazendo armas de fogo.

Para passar o tempo faziam competição de tiro ao alvo. Pareciam ameaçadores. Os meninos sentiam medo. Depois de reunidos todos aqueles homens foram embora e o menino juntava os cartuchos vazios de diversos tamanhos para usar como apitos, os menores faziam um ruído mais agudo enquanto os maiores tinham um som mais grave, mas antes de terminar, eles voltaram trazendo junto o Pleederis com as mãos amarradas. Ele tinha sido preso, sem resistência dentro da própria casa.

Os colonos acharam por bem anteciparem a ação da polícia e entregar o criminoso na delegacia, antes que os filhos e os amigos de Grunzis praticassem vingança com as próprias mãos e então o caso se tornaria mais complicado.

Os conselhos do feiticeiro não deram bons resultados na vida do Pleederis.

FIM
NOTA DO TRADUTOR
Traduzido de um manuscrito encontrado nos arquivos do meu falecido irmão Emilio Anderman e traduzido do Letão por mim Julio Anderman, em agosto de 1991.

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