História de Emílio Andermann – 9ª parte -2º Caderno

História de Emílio Andermann – 9ª Parte – 2º Caderno

M E M Ó R I A S
De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

“Leiam também neste mesmo Blog o artigo escrito por Julio Andermann que está em “Crônicas Históricas com o titulo de” Meu pai Karlos Anderman “

Nesta parte o escritor descreve a infinidade de providências e cuidados para a viagem para os Estados Unidos.
Também tendo chegado lá apresenta as primeiras impressões.

(O Terceiro Caderno devido a não ter relação direta com o Rio Novo será publicado neste Blog somente se houverem solicitações especificas para tanto.).

SEGUNDO CADERNO (ÚLTIMA PARTE DESTE CADERNO)

TERMINEI A ESCOLA

Ontem terminamos o exame das matérias lecionadas durante o mês e a minhas alunas mais adultas Aldonia Balod e a Marta Slengman de mim se despediram. Elas passaram com muitas boas notas. Como é doloroso separar-me dos meus alunos que já estou ensinando durante um ano e três meses. Durante a insônia da noite no meu pensamento desfilaram várias ideias e o sono não foi repousante… por que vou ter de te abandonar também. Também sentaram na classe os meus irmãos Teófilo e a Claudia, que com um carro de bois vieram me buscar de Mãe Luzia. Estou dando as notas finais.
Os meus amigos vieram para se despedir de mim e para cada um deles dei uma palavrinha e abraço. Não demonstrei tristeza por que os sentimentos de dor foram transformados em sorrisos… e foi hoje a última vez em que apertei a tua mão. Também tiramos fotografias de toda a escola reunida.
O tempo está bom e assim segunda feira partiremos, deixo atrás de mim muitas realizações e centenas de sonhos e a sepultura das minhas esperanças. Deixo também a ti, o meu tesouro, por quem daria tudo que possuo até a última gota do meu sangue; daria o mundo todo… e agora me separo de ti, deixando-te no meio destas colinas e vales, cobertos desta natureza exuberante, e sob a guarda de teus pais cuidadosos. ADEUS!

A DESPEDIDA DA CONGREGAÇÃO

Nunca pensei nem esperei uma tão espontânea demonstração de amabilidade. A União de Mocidade organizou esta reunião. Embora eu estivesse triste, esta noite me alegrou por que tudo foi organizado com muito cuidado. Os adolescentes recitaram poesias cujo tema era a separação. Os hinos ecoavam cordialmente. O salão da Congregação estava enfeitado onde nem rosas faltaram. Tudo dava testemunho do amor que esta gente tinha por mim e mostrava a tristeza da separação.
O Alexandre Klavim falou entusiasmado lembrando o meu desempenho na União da Mocidade durante a atividade do ano passado e a falta que farei no futuro. Aldonia Balod recitou um poema cujo tema era a “Luta”. A Clara Salit declamou uma poesia triste sobre a separação (ela mesma tristonha e enigmática como as profundezas de um oceano) – dizia que toda a luta pela vida se situava entre o berço e a morte. O Eduardo Salit, um menino ponderado e tranquilo, relatava as dificuldades e as lutas da vida, acentuando que a “Paz somente existe sob a Cruz de Cristo”. A Cornelia Balod (sempre inquieta como se fosse um filete da água) falou da esperança de um novo encontro – se não aqui, lá na pátria do além. As outras poesias não consegui anotar. Ainda ouvimos um lindo dueto de despedida cantado pelos meus alunos. O Diretor da Escola Dominical, K. Zeeberg expressou a sua alegria pela esperança de que continuaria estudando e lamentou a falta que eu faria como professor da Escola Dominical e terminou dizendo: “Deus vê e sabe o nosso destino” e de que “nas orações perante o trono de Deus será o nosso encontro permanente”.
O conjunto de violinos tocaram algumas músicas, especialmente “Viaje seguro”. O organizador da Escola onde eu ensinei disse que: “nós andávamos como através de uma galeria de quadros onde vemos diferentes paisagens; e, um destes quadros, estava sendo pintado nesta noite”. Elogiou-me dizendo que eu fora despretensioso, nunca falara alguma coisa ofensiva, fora bem comportado e já tinha o meu lugar garantido no coração da comunidade… mas agora temos de separar-nos, e terminou com as palavras de Paulo: “Conserve o Tesouro”. Alida Klavin declamou uma poesia longa bonita sobre a despedida: “Encontramo-nos, conversamos e outra vez temos de separar-nos; em toda à parte a instabilidade não permite a nossa permanência por muito tempo no monte Tabor”.
Um intervalo para saborear um cafezinho acompanhado de pãezinhos e o descanso. Na segunda parte mais músicas sobre a despedida, todas melancólicas, mas uma foi excepcionalmente linda e continua soando no meu ouvido. Freiman falou sobre a necessidade de mais pregadores e missionários e disse estar alegre por que mais um candidato está se encaminhando. O velho tio Karklis fez desfilar na minha frente os nomes dos jovens tementes a Deus que constam da Bíblia e aos quais foram atribuídas grandes responsabilidades. O Alexandre Klavim emocionado disse palavras em nome da União de Mocidade: “Seja alerta para que ninguém arrebate a tua coroa” (Apocalipse 3-11).
No aperto de mão da despedida vi lágrimas num e noutro semblante; eu não chorei embora o meu coração estivesse tomado de saudosa tristeza.
Depois desta abençoada despedida, arrumamos as caixas contendo a bagagem no carro de bois e partimos para uma longa e difícil jornada para Mãe Luzia, alcançamos o nosso destino três dias depois, onde fui recebido com muito amor pela minha família.

5 DE OUTUBRO DE 1923

Uma vez que agora tenho de morar aqui, longe de ti e onde não te vejo e onde tangido pela brisa do ocaso eu apenas posso sonhar com as lembranças que profundamente se enraizaram na minha memória; quero ainda registrar alguns aspectos da tua figura. Tens a cabecinha redonda ornada com cabelos dourados que pendiam sobre as orelhas e a nuca; a testa alta adornada com alguns anéis deles; os olhos escuros que às vezes olhavam com tanta serenidade; outras vezes choravam amargamente e também alegremente brilhavam quando sorriam para mim; o narizinho redondo; a boca de lábios rubros que me pareciam tão doces; a formosa face quando sorria exprimia a pureza; o porte tão esbelto; as costas retas; mãozinhas elegantes, os dedos ágeis; pequenos pés com os artelhos curtos, musculosos e fortes. O comportamento gentil, esperto e interessante; a tua voz soava como se fosse um sininho e era possante, mas doce quando falavas afinado em “sol” com inflexões para “la”. Quando choravas com amargura e arrebatamento o teu lamento parecia uma admirável melodia em “do”, que subia para “fa” e depois, descia. A tua risada era tão alegre que eu não consegui defini-la com precisão.
Tu és o meu anjo, viva com saúde e alegria ignorando a minha dor por que eu te amo e de ti sentirei saudades – mas, quem sabe, todas estas esperanças, com dor e lágrimas, terei de sepultar na tumba escura da inoportunidade.

18 / X / 1923

A minha vida tornou-se uma sequencia rotineira por que estabeleci um programa ordenado que só espero modificar quando viajar para os EUA, daqui a um semestre. De manhã quando acordo faço ginástica pelo método Mueller, tomo banho. Até o desjejum tenho tempo de estuda alguma coisa, depois desta refeição realizamos um culto matinal e em seguida vou para o campo trabalhar na lavoura durante duas horas. Voltando para casa estudo inglês e francês até a hora do almoço. Na parte da tarde estudo História Universal e ciências. Depois das 14 horas vou para a Carpintaria de João Karklis aprender aquele oficio durante hora e meia (algo parecido com o que vou fazer nos EUA). Depois estudo álgebra e a gramática portuguesa e leio obras clássicas. Após o jantar até dormir estudo música, pratico o violino e leio em inglês.
As terças e sábados, tenho aulas com J. K. Frischenbruder para esclarecer várias matérias e ele me cobra 1$00 por aula. Mas acima deste empenho todo – tu oh minha preciosa menina permaneces no meu coração e minha mente em forma de uma doce lembrança.
O tio Sigismundo e eu estivemos em Araranguá procurando uma certidão de nascimento para poder tirar o passaporte e viajar para a terra estranha. Como já disse, embora nascido na Letônia fui registrado como brasileiro. Foi uma viagem agradável – Araranguá é uma cidadezinha bonita.

A PRECIOSIDADE MAIS CARA

Luto para alcançar um alvo, que no momento é um sonho – Tu. Não consigo esquecer-te, não passo uma noite sem te ver nos sonhos. Meu coração sente a mágoa do amor oculto. Tu arrebataste o meu coração, os meus sentimentos, o meu amor; será que em algum dia vais me devolve-los? Ou serei condenado a morar na América sentindo saudades tuas eternamente.
Contei tudo para a minha mãezinha. Ela me disse para eu não ser orgulhoso e não considerar este amor levianamente, porque, igual a este, só nasce uma vez na existência. Disse para eu procurar manter correspondência com os seus pais e a sua família e talvez Deus me atenderá.
Ela me contou sobre o seu grande amor para com J. I., mas por causa do orgulho e não querendo se manifestar casou com outro e, depois de arrependeu. Estas palavras impressionaram o meu coração, mas por ora somente resta a esperança, e a lembrança de alguns acontecimentos. Uma certa ocasião ela disse, depois que eu falei que iria embora “eu vou correndo para te acompanhar”, depois ela ficou assustada com o que falou, enquanto os outros riram. Quando formamos o grupo para tirar o retrato da escola tu disseste: “parece que não te verei nunca mais”, eu respondi: “que não sabemos o que a vida vai trazer para nós e que poderá acontecer um novo encontro”.
Não há existência sem preocupações, se a vida não tivesse obstáculos então ela se tornaria frágil e qualquer brisa nos derrubaria.
O tio Rodolfo teve a ousadia de escrever para os Balkit nos EUA para eles tomarem cuidado comigo por que estava entregue ao diabo, por que seguia a doutrina do inferno. Foram os meus irmãos que em contaram por que ouviram ele dizer isto. O que posso esperar quando o meu próprio tio procura destruir a minha imagem pessoal, mas em 9 de dezembro recebi uma carta dos EUA que eles esperavam receber-me na primavera; depois de passar o frio de inverno e isto ajudou a normalizar a minha esperança no futuro. Espero que esta viagem se realize em fevereiro ou março.

25 DE DEZEMBRO DE 1923 – NATAL

De noite organizada pela Escola Dominical, houve uma pequena festa. Há 3 meses dirijo uma classe da Escola Dominical. Fiquei muito feliz. O ano de 1923 esta se despedindo e neste período tenho lutado muito e trabalhado, às vezes com alegria e outras com tristeza no meu coração; mas tudo isto tem reforçado o meu ânimo. Neste ano estabeleci grandes objetivos que terei de realizar em pouco tempo e para isto terei de trabalhar com todas as minhas forças. Na profissão de carpinteiro aprendi a usar a plaina e outras ferramentas, pois este será o meu ganho pão. Na música descobri as maravilhosas obras de Beethoven.

SALVE 1924
“TUDO POR TI HUMANIDADE, TUDO POR TI MEU POVO QUERIDO”
1 DE JANEIRO DE 1924

Carrego dentro do meu coração a saudade, cada dia que passa os meus pensamentos ganham asas e voam para ti e quanto gostaria de ver-te nem que fosse uma única vez.
Neste ano na minha vida se desenrolarão grandes mudanças. Acredito que a passos largos e decididos, alcançarei aqueles objetivos, cujo ideal se desabrocha em mim desde a minha infância; mas talvez o preço desta conquista será a tua perda – que sofrimento – no entanto sou capaz de fazer tudo em beneficio da humanidade.

10 DE FEVEREIRO DE 1924

Recebi uma carta do meu tio Balkit de cuja leitura conclui que a minha viagem para os EUA ainda demorará alguns meses. Este assunto da América já está me aborrecendo; está se tornando um conto de fadas que não tem fim. Estou escrevendo. No mês passado terminei a descrição da História do Brasil e neste mês, vou escrever a primeira parte de um livro sobre o Brasil, conforme havia planejado.

18 DE MARÇO DE 1924

Recebi duas cartas registradas, uma contendo o Termo de Responsabilidade assinado pelo meu tio Balkit para minha emigração aos EUA e outra com uma passagem de navio paga e um bilhete de trem de Nova York até Filadélfia, que custou US $86 dólares.
A minha viagem está bem delineada. No dia 22, de navio, partirei para o Rio de Janeiro e no princípio de abril embarcarei em um navio da Lampport & Holt Inc.
Agora na parte da manhã estou trabalhando na obra da ampliação da nossa casa construindo uma cozinha e sala de jantar em anexo. Numa atividade diligente tudo já está em pé embora as minhas mãos tenham ficado calejadas. Em breve terei de deixar esta construção – também me despedirei de Mãe Luzia, de todos os meus conhecidos e de ti minha cara que já não te vejo há mais de 6 meses, de ti que vives no meu coração.

18 DE MARÇO DE 1924

De noite a Congregação Batista de Mãe Luzia organizou uma reunião de despedida. Foi um acontecimento confortador para mim e para todos os presentes. Jacob Klava explicou vários textos da Bíblia sobre reanimação para todos e principalmente para mim. O tio Zigismundo disse: “É muito difícil falar numa ocasião de despedida, por que a linguagem embola e as lágrimas escorrem; mas por outro lado todos devem alegra-se por causa dos ideais meus. Que tinha o mérito de ter reativado a Escola Dominical e reforcei a fé de todos através dos meus sermões inflamados; que eu era um cristão de natureza pacífica e arrebatado”. Terminou com a frase, “Seja fiel até a morte e eu te darei a coroa da vida” para servir de lema a fim de vencer as tentações que surgem nas grandes cidades, no meio das multidões, as quais tantos jovens têm sucumbido. O Jacob Klava lembrou ainda que desde pequeno eu fora um bom aluno da Escola Dominical, falou da festa do meu batismo em 1911 e de que agora eu o havia ultrapassado no conhecimento e de que o seu desejo final era o de me encontrar salvo na praia do mar de cristal. Todas estas falas foram entremeadas de hinos de despedida.
Terminada a reunião fomos convidados para uma mesa de guloseimas oferecida pela Escola Dominical, através das mãos diligentes da tia Janina. Nunca poderei esquecer tamanha prova de amor e apreço, pois eles ainda me ofertaram uma coleta de 20$000 (vinte mil reis). Como poderei retribuir isto tudo? Mantendo a memória deles na minha lembrança.

20 DE MARÇO DE 1924

Ontem de tarde me despedi dos meus pais e dos meus irmãos. O carro de bois nos transportou, por 12 quilômetros, até a estação de Criciúma. Lá me despedi do Teófilo e do Julinho que choravam muito. Despachei a bagagem e depois fui dormir no hotel que, junto com o jantar e o café da manhã, custou 4$000. Agora, às 11 horas do dia 21, já me encontro no porto de Imbituba. Fiquei com cólicas intestinais por causa do café forte de que havia abusado, mas agora já estou bom. Hoje, no Rio Novo, estão festejando o aniversário da Igreja.

29 DE MARÇO DE 1924 – NO RIO DE JANEIRO

Até aqui a minha viagem transcorreu muito linda e agradável. O mar estava admiravelmente calmo. Ontem ao entrar na barra, com admiração observei os poéticos montes cobertos de florestas da Capital da República. Junto com o meu companheiro de viagem Adão Bernardes, estudante de Direito, procuramos uma pensão para nos hospedar e que vai custar 6$000 por dia. De tarde ele me levou à Biblioteca Nacional, um lugar que eu admirei profundamente. O meu companheiro de viagem é um Brasileiro com amplos horizontes de idealismo.
Fui a Agência Marítima de Lampport & Holt e ao Cônsul dos EUA onde encontrei ainda dois obstáculos no meu caminho. 1° – os meus documentos tem de ser visados pelo Cônsul em Porto Alegre ao qual está subordinado o Estado de Santa Catarina; 2° – tenho de deixar aqui um depósito de $25 dólares dos quais serei reembolsado quando desembarcar no destino. Somente poderei partir naquele navio que vai partir no dia 1° de maio. Cedinho de manhã no domingo fui procurar o Celino que estava morando num quarto pequeno e mal arrumado. Fiz a visita na esperança de que ele me emprestaria os 25 dólares, mas enganei-me porque ele não possuía o dinheiro.
Hoje, domingo, dia 30, me dirigi para o Colégio Batista na esperança de encontrar alguns velhos amigos conhecidos; mas neste dia eles estavam ausentes. No dia 31, novamente me dirigi para lá e o João Klava veio ao meu encontro com quem troquei ideias sobre o meu passaporte. Fomos à Central de Polícia que me deixou uma boa impressão por que o meu Requerimento foi despachado, mas o passaporte somente me seria entregue no dia seguinte porque já passava da hora do expediente. O meu companheiro então me mostrou a grande cidade e me levou a Igreja para me apresentar por que ele trabalha lá como missionário e é por ela apoiado materialmente. Em seguida pegamos o Bonde e fomos para a casa do pastor G. Ginsburg. O encanecido obreiro Batista estava trabalhando em casa. Ele é um homem admiravelmente simples e que está lutando no campo missionário há 40 anos. Nas suas veias corre o sangue judeu e pode ser comparado com os apóstolos de Cristo.
Hoje de noite faleceu um grande amigo do povo brasileiro, Nilo Peçanha e por isso as Repartições Públicas ficarão fechadas em sinal de luto, por que o povo está triste.

02 DE ABRIL DE 1924

Ontem o João Klava me acompanhou, mas o passaporte ainda não conseguiu, hoje fui lá sozinho e consegui superar este obstáculo. O passaporte me custou mais de 30$000. Ainda falta o visto do Cônsul. Esta cidade é muito enfadonha, a natureza que a envolve é muito bonita e entusiasma o visitante logo que ele aqui chega e até o arrebata, mas as ruas são estreitas e cheias de poeira. O sol esquenta e o ar se torna abafado e traz o desanimo e o cansaço. O calor e a alimentação inadequada roubam-me todas as forças. Hoje à tarde tomo o trem e amanhã estarei em São Paulo.

03 DE ABRIL DE 1924

Fui procurar a minha irmã Mely Zelma e a encontro andando no meio da rua. Ela me leva aos seus aposentos da casa onde trabalha, tomo banho e repouso. O ar fresco e saudável de São Paulo e a recepção acolhedora da minha irmã me reanimaram. Ela está gordinha, bonita e forte e trabalha muito, mas mesmo assim temos momentos para conversar.

04 DE ABRIL – EM NOVA ODESSA

Depois de pagar o bilhete de trem para Nova Odessa, ainda fiquei com 1$000 na algibeira. Ainda bem que a minha irmã me alimentou, caso contrário não teria tido dinheiro para pagar esta viagem. O meu espírito se eleva quando olho pela janela do vagão e vejo plantações variadas em toda à parte.
A Lídia e o Gustavo me receberam amavelmente. Trabalhando eu ajudo na colheita do arroz e o esforço de bater para separar os grãos me fatigou, mas desenvolveu o apetite. O clima daqui é muito bom e em breve fiquei reanimado. Também ajudei na colheita do algodão que trouxe desconforto para a coluna. Este foi um esforço agradável e cada tostão ganho era para mim precioso, porque me preocupava muito aquele depósito de $25 que teria de conseguir emprestado. Os homens não querem ajudar e entre os parentes os mais acessíveis foram os meus tios João e Lina Andermann que nesta emergência estenderam-me a mão.
Como tudo aqui está mudado: Os novos imigrantes, desconhecidos para mim, já ocupam a metade desta coletividade, a administração das propriedades agrícolas sofreu modificações, os jovens se tornaram homens adultos e fortes. Ao redor da Igreja foi plantado um grande e bem cuidado jardim resultado do esforço da mocidade. Os meus antigos conhecidos vieram ao meu encontro com muita amabilidade por que os velhos laços da amizade ainda não haviam rompido. O pastor da Igreja me procurou para um encontro e me deu conselhos notáveis, pois o irmão Kraul é um moralista profundo que procura apontar qualquer pecado. Lá também encontrei o João Salit que chegou a procura de terras para comprar e isto foi para mim muito agradável. Para a minha irmã Lídia eu falei abertamente a verdade e ao despedir-me lhe disse que era capaz de trocar as minhas convicções cem vezes para servir a “verdade” e de que para esta luta eu precisava de muita força moral e de apoio.
Voltei a São Paulo onde a minha irmã Mely Zelma me hospedou no seu quarto, com a permissão dos seus patrões; a vida dela corre muito bem e ela engordou um pouco. Ela me emprestou 80$000 e na separação chorou amargamente e isto me deu a certeza de que agora conseguirei superar as dificuldades desta viagem para os EUA.

26 DE ABRIL – AFINAL O CAMINHO LIVRE

Hoje estive na Polícia Central para retirar os meus documentos no que tive êxito, mas outra vez me atrasei para a visita com o Cônsul. Hoje, dia 27, passei no meu quartinho que me custa 4$000 por dia. No dia 28 pedi a ajuda do João Klava. Ele me acompanhou ao Cônsul e falou em meu nome. Tive muita dificuldade por que a minha certidão me fez 5 anos mais jovem e pediu um atestado de Ricardo Inke que fomos procurar de automóvel para ganhar tempo. Lá conseguimos o documento desejado e finalmente o Cônsul visou o passaporte que me custou 100$000. Para pagar a despesa tive de tomar emprestado 40$000 do Ricardo Inke e agora estou devendo: 250$000 para João Andermann; 80$000 para Mely Zelma; 40$000 para o Ricardo Inke; 20$000 ao Celino e 10$500 ao João Klava; num total de 400$000. Subirei a bordo do navio sem um tostão no bolso, mas estou feliz porque finalmente consegui o meu intento, graças à ajuda dos meus amigos.

VANDYCUS

No dia 1° de maio fiquei numa situação estranha, passei o dia inteiro sem comer por que não tinha dinheiro. Os trocados que me restaram tive de gastá-los para o transporte da bagagem a bordo; os carregadores exigiram mais de mim do que o combinado e isso me aborreceu. Cheguei a bordo do grande navio faminto e cansado. Ele é um gigante marítimo; dentro dele caberiam 4 ou 5 dos nossos paquetes costeiros.
Os passageiros da terceira classe são constituídos de italianos, russos, israelitas, alemães e eu o único de sangue letão. A maioria destes passageiros parece bem abastada; algumas famílias parecem ter recursos. Nós fomos alojados 6 em cada cabine. No café tínhamos pão com manteiga, no almoço sopa, comida, salada e sobremesa e a mesma coisa no jantar; tudo com bastante fartura.
Aquilo que nos outros naviozinhos se chama de balanço, aqui quase não se percebe porque ele é muito grande e as ondas se esboroam no seu costado. Estou meditando muito sobre a humanidade, não sei por que esta preocupação, este empenho, de ver o seu progresso e a sua salvação.

OS PASSAGEIROS

Já no Rio eu tinha encontrado a Emilia, uma alemã, que estava visitando os Inke e que também está seguindo viagem no mesmo navio. Ela disse ter trabalhado em Wurtemburg como professora e é uma pessoa agradável, culta e me emprestou alguns livros.
É muito interessante observar como os membros de várias nacionalidades se agrupam. O bloco italiano, numa noite organizou uma apresentação artística com um conjunto cantando as suas canções populares. No bloco dos israelitas russos havia um músico que tocava música clássica no bandolim, acompanhando os patrícios que cantavam entusiasmados. O grupo de alemães é o menor, mas também se mantêm unido. Os jovens jogam baralho e até as crianças encontram brincadeiras para passar o tempo.
Na tarde de 4 de maio o sol se deitou nas costas do Brasil. Os dias anteriores estavam nublados, mas hoje tivemos um céu limpo. Esta costa pernambucana é a mais avançada do Brasil e termina no Cabo de São Roque e por isto esta aproximação que nos permite ver de noite, as luzes de Recife. Está quente porque estamos nos aproximando do Equador. No dia seguinte o navio seguiu rumo para o Oeste até que alcançamos Trinidad que é uma pequena cidade servida por um porto insignificante. O navio recebeu uma carga de cacau, se abasteceu de água e recolheu passageiros negros com destino a Barbados. Estas ilhas são tomadas de arbustos e ao longe aparecem montanhas de cor parda.
Agora a rota vai para o oriente. Depois de uma dia de viagem jogamos âncora perto de uma linda cidadezinha situada numa ilha de praias planas e águas límpidas onde o navio ficou cercado de canoas que trouxeram frutas e a sua tripulação mergulha para apanhar moedinhas jogadas no mar. Outra vez embarcaram muitos companheiros negros. Agora estamos viajando para as ilhas das Antilhas, que ficam mais para o Leste. Como é lindo quando acompanhamos pelo mapa e observamos de bordo todas estas pequenas ilhas dormindo e parece que até estão sonhando dentro da atmosfera tropical e mergulhas nas águas escuras. Neste solo trabalham os pretos… e quanta poesia eles inspiraram para a história do sofrimento… que, afinal, foi o canto da liberdade que soou quando foram rompidas as correntes da escravidão. Entre os passageiros negros vejo crentes que leem a Bíblia e cantam hinos.
Hoje é dia 15 e desde ontem à noite notamos a atmosfera mais fria. A água esta menos morna. Como me sinto feliz porque estou me aproximando do meu destino. Leio os livros que guardei nas malas e o tempo se esgotou rápida e imperceptivelmente. Não sei por que tenho vontade de mandar saudações para todos os meus conhecidos e principalmente para ti… caro coração.

17 DE MAIO – FIM DE VIAGEM

Ontem, através de muita neblina e um frio cortante, o nosso gigante Transatlântico chegou a Nova York que parecia muito maior, do que se poderia imaginar antes de conhecê-la. Que porto grande e edifícios enormes. Depois de passar a noite a bordo, de manhã iniciamos o desembarque. Os inspetores examinaram a nossa bagagem e depois subimos em uma lancha que nos levou para a ilha dos imigrantes. Os passageiros de segunda e primeira classe não foram submetidos a este ritual. Eu havia ouvido críticas nas informações sobre esta verificação, mas agora encontro tudo muito bem organizado. O exame de saúde foi muito rigoroso, mas depois tudo correu tranquilo e fácil. Fui dispensado junto com outros que teriam de tomar o trem e o acompanhante nos conduziu para a estação. E como aconteceu isto? Primeiro fomos conduzidos de lancha e depois pelo Metrô e por fim outro barco nos conduziu para a estação. Sozinho eu estaria perdido entre toda esta gente movimentada e situação complicada que até parece mágica. Tomei um trem que em duas horas me deixou em Filadelphia. E depois para onde ir? Não sabia dar um passo. A língua inglesa que este povo fala para mim é quase incompreensível, mas por sorte todos entendem o que eu pergunto. Cordialmente os homens me conduzem e respondem as minhas indagações, me acompanham, até a passagem de Metrô eles pagaram.
Depois de muita dificuldade tomei aquele trem que vai para Quakertown, a última cidade do meu caminho, mas ainda não sei como chegar à casa do Balkit que se localiza no interior. Tomo um automóvel que corre iluminando a estrada de terra mal conservada e chegando ao destino onde não foi fácil encontrar a casa desejada, lá chegando o dono estava ausente. Então esperei pensando que, por ser sábado de noite talvez os moradores estivessem na Igreja, conjectura que não estava errada, porque em breve chegou num automóvel toda aquela gente que me receberam carinhosamente. Eu não conseguia fazer mais nada do que sorrir, sorrir, sorrir.
Terminada esta viagem tão selvagem e cheia de obstáculos me senti como um herói que venceu uma dura batalha. Para aqui eu vim ao encontro de uma humanidade livre.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

O ar ainda está fresco e o clima parece ameno. A água está fria. As arvores, com exceção dos pinheiros, estão revestidos de uma tenra folhagem verde. Os campos estão cobertos por uma erva macia enfeitada de florzinhas amarelas como se fossem lágrimas. Aqui não se vê nenhuma planta tropical que veste a forte e selvagem natureza Brasileira, apenas alguns salgueiros que sonham a beira de um lago se assemelham. Tudo está tão lindo como se fosse um sonho maravilhoso.
Eu trabalhava em grotões cobertos de floresta e piso de pedras e cada cantinho me parecia tão agradável, tão lindo.
Os meus parentes estão com as faces coradas, o meu tio é um homem alegre, muito ágil, muito franco e dedicado. A minha tia parece uma dama respeitável e fala num tom de voz agradável parecida com a da minha avó Ana que é a sua mãe. A prima Lídia se parece muito com a Ema Karklis e a Milija com a Tereza. Os dois meninos de faces rosadas Carlos e Vilis se parecem com os filhos do tio João Andermann com a diferença de que são de natureza mais ativa. Todos eles são profundamente tementes a Deus.

AVISO IMPORTANTE:
Como o 3º Caderno não tem relação direta com a história da Colônia Rio Novo somente será publicado se houverem solicitações para tanto.

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