História de Emílio Andermann – Sua Juventude

2ª PARTE

M E M Ó R I A S

De Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

A VIAGEM DE PAPAI

No mês de maio o meu pai iniciou os preparativos para fazer uma viagem para Ijuí no Rio Grande do Sul, onde também havia uma Colônia Leta. Preparou a sua mochila de viagem e carregou junto uma porção de tratados e outra literatura espiritual. A sua mala pesava uma arroba (15 quilos). Eu o acompanhei até Campinas [nome antigo de Araranguá] e ao se despedir ele me osculou. Eu estava desconsolado, com o coração pesado quando eu voltava para casa. Em casa havia fartura por que a época da colheita já havia terminado.
Certamente a peregrinação dele se realizou lentamente, de casa em casa, onde ele reunia gente e pregava o Evangelho e durante muito tempo nós não recebemos notícias dele.
Seu destino era Ijuí; mas viajando ele certa noite sonhou e foi aconselhado que fosse melhor ele tomar outro rumo. Já no dia seguinte seguindo o conselho, ele tomou o rumo contrário e assim passo depois de passo, finalmente alcançou Blumenau.
Naquele local ele fora muito bem recebido. Teve oportunidade de pregar e, em algumas reuniões leu aqueles prospectos sobre o Pentecostalismo. Na sua viagem de volta ele viera de navio e apareceu novamente em casa em 7 de julho.

IMPRESSÃO

Depois que ele voltou para casa ele retornou a normalidade tranquila da vida, mas em Blumenau num local chamado Linha Telegráfica [Localidade próxima a Massaranduba] ele deixara uma ótima impressão. Muita gente que estava cochilando em pecados, então começaram a acordar e suplicar a Deus pela misericórdia divina. Houve um avivamento e eles se reuniam com mais frequência e por mais tempo em reuniões de oração que se tornou um hábito agradável.
Eles também liam a Bíblia com mais frequência procurando no Novo Testamento aquelas preciosas promessas. Tornaram-se cada vez mais inflamados; oravam com insistência de todo o coração e, afinal, faziam encontros de oração todos os dias depois dos trabalhos, quando clamavam de Deus a santificação, mas este excesso de pedir em tom de exigência fizeram muitos se afastarem, por que estas fervorosas orações estavam se tornando exageradas.
Mas a parcela que ficou fiel continuou na mesma rotina de orações, até, que depois de algum tempo, quando eles já se sentiam cansados, veio a tão desejada santificação sobre alguns do grupo. Estes rolando pelo chão balbuciavam sons estranhos. Esta desesperada insistência se transformou em uma grande alegria. Então todos num culto de louvor agradeceram a Deus a benção recebida.
No entanto a maioria do grupo ainda não tinha recebido aquela graça e estes continuaram a orar insistentemente, arrependeram-se dos pecados, acertaram as desavenças com os vizinhos e em breve todos receberam a graça do batismo pelo Espírito Santo.
Uma mulher de nome Elisabeth num certo culto anunciara: “Hoje eu retiro esta máscara de hipocrisia e lhes dou a boa notícia de que sou Profetiza”. Ela fora muito bem dotada para falar. Também recebera o batismo do Espírito o Alexandre Silmanis, que, mais tarde, ele mesmo contou: “Quando eu recebi o batismo do Espírito fui obrigado a falar língua estranha sem poder parar. Ainda depois, quando em casa dava alimento para os animais domésticos, falava sem parar e os meus pais pensaram que eu havia perdido o juízo”.

Finalmente recebeu o batismo do Espírito uma mulher chamada da Ida [Ida Strauss], que, depois, ocupou o lugar de profetiza.
Os pastores Graudim com a sua família também apoiaram este movimento. Somente depois de muito tempo empregado em orações recebeu esta benção e abominou toda a sua obra anterior. Todos eles receberam o dom de falar línguas, mas ninguém recebeu o dom de traduzir, interpretar. Então com grande insistência pediram a Deus que mandasse o dom de interpretar e em breve surgiram alguns que falavam traduzindo palavra após palavra.

NOS CAMINHOS DA PERDIÇÃO

Este relato de agitação extrema em breve induziu a perda do rumo certo. Em uma fervorosa hora de oração a profetiza Elizabeth do assoalho pulou em pé e começou a saltitar gesticulando com as mãos. No início isto levantou admiração e dúvidas, mas, quando descobriram na Bíblia que Davi dançou (cap. 7 v. 4-8) então todos se acalmaram e convencidos; agitados pelo uso de línguas estranhas em grupo iniciaram a dança convictos que haviam recebido o mesmo poder do Salmista.
É compreensível que este desvio de rumo deixou a maioria temerosa que começou a discordar e passaram a fazer oposição. Brevemente foram apelidados “espiritualistas”, “saltitantes” etc. Os seguidores desta seita então se sentiram abandonados, os seus insistentes convites e pregações, não surtiam efeito e o balbuciar destas línguas estranhas não eram apreciadas. O grupo de fanáticos, cada vez menor, se isolava e para manter o fervor, instituíram vários cultos ao dia. Já não trabalhavam mais. Os que mais usavam a palavra eram o Alexandre e a Ida e por isto eram respeitados como profetas e os líderes do movimento.
Surgiram ideias de que a vinda de Jesus estava próxima. Agora seria a “meia noite” e aqueles que não se arrependessem esgotariam o seu tempo de pedir o perdão.
Vários dos seguidores receberam ordem, através da boca dos profetas, de que deveriam vender as suas propriedades, deixar o local onde viviam e ir para Linha Telegráfica para viver comunitariamente na propriedade de Strauss. Todas estas ordens foram cumpridas principalmente por que o dia do juízo final estaria próximo.

O MEU TRABALHO

Enquanto o meu pai estava viajando eu tive que enfrentar muito trabalho. O nosso gado arrebentava a cerca para fugir do pasto e tive de reformar a cerca. Convidei para me ajudar o João Klava, mas ele, por descuido, jogou um mourão sobre o meu pé e por causa deste acidente durante muito tempo não pude caminhar. Sentava na cama e copiava alguns apontamentos selecionados dos livros.
Eu aproveitava cada momento; quando não estava trabalhando então em casa lia livros ou escrevia. Eu tinha uma sede alucinada pela ciência. A minha maior ambição era freqüentar uma escola. No meu coração havia tanta iniciativa, tanto sentimento, tanta convicção e vontade própria que os meus pais tiveram muito trabalho em me dominar.

A MÚSICA

Copiava muitas músicas, também tentei compor alguma coisa daquilo que eu guardava na memória. Então em nossa casa se hospedou uma brasileira, ela cantava em português e eu copiava a letra e a música. Mesmo antes de saber tocar um instrumento tentava compor.
Aprendi a tocar violino com Ricardo Feldberg; aos domingos junto com os companheiros que eu esperava com seus instrumentos que eu lhes ensinava tocar.

NOSSA VIDA ESPIRITUAL

Os assuntos de religião aos poucos iam perdendo o meu interesse, por que eram muito monótonos. Nos domingos de manhã os cultos se realizavam na casa do Klava. Ele próprio dirigia todos os cultos. Por que era membro da Igreja eu assistia a reunião quase todos dos domingos.
O meu pai dirigia um outro culto na casa do meu avô nos domingos à tarde; então ele lia ou esclarecia alguma tradução Pentecostalista. Estes cultos eram bem frequentados, mas eu raramente comparecia, por que estava ocupado com os companheiros tocando música. Por isto fui advertido.
A tia Marta e William Butler casaram-se no dia 2 de maio. Esta notícia nos surpreendeu e trouxe muita alegria.

OS GAFANHOTOS

Em outubro começaram a chegar, em revoada, os gafanhotos. Eles se deslocavam em grande quantidade daqui para acolá. Eles acabaram com a lavoura e as pastagens. No fim do mês eles se estabeleceram no local e começaram a deitar ovos enchendo totalmente toda a terra. O povo do local ficou muito preocupado. Alguns araram os campos para enterrá-los, mas apesar destes esforços, um mês depois, eles já nasceram sabendo saltar e tinham tamanho de uma mosca. Eles ficavam em bandos e se deslocavam de um lado para o outro e aonde chegavam comiam tudo que era vegetal. Iniciou-se uma dura luta contra eles; cavavam-se valos e quando eles lá chegavam, cobríamos com terra. Aspergíamos os gafanhotos com água fervente, batíamos com vassouras, mas apesar deste esforço muitos vingaram e se tornaram adultos. Enquanto cresciam eles mudavam a pele várias vezes.

3 DE JULHO DE 1917

Hoje junto com o Alberto e Eugenio fomos cercar o cemitério dos Letos. Pode-se entender claramente que entre estes amigos eu me sentia à vontade. Fazíamos brincadeiras que retribuímos de uns para outros sem qualquer contrariedade. Ao entardecer eu convidei a minha irmã Lídia para irmos à casa da Lina [ Lina Akeldamis] para apanhar livros e no caminho encontramos companheiros e eu não poderia me sentir melhor.

26 DE JULHO DE 1917

O Homem, o que significa pertencer ao gênero humano? Que exista uma alma imortal – certamente é verdade; mas por que ele às vezes é tão feliz e também pode ser tão triste ou até se tornar zangado. E por quê? Esta indagação pode ser respondida por qualquer criança:- “quando a mãe lhe aplica uma surra”.

30 DE JULHO DE 1917

Hoje como de costume eu trabalhei com um arado puxado por boi “Amoru” e uma vaca “Lidi”. Depois do almoço fui tocar o harmônio na hora do descanso e ao entardecer fui à colina medir o local onde iríamos plantar o parreiral.

1 DE AGOSTO DE 1918

Também eu gostaria de entrar no Reino dos Céus, mas pelo que parece o São Pedro já antecipadamente fechou a porta para mim. Apesar deste sentimento, semanalmente tenho orado a Deus, mas sem resultado. Vou tentar de novo para ver se consigo mover o destino, mas não tenho bem idéia como iniciar a prece.

ANO DE 1918

Não guardei nenhuma recordação sobre o início deste ano. As primeiras tenho a partir do mês de julho. Parece que este espaço de tempo passou despercebido para mim. No início deste ano nós trabalhamos muito na erradicação dos gafanhotos. Neste ano eu sofri muito e cai numa grande melancolia por causa de um amor frustrado. Eu fiquei muito absorvido por questão de patriotismo. Pensei muito sobre o sofrimento do meu povo e por causa das más noticias que recebemos sobre o infortúnio da Letônia que me amargavam o coração. Neste ano também cresci muito. O meu corpo foi temperado e talvez torturado pelo excesso de trabalho na lavoura que eu, sozinho dirigi e orientei. O meu pensamento também ficou mais racional. Eu deixei o sentimento de orgulho de lado e no seu lugar assumir o sofrimento, que, certamente, ainda mais, prejudicou o meu desenvolvimento físico.
O início da minha vida foi difícil, triste e até desesperado, cheio de dúvidas de toda espécie.

2 DE AGOSTO DE 1918

Voltando de um banho no Rio, observei que no nosso pasto se encontravam cavalos estranhos. Conclui que seriam visitas do Rio Novo, mas entrando na cozinha encontrei uma família inteira de crianças e adolescentes. Era a família de Zanerip em viagem para o Rio Novo. Faleceu o marido da pobre viúva há alguns anos atrás, agora ela por motivos de convivência social, vendeu a sua colônia em Campinas [Nome antigo de Araranguá] e está se mudando para Rio Novo.

A VIAGEM EM BUSCA DO VIOLINO

O meu pai na sua primeira viagem Missionária, por causa do peso da mochila, deixou o violino em “Manoel Alves”. Eu desejava com muito empenho trazê-lo de volta por que sentia muito a sua falta. Então selei ‘Bigi” e cavalguei para Campinas aonde cheguei às 8 horas. Parei perto da casa de Sudmalis e lá deixei o cavalo que estava muito cansado; mas eu mesmo resolvi ir a pé para o local onde estava o violino. Atravessei o Rio e pela margem fui em frente. Pensei que este local estaria perto, mas o sol se deitou, ficou escuro e eu continuei andando. Encontrei um transeunte e perguntei onde se encontrava o tal lugar e ele me respondeu que ainda teria que caminhar 4 horas, me aconselhando que fosse melhor eu pernoitar na casa de alguém. Passei a noite na casa de um alemão e ao alvorecer continuei a viagem. Ainda não tinha comido nada e em volta ainda tudo estava escuro. Em toda parte havia florestas, apenas algumas clareiras queimadas próximas ao rio. Toda redondeza era muito plana e a terra parecia muito boa.
Às 11 horas cheguei ao destino, mas lá em informaram que o homem havia mudado. Tomei informações e continuei andando. A estrada passava entre brejos cercados de floresta virgem e as rãs faziam um barulho infernal, havia muitos mosquitos e outros insetos próprios dos brejos. Sentia a tortura da sede.
Depois do brejo a estrada começou a subir na montanha, mas eu quase não tinha forças para escalar. Cheguei à crista e me sentei para repousar – em toda a volta uma vista maravilhosa. Até aonde a vista abrangia somente havia mata virgem. Em toda a volta havia planície, mas a certa distância apareceu uma outra montanha que parecia um navio navegando num mar verde. Não tive tempo de apreciar toda esta beleza, tinha que continuar para conseguir comida.

Finalmente encontrei uma venda onde comi com fartura e assim, com as forças restauradas, segui caminho. Apressei o passo quanto podia pela estrada aberta no meio do mato.
De repente parei: um jovem tigre saltou na minha frente fechando o caminho. Eu puxei o revólver, mas enquanto isto o tigre novamente sumiu na floresta. O local onde se encontrava o violino se localizava perto do mar.
Apanhei o instrumento e apressado percorri o caminho de volta até que, tarde da noite, cheguei à casa do Sudmalis; muito cansado, mas satisfeito por ter tido esta aventura.

O MOVIMENTO NA LINHA TELEGRÁFICA

Freqüentemente recebíamos notícias de que aquela gente simplesmente saíra dos trilhos. Todo este movimento Pentecostalista foi apelidado de movimento de Carlos Andermann e assim colocaram sobre os seus ombros toda a responsabilidade. O meu pai realmente deu o primeiro empurrão e deixou o movimento tomar o impulso próprio. Sendo gente de poucas letras, não lhe escreviam pessoalmente e as notícias que os outros mandavam, nestas ele não acreditava. Depois o movimento tomou regras próprias, sem qualquer fundamento na Bíblia. Todos acreditavam fielmente naquilo que os profetas diziam. Aquela dança iniciada pela Elisabeth tornou-se um ritual pagão alucinado. Todos então saltitavam, e louvar de maneira estranha com gritaria tornou-se hábito.
Os profetas também instituíram a confissão de pecados de uns para outros. Então quando se iniciavam as reuniões neste estado de espírito, assistir aos cultos sentados sobre bancos já não era mais possível e assim a assistência sentava diretamente no chão para depois, uns simplesmente deitados de bruços e outros ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e o rosto colado ao chão, orarem preces fervorosas. Formavam um círculo e aquele adepto que desejava confessar os pecados, ou exercer o dom de línguas estranhas, este ficava no centro do grupo.
A confissão dos pecados se dividia em duas categorias; os primeiros contando as transgressões mais recentes que aconteciam na vida diária; a outra que narrava os pecados da vida pregressa, a partir das primeiras lembranças da infância.
Aquele que confessasse os pecados cotidianos ao terminar a fala, de joelhos, devia engatinhar junto a cada um do circulo e pedir perdão. Depois do primeiro confessante, mais dois deviam se submeter ao mesmo ritual para totalizar o número de três penitentes. (Não sei explicar por que). Depois que os três terminavam esta parte do culto, em seguida, estes três oravam a Deus antes dos outros, na mesma sequencia de um, dois e três. Terminada esta fase da cerimônia, toda a congregação orava de um em um. Este ritual às vezes durava uma semana inteira.

Eram os profetas que determinavam o tempo necessário para cada penitente confessar. Antes da comunhão, todo o grupo, de um a um, tinha de confessar os pecados e rastejar o círculo todo pedindo o perdão. Em seguida o profeta lavava os pés dos homens e a profetiza, das mulheres.
Na ceia do Senhor cada crente quebrava o seu naco de pão, pois assim todos teriam partido o Corpo de Cristo. Eles proibiram as relações matrimoniais entre os casados; por que, muito em breve aconteceria à vinda de Cristo. As crianças pequenas e os adolescentes também tinham de participar obrigatoriamente destas tempestuosas reuniões. Finalmente como profetas foram selecionados Ida e Alexandre por que tinham mais dom de falar línguas estranhas. No seu estado de transe disseram coisas que seriam possíveis de acontecer.
Profetizavam que a influência do “anticristo” estava se expandindo no mundo. Que Ricardo Inkis seria um dos membros deste aglomerado de 666. Diziam que os Batistas que seguissem o Ricardo não seriam perdoados e que ele como “anticristo” os perseguiria; bem entendido que seria o Ricardo e os Batistas. Que eles os lançariam no cárcere deixariam morrer de fome, fritariam em frigideiras; exilariam os crentes para ilhas longínquas do oceano, nus e sem alimento.
Que não se precisava trabalhar mais, por que no início do ano de 1919 o Senhor desceria das nuvens para arrebatar os crentes. Além disso, profetizaram que 3 do grupo morreriam e a crença no recado era tanta que, de antemão, prepararam os caixões para enterrar os apontados.
Em outra ocasião 6 deles foram mandados para a Igreja Batista de Rio Branco onde seriam assassinados pela Congregação. Estes “carneiros de sacrifício” se despediram dos outros companheiros com grande tristeza e o coração pesado. Por uma estrada enlameada eles seguiram para Rio Branco, mas os irmãos da Congregação Batista os receberam com muita gentileza.
Também deram uma surra no João Strauss por que ele desejara dormir com a esposa. Profetizaram também que iria acontecer um terremoto e uma enchente que, no entanto não sucedeu, mas estes enganos eram interpretados como prova de fé a que Deus os havia submetido. Cada vez com mais frequência apregoavam que o tempo para arrependimento estava findando.

O Pastor P. Graudin de Rio Branco foi visitar o grupo para dizer por que o “espírito” lhe mostrara um caminho diferente, mas ele foi exortado e isto lhe amargurou o coração. A mensagem que não deixaram transmitir fora de que: “Tivera uma revelação que todos deviam voltar ao trabalho, por que ainda restava tempo para isto”.
Outra característica da seita era a de que, para batizar, o novo adepto, eles imergiam três vezes.
E assim eles perdidos doutrinariamente oscilaram entre uma crença e outra, afundando cada vez mais na ignorância, até serem envolvidos pela escuridão.

OUTRA VEZ NA MÚSICA

Fiz tantos exercícios estudando o harmônio que já conseguia tocar os hinos. A Congregação Batista este ano festejava o jubileu dos 25 anos. Nosso grupo de músicos preparou um programa festivo. Ensaiamos muito, compramos instrumentos melhores; eu também comprei um violão, no qual fazia exercícios de escalas e de posições.
Neste caderno anoto algumas melodias que me soavam nos ouvidos, mas que devem constituir fragmentos das músicas que tocávamos e cantávamos na Igreja.

A ESCALADA DO MORRO REDONDO EM 04.11.1918

Junto com o grupo de adolescentes, resolvemos ir para redondezas do “Rio Cedro” onde se situava uma montanha denominada “Morro Redondo” com a intenção subir as suas encostas. Fazia um dia muito bonito; já de manhãzinha nós marcamos encontro na cabeceira da nova estrada de rodagem. Todos estávamos alegres e animados, felizes e contentes. Iniciamos a caminhada e depois de 3 horas de progressão alcançamos o Rio Cedro. Então nós tínhamos de deixar o caminho e embrenhar na mata virgem para chegar à base da montanha. Foi uma empreitada difícil. Nós tínhamos que abrir picada através do mato cheio de cipós e de espinhos. A floresta estava tão fechada que nós não sabíamos para onde estávamos indo.
Resolvemos que um dos nossos companheiros deveria escalar uma árvore para estabelecer o rumo certo. Isto ajudou e depois de mais 2 horas de caminhada chegamos ao pé da montanha. A montanha estava coberta por árvores gigantescas, com algumas clareiras onde caíram barreiras e apenas sobrou a nua rocha, que, olhada de baixo, parecia uma testa coberta de cabelos.
Gritamos “hurra’ e iniciamos a escalada”. Em fila indiana apressados vencíamos a ladeira íngreme, com muito vozerio e gritaria. Chegando ao topo da montanha fizemos a nossa refeição – estávamos famintos como feras. Depois atingimos o cume da rocha mais alta. Que vista deslumbrante.
Lá em baixo se abriam em leque planícies. Os rios, como se fosse barbantes corriam em meandros sinuosos. As dunas das praias do mar longínquas brilhavam como prata, envolvendo o oceano azul. Observamos. As casas pareciam caixinhas de fósforos, as lavouras e os pastos como manchas dentro da floresta. Nova Veneza parecia estar próxima, logo ao pé do morro e levantando a vista além, a visão se perde nas montanhas longínquas onde se situa Rio Novo – então senti saudades.
Então volvemos o olhar para o outro lado, e lá, até o ponto que a vista alcança somente percebemos a mata virgem interminável. Ali a mão destruidora do homem ainda não chegou; toda a exuberante vegetação lá cresce no seu estado natural.

Deflagramos alguns tiros que ecoavam pelos contrafortes. Depois começamos a rolar pedras que caiam pelas encostas íngremes das encostas rochosas se espatifando lá em baixo. Estávamos felizes, também despreocupados, pois não tínhamos temor das rochas por onde passava o caminho. Não houve acidente grave, pois apenas um dos companheiros escorregou e caiu na água.

O JUBILEU DOS 25 ANOS DA IGREJA BATISTA
EM 09-10-1918
A Congregação Batista de Mãe Luzia foi fundada em 9 de outubro de 1893. Daquela época até hoje já passaram 25 anos e esta festa era de Jubileu. O culto festivo teve lugar na casa de Jacob Klava. Tocamos música, cantamos, ouvimos o sermão e algumas narrativas da história.

DO MEU DIÁRIO – FINS DE OUTUBRO

Nesta tarde eu senti profundamente o fato de que estavam se aproximando os últimos dias de vida do meu avô Ans. Ele me pareceu tão idoso, tão pálido; e de repente percebi que, depois de mais alguns anos, não poderei mais contempla-lo. Ele terá de nos deixar e isto será muito triste para todos. Ele é o nosso ascendente, nosso patriarca.
Deus abençoou muito a vida dele e fazendo que tivesse tantos filhos. Quando ele partir, no seu lugar ficarão muitos descendentes jovens e fortes. Esta idade irá aumentar até o seu último suspiro. Ele partirá, mas não de todo; no seu lugar ficaremos nós.

6 DE NOVEMBRO DE 1918

Fui assistir à aula de música. No meu coração surgiram tristezas que eu não conseguia controlar – surgiram imperceptivelmente se instalaram. Não conseguiria descreve-las; se fosse capaz de realizar este intento então dividi-las-ia com outros. Sendo impossível – com que satisfação eu deixaria Mãe Luzia para percorrer o longínquo mundo e encontrar um lugar onde eu pudesse esquecer a minha querida “A”. Estou convencido que este local não existe por que onde quer que esteja me lembrarei da sua imagem. Apesar disto tudo o eu gostaria mesmo é conquistá-la.
Assim a minha puberdade trouxe dois assuntos para minha consideração; primeiro a ideia da morte, quando observei o meu avô; e, a segunda a possibilidade de me ausentar de Mãe Luzia.

16 DE NOVEMBRO DE 1918

A Grande Guerra Mundial acaba de terminar!!!! Paz! Paz! Finalmente a Letônia está livre podendo ter governo independente. Isto me deixa muito feliz. O povo Letão nunca gozou de liberdade… Mas agora chegam notícias de que poderá livrar-se de quem a dominou. Ao se aproximar o fim do conflito, eu já havia imaginado que isso pudesse acontecer.

Continua

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