História da juventude de Emílio Anderman em Rio Novo

Esta História é longa, mas foge um pouco de Rio Novo, mas que poderá ser publicada se houver solicitação para tanto

M E M Ó R I A S D E E M I L I O A N D E R M N N

Escrito por Emílio Andermann
Traduzido do Letão
por Julio Andermann
Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Anotações por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Alice Gulbis Anderman

Na infância parece que o coração pulsava mais forte, era mais sensível. Dentro do corpinho pequeno abrigava labaredas de sentimentos que eram mais insistentes, rápidos e fortes.
Em Rio Novo, Santa Catarina, naqueles breves momentos em que lá vivi, adquiri impressões inesquecíveis sobre a natureza.
No relento, fora do aconchego do lar, ao anoitecer, respirando a atmosfera fresca eu exultava ao observar a natureza que adormecia. As escurecer progressivamente as grandes árvores e arbustos transformavam-se em simples sombras, pareciam mais agressivos.
Surgiam as estrelas, uma depois da outra. A lua nova por de traz da silhueta escura da crista da grande montanha aparecia como uma pequenina foice e tudo isto eu observava estupetafo. Seria esta mesma lua que iria se transforma em sangue com diz a profecia?
As grandes moitas envolvidas numa frígida nebulosa amedrontavam inspirando um respeitoso temor. Eu corria para dentro de casa onde brilhava a luz tênue de uma lâmpada de querosene. Aproximava o meu rosto da vidraça da janela e tentava olhar para fora, mas somente via a escuridão que freava a coragem de aventurar uma nova saída.
Numa noite quando eu dormia sozinho numa caminha fui tolhido por um pesadelo enervante. O local do acontecimento parecia aquele alto da montanha onde nascia o Rio Novo que era rodeada por outras maiores que limitavam a visão do horizonte, que eu habitualmente observava nas manhãs e ao entardecer.
Agora, no sonho, eu lá estava sobre os seus cumes cobertos de florestas, um insignificante ser, vendo surpreso uma tenebrosa convulsão das negras nuvens que rolavam céleres se enleando e distendendo numa louca corrida para ao infinito.

Nesta silenciosa penumbra, repentinamente estourou um mar de chamas se expandiu tomando toda a abóbada celeste e acima deste cataclismo, grandioso, impressionante, desfilava inesgotável o fluxo dos anos. Uma sonoridade constituída de muitas harmonias ecoava pelo infinito – “blam, blem, blam, blem”, que pareciam emitidas pelas trombetas dos arcanjos, cobria toda a orbe terrestre. Outros anjos sem coro cantavam hinos.
Eu dormira como se estivesse morto e quando acordei, os meus pés estavam sem os sapatos. Depois me contaram que na ocasião em que o relógio badalou as horas foi quando os meus calçados caíram dos meus pés.
Eu fiquei tão impressionado e amedrontado com este sonho que na conseguia mais adormecer sozinho e passava a noite temeroso, de que em uma outra ocasião qualquer, o fenômeno poderia se repetir na realidade.

MINHA DESPEDIDA DE RIO NOVO
Então nos estávamos em preparativos para viajar do Rio Novo para Mãe Luzia. Muito pouco me lembro daquela despedida que aconteceu na véspera. A minha irmãzinha Lídia e a Tereza estavam aprendendo a canção:
“Menino moribundo
No colo da mamãe.
Dizendo-lhe adeus
Baixinho, sussurrou
Em breve os anjos brancos
Pro lar me levarão
Oh! Mãe me encontre
Encontre lá no céu”.
Para ser entoada na reunião da despedida, elas me pediram para participar na voz de tenorino e eu cantei com muita garra, mas não tinha certeza se cantava o tenor, contralto ou outra harmonia qualquer; então para não estragar a execução, recusei-me a participar por que sempre fui bom no contra-canto, mas nunca igual na mesma tonalidade. Hoje tenho dúvida se realmente era a despedida.
A minha irmã Zelma (Mely) do meu pai e o tio Rodolfo andávamos tangendo um rebanho de ovelhas viajávamos na primeira leva; em outra ocasião depois desta, fez-se à mudança de toda a família.
De manhã cedinho fui despedir-me da família Klavim. Ali ficaram os meus inesquecíveis companheiros de brincadeiras infantis, mas fui para lá sentindo-me como se fosse um herói. O meu pai havia me presenteado uma harmônica de boca e eu soprava o instrumento com muita força e na minha imaginação o mundo todo estava escutando esta expressão de harmonia, esta solene e poderosa marcha de despedida e foi assim que subi a colina para me aproximar dos meus companheiros para me despedir deles.

Não me lembro dos detalhes desta despedida, mas apenas da grande confiança no futuro, o espírito entusiasmado e um sentimento de segurança que esta mudança me inspirava.
Depois nos iniciamos a viagem e começamos medir o caminho com os nossos passos até que entardeceu e chegou uma noite deslumbrante. Então nos acampamos e dormimos ao relento abrigados por uma encosta de morro, tendo as selas dos cavalos como travesseiros e os pelegos por colchões, cobertas pelas capas de cavaleiros.Além do vale soava uma música de dança que se ouvia de intervalo a intervalo, cujos tons chegavam ao sabor da brisa noturna. Na manhã seguinte acordei cedo por que a lua minguante brilhava nos meus olhos e também de Mely. Observamos a abóbada do céu onde reinava a luz, brilhavam as estrelas e enchiam os nossos coraçõezinhos com centenas de ilusões.
No fim da viagem em Rio Mãe Luzia a numerosa família do meu avô Ans que morava numa grande mansão, recebeu-nos como heróis. Fomos muito bem acolhidos, mas outra vez não me lembro dos detalhes, a não ser o paladar gostoso dos doces feitos com mel e polvilho preparados pela tia Marta, em contraste com a minha falta de compostura; logo depois, quando fiquei louco de raiva por causa de um pé de tangerina cheio de frutos que considerei uma propriedade exclusiva minha e a tia Marta me contrariou na minha intenção.
Sem perda de tempo iniciamos o desbravamento da mata virgem das terras que meu pai havia comprado; já havíamos feito o cercado e plantado o pasto e voltando depois de mais um dia de trabalho nele encontrado o gado trazido do Rio Novo. Isto despertou em nós o pensamento de que “eles já vieram” e então alegres e jubilosos corremos para cumprimentos os nossos pais.

A MINHA ORIGEM

Nasci na Letônia, em Pitraga, no dia 28 de julho de 1902. O meu pai exercia o cargo de Pastor da Igreja Batista local. De lá, quase nada me lembro.
Numa percepção longínqua, como num sonho, ficou guardada a lembrança de alguns acontecimentos:
• Meu pai me levava passear de bicicleta;
• A degola de um galo que esperneava muito;
• Junto com a irmã Lídia andávamos num campo de centeio;
• O majestoso mar Báltico.
No início do ano de 1905, atendendo a um convite, uma designação da Junta Missionária, o meu pai, junto com a família emigrou para o Brasil para ocupar o cargo de Professor da Escola primária Leta na Colônia de Rio Novo, perto de Orleans em Santa Catarina. Ainda me lembro dos marinheiros andando no tombadilho do navio que nos trouxe.
Nosso começo de vida aqui no Brasil foi muito bom. O meu pai dava aulas na escola, em dois turnos, de manhã e a tarde enquanto a família trabalhava na lavoura. Aos domingos e dias festivos ele dirigia o Culto e pregava na Congregação Batista.
Os nossos tios Karklis (a matriarca era meia irmã da minha mãe) nos convidaram para a festa de Natal e para chegar lá a Lídia e eu, cada qual, fomos acomodados em dois cestos [Jacás feitos de taquara Açu ] pendurados nos dois lados do cavalo, enquanto a Mely sentava na sela e esta foi a nossa condução. Fiquei fascinado pela luz das velinhas presas na árvore de Natal que me agradou muito, mas o maior interesse foi despertado pelo paladar das bananas que comi demais e tive uma indigestão.
Nós, os irmãozinhos ainda crianças, muito breve, encontramos companheiros para brincar de outras famílias que moravam perto. Mas a principal, logo depois que se descia colina e atravessava um regato, encontrava-se a casa dos Klavim, onde moravam os nossos principais parceiros lúdicos que eram três: Zelma – a mais velha, o Alexandre e por fim Alida – a mais moça.
Sempre encontrávamo-nos para brincar; às vezes com muito excesso e resultados arriscados.

OS COMPANHEIROS DE BRINCADEIRAS

Nossa atividade social, nossa alegria infantil, nossa felicidade, se realizavam quando nos encontrávamos. Aquele era o nosso mundo de crianças. Brincávamos de várias maneiras, construíamos casas, fazíamos bonecas de várias maneiras que dávamos em matrimônio que também adoeciam, morriam e então realizávamos os seus funerais no ritual Evangélico dos Batistas, cantando, dizendo versículos da Bíblia e orando.
Em outras ocasiões nós brincávamos de casamento. Vivíamos, adoecíamos, morríamos e depois realizávamos os nossos funerais, tentando imitar gente grande. Outras vezes brincávamos de anjos que traziam os bebes. O anjo se escondia atrás da esquina da casa e sorrateiramente vinha trazer a criança, enquanto nós fingíamos dormir. Então o anjo cantava, largava a criança e escapulia e nós acordando, vendo o nascituro jubilávamos de alegria. O anjo sempre era o mais idoso por ser o mais forte e o bebê o mais novinho por ser o mais leve.
Também imitávamos atividades domésticas e o patrão tinha o direito de castigar as crianças. Comerciávamos usando como dinheiro as folhas que colhíamos das árvores.
Numa ocasião as crianças dos Klavim vieram brincar na nossa casa. Terminado o jogo, quando elas retornavam para a sua casa, nós os acompanhamos até o riacho que estava transbordado devido às chuvas na cabeceira, correndo a água por cima da ponte.
Eles vadeavam com a correnteza até o joelho. De repente o Alexandre Klavim pisou em falso e sumiu nas águas. Lídia correu pela margem e o agarrou pela aba do paletó e assim, miraculosamente, conseguiu salvá-lo.
Brincando também cozinhávamos. Numa ocasião, mamãe não estando em casa fizemos o fogo da parede da Igreja que era de madeira e por isto começou a incendiar-se. Um transeunte viu o sinistro e chegou a tempo de apagar o fogo salvando a edificação. Constantemente apanhávamos surras dos nossos pais como castigo por excessos [A família Purim morava logo acima e minha avó Lisete e a família tinham visto diversas vezes as crianças dos Andermann andando pelo telhado do templo da Igreja qual tinha um pé direito bem alto mais o telhado de tabuinhas em um ângulo bastante acentuado, assim se uma criança despenca-se de lá de cima, seria um acidente sério na certa. A saída para o telhado era facilitada por uma janela junto ao final da escadaria da galeria ] praticados e por isto nos castigávamos mutuamente para se acostumar as pancadas.
Quando vesti as primeiras calças compridas conclui que a mamãe não teria mais o direito de me bater.

A MINHA DOENÇA

Papai cada dia ia banhar-se no Rio Novo. Eu o acompanhava, mas certa vez demorei demais dentro da água gelada, apanhei um resfriado e fui atacado de meningite. Minha mãe me cuidou com muita atenção empregando o método terapêutico de Belke, mas mesmo assim fiquei acamado por longo tempo. Depois me contaram que tinham de me acomodar com cuidado na cama por que sentia muitas dores. Graças aos esforços e cuidados da minha mãe eu convalescia e isto me causou muita felicidade e alegria por que, novamente podia correr livremente na natureza.
Certo dia a minha mãe precisou ir a cavalo para Orleans a fim de fazer compras e antes de seguir viagem recomendara ao meu pai que não me permitisse tomar banho no rio durante a sua ausência; mas o meu pai insistiu no banho e me levou junto quando apanhei outro resfriado e tive uma recaída. Outra vez a minha mãe teve de me tratar durante dias e noites, até que finalmente sarei; mas estava tão debilitado que, quando saí da cama, tive que engatinhar por que não tinha forças para caminhar.
Na minha convalescença minha mãe me perguntou o que eu queria comer e eu respondi: “uma sopa cosida e banana frita”. Em breve ganhei forças e fiquei completamente curado e podia novamente correr e brincar pelos montes de Rio Novo.

O MEU ENTENDIMENTO

Não sei por que, desde a tenra idade, o meu entendimento me propôs várias questões para analisar e pensar, mas que não tinha explicação. Também não sei por que a música e as maravilhosas belezas que eu observava na natureza tocavam tão profundamente a minha sensibilidade e tudo isto deixou no meu coração uma ânsia insaciável por uma existência farta e abrangente de realizações.
Repetida vez eu observava as nuvens que rolavam céleres sobre as montanhas, sem destino; e, estas brancas ondas de neblina, impressionavam o meu coração profundamente. Depois aquele céu escuro de onde aconteciam as trovoadas e que acentuavam a luminosidade dos relâmpagos absorviam o meu interesse. Quando o relâmpago riscava o céu com milhares de ramificações cintilantes e o trovão estourava naquele ruído que ecoava pelas montanhas, então eu corria para ao lugar onde eu havia visto a faísca atingir a terra, a procura daquela “bomba” e ver a cratera da explosão. Perdi muitas horas procurando a tal bomba.
Pensava que o arco-íris, em algum lugar, se firmava no solo e em uma ocasião decidi correr para encontrar este lugar.
Também sentia medo. Uma vez eu e os meus irmãozinhos nos banhávamos no riacho a beira da estrada. Pelo caminho vinham dois homens, um deles manuseando uma faca. Eu desconfiei de que eram malfeitores e então numa fugida louca, deixando a roupa para traz corremos para casa até chegar junto do meu pai de quem pedi uma faca para enfrentá-los. Então eles já estavam mais próximos e meu pai disse calmamente: “Eles estão picando fumo”.
Comentei com a minha mãe: “Tu disseste que o mundo é tão grande, no entanto ele termina logo ali adiante” e enquanto eu falava apontava para a linha do horizonte, pois estava convicto de que os limites da terra não iam além do campo da visão.

O GOSTO ARTÍSTICO

A música me empolgava muito. Quando ouvia tocar harmônio ou cantarem hino abandonava as brincadeiras e ouvia absolutamente sossegado. Eu também cantarolava tentando encontrar naquelas sonoridades que emitia, alguma coisa bela e atraente. Nas reuniões da Igreja Batista, quando toda a Congregação cantava, meu coração ficava tocado até as lágrimas, então os outros me observavam sem entender e me perguntavam se eu estava magoado. Meu pai me presenteou com uma gaitinha de boca que eu tocava insistentemente.
Quando a minha avó Ana veio nos visitar em Rio Novo ela me presenteou com uma flautinha de soprar que se tornou o meu brinquedo mais querido. Acabei estragando o instrumento por que queria aumentar o número e a largura dos furos onde colocar os dedos. Fui convidado a cantar no Coro da Igreja, mas depois me esqueceram de chamar e por causa disto fiquei magoado até as lágrimas.

A MINHA ALFABETIZAÇÃO

Já estava crescidinho e assim passei a freqüentar a escola. No recreio eu corria junto com os colegas. Sentia-me muito feliz por que estava me desenvolvendo e queria tornar-me logo um homem adulto e importante.
Quando observei que apenas o meu pai, como professor, iniciava as aulas com uma oração a Deus eu o aconselhei que deixasse os alunos também orarem; observei que a mamãe nos mandava fazer preces, todos os dias, de manhã cedinho aos acordarmos; mas o meu pai não me queria como conselheiro e sim como aluno e nesta condição ele me mandava decorar letras e números.
Depois que eu aprendi a ler e a escrever ele me mandava para a Biblioteca [Já naquela época a Igreja junto com a Escola mantinham uma Biblioteca ] para ler junto com outros companheiros mais adultos. Um dia, de brincadeira começamos a espirrar; apareceu papai e nos ameaçou castigar colocando em pé num canto da sala, mas os meus companheiros desculparam-se de que estavam resfriados, então eu fiquei sozinho por que ele sabia que eu não estava gripado.
Assim na brincadeira eu aprendi a ler. Também tentava fazê-lo em português, mas não entendia palavra, mas com a ajuda do meu pai em breve aprendi a língua tão bem que numa viagem missionária que meu pai realizou a fim de pregar o Evangelho, ele permitiu que eu lesse em voz alta o Novo Testamento em público.

MEU COMPANHEIRO CELINO

Ele era brasileiro autóctone e tendo ficado órfão não tinha onde ficar. Então minha mãe o abrigou em nosso lar como se fosse filho. Mas isto foi um erro por que este menino de 11 anos me arrastou para uma má conduta. Eu acabei submisso a sua vontade e ele me perseguia tanto quanto desejava. Nosso círculo de brincadeiras e amizade foi acrescido dos filhos dos Feldsberg. Então já com mais idade iniciamos reuniões para orar a Deus. Destes momentos o meu novo e mau companheiro brevemente me afastou.
Em vez das brincadeiras antigas agora fazíamos pipas, andávamos a cavalo, tomávamos banho no rio e praticávamos pequenos furtos nos pomares e hortas dos vizinhos. Ele era tão arteiro que breve encontrou o caminho para o sótão e depois para cima do telhado [ A minha avó Lisete Rose Purim confirma esta informação de eles andarem sobre o telhado. Na parte leste do telhado havia uma mansarda que facilitava bastante o acesso ] .
O meu pai nos mandava colher milho na roça. O Celino então aconselhou que procurássemos as espigas sem grão por que eram mais leves de carregar. De fato os cestos ficaram mais leves, mas gastamos tanto tempo e trabalho na procura que teríamos ficado menos cansados se tivéssemos trabalhado direito.

MUDANÇA PARA MÃE LUZIA

O meu pai Carlos Andermann teve muito interesse e começou a ler a literatura dos Pentecostais que o levou a modificar a sua convicção religiosa. Por causa do desvio doutrinário ele foi pressionado para deixar a liderança da Igreja Batista de Rio Novo.
Em Mãe Luzia morava a família dos nossos avós paternos, Ans e Ana Anderman, neste local o meu pai comprou um terreno vizinho, fazendo fronteira com a propriedade do meu avô.
A minha irmã Mely Zelma e eu fomos os primeiros a viajar para juntos dos meus avós. Nós andamos durante dois dias a cavalo por uma estrada muito enlameada.
Nós avançamos heroicamente pela estrada, a viagem transcorreu e nos agradou muito.
Gostamos muito de Mãe Luzia que tinha outro aspecto topográfico por que planície, com montanhas enormes (a Serra do Mar) muito distantes. Os meus avós e os meus tios nos receberam amorosamente e procuravam nos agradar muito. Descobrimos o rio de águas límpidas, mas que tinha muita correnteza que, quando nós tomávamos banho, não nos deixava afastar das margens com medo de sermos arrastados. Esta Mãe Luzia era novidade pra mim, era estranha e prometia muitas descobertas novas. Ela encheu o meu coração e me senti feliz como se fosse um passarinho.
Depois do dia de trabalho e aos domingos o tio Rodolfo tocava num harmônio enorme de fabricação inglesa com técnica de um virtuose, um artista e até executava uma peça chamada “Gloria in Excelsis Deo” de Vivaldi. Estes momentos me agravam tanto que eu pensava: “o céu não será mais acolhedor”. A música me agradava tanto que até esquecia a existência enquanto a escutava.
Passados alguns meses, em 1910, chegou o restante da família, pois como já disse eu e a Mely, fomos os precursores. Agora o meu pai trouxe a mudança. Vieram também os irmãozinhos Teófilo, Celino e as irmãzinhas, assim todos estávamos reunidos, iríamos morar provisoriamente na cada do meu avô. Na mesma viagem, tangido pela estrada, viera também o gado bovino.
Começou o trabalho árduo de desbravar as terras virgens que foram compradas por meu pai pela importância de 600$000 (seiscentos mil reis).

A VIDA EM MÃE LUZIA

Ali a nossa vida na corria com tanta facilidade como a tínhamos imaginado. Tivemos que trabalhar na lavoura desde o amanhecer até o anoitecer, cercar e cuidar do pasto para o rebanho. Os primeiro anos foram muito difíceis para nós.
A moradia em casa estranha também não era fácil. Aconteciam desentendimentos, falta de cordialidade. Diluiu-se também aquela bela esperança religiosa baseada no Pentecostalismo a vida nos levou por um caminho difícil de ser vencido e junto com o corpo cansado sofria o espírito. Papai não tinha resistência física para aguentar o trabalho braçal, além de franzino a sua formação era de intelectual e a minha mãe muito menos todo serviço brutal que fazia ia além de suas forças.
Os trabalhos domésticos eram feitos depois do anoitecer. O pão caseiro de milho era assado durante a noite, como também lavada toda a roupa da família. Nós os filhos também aprendemos a trabalhar com suor nos rostos para arrancar da terra a nossa simples alimentação e conseguir o desenvolvimento físico.
O que mais me perturbava era o Celino que era um menino de sentimentos muito baixos. Ele tinha a habilidade de me desviar par ao caminho do mal. Eu orava muito a Deus e tinha o coraçãozinho bastante iluminado e por isto distinguia o caminho mau, mas ele era como se fosse o próprio satanás que insinuava aquelas idéias e conseguia me influenciar.
As cercas da nossa propriedade eram fracas. O gado do meu avô invadia a nossa lavoura e devorava as plantações cultivadas com tanto esforço. Esta preocupação perturbava muito a minha mãe que diante desta ameaça não conseguia dormir. O fato dos meus avós não conseguirem dominar o seu gado aborreceu a minha mãe a tal ponto que ele resolveu abandonar Mãe Luzia. Numa manhã ela selou o cavalo e partiu para o Rio Novo, deixando o meu coração muito, muito, machucado quando chorei demora e dolorosamente. Lá em Rio Novo ela teve uma inflamação no pé e este acontecimento a conscientizou e, assim depois de algum tempo, ela de surpresa, retornou e diante disto tos nós ficamos muito contentes.

O MEU BATISMO EM 1911

O Pastor João Inkis, vindo da Letônia, visitou as colônias no Brasil. Ele também esteve em Rio Novo e de lá, acompanhado por muitos outros patrícios, a cavalo, também veio para Mãe Luzia. Os sermões dele tinham muita vida, inspiração e força de convicção.
Num domingo de manhã, antes do culto ele falou especialmente para os adolescentes que sentávamos, em fileira,,sobre um banco tosco de madeira. Ele então falou sobre a fé, contou estórias sobre o amor, tomando para ilustrar, exemplos da vida diária e atingidos por estas explicações os nossos corações começaram a derreter. Sentimos remorso da vida que levávamos e o arrependimento dos pecados e fomos profundamente atingidos na nossa alma.
Vários de nós sentiram a alegria da salvação e entre estes estava a minha irmã Lídia e eu. O nosso batismo foi um acontecimento muito bonito; a margem do rio foi roçada e lá se reuniu muita gente. Lembro-me que fiquei temeroso de entrar na água fria; mas depois da imersão, senti uma felicidade tão grande que até então nunca havia sentido antes.
Depois do batismo me esforcei para ser um crente exemplar. Eu orava muito a Deus e comecei a ler sistematicamente o Novo Testamento. O versículo que mais me agradou foi aquele Salmo de Davi: “O SENHOR É O MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ”.
Aqueles eram momentos muito agradáveis em que eu gozava a solidão junto a Deus.

A CASA NOVA

Anteriormente numa colina nas terras de meu pai edificamos uma meia água sob a qual nos abrigávamos das chuvas. Depois construímos uma cabana, onde nós brincávamos e às vezes estudávamos enquanto os nossos pais trabalhavam.
Não me lembro em que ano começamos a pensar na construção da nossa casa nova. A nossa primeira preocupação foi com o telhado e então, sozinho, fui a cavalo para o Rio Novo para convidar o velho Rosa que era um hábil artesão em lascar telhas de madeira. O Jakobson e o professor Germano serravam as tábuas. O meu pai com o machado aparava [Farquejar ou falquejar] a madeira da estrutura, o esqueleto para sustentar as paredes e o teto. Em mutirão vieram mais alguns amigos de Rio Novo junto com o velho Karklis que assumiu o cargo de “mestre de obras”. Então o Levenstein [Löwenstein] se desentendeu com o Karklis e o primeiro largou o trabalho e voltou.
A nova casa nós estávamos edificando num promontório que havia sido desmatado recentemente. Ainda haviam tocos e troncos abatidos. O trabalho progredia acelerado e em breve a estrutura já estava de pé e assim continuou até a colocação da cumeeira. Depois o velho Karklis também foi embora e daí em diante a construção ainda demorou muito para terminar.
Ainda tivemos que construir o celeiro, o estábulo e cavar um poço, mas tudo isto foi conseguido rapidamente. Eu também contribui com todas as minhas forças até o dia feliz, quando finalmente,. Pudemos fazer a nossa mudança. Na nossa imaginação não existia nada mais lindo no mundo do que o nosso novo lar, embora ainda faltasse o assoalho.
Havia mais animação para iniciar uma vida nova, aumentando o pasto, ampliando a extensão das terras plantadas, plantar o laranjal e as nossas forças de adolescentes não correspondiam para vencer todos estes trabalhos, e, assim ainda passaram vários anos até que a nova vida começasse a progredir com certa regularidade.

COM 14 ANOS EM 1916

Neste ano surgiram na minha mente ideias novas e nobres. Daquela época ainda guardo os meus primeiros trabalhos escritos. No meu coração acordou a ambição pelo estudo. Teve início a minha paixão pelo estudo da música e também surgiram em mim sentimentos de patriotismo, pois a Letônia foi o campo de batalha da Guerra de 1914 a 1918. Com muito ardor então me afeiçoei a uma mulher a que chamarei de A e ela me causou muita mágoa. Neste ano a Mely Zelma e eu frequentávamos uma escola em Forquilhinha, mas por causa da grande distância que tínhamos de caminhar, depois de 4 meses de frequência tivemos de abandoná-la. Para lembrança estou guardando um caderno desta época.
Neste ano também encontrei novos amigos; nós aprendíamos a tocar instrumentos e pontualmente tínhamos reuniões de aulas de música. Neste ano também teve início a construção da estrada de rodagem de Criciúma para Mãe Luzia e assim foi facilitada à comunicação com aquela estação férrea. O Silvestre começou a construção de sua venda nas terras do meu avô.

MÚSICA

Lembro-me que já há muito tempo eu desejava estudar música e assim pedi ao meu pai para escrever as notas para mim. Eu iniciei o estudo da escala, mas fiquei admirado como poderiam as pessoas distinguir o valor de cada uma através daqueles pontinhos negros que me pareciam iguais. Não percebi que elas estavam escritas no pentagrama e que a escala subia ou descia de acordo com a sua colocação. Quando iniciei o aprendizado para tocar o harmônio então também aprendi as notas.
Eu também aprendi a tocar violão e violino. O tio Rodolfo construiu um violão para si mesmo e eu não sentia nada mais agradável que tanger as suas cordas. Meu pai comprou um violino e eu iniciei o seu estudo com todo empenho. Tio Rodolfo muitas vezes tocava violino e eu era capaz de acompanha-lo ao violão. Nós frequentemente tocávamos música e estes momentos foram os mais felizes para mim. Foi um passatempo agradável. Nunca pude imaginar qualquer coisa mais bela do que a música e por isto eu adorava ficar na casa do meu avô por que lá se tocava muito o harmônio.

SEGUNDA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 1916

Hoje foi um dia muito quente, não chove há várias semanas. Todos nós levantamos cedo e fomos capinar o canavial. Junto com o meu pai, fomos arar. Era um trabalho difícil por que a terra ainda estava cheia de tocos e raízes, nós arrancamos três tocos. Na hora do almoço toquei violino. Agora é tempo de melancias maduras e nós temos bastante para colher.
7 de FEVEREIRO – Levantamos junto com a alvorada e fomos continuar a arar a terra do meu pai. Logo terminamos e amanhã já poderemos plantar. Depois também chegou Teófilo que trouxe o Julinho. Todos estávamos muito felizes e a minha mãe que trouxe o almoço para comer ali mesmo nos disse que durante toda a existência não iríamos esquecer este momento.

ANO DE 1917

Este ano foi para mim repleto de trabalho estafante.
Nas horas de lazer eu lia muitos livros e me esforcei para escrever. A Geologia me fascinou e eu também com muita volúpia me interessava por outras ciências. Também a música atraiu minha atenção, copiava músicas e tentava criar alguma coisa por mim mesmo, mas toda esta insistência me deixou muito cheio de mim, orgulhoso, quando na realidade eu deveria ter tido vergonha da minha ignorância.

One comment on “História da juventude de Emílio Anderman em Rio Novo

  1. Alice diz:

    Muito linda e interessante. Vai continuar?

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