Arthur, hoje escrevo uma carta de caráter comercial… | De Reynaldo Purim para Arthur Purim – 1926 –

[Carta escrita à máquina]

Rio de Janeiro, 25 de Junho de 1926

Querido Arthur:

Saudações. Hoje recebi as cartas da Olga e da Lucija escritas no dia 13 de junho pelas quais agradeço. Fale para elas que amanhã ou depois vou responder a elas por que hoje não vou ter tanto tempo para escrever. Eu estou bem de saúde e tenho estado de modo geral muito bem. Sobre as suas condições de vida eu tenho me preocupado bastante e achei por bem escrever ainda hoje, pois domingo sai o navio para Laguna. Gostaria de saber se já recebestes a carta que eu mandei dia 16 de junho? Também no dia 22 mandei um grande pacote com jornais diversos para ler e também moldes para Mamma poder costurar. Todos foram recebidos?

Arthur, hoje escrevo uma carta de caráter comercial que sobre ela todos conversassem e chegassem a um acordo e escrevam relatando o resultado e conclusões. A Olga escreveu que vocês querem comprar a propriedade dos Leiman [no Rodeio do Assucar] que possivelmente esteja à venda e que está propriedade, é melhor que a do Rio Novo. E que na sua opinião deveria ser vendida a minha gleba (Bukuvina) que fica no Rio Larangeiras no fundo da sua para comprar a do Leiman. Sobre isto tenho pensado e parece que é também a opinião dos demais lá de casa. Pois nenhum de vocês gostaria de ter que deixar a terra dos Leiman. Eu não sei quanto dinheiro em caixa você tem e nem por quanto à terra dos Leiman será vendida. Se eu não fosse viajar para a América do Norte eu poderia ajudar com mais ou menos 2:500$000, e quem sabe até conseguir mais, mas como eu vou viajar eu vou precisar deste dinheiro para a passagem e outras despesas e que para isso eu tenho poupado. Neste caso se os outros familiares estiverem de acordo é possível que eu faça o seguinte negócio: Vender a Bukuvina no Rio Larangeiras e comprar a terra dos Leiman. A colônia [Gleba] do Rio Novo não precisa ser vendida, se não haver ninguém para ficar trabalhando que fique crescendo capoeiras e as matas, mas vender não. Conversai muito entre vocês, mas não publiquem estes planos para ninguém se meta no meio deles. Se todos estiverem de acordo escrevam-me e eu vou cuidar de providenciar uma “procuração” de plenos poderes no Tabelião para você ou para o Papai, pois esta terra está no meu nome então sem a minha presença não seria possível fazer qualquer negócio. E se isso que nós queremos nós temos que agir rápido, pois depois de eu sair do Brasil seria muito mais difícil e mesmo por que no fim de Agosto ou no início de Setembro devo viajar e por isso devemos nos apressar.
Ainda gostaria de acrescentar depois de muito avaliar as necessidades que talvez não seja necessária a venda de toda Bukuvina. Junto estou enviando um rascunho do terreno de lá baseado quando possível da memória. Eu penso que aquela parte que já foi alguma vez aberta e trabalhada não precisaria ser vendida, pois a terra lá é muito boa e as estradas já foram abertas e de qualquer maneira é um pedaço de boa terra e acessível. O principal da área seria difícil acesso para quem estivesse baseado no Rio Novo e claro muito mais fácil para quem quisesse morar no lado do Rio Laranjeiras. Também não deve ser vendido muito barato, pois lá é uma terra virgem e boa e inteiramente repleta de madeiras e livre de geadas. Pela minha avaliação aquela área que eu sublinhei no desenho deverá ser assegurada para que fique no meu nome, pois a transferência também custa. No caso da compra do terreno dos Leiman primeiramente deverá ser verificada a quem realmente ela pertence, pois os velhos já são falecidos então é preciso saber a qual dos filhos ela pertence e é possível que pertençam a todos e cada um deva vender a sua parte. É possível que a divisão seja mais fácil se for feita baseado no valor e não no imóvel. Estas coisas devem ser muito claras e transparentes para evitar casos de discórdia e dai caiam na Justiça e ai não tem mais fim. Para tanto vocês deverão escrever urgente para o Fritz Leiman e deixar reservado para que no caso de algum italiano ou outro qualquer se apresse e chegue à frente e termine comprando. Por quanto realmente à terra do Leiman está sendo vendida? Qual na realidade é a sua área total? No caso de essa negociação vá em frente e que a Bukuvina seja vendida, o terreno do Leiman seja comprado eu faço questão que ela seja escriturada no meu nome, senão eu não concordo que a Bukuvina seja vendida. Esta condição eu coloco não somente que a terra seja minha, mas mais importante que não seja possível ser vendida sem a minha aquiescência. Quanto ao uso e morada no novo terreno você pode usar como quiser e não precisa se preocupar quanto a isso. Apesar de que no momento não ter a mínima possibilidade de morar na colônia não vejo nenhuma possibilidade, se bem que dos trabalhos da lavoura eu não tenho medo nenhum, mas quem sabe no futuro, quem sabe na velhice, um pedaço de terra talvez seja muito útil e é por isso que não quer largar de um antes de ter assegurado o outro. Se por acaso por uma razão ou outra a gleba dos Leimam não seja possível de ser comprada então que a Bukuvina que fique lá com garantia para o futuro. É certo que a terra dos Leiman é de mais fácil acesso do que a Bukuvina que ainda quase toda é mata virgem e ainda a propriedade dos Leimann tem todas as instalações como à residência e demais construções todas prontas, mas ainda não sei se será possível o negócio, pois ainda não sabemos nem o preço. Se considerar este plano realizável o mais breve possível e mandem a carta registrada. Escrevam para o Fritz Leimam e contem a ele o meu plano de comprar para vocês irem morar lá, pois vocês acham que é melhor que o Rio Novo. No caso do plano ir em frente mandem-me um desenho do terreno da Bukuvina assinalando o comprimento de cada divisa. Não é necessário um desenho ser complicado. Avaliem o valor por quanto poderá ser vendido e é claro que eu não quero que vendam muito barato ou dar de presente para alguém. Também quero a opinião de vocês sobre aquela área assinalada se vale a pena rete-la ou não. O terreno do Rio Novo não é tão grande e será muito útil esta área adicional para quem ficar morando no Rio Novo. Se de todas alternativas nenhuma é do seu agrado, escrevam sem medo. Não vou obrigar ninguém a fazer isso ou aquilo. Mas como nos apresentamos eu estou de acordo a fazer este negócio. Certamente eu não vou poder acompanhar pessoalmente o negócio porque vai chegar o tempo de eu viajar para a Escola, mas vou preparar uma “Procuração” para o Paps ou para outro qualquer de vocês que vai assinar os documentos de Venda e de compra destes terrenos. Vou ainda me informar dos detalhes com o Tabelião daqui, mas de qualquer modo se faz urgente por que eu tenho preparar tudo antes de viajar para a América e assim quando tudo estiver acertado vou mandar o documento que vai dar os direitos para assinar em meu lugar. Escreva dizendo o que o Paps e a Mamma acham deste negócio. E a Lúcia e a Olga também estão de acordo?
Aqui em Pilares eu tenho feito vários negócios para a Igreja e aqui as coisas são muito mais difíceis. A gente tem que ficar atendo senão pode acontecer com o caso de um pinto que corre por cima de cinza quente. Uma aqui a Igreja vendeu um lote enquanto eu estava em casa e quando cheguei era aquela encrenca por causa de 15 cm na largura que o meu procurador não tinha percebido. A situação estava favorável para a nossa causa e o comprador perdeu. Mesmo assim ter que se tomar cuidado. Ontem eu fui acertar uma doação de um lote que um irmão faz a Igreja para um futuro ponto de pregação. Mesmo doação tem deixar tudo certinho senão esta pessoa pode morrer e dai os herdeiros poderão nos tirar. Eu sei que no Rio Novo as coisas não são tão difíceis, mas de qualquer modo é necessária muita atenção. Vou esperar resposta breve.
Desta vez sobre outras coisas não vou escrever, pois está na hora de ir para a Igreja. Logo vou escrever sobre outros assuntos. Eu estou passando bem. E vocês? Como estão as coisas de modo geral. Aqui na semana que vem vai começar a Chautaqua. Lembranças para todos de casa e ninguém deve se assustar por que eu iria muito longe de casa. Eu voltarei e nem vou levar todas as minhas coisas. Vou levar somente as indispensáveis. Desta carta eu estou guardando uma cópia [É desta cópia que estamos traduzindo] para lembrar o que eu escrevi. E ainda lembranças a todos daí. Que Deus estejam com todos.
[Reinaldo Purim]
[Abaixo rascunho da Procuração]

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