O PASTOR KARLOS ANDERMAN. | POR JULIO ANDERMAN, UM DE SEUS FILHOS. 4ª PARTE


O PASTOR KARLOS ANDERMAN
4ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]
[Digitado por Laurisa Maria Corrêa]

A tia Salit então sugeriu que aqueles que tivessem economias guardadas em casa deviam trazê-las e juntar em um só cofre numa repetição do exemplo de Atos 3:42-47 e aos mais hesitantes citava o exemplo de Barnabé. Foram trazidas latas cheias de moedas de prata de 2 mil reis que todos guardavam pensando serem imunes à inflação devido ao valor do nobre metal. Nesta aventura então entrou um fato novo que era o interesse pecuniário.

Novamente veio uma ordem transmitida por via espiritual para que todos aqueles crentes vendessem as suas propriedades e com as suas famílias se mudassem para a Colônia Varpa em São Paulo. Mas chegando lá se verificou que as condições do clima e do solo não eram apropriadas a uma existência saudável. A terra era muito arenosa dando a impressão que lá já existira o mar. Havia muitos bichos de pé. Faltava água e os lençóis freáticos, quando encontrados, localizavam-se a mais de 20 metros de profundidade tornando a escavação do poço manualmente arriscada pela ameaça do desmoronamento de suas paredes.

Mas nós éramos considerados como peregrinos em busca da terra prometida e que desta vez ainda não a tínhamos encontrado. Novas orações, novas consultas, novas
Outra peregrinação pela Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande para aquele destino.
Em Varpa sofri a maior perda da minha vida, faleceu a minha mãe Emilia. Habituada em Mãe Luzia a uma dieta de leite, legumes e cereais, em Varpa teve de se alimentar de arroz, feijão e carne, ao que não resistiu a sua delicada constituição orgânica, mas antes de fechar os olhos, escrevera cartas para aquelas lideranças espirituais dotadas de dons e que comandavam então os nossos destinos, denunciando aqueles desvios doutrinários designando com uma única palavra “pústulas”. Em conseqüência destas cartas depois dela morta ainda tive de ouvir insinuações de que, por não ter resistido às provações e se desviado daquela doutrina, pairava duvida sobre a salvação da sua alma.

No Rio Grande o nosso destino final foi uma localidade chamada Cascata de Burica que se localizava numa mata virgem próximo do Rio Uruguai. Outra vez fazia-se à derrubada da floresta para a construção das casas e as plantações agrícolas, mas terminados os trabalhos diários, as famílias se reuniam em reuniões de oração na mesma rotina costumeira.

A líder espiritual do grupo continuava a mesma tia Salit. Mas acontece que para o nosso acampamento veio outro par recém-casado e o nome da moça era Zelma Zvagere, uma das imigrantes da Colônia Varpa que se casara com um rapaz de Rio Branco chamado Alexandre. Por ocasião de uma destas reuniões de orações vespertinas, enquanto todos estavam ajoelhados a profetiza teve uma visão e então disse a Zelma: “Eu vi uma parelha de cavalos atrelada ao balancim que o teu marido Alexandre estava segurando e sendo arrastado para longe de ti”.
Sucedia que Alexandre tinha se afastado do grupo por que, embora fosse crente, o seu juízo não aceitava estes exageros, mas ele era meu amigo, pois trocávamos idéias. Assim que terminou esta reunião por acaso encontro o Alexandre e pedindo sigilo contei a visão profética. Logo a seguir chega em casa Zelma toda chorosa e se dirige ao marido: “Então você pretende deixar-me” ao que o outro respondeu: “Quando vierem os cavalos com o balancim”.
Na próxima reunião do dia seguinte ao formarmos o circulo de orações a profetiza aparentando inspiração espiritual disse assim: “Quem foi que contou ao Alexandre aquela revelação de ontem?” “Se o culpado não se manifestar o Espírito vai denunciar”. Ora, só poderia ter sido eu que já tinha fama de tagarela; então pensei, isto já passa da conta, vou me confessar e fingir arrependimento vamos ver se o Espírito vai denunciar a minha falsidade. Confessei-me culpado e choramingando pedi perdão e qual não foi a minha surpresa – fui perdoado.
Depois da reunião falei com o meu pai e lhe contei o acontecido e afirmei que tudo aquilo era mentira e sugeri que ele se afastasse deste grupo, mas ele ficou hesitante por que era o doutrinador Teológico. Estava escrito no Novo Testamento repetidas vezes a respeito da manifestação do Espírito Santo e aquela gente, se depois desta penitencia, desta obediência cega não fosse contemplada então ele não sabia encontrar o erro.

Abandonei aquele lugar pelas picadas através da floresta caminhei 15 quilômetros até Santa Rosa onde encontrei trabalho na chácara do Dr. Frederico Krebser e estava agnóstico.
Mas o que me salvou do desvio do comportamento foram os ensinamentos e a doutrinação que a minha mãe, ela acompanhou o meu pai sem discutir toda esta confusão, mas não se descuidou da minha educação, dando uma interpretação própria de várias citações evangélicas. Uma delas foi a de que “todos pecados seriam perdoados, menos os contra o Espírito Santo”. Ela explicava que a voz do Espírito Santo se manifestava através da consciência, mas tantas vezes o homem insistia no pecado que acabava não sentindo remorso e neste grau a perdição seria irreversível. Para exemplo citava a história de um assassino nos Estados Unidos que fora condenado a execução na cadeira elétrica e quando perguntado por que havia matado um cidadão que viajava na boleia de uma carroça dirigindo uma parelha de cavalos a resposta tinha sido: “Por que eu estava curioso em ver como iria cair o cigarro que estava fumando”.
Também naquele interstício do episódio da Linha Telegráfica e o outro da tia Salit que durou vários anos, freqüentei a Escola Dominical clássica onde aprendi aqueles hinos “Vinde Meninos” e outros, decorei versículos, assimilei as lições das aulas que freqüentava. Até que eu poderia ter me segurado naquela comunidade Batista liderada por Jacob Klava, mas ele feria os meus sentimentos filiais quando na minha frente dizia que meu pai, Carlos Andermann era podre e eu não pude admitir isto por simples respeito a minha origem e por que sabia que ele era um ingênuo pesquisador de uma literal verdade evangélica sem qualquer interpretação Teológica.
Então surge a pergunta; como foi possível que um adolescente de 13 anos ficou fiel a um grupo e excêntricos como aquele? Primeiro fui obediente aos meus pais. Depois quem entra num redemoinho de águas turvas ou idéias não consegue sair sozinho por que sempre é arrastado para o centro. O empenho principal da liderança era doutrinar os fieis para mantê-los unidos como minoria escolhida de Deus e evitar qualquer contágio de idéias de fora denominado “o mundo”. Também o que facilitou este Pentecostalismo obscuro foi o fato de eu ser semi-analfabeto, mas o principal foi o sentimento de obediência aos meus pais.

Certamente todos os meus irmãos o foram até os 13 anos, mas quando caíram na realidade tiveram um choque tão grande motivado por causa do batismo pelo Espírito que levou a este descalabro, que resolveram renunciar toda a doutrina da Salvação. Esqueceram que os Batistas explicavam a trilogia – Deus Pai – Jesus Cristo – Espírito Santo – dando o mesmo peso para cada um completando o outro; Deus determinava, Jesus mediava e o Espírito estabelecia o contato entre a mente humana e a inspiração Divina. Se tivessem pesquisado melhor a Escritura teriam descoberto que os primeiros crentes falaram línguas estranhas, mas que cada um daqueles forasteiros entendiam como sendo o próprio idioma. Então havia relação de causa e efeito, pregar o Evangelho numa língua que os outros entendiam como a sua própria.
Isto já foi dito há mais de 50 anos passados pelo Pastor Inke em Nova Odessa quando ele falou que Seminaristas inspirados pelo Espírito Santo estudavam línguas estrangeiras para trabalho missionário – então foi muito criticado pelos Pentecostalistas.
Mas neste caso também a relação de causa e efeito é a mesma dos primórdios do Cristianismo – falar uma língua estrangeira na qual um povo de fora entendesse a mensagem de Deus.
Já havia participado como voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 defendendo a legalidade, mas este é um capítulo à parte.
A minha irmã Lídia que morava em Nova Odessa pediu ao João Jankovitz que viajou para Ijuí, que me fosse apanhar em Santa Rosa onde eu então era aprendiz de oleiro, favor que ele cumpriu devotamente e por isto eu estou-lhe eternamente agradecido.
Eis-me agora na Fazenda Velha perto da Estação de Nova Odessa em São Paulo, onde estava localizada uma Colônia Leta, muito progressista material e espiritualmente.
Todas as propriedades eram produtivas e respondiam a diligencia dos Letões que eram agricultores natos e ajudavam incansavelmente a natureza que retribuía este esforço com messes generosas.
Estava com 16 anos. Combinei com o meu patrão Arajs para trabalhar a metade do dia durante período de entre safra como empregado na lavoura mediante a retribuição da pensão completa, mas no período de cultivo me comprometi a trabalhar o dia todo mediante remuneração.
No sótão da Igrejinha Batista da Fazenda Velha havia uma sala que foi adaptada para a escola. De Nova Odessa a bicicleta pedalando 8 quilômetros vinha o Prof. Carlos Liepim, que foi bacharel formado pelo Ginásio Batista do Rio de janeiro, para ministrar as aulas. Com a sua ajuda recuperei todo aquele tempo perdido na penumbra do semi-analfabetismo e ele me ensinou tudo que sei, naturalmente aprimorado depois. Não fez por menos, preparou a mim e outros alunos diretamente para o admissão.
Depois ele foi convidado para ser professor de física e química num ginásio de Campinas, indo diariamente de trem para dar aulas, mas embora estivesse com seu tempo tomado, conseguiu uma vaguinha para orientar os meus estudos na sua residência à noite duas vezes por semana, quando eu pedalava a minha bicicleta para ir e voltar, por um caminho de terra iluminado por uma lanterna de carbureto.
Minha base religiosa Evangélica estava abalada. Mantinha uma rigorosa conduta de crente por que agir de outra forma seria burrice, mas intimamente duvidando daquilo que não fosse palpável, no entanto nunca deixei de ver a presença de Deus em todas aquelas maravilhas que ia descobrindo pelo estudo nos rudimentos da ciência, por que em tudo aquilo eu via a presença de Deus e sentia que ao aprender aquelas teorias de Lavoisier, de Pasteur, aquelas definições Newton a respeito da gravidade ele estava sendo lisonjeado.
Fui aceito como membro da Mocidade Batista que era constituída de jovens sadios, decididos, estudiosos e que me tratavam como se eu fosse igual a eles – embora fossem filhos de famílias abastadas.

CONTINUA

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