Pastor Karlos Anderman – 3ª parte por Julio Anderman

O PASTOR KARLOS ANDERMAN
3ª PARTE
DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS

[Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]

[Digitado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
]

Meu pai mantinha correspondência com outras comunidades Batistas Letas para divulgar o Pentecostalismo e principalmente com uma localizada no Rio Branco, nas proximidades de Jaraguá do Sul. Um dia chegou a notícia através de uma carta que havia um outro grupo procurando o avivamento espiritual através da doutrina de Pentecostes, num lugar chamado Linha Telegráfica. Lá já tinham conseguido as manifestações espirituais aguardadas e havia uma profetiza, a tia Ida Strauss e que ela intermediara uma mensagem marcando o dia em que Cristo desceria dos céus em toda a sua glória para arrebatar aqueles crentes reunidos e vigilantes.
Não me lembro dos detalhes, mas a nossa família na integra, meus avós e meus tios, abandonaram todas as propriedades; alguns de navio e outros mesmo em carroças puxadas por cavalos viajaram para aquele local.
Era um sítio inóspito, banhado, cercado de morros e ameaçado de malária. Lá todos se reuniram numa comunidade imitando aquele ideal dos primórdios do Cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Construíram alojamentos, trabalhavam cooperativamente no cultivo de alimentos necessários à sobrevivência, vigiavam e oravam a espera do glorioso dia da vinda do Senhor.
Liam a Bíblia escolhendo aqueles versículos que davam apoio ao seu fanatismo e nas horas de lazer e durante muitas horas, de joelhos no chão e apoiados nos cotovelos, em circulo, oravam insistentemente pedindo a manifestação do Espírito. Quando um crente terminava com o amém o outro ao seu lado direito emendava, enquanto outros diziam “aleluia”.
Descobriram no Evangelho de que os Crentes deveriam confessar-se uns aos outros; então nesta mesma postura contavam as tentações a que teriam sido expostos. Na ausência de atos pecaminosos valiam aqueles praticados no pensamento. Qualquer dúvida quanto à legitimidade doutrinária desta iniciativa deveria ser declarada em público, desaprovada por todos os presentes e o culpado confesso compelido ao arrependimento.
No Apocalipse também consta que “eles cantarão um cântico novo” interpretando esta frase literalmente. Em conseqüência foram jogados ao chão todos o hinários tradicionais; balbuciando a comunidade qualquer coisa em qualquer tonalidade numa gritaria ensurdecedora.
A minha irmã Mely gritou tanto que acabou danificando as cordas vocais. Foi ela também que adolescente, com um alicate arrancou uma coroa de ouro que lhe revestia um dente e o jogou numa touceira de bananeiras, pois Deus tinha o poder de fazer nascer dentes novos.
Lembro-me de uma urna funerária pintada de branco guardada no sótão a vista de todos que se destinava a uma menina chamada Tabita, por que a profetiza havia previsto a sua morte; moça esta que anos depois encontrei em Varpa gozando perfeita saúde, mas a credulidade era tanta que na certeza do desfecho fatal, anteciparam a construção do caixão.
O fim desta história é fácil de se prever. No dia marcado Cristo não apareceu embora os fieis estivessem em vigília até o sol raiar no dia seguinte.
Teve inicio o descalabro. Não sei se por causa de determinação recebida espiritualmente ou por simples necessidade biológica, tio Rodolfo começou a dormir com a tia Ida Strauss no que foi imitado por tio apaixonado pela tia, sem qualquer reação da coletividade.
Quando recebemos a visita do meu irmão Emilio, que voltando de São Paulo com destino a Mãe Luzia para tomar conta das propriedades abandonadas, veio nos visitar para saber dos acontecimentos. Ele ainda era Batista, mas foi recebido no lado de fora do acampamento como se fosse Anti-Cristo, sem permissão para entrar, para o desespero da minha mãe.
Este desatino durou cerca de dois anos. Então resolveram acabar com a comunidade que foi estabelecida para receber Cristo no dia do Juízo Final e não tendo ele aparecido no dia marcado não havia mais razão para continuidade. As coisas como talheres e outros utensílios domésticos que estavam sendo usados em comum, tiverem de ser outra vez separados. Então a profetiza teria dito “man tas gribas”, que traduzido significa “eu quero isto” e apanhado as melhores coisas para ela.
Todos voltaram para as suas casas e o tio Rodolfo trouxe a reboque a tia Ida, depois de oficializar o casamento.
Lembro-me, como se fosse hoje, o regresso da minha família para Mãe Luzia. Pietro Ronzani que havia sido encarregado de tomar conta da nossa propriedade, dado ao vicio da bebida, tinha deixado tudo correr a revelia. As cercas do pasto haviam caído. O gado esquelético cheio de bicheiras, a metade da casa inabitável por causa das goteiras, o pomar tomado pelo mato, a terra abandonada sem qualquer cultivo.
Quando viu isto tudo a minha mãe Emilia teve uma crise de desespero a ainda hoje ouço os gritos que ela imitia dizendo: “meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”.
Tínhamos de começar tudo de novo, pagar os impostos atrasados o que foi para nós muito difícil.
Agora a nossa família estava novamente reunida, com exceção da minha irmã Lídia que havia casado em Nova Odessa, então ajudaram na reconstrução daquele sitio, mas tudo era muito difícil por que o solo não ajudava.
Houve então um período de descanso daquele fracasso da Linha Telegráfica, mas em baixo das cinzas ainda ardia aquela brasa que incitava novamente a busca do Batismo pelo Espírito Santo, na devida oportunidade.

Mas agora um parêntese. Foi numa tarde límpida quando o sol baixando no ocaso mandava a sua luz em leque para dentro do quarto iluminando aquele ambiente.
Ele estava deitado no meio do aposento sobre uma cama de lençóis brancos, a sua cabeça ornada de sobrancelhas, cabelos e barbas brancas repousava majestosamente sobre dois travesseiros.
Lá fora havia um jardim de flores com alguns canteiros revirados para receber novas plantas e algumas roseiras florescendo.
Então fez um gesto com a mão e ao lhe aproximarem os ouvidos pediu para ser colocado de joelhos com o corpo apoiado na cama.
Eu estava naquele recinto brincando com o cabo de guarda chuva na mão que a minha mãe achou irreverente, apanhou o brinquedo e o jogou pela janela no jardim. Não me dei por vencido, sai pela porta apanhei aquele objeto, escondi atrás das costas e por precaução fiquei longe da minha mãe e mais perto daquela cena.
Eu não sabia que ele estava expirando e para mim a oração a Deus era como se fosse rotineira quando ele disse:
“Es niecigs semes tarpins
nesmu cienigs iet tava
keniskiga prieksa ““.
Que traduzido do leto significa: “eu um humilde vermezinho da terra não sou digno de comparecer na tua Real presença”.
Pediu para ser novamente colocado no leito e continuou dando adeusinho com a mão como se entre os dedos estivesse segurando um lenço, gesto este que os letos chamam de “ata, ata, ata” que é uma interjeição de despedida, até que a sua cabeça pendeu de lado e a vovó Anna lhe fechou os olhos.
Então indaguei o que havia acontecido e minha mãe me disse: “A alma do teu avô foi para os céus”.

Voltando ao assunto, então o rebanho dos crentes em Mãe Luzia se dividiu em três: aspirantes do Pentecostalismo, os praticantes do Adventismo e um outro grupo fiel à doutrina Batista. Apesar deles terem a mesma origem Batista, não se aglutinavam. Esta atitude enfraqueceu a comunidade Leta, dispersando a mocidade que passou a procurar companhia fora do ambiente evangélico.
Depois de algum tempo após o termino do Inventário do meu avô Ans o tio Rodolfo vendeu a parte dele e junto com meu pai, foi para a casa do sogro, agora para vender aquela propriedade da Linha Telegráfica e feito isto, todos se mudaram para Varpa, onde o meu tio montou um moinho e uma serraria.
Ouvi o meu pai contar que ele seguiu para a cidade de São Paulo, onde se juntou a uma coletividade também de origem espiritualista de um tal Krasowski, que era empresário de uma firma de locação de serviços de pintura e usava os adeptos como mão de obra. Também esta experiência não durou e meu pai retornou a Rio Mãe Luzia outra vez o que foi um motivo de grande prazer para nós. Ele trouxe um pãozinho de trigo já ressequido, mas que eu achei muito delicioso por que nunca dantes tinha saboreado.
Parecia que agora iria haver uma pausa nesta perseguição dos ideais do Pentecostalismo, uma trégua e foi então que junto com meu pai fizemos aquela viagem de evangelização que vou narrar mais adiante.
Emilio havia emigrado para os Estados Unidos levando depois o Teófilo. Lá ele trabalhou fez um curso de Contabilidade estudando de noite e foi procurar outra verdade doutrinária no Positivismo e no culto da ética. Tornou-se agnóstico. Morreu no ano passado em Urubici, Santa Catarina e na última troca de idéias que tivemos ele disse:
“Olha a minha vida é tão correta como a de vocês que são Batistas; não preciso ser crente para proceder certo” ao que retruquei: “Para você é fácil porque cresceu numa família crente, fez profissão de fé, batizou-se, mudou de religião, mas reconhece que vive dentro dos princípios de ética e da moral dos Batistas”.
A Mely e Claudia também viajaram para São Paulo em busca de oportunidades melhores. A única que acompanhou os ideais do meu pai e filiou-se a Assembléia de Deus que é uma denominação Pentecostal moderada, foi a minha irmã Mely. Casou-se, constituiu uma família numerosissima, na maioria de evangélicos. Mas no ano passado quando fui a São Paulo em visita encontrei-a junto com o filho mais velho, Diáconos da Igreja Batista Leta. Perguntei: “o que houve?” respondeu: “Insisti em acompanhar os Pentecostalistas, mas eles não tem tempo de ler a Bíblia, mal o Pastor começa a ler as Escrituras e tentar doutrinar, surge aquele tumulto de gritos de” aleluia “, todos falam ao mesmo tempo e assim passa a hora do culto sem que se leve para casa qualquer mensagem para a meditação”.
A minha irmã Lídia também deixou de ser membro da Igreja Batista por que havia perdido a fé e não quis fingir, mas nunca deixou de se conduzir como crente.
Claudia passou para o Esoterismo onde procurou a verdade cuja noção havia perdido no episódio da Linha Telegráfica, mas o resultado desta crença na sua vida pessoal foi um desastre e o que aconteceu comigo verão mais tarde.
A nossa situação material e financeira em Mãe Luzia melhorou. Os meus irmãos mandaram dinheiro dos Estados Unidos assim pagamos todos os impostos atrasados, recuperamos o pasto, as plantações como também o gado. A minha mãe conseguiu formar um rebanho de carneiros que tosquiava e obtinha lã para fazer meias e agasalhos.
Eu sabia ler e escrever, mas não freqüentava escola pública por que nenhuma havia por perto e mesmo por que o meu pai não estimulava este desejo.
A colonização de Varpa onde havia o maior aglomerado de famílias Letas e a famosa Cooperativa Palma não foi uma conseqüência de um ato planejado intelectualmente. A maior parte emigrou para o Brasil acreditando numa orientação e inspiração divinas e por que temiam o “dragão vermelho” (o comunismo) que de fato mais tarde chegou.
Entre eles havia dissidentes adeptos do Pentecostalismo moderado que em grupos menores se reuniam em busca de avivamento.
Oriunda de um destes grupos, depois daquela nossa viagem missionária, apareceu em Mãe Luzia, uma mulher quarentona, de personalidade forte e que também seria portadora daqueles dons espirituais que todos aspiravam. Chamavam-na de titia Salit, era doutrinadora, ousada, diligente, cara dura e tinha a capacidade de envolver a opinião dos outros numa corrente sempre favorável aos seus propósitos. Talvez tivesse sido convidada por meu pai.
Também vieram algumas famílias do Rio Novo em busca deste avivamento de que ouviram falar e então eclodiu todo aquele ritual novamente, de longas sessões de oração sempre de quatro com as nádegas para cima; aqueles rituais de oração e a confissão de pecados de uns para outros.
Uma tarde eu estava em casa sozinho enquanto a minha mãe fora tratar algum assunto com o vizinho quando repentinamente, o céu ficou negro de nuvens esvoaçantes lá em cima na Serra do Mar. Ia formando-se uma tempestade. Aquela convulsão de nuvens negras riscadas pelos relâmpagos e trovões vista da planície em que eu estava, parecia o dia do Juízo Final perante os meus olhos infantis. De tanto ouvir repetida aquele argumento da vinda de Cristo, eu, aos dez anos de idade estava condicionado a surpresa do Juízo Final a qualquer momento. Quando vi aquilo tudo fiquei apavorado. Pensei que a minha mãe tivesse sido arrebatada naquelas nuvens e eu, pobre pecador, tivesse sido abandonado sozinho na terra.
Quando a minha mãe regressou, eu me senti muito aliviado. Pensei: “Desta vez não aconteceu, mas certamente na próxima Cristo virá” e por causa disto consenti a fazer profissão de fé e ser batizado, por um outro itinerante que se dizia Pastor e se chamava Klava.

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