O PASTOR KARLOS ANDERMAN – SEGUNDA PARTE –

O PASTOR KARLOS ANDERMAN

2ª PARTE

DEPOIMENTO APRESENTADO POR JULIO ANDERMAN, UM DOS SEUS FILHOS
Autor: Julio Andermann
Datilografado por Laurisa Maria Corrêa
Revisado por Viganth Arvido Purim
Material cedido pelo Autor: Sr. Julio Anderman
SEGUNDA PARTE

Professor? Não precisava mais ensinar as primeiras letras às crianças por que a vinda do Senhor estava próxima e instrução embotava a espiritualidade.
Ajudado por alguns membros da Igreja então adquiriu uma propriedade de uma colônia em Rio Mãe Luzia, tendo por limite numa ponta aquele rio, transparente, piscoso, que rolava num leito pedregoso entre cachoeiras e poços de águas mansas e profundas e que foi o meu amigo de brincadeiras durante a minha infância.
No mesmo local morava o meu avô Hans com a família onde restavam solteiros os filhos Rodolfo e Sigismundo e as filhas Tereza e Anna. Tereza a caçula da família nascera na mesma época que Lídia a primogênita de meus pais então a tia e a sobrinha tinham quase a mesma idade. Os dois lotes eram separados apenas por uma estrada que servia de limite.
A família do meu avô era abastada por que era dona do único moinho movida à água e também uma serraria e assim de longe vinham os colonos pra moer o milho e pilar o arroz como também cortar a madeira. Eles também possuíam uma ferraria para atender as necessidades locais de ferragens e serralheria. A mão de obra era paga ao moinho com 10% dos cereais em natura ou então mediante a conversão do valor em mil reis.
Até então eram todos membros da Igreja Batista cujo líder chamava-se Jacob Klava que era um radical seguidor da doutrina assim como ela fora transmitida há séculos.
Mas quando veio para aquele lugar o meu pai ele já decidido a insistir em fazer cultos e organizar reuniões de avivamento, onde durante muitas horas os crentes ficavam ajoelhados de quatro, com as nádegas para cima e a tônica temática, tanto da leitura do Evangelho como das fervorosas orações, era para o Senhor mandar o seu Espírito Santo conforme havia prometido e para receber esta graça buscava-se a purificação, o esvaziamento do próprio Ele, a fim de abrir o lugar para que esta força inundasse as mentes num êxtase que se manifestasse em todos aqueles dons descritos no Novo Testamento como seja: falar línguas estranhas, profetizar, ver visões, fazer milagres, mas sem a exigência de qualquer seqüência de causa e efeito; não importava que o linguajar ninguém entendesse, nem se comprovava se as nebulosas profecias se realizassem, ou se o milagre da cura realmente havia acontecido.
Da família do meu pai somente não aderiram o Emilio e a Lídia e da do meu avô, apenas o tio Sigismundo ficaram fieis a doutrina Batista, mas todos os outros se juntaram à nova seita por que o meu pai era considerado o intelectual do clã, o mais erudito, mais instruído, então a sua opinião prevalecia.
Ele então resolveu que a sabedoria mundana nada valia e lembro-me que a minha mãe queimava os livros como lenha para esquentar o forno de panificação doméstica, por que na sua opinião, seria mais interessante que esta literatura se queimasse do que as almas imbuídas das suas idéias enganosas ardessem nas labaredas do inferno.
Meu irmão Emilio que então tinha 13 ou 14 anos salvou alguns deles escondendo no mato e depois os entregou para serem guardados nas casas dos vizinhos; mas, conforme ele me contou depois, foi destruída uma vasta biblioteca constituída de livros doutrinários, enciclopédias, história, filosofia, ciência e ensino básico. O meu pai se convencera que a cultura não seria mais necessária por que, pelos sinais dos tempos, era eminente a vinda de Cristo que arrebataria apenas os crentes de corações limpos e não contaminados pelas coisas do mundo.
Como já disse: os meus irmãos Lídia e Emilio, não aderiram ao novo credo, mas depois que a coisa se aprofundou, certamente consideraram a doutrina Batista, como a base, o primeiro degrau desta escala que levou para aquela alienação mental, por que do seu meio saíram os seus primeiros seguidores, pois é próprio da natureza humana desprezar um todo por causa do suposto erro de um detalhe.
Assim a Comunidade Batista Leta de uma só vez perdeu mais de dez membros que se tornaram Pentecostais e além disto também várias famílias aderiram ao sabatismo; podendo se estimar em metade dos crentes que se afastaram. Então assim como acontece num rebanho que é invadido por um predador que agarra algumas ovelhas; o pastor somente consegue segurar algumas, as mais fieis, por que muitas outras se dispersam; assim também aconteceu lá, muitos indecisos ficaram balançando entre as crenças e acabaram perdendo a fé.
Não consta que tenham convertido algum incrédulo. Apanharam aqueles crentes que apesar de terem a certeza da salvação foram convencidos a tentarem emoções espirituais mais fortes, como se estas fossem um estagio superior, uma sobremesa do banquete espiritual e assim para satisfazer em uma emoção pessoal quase extinguiram o núcleo Batista naquele lugar.
Parece que o meu pai foi o primeiro doutrinador de Pentecostalismo no Brasil, mas devo dizer que naquele movimento ainda não entrou interesse pecuniário, a regra era dar de graça o que se recebesse de graça.
Na casa do meu avô havia uma sala destinada aos cultos Batistas, mas que depois passou a ser usada para aquelas reuniões de avivamento espiritual.
Naquela ocasião eu deveria ter a idade de 5 ou 6 anos, então me era permitido dormir o meu profundo sono de criança num quarto do lado. Quando de manhã eu acordava ia para sala ficava surpreso em vê-la cheia de detritos, latas velhas e numa ocasião até um cocho de dar comida aos porcos. Quando eu perguntei o porque? Responderam que era a perseguição do Kestrin Luris, que na minha imaginação tomei por um bicho papão, mas na realidade a curiosidade da vizinhança havia sido atraída por aquele vozerio de súplicas lancinantes: “Venha Senhor Jesus, mande o Consolador” num tom de exigência que se confundia com obrigatoriedade e eles por chacota haviam jogado todos aqueles objetos de noite pela janela para desestimular aquele escândalo e o Kestrin nisto entrava apenas como o chefe; mas os Pentecostais comparavam estes excessos com a perseguição dos crentes no inicio do cristianismo e como sinal inequívoco de que estava próximo a chegada dos dias finais.
Meus pais não se conformavam por que daqueles dons descritos no Novo Testamento nunca conseguiram uma manifestação pessoal, mas admiravam estes fenômenos nos outros. Hoje penso que foram sinceros, não sabiam fingir, esperavam uma manifestação verdadeira de transe espiritual que nunca conseguiram por inexistente naqueles termos.

Meu pai mantinha correspondência com outras comunidades Batistas Letas para divulgar o Pentecostalismo e principalmente com uma localizada no Rio Branco, nas proximidades de Jaraguá do Sul. Um dia chegou a notícia através de uma carta que havia um outro grupo procurando o avivamento espiritual através da doutrina de Pentecostes, num lugar chamado Linha Telegráfica. Lá já tinham conseguido as manifestações espirituais aguardadas e havia uma profetiza, a tia Ida [Strauss] e que ela intermediara uma mensagem marcando o dia em que Cristo desceria dos céus em toda a sua glória para arrebatar aqueles crentes reunidos e vigilantes].
Não me lembro dos detalhes, mas a nossa família na integra, meus avós e meus tios, abandonaram todas as propriedades; alguns de navio e outros mesmo em carroças puxadas por cavalos viajaram para aquele local.
Era um sítio inóspito, banhado cercado de morros e ameaçado de malária. Lá todos se reuniram numa comunidade imitando aquele ideal dos primórdios do Cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Construíram alojamentos, trabalhavam cooperativamente no cultivo de alimentos necessários a sobrevivência, vigiavam e oravam a espera do glorioso dia da vinda do Senhor.
Liam a Bíblia escolhendo aqueles versículos que davam apoio ao seu fanatismo e nas horas de lazer e durante muitas horas, de joelhos no chão e apoiados nos cotovelos, em circulo, oravam insistentemente pedindo a manifestação do Espírito. Quando um crente terminava com o amém o outro ao seu lado direito emendava, enquanto outros diziam “aleluia”.
Descobriram no Evangelho de que os Crentes deveriam confessar-se uns aos outros; então nesta mesma postura contavam as tentações a que teriam sido expostos. Na ausência de atos pecaminosos valiam aqueles praticados no pensamento. Qualquer dúvida quanto à legitimidade doutrinária desta iniciativa deveria ser declarada em público, desaprovada por todos os presentes e o culpado confesso compelido ao arrependimento.
No Apocalipse também consta que “eles cantarão um cântico novo” interpretando esta frase literalmente. Em conseqüência foram jogados ao chão todos o hinários tradicionais; balbuciando a comunidade qualquer coisa em qualquer tonalidade numa gritaria ensurdecedora.
A minha irmã Mely gritou tanto que acabou danificando as cordas vocais. Foi ela também que adolescente, com um alicate arrancou uma coroa de ouro que lhe revestia um dente e o jogou numa touceira de bananeiras, pois Deus tinha o poder de fazer nascer dentes novos.
Lembro-me de uma urna funerária pintada de branco guardada no sótão a vista de todos que se destinava a uma menina chamada Tabita, por que a profetiza havia previsto a sua morte; moça esta que anos depois encontrei em Varpa gozando perfeita saúde, mas a credulidade era tanta que na certeza do desfecho fatal, anteciparam a construção do caixão.
O fim desta história é fácil de se prever. No dia marcado Cristo não apareceu embora os fieis estivessem em vigília até o sol raiar no dia seguinte. [Estes fatos aconteceram aproximadamente na década de 1910 e também não constam nos Livros de História da Assembléia de Deus.]

CONTINUA…

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