Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus.

A morte do Maragato
Por V.A.Purim

Eram os últimos anos do século 19.. Lá pelos distantes anos de 1893 ou 94.
Um grupo de imigrantes letos cansados de guerras, opressão resolve imigrar para a Terra da Palmeiras, o longínquo Brasil.
Espera-se que nesta vastidão de território não houvesse diferenças tão evidentes que levem as guerras de fato.
Estavam mal informados.
A República estava instalada, mas as diferenças entre as províncias e as mal resolvidas encrencas entre os próprios militares e o novo Governo tinha chegado a uma posição insustentável.
A província do Rio Grande do Sul lidera a Revolução Federalista.
Os Revolucionários passaram-se ser chamados de Maragatos e os Legalistas de Picapaus
A pequena cidade de Orleans onde ficava a Colônia Rio Novo dos Letos e de muitas outras etnias principalmente de italianos, poloneses, e alemães estava cheia de soldados Federalistas.
Este exército precisava de comida e transporte.
Era só entrar pelas colônias adentro e requisitar bovinos para alimentação e cavalos e mulas para transporte.
Alguma coisa tem que ser feita.
Os letos por não falar a língua ainda não tinham mínimas condições de dialogar com os soldados que estavam em toda parte.
Precisavam criar uma barreira.
Pagaram para um polonês que já dominava a língua para criar uma atmosfera de perigo para os soldados que tentassem entrar na Colônia dos Russos como eram chamados.
Este pintou um quadro bem desfavorável insistindo na rudeza e ferocidade deste povo do fim do mundo.

Passando-se como amigo alertou o comando que se possível não deveria entrar nesta colônia devido aos comandos e pelotões de defesa que vigiavam por picadas paralelas do caminho principal.
Ele contava que parte mais baixa do Rio Novo o rio descia por cascatas e saltos e fazendo um ruído ensurdecedor e a inclinação do terreno era muito acentuada.
O caminho era com declive acentuado e prensado entre o rio e barrancos enormes
Que os letos tinham desenterrado imensas pedras que com leve toque cairiam dos barrancos e desceriam pelo caminho abaixo a roldão levando os soldados e seus animais.
Que também mais para cima tinham sido colocados explosivos entre as pedras para segunda avalanche matando ainda mais soldados.
Se não recuassem os pelotões de colonos muito bem protegidos matariam alguns que tivesse restado.
Mas se conseguissem subir pelo vale outros pelotões estariam a sua espera e que não pensassem que poderiam reagir, pois eles tinham os seus próprios caminhos alternativos pelas matas.

A Colônia leta de Rio Novo estava apreensiva.
Sabiam blefar, mas era necessário fazer alguma coisa de prático.
Foi recomendado pelas lideranças que todos bovinos e muares fossem levados para o interior das matas com alimentação e água para muitos dias.
É claro que uma pessoa deveria ficar vigiando os mesmos.
Os porcos deveriam ser soltos mesmo com risco de prejuízos que poderiam fazer nas lavouras.
Tinham que confiar em Deus e nas providências tomadas.
Foi recomendada a não ida para a cidade de Orleans a não ser em caso extremo.
As famílias estavam quase em pânico.

Na cidade do lado dos revolucionários até uma curiosidade.
Como seriam estes semibárbaros “russos” que ameaçam oferecer resistência até a um exercito.
Pra sorte deles de madrugada um morador de Rio Carlota resolve ir até a cidade.
Logo é identificado como um daquela gente valente e feroz.
Este compra o sal, café, a pólvora, o chumbo, 2 litros de querosene, 1 latinha de potassa e alguns remédios como óleo de rícino, sal amargo, e começa o caminho de volta. (não tinha pavio prô lampião)
No armazém da Companhia de Terras não tinha muita coisa e nem na outra venda autorizada a vender para os colonos.
As compras eram carregadas no ombro com um saco dividido em duas partes, assim metade do peso ficava nas costas e outra metade na frente.
Não queria ficar mais tempo pra não assanhar os curiosos.
Sai andando de mansinho como que não quer nada beirando o Rio Tubarão pela vargem do Gazolla.
Logo percebe que está sendo seguido por um soldado da Revolução.
Continuou andando e sempre atento pelo soldado que o seguia.
Passou a Barra do Rio Novo.
Logo teria que dobrar a direita para subir pelo vale do Rio Novo.
Não convinha entrar pela estrada vigiada que na confusão poderia sobrar pra ele.
Resolveu ir adiante subindo o Rio Tubarão até a foz do Rio Laranjeiras e subir por este vale paralelo ao Rio Novo.
Quem sabe se o que o seguia desista por motivo da distância ser bem maior.
Mas o homem não o perdia de vista.
Depois de horas de caminhada ainda o soldado com seu fuzil andando atrás dele.
Logo ele teria que pegar uma picada para passar pelas matas para chegar no Rio Carlota que era contíguo com o Rio Novo.
Apressou-se quase correndo e entrou pela picada estreita e logo percebe que o homem estava atrás dele.
A mata fechada e a tarde chegando e ele sem querer ensinando um caminho alternativo prô inimigo.
Teria que tomar uma decisão.
Ele estava com uma espingarda pica pau calibre 24 daquelas que são carregadas pela boca.
Disfarçando como se tivesse trocando de ombro ele empurrou 3 pedregotos [Pedregotos eram chumbos de diametro maior quase 1/4″.] e em seguida um pedaço de papel de embrulho.
Apareceu um trecho da picada reto e ele não poderia usar a vareta de socar a carga.
Quando apareceu a curva ele saltou no mato entre xaxins e caetés e terminou a carga no outro cano

Momentos o homem resfolegando recebe um tiro no peito e ainda tenta dizer algumas palavras.
Não precisou o 2º tiro.
Um jorro de sangue tingiu o surrado uniforme e depois de alguns momentos era um homem morto.
O cadáver com o fuzil Manlincher caído ao lado.
Era preciso se livrar desta encrenca.
Pode ser que ele tenha sido designado para encontrar outro caminho para a Colônia dos russos.
Pode ser que venha uma expedição de busca.
Mais que rápido arrastou o corpo pra longe da picada e cobriu os vestígios de sangue com folhas secas e serrapilheira.
Onde enterrar um corpo sem ferramentas.
Nas matas tipo Mata Atlântica as árvores, as grandes perobas, canelas e outras quando ficam velhas elas tombam nas tempestades de verão e levantam junto às raízes e grande quantidade de terra.
É claro que junto fica um buraco considerável
Por sorte não muito distante tinha uma grande peroba caída.
Pegou o fuzil do soldado e primeiro limpou o buraco de todas folhas secas acumuladas.
Não tinha mais que cavar.
Arrastou o corpo do soldado e jogou no fundo.
Em cima também o fuzil.
A tarde estava declinando
Apressou-se em derrubar a terra que estava presa as raízes do tronco caído cobrindo o cadáver.
Mais folhas para disfarçar qualquer alteração na paisagem.
Chegou em casa já noite escura.
A mulher percebeu que algo com ele não estava bem
Parece que ele tinha visto uma visagem.
Aproveitou para dar um tranqüilizante de Valeriana curtida em cachaça.

Vinte anos depois…

Conta à história, mas como fosse um outro o autor.
A minha avó sempre achou que foi ele mesmo.
Mas a malandra nunca contou quem era.

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Quarenta anos depois…
O terreno de mais de um milhão de metros quadrados onde o soldado foi morto ainda pertencia ao Tio Reynaldo Purim e continuava pura mata com exceção de uma área de dois alqueires que era cultivada pela família Purim.
O nome desta parte cultivada era chamada de Bukuvina.
A parte imensa de matas tinha uma quantidade de jabuticabeiras nativas e nós acompanhávamos o pai quando íamos buscar estas deliciosas frutas.
Nós éramos crianças e eu de 12 anos e queríamos achar o fuzil do soldado.
Mas da picada antiga nenhum vestígio.
Meu pai dizia que era bobagem porque depois de tanto tempo a ferrugem já o tinha corroído.
A minha avó e meu pai faleceram e nunca contaram quem foi o herói defensor da Colônia Leta.

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2 comments on “Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus.

  1. Amo as histórias que estão na sua cabeça…

  2. V. A. Purim diz:

    Obrigado minha criança.. Beijos. Pai.

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