…levamos 10 sacos de farinha de mandioca e toucinho de dois porcos gordos. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 11-1-23

Querido Irmão!

Eu depois de muito tempo quero escrever-te, pois aqui nós não sabemos como estás passando, pois faz mais de 4 meses que nenhuma notícia tua temos conseguido, porquê o Agente dos Correios aqui de Orleans não quer entregar. E pelo que a nós toca, ele está uma fera que está quase explodindo, ele mente muito. Ele diz que as nossas cartas foram levadas por outras pessoas e quando perguntamos a estas pessoas elas dizem que ele não entregou nada e para outras pessoas ele diz que entregou toda correspondência para nós mesmos e acusações de todas as partes e por causa desta encrenca nós há tanto tempo não sabemos como tu e os outros estão passando.

Nós estamos passando razoavelmente bem. Temos aqui e ali trabalhado muito e já temos duas coivaras derrubadas onde será possível plantar mais de ½ saco de semente, [Semente de milho] já aramos uma grande área onde poderemos plantar umas 15 mil mudas [Manivas] de mandioca e nesta roça tivemos que trabalhar muito, primeiro tivemos que roçar a voadeira, [Voadeira = A primeira vegetação que cresce no inverno nas roças abandonadas de outras colheitas ] queimar esta vegetação depois de seca, passar ou arrastar o tronco para alisar o terreno e tirar os tocos de árvores a picareta e então arar e ainda depois passar a grade alisadora.

Na semana passada fomos de carro de bois para Orleans, levamos 10 sacos de farinha de mandioca e toucinho de 2 porcos gordos. Pela farinha eles pagaram 10$000 o saco. E pela arroba de toucinho eles pagaram 16$000 a arroba. Neste dia os nossos negócios renderam mais de 200$000 e ainda temos muita farinha para trazer para a cidade e vender, pois nós fizemos mais de 52 sacas. O polvilho este sim, ainda não vendemos porquê não conseguimos secar. Estariam prontas a muito se não fosse a instabilidade do tempo. Agora chove todo dia que quase não permite o trabalho na roça.

Eu teria muito o que escrever, mas este ano você não pode deixar de vir para casa nas férias e quando isto acontecer você vai ter uma boa oportunidade de trabalhar bastante com a enxada capinando as ervas daninhas, porquê nestes tempos molhados o que não falta é mato para capinar, pois elas crescem mesmo não querendo ou não podendo. Roças para capinar nós temos bastante e camaradas [Diaristas – só empregamos quando estamos em grandes apuros] e o tempo está bom.
O que você tem feito neste tempo que a gente não ficou sabendo nada de ti? Como vai por lá a Escola?
O João Klava tem pago [Atpelnijis = Pago com trabalho ] o feijão e o arroz que ele come lá? E o que ele comeu nas férias passadas quando ele ficou lá vadiando? Se caso ele não tenha pago seria bom não dar mais feijão e arroz fiado para ele comer numa boa e quanto quiser, pois o feijão está muito caro valendo 20$000 a saca e o arroz também está muito caro. A alimentação que já foi comida é difícil ser paga.
Bem desta vez chega de escrever, se você quer saber mais de mim ou de nós aqui, então venha para casa. Com amáveis lembranças de todos. Artur Purim

Escrito na lateral

Amanhã eu irei para a cidade cortar o cabelo.

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