…gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros | De Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rio Novo 25 de junho [de 1923]

Querido Irmãozinho!!

Saudações! A tua carta escrita no dia 30-4-23 recebi ontem à noite. Muito obrigado. Esta, porém foi daquelas que demoraram quase dois meses para chegar e também foi aberta e ainda bem que tudo estava dentro. Agora não chega nenhuma carta sem que o pessoal do correio de Orleans não a tenha aberto e lido. Se o encarregado dos correios vai com a cara do destinatário até que ele entrega, senão ele vende para os donos das vendas [casas de comércio] como papel de embrulho.  Aqui na colônia existem pessoas que assinam jornais de maior porte e passam semanas, meses sem que chegue nenhum e às vezes calha que eles vêem o pessoal das Vendas embrulhar café com os jornais com o nome deles e quando interpelados, eles dizem que foi o Alfredo Balod quem vendeu para eles.

Por ai você pode avaliar como a ordem reinante tem descambado na cidade. Os jornais da região têm denunciado até com caricaturas, mas nada tem adiantado porquê o Alfredo é genro do Intendente [Prefeito nomeado pelo governador ou eleito???] e por ai você pode ver que governo nós temos por ai, que tem por única preocupação destes homens é ganhar dinheiro a qualquer custo.

Por isso também os impostos foram aumentados, neste ano pela terra teremos que pagar 16$000 quando no ano passado foi 13$000, o imposto do fogo [Imposto do Fogão] era 5$000 e agora é 12$000 e eu não sei direito, mas há uma conversa que teremos pagar 12$000 pela estrada e ainda outras leis e impostos que ainda não foram efetivados quando serão cobrados pelas vacas, cavalos, carros e carroças. Por isso os colonos estão em guerra com o Governo.

Hoje o tempo está nublado e chuvoso, mas até 4 dias atrás estava limpo e muito frio, a estrada está uma lamaceira só e os atoleiros só não são maiores porque assim já não cabem na estrada. Lá também está chovendo agora?

No Domingo passado à noite foi à noite de apresentações da Mocidade. Faz umas duas semanas que o Auras [Osvaldo Auras] chegou em casa voltando de Ijuy e naquela noite aproveitou para contar as peripécias para chegar de volta a Rio Novo. Foi muito interessante ouvir contar tantas dificuldades que ele teve na viagem. Na ida ele pegou o navio e foi direto a Porto Alegre e daí para frente de trem. A chuva não falhou nenhum destes dias. Na volta também veio de trem. O combóio e todas estações estavam repletas de soldados. Até que enfim chegou até Porto Alegre. Mas o navio já tinha partido há tempo. Queria encontrar alguém que pudesse trazer por terra, mas ninguém queria viajar numa época de revolução. Mais tarde encontrou um judeu que trazia passageiros até Campinas [Araranguá], de automóvel pela beira do mar. No princípio até que a viagem era agradável e vinha bem rápido. Mais adiante encontraram grandes rios quais não eram possível passar, então ele atravessou numa balsa e continuou a viagem numa carroça puxada por cavalos e mais adiante ela também quebrou e daí neste próximo trecho ele veio num carro de bois e depois de carroça puxada por cavalos novamente, chegou a Criciúma. Daí de trem a Orleans via Tubarão chegando feliz em casa trazendo a sua sogra e o cunhado juntos.

Corre a conversa por aqui que o Villis Leimann não deverá vir para cá. –

Bem agora já chega. Agora que eu consegui começar escrever você terá que ter paciência e gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros. Mas seria muito bom que você também escrevesse bastante.

A Olga também deve ter “imprimido” a sua carta de muitas léguas de comprimento e assim você vai ter muito o que ler. Escreva uma longa carta sobre tudo que acontece por ai. Perguntar eu não pergunto mais nada porque não vale a pena, você nunca responde as minhas indagações. Assim sendo continuo a aguardar uma longa carta sua, porquê está na hora de ir para cama.

Eu na realidade não estou com sono, mas as minhas mãos estão geladas e é por isso que a minha caligrafia está tão bonita. Muitas lembranças da Lúcia.

 

Escrito nas laterais.

Se tivessem chegado os jornais e os acordoamentos dos violinos então poderíamos ir tocar na sua grande festa. Mas os violinos estão sem as cordas e a guitarra está empoeirada. Vamos esperar pelo verão quando os dias estarão mais longos então teremos mais tempo para acertar e afinar tudo muito bem. Bem não esqueça de junto com o convite mande junto algum automóvel.——

Você nem pode imaginar como hoje rendeu a minha escrita. Não pense que é só para você que eu tenho que escrever, pois nós temos parentes no mundo inteiro. São 2 as cartas que escrevi hoje como atirar eu atirei e matei dois coelhos com um tiro só, apesar de agora já ter passado da meia noite.

 

 

 

 

 

 

 

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