E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923 –

Rodeio do Assucar 20 de junho de 1923

 

Querido Reini: Saudações!

 

Então agora tenho que começar a responder a tua carta escrita no dia 25 de maio, qual há mais de uma semana já está comigo. Muito obrigada. A tua carta escrita no dia 30 de abril não chegou e é bem provável que tenha se perdido por ai.. O que escrever eu tenho muita coisa, o problema é com que devo começar e onde terminar.

 

Na carta passada eu te convidei para vir ajudar fazer farinha de mandioca, então a chuva foi pouca e também tu não vieste então para as tuas festas também não iremos. Entre as guloseimas que você oferece estão o feijão, arroz e a farinha, quais nós aqui temos e bastante para comer a vontade e é provável que os nossos sejam melhores e ainda com a vantagem que não é necessário pagar. Aqui a farinha e o feijão estão com os preços muito altos e estes nós temos o suficiente. A farinha vale 13$000 a 14$000, a saca e o feijão está a 16$000. Feijão nós não temos para vender, mas somente para o gasto. Esta safra nós plantamos pouco porque elas dão muito trabalho e a gente não consegue fazer tudo. Este ano foi muito ruim para o feijão, pois no dia 13 de maio começou soprar um vento muito frio e nas manhãs dos dias 14 e 15 de maio amanheceram brancos com fortes geadas e quem tivesse o feijão ainda verde ficou inteiramente destruído. Para onde se olhasse estava tudo branco. Nos outros anos nunca as geadas aconteceram tão cedo. Este ano a primeira foi no dia 9 de maio, mas esta foi pequena.

Os profetas de plantão fizeram as suas previsões que indicavam um inverno muito rigoroso neste ano, mas parece que eles andaram falhando. Pois depois deste dia não me lembro um só dia que não estivesse chovendo ou pelo menos nublado. Nenhum dia depois das geadas amanheceu com tempo bom e o que tem chovido faz muito tempo que não tinha visto tempo igual. Desde a semana passada nem por uma hora apareceu o sol. Logo depois da Festa do Verão [Pentecostes] naquela semana houve as grandes inundações. Choveu duas noites e dois dias sem parar e os rios tornaram-se assustadores. Na ponte da Estrada de Ferro em Orleans faltou ½ metro d’água para chegar no nível dos trilhos da Estrada de Ferro. Na casa do Grüntall lá perto da Estação Ferroviária [Este bairro chamava-se Campos Elíseos] a água chegou ao nível das janelas e a ponte do final do Rio Novo [Na foz do Rio Novo] a água levou embora. Não era possível chegar em Orleans. Também a viagem de trem para Laguna ficou prejudicada, pois a linha férrea ficou interrompida em dois ou três lugares. A locomotiva que estava aqui em cima levava os passageiros e as cargas até depois da Estação de Pedras Grandes e daí um trecho a pé, em seguida tomava-se outro trem, outro trecho e assim por diante e na volta vice versa. Muitos prejuízos também para os tafoneiros que tiveram os seus açudes e represas destruídos pela força das águas. Até aqui no nosso pequeno riozinho ficou tão cheio que a noite a gente escutava o urro lá de casa. Por pouco a nossa represa também não foi embora. Cercas inteiras foram arrastadas, que nem os palanques ficaram. Nós além de mantermos a eclusa totalmente aberta e ainda tendo retirado mais algumas tábuas para facilitar a fúria da correnteza parecia que ela ia embora. Na noite do dia 24 a chuva mais parecia um dilúvio  e o ronco da água no rio dava até medo. O Arthurs [Purim]  enfrentando a noite escura e tenebrosa, foi até o açude que estava transbordando com uma lâmina de mais de 1 metro d água. Ele se aproximou, o mais que pode e conseguiu despregar mais algumas tábuas aliviando assim a pressão. Mais tarde no meio da noite a chuva amainou salvando assim o nosso pequeno açude. Na outra semana  repetiram-se os mesmos temporais e senão maiores foram pelo menos iguais. Mas assim mesmo chove sem parar. Hoje amanheceu um sol forte e quente  e agora chove novamente e imagine só a tremenda lamaceira que está tudo por aqui que chega nos deixar desanimados [deprimidos] porque o feijão e o milho estão apodrecendo nas roças e este ano vai dar menos. O preço já está a 10$000 a saca e no ano passado quando nós precisávamos comprar um pouco de milho em espigas custava 4$000 e logo que os brasileiros souberam que nós estávamos comprando vieram oferecer a 3$000, mas este ano ninguém tem nada para oferecer. A farinha de mandioca no ano passado estava a 5$000 a 6$000 a saca, mas chegando para o fim do ano já passou para 10$000 e agora estão já estão pagando mais de 15$000. Para o lado de Mãe Luzia também todas colheitas foram perdidas devido a estas grandes inundações. Nós este ano já fizemos 24 sacas de farinha de mandioca e temos muitas roças de mandioca mais velhas de 3 anos para arrancar. Até semana passada estávamos com o engenho em funcionamento, mas tivemos que parar porque sem sol não conseguimos secar o polvilho e os cochos estão todos cheios de polvilho molhado aguardando o sol para secar. Estas mandiocas mais velhas dão muito polvilho. Agora estamos emprestando o Engenho para os vizinhos brasileiros. Todos que tem alguma mandioca querem é fazer farinha. Os Klavim fizeram a farinha deles na época das grandes inundações e rendeu 35 sacas. Até o Jurka veio de Nova Odessa para ajudar e foi aquela festa. Já foi embora na semana passada e com ele o Harrys do Augusto Felberg, pois o Frantzis do Limor [Lövenstein] tinha mandado dinheiro para a passagem e ele precisa gente para trabalhar para ele em S.P.

Na semana passada foi construída a nova ponte na foz do Rio Novo.[Esta ponte fica na barra do Rio Novo um pouco antes deste rio entrar no Rio Tubarão, bem próximo ao antigo “paredão” que nada tem com o Paredão onde estão as esculturas do Zéca Diabo.] Os colonos queriam que o governo pagasse, mas qual nada.  Tiveram os próprios colonos com ajuda dos donos das Vendas de Orleans entrar com a mão de obra, cimento, ferro, madeiras, pregos etc. e fazer tudo sem ajuda nenhuma do governo. Desta vez fizeram com as ferragens chumbadas tanto no concreto como nas madeiras e tem certeza que inundação nenhuma vai conseguir levar esta nova ponte.

Nós te convidamos para vir para a primeira festa das músicas, mas nada, parece que tens esquecido ou desaprendido tocar o violino. Foram apresentadas músicas de todas variedades: foram tocados instrumentos de sopro, harmoniun, violas e violinos, guitarras e até cítaras. Todos coros cantaram; primeiro foi o coro da Igreja, depois o coro dos Jovens, o coro dos Homens, e o coro das vozes Femininas. Depois o quarteto de vozes masculinas com o Osvald, [Auras] Emils, [Anderman] Aleksis, [Klavin] e o Jahnis [Seeberg]. Marcou muito, agradou mesmo foi um solo pelo Aleksis acompanhado pelo Emils no harmonium. O Emils também se sobressai no violino e toca muito diferentemente dos rapazes daqui. O tempo, aquele dia, estava maravilhoso e veio muita gente. Havia visitantes de todas partes inclusive de Mãe Luzia. Quem dirigiu foi o Emils e o estilo foi bem segundo o capricho da senhora Anderman, isto é do modo que ela aprecia. Todos gostaram tanto da festa que embora sendo a primeira, espera-se que não seja a única.

 

Pois é, já tenho escrito bastante, entretanto não seria necessário, pois seria suficiente colocar as nove páginas que chegaram do “deserto”, [Palma, Varpa, Tupã SP] do tio Jehkabs, da prima Alma e a terceira carta da prima Lilija. Demora bem um meio dia para ler e assimilar todas as informações trazidas nestas cartas. Eles tem recebido todas as nossas cartas e logo se apressaram-se em responder. A Lilija é muito corajosa, pois conta tudo como realmente é e assim mostrando toda a verdade. Gente como ela é difícil encontrar por aqui.

 E como eles esperaram você lá no Rio de Janeiro, pois sabiam que ainda estavas lá. Ficaram atentas para ver se alguma pessoa tinha vindo que estaria perguntando pelos Purens, mas ninguém. Ficaram muito decepcionados e é com os corações muito tristes e pesados, o navio saiu da barra do Rio de Janeiro em direção de São Paulo noutro dia pela manhã. Quando chegaram em São Paulo souberam que nos morávamos longe ao sul em Rio Novo. Mas onde era esse Rio Novo elas não sabiam. As meninas quando saíram da Europa tinham como único interesse era vir para junto dos parentes e do “deserto” nada queriam saber. Mas assim mesmo ficaram maravilhadas com os magníficos parques cheios de muitas palmeiras e outras coisas lindas na cidade de São Paulo. Mas depois da longa viagem a chegada em Sapezal, [Estação da Alta Sorocabana, perto de Paraguassu Paulista] a mata espessa, a abandonada estação da estrada de ferro, os sujos casebres e tão desagradáveis a vista habitados pelos brasileiros relaxados e em seguida o longo e tortuoso e péssimo caminho para a Colônia. Foi demais…  Vieram as lágrimas em profusão… Quando chegaram derrubaram a mata da área comum e três semanas puseram fogo na coivara e agora o milho já está madurando na roça.. Também plantaram repolhos, nabos, batatas, mamões e bananas. A Lilija pergunta para a Lucija para que ela escreveu se aqui no Rio Novo tem bananas e mamões. E se tem rosas e georginas [ dálias etc]. Parece que eles já tiveram a chance de provar bananas alguma vez. Agora eles estão roçando as matas e os agrimensores estão a fazer o sorteio para cada um saber qual vai ser a sua gleba definitiva.. A Alma também comenta que o ambiente é bastante opressivo em uma época que na Letônia é primavera e a natureza lá explode em flores e a Lakstigala [Lakstigala – Pequeno pássaro típico da Letônia – Espécie de rouxinol] canta aquelas melodias maravilhosos enchendo o ar de alegria, aqui ela com a foice na mão, abafada dentro da mata fica a ouvir o marulhar desafinado dos milhares de papagaios. Mesmo para o Jehkabs, a história está mudando e se pudesse cairia fora, mas ai esbarra no problema da falta de dinheiro. Ele pergunta o tamanho da nossa colônia que era dos Leimann. Porque eles ao todo são 9 pessoas. O Tio, a Tia, a Alma, a Lilija, a Melania e o Teovils. A pequena Valentine com os seus cinco anos de idade faleceu antes da Páscoa. Ainda tem o sogro dele o Peteris Sagers e [Conforme informação da D. Melania Purens Minka, as malas do Sr. Pedro Sagers e de sua filha Vilma foram roubadas durante a viagem para o Brasil. Continham muitas roupas boas, jóias e muitos itens de estimação. Nenhuma informação foi conseguida sobre o seu paradeiro] com sua irmã [A D. Melania que foi testemunha ocular, pois veio no mesmo navio, também discorda da informação de teria vindo uma irmã do Sr. Pedro Sagers. Eram 9 pessoas com a menina que veio a falecer] e com a sua filha Vilma que tem 19 anos. Agora tu sabes quantos são os nossos parentes naquele “deserto”.

 

O sogro dele o Sr. Sagers tinha casas e propriedades na Letônia e tendo vendido deve ter usado o dinheiro para as despesas da viagem da Letônia para Hamburgo onde permaneceram 5 dias e de lá para Paris e daí para Cheburgo onde tomaram o navio. A Lilija fez a viagem razoavelmente boa, mas a Alma passou os 19 dias, deitada.. Bem acho que por hoje chega. Não poderei mesmo descrever tudo. Nenhum deles tem escrito para você? Opa eu ia me esquecendo!

 

Gostaria que descobrisse quem são os letos que moram a mais tempo aqui no Brasil que tem falado com a Lilija que aqui nós somos muito ricos mesmo e todos tem feito boas escolas. Não sabia que éramos ricos e nem que tivéssemos estudado em boas escolas. Logo que eles chegaram ao Brasil e ainda não tinham recebido nenhuma carta nossa, chegaram a conclusão que nós nada queríamos  com os parentes pobres. Descubra quem soltou este boato..

 

Do Karlos [Leiman] recebi uma carta agora mesmo. Ele não vira para cá agora. Diz que lá o pessoal vive muito doente e chove muito. Ele vai viajar para Rio Branco.

 

Bem eu sei que terás dificuldade de ler esta tão longa carta, mas não fique procurando erros, pois deverá achar, pois eu não tenho muito tempo para escrever. Com saudações espero uma carta tão longa quanto esta. Olga.

Escrito na lateral

A sim! Como tudo passa tão rápido. Quando comecei a imprimir esta carta também, comecei a tecer um par de meias de lã. Lembre-se que aqui não temos aquelas imensas máquinas a vapor que são usadas nas grandes cidades. Aqui tudo tem que ser feito na mão, mas para a tua sorte, ficaram prontas junto e então que sigam a viagem juntas. Estamos com temor que você congele como um Tarkans, [?]  Bem agora lá haverá grandes festas, mas daqui a algumas semanas você terá férias, então escreva bem devagar uma longa carta que eu estou aqui aguardando.

 

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