A minha inteligência se torna escassa para administrar esta situação, | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim 1923

Paranaguá 15 de março de 1923

Caro Purim

Saudações

Não tenho te escrito mais, também para aos outros não tenho escrito escudando-me na absoluta falta de tempo, na preguiça no ócio e na indolência e também no cansaço total que não me deixa escrever cartas… , pois eu já tenho escrito tantas cartas… Até quando vou ter que escrever mais cartas???.

O tempo aqui está muito quente e chuvoso. Trabalho eu tenho de mãos cheias. 8 Igrejas e uma escola para dirigir e a semana tem só 7 dias. A minha inteligência se torna escassa para administrar esta situação, então como vou tomar conta do demais?

Como você sabe, a minha mudança para Santa Catharina não deu certo. As Igrejas daqui não deixaram sair mesmo. Santa Catharina sem mim. Algumas acho que não me queriam. Faz muito tempo que não recebo nada de lá.

Você já encontrou o Alípio Xavier? [Alípio Xavier Assumpção – Foi pastor, jornalista e escritor no Paraná – A minha sogra Iza Xavier Corrêa era irmã dele. Por parte de minha esposa Edith Xavier Purim, ele era também meu tio.]
Ele conhece a minha vida e a minha luta.

O S. Sprogis e o J.J.Junior ainda estão no Seminário? E o J.Klava? Neste ano há muitos novos seminaristas? Dizem que São Paulo está se enchendo de letos.

Você sabe se seus tios também vieram? Nós aqui ainda estamos vivos graças a Deus.

Almejamos um ano de vitórias em seus estudos e aguardamos notícias destas bandas.
Seu
Carlos Leiman

…soldados para as entradas da cidade com ordens para proteger a cidade, mas não atirar primeiro| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 2 de março de 1923

Querido Reini! Saudações!

A tua carta escrita no dia 7 de fevereiro eu recebi hoje a noite, os demais de casa já a tinham recebido ante ontem [Pelo motivo de haver dois domicílios] e eu hoje mesmo vou começar a resposta.

Você reclama que não recebe cartas de casa e estas demoram, mas eu escrevi duas longas cartas que você recebeu e se elas tivessem sido extraviadas ai então haverá um grande prejuízo.

Você diz que as últimas notícias são referentes ao mês de novembro. Pois naquela ocasião, todos nós escrevemos convidando para você vir passar as férias em casa e assim ficamos esperando terminar as aulas e você vir para embora.

Quando as aulas terminassem você não, estaria mais lá, então prá que escrever para lá. Continuamos esperando quem sabe, ele tenha ou queira passar as Festas lá. Na véspera de Natal a Luzija foi até Orleans pronta para trazê-lo como grande e importante cidadão, mas nada, então você ainda esperava que em pleno Natal estivéssemos escrevendo cartas, quando tínhamos certeza que você estaria aqui.

Nesta época chovia muito e devido ao muito trabalho, quando chegava a noite, vinha um sono tão profundo que não era possível agüentar. Então no dia 19 de janeiro mandei uma longa carta e quando levamos ao correio naquele mesmo dia recebemos aquela sua carta escrita no dia 26 de dezembro e respondendo a esta no dia 9 de fevereiro mandei outra longa carta e ainda naquele mesmo dia a Luzija mandou um cartão postal a não ser que estas cartas não tenham saído de Orleans.
Os cartões que você diz ter mandado aqui não apareceram. Por ai você pode ver que não faz tanto tempo que nós não escrevemos, mas sim outras coisas estão erradas como o Correio.

Agora sim há alguma coisa de novo para escrever apesar de nós aqui estarmos em tempo de guerra por aqui e não sei se vai passar pela censura.

Aqui há semanas atrás, houve guerra e ameaças de luta e ainda não sei o que mais vai acontecer. O povo não está satisfeito nem em paz com o Governo por causa dos altos impostos e então se organizaram partidos dos italianos, poloneses, brasileiros, todos de todos os lados se dirigiram a Orleans à noite e fizeram uma grande reunião na frente da casa do Intendente onde falaram e reclamaram.

Isto foi num Sábado e como até Segunda feira nada tinha mudado foi programada uma invasão sobre a cidade de Orleans [Guerra da Palmatória] para Terça feira e ai os letos também foram. Mas como em tudo, haviam traidores e chegado antes e contado que os colonos marchariam sobre a cidade a policia mandou pelotões de soldados para as entradas da cidade com ordens expressas de proteger a cidade, mas de não atirar primeiro. A grande maioria fugiu e outros entraram em luta corporal com os soldados e foram presos. Tudo o que aconteceu eu não sei claramente, mas nas próximas cartas eu prometo esclarecer mais e ainda vamos ver como isto vai terminar.

O tempo, esta bastante chuvoso, mas não tanto como antigamente. Tempestades e tormentas com vento também vêm ocorrendo com freqüência, mas para nós não causaram nenhum prejuízo e daqui para a frente a gente não sabe, pois ainda tem muito milho ainda pendoando. [As ventanias derrubavam quebrando as hastes do milho causando prejuízos às lavouras.] Melancias este ano não deram, para não dizer que não deu nada deu uma só. Pepinos também deram menos que os outros anos.

Agora mesmo recebemos uma carta do Andreys [tio] da Letônia. No ano passado quando recebemos outras cartas dele eu e o Pappa escrevemos longas cartas e o Jekabs ainda estava lá, mas, quando ele recebeu o Jekabs e a família já tinham viajado para o Brasil. Ele em seguida tornou a escrever para o Jehkabs que já estava chegando no Brasil avisando que não fosse para o deserto, pois nós o estávamos esperando e qual eram os planos e o que nós fazíamos aqui.. O Andreys não veio porque não tinha dinheiro e também porque estava doente e por uma parte foi bom porque ele não concorda com infelizes espiritualistas que estão fugindo para o deserto. Ele tinha recomendado ao irmão Jehkab que não ficasse em São Paulo e sim viesse para cá, mas parece que ele não quis assim. A carta já ficou muito longa e eu não tenho mais tempo para escrever tudo. Outra vez eu escrevo mais. Lembranças de todos e também da Olga.
Escrito na lateral: Não admire que as cartas não cheguem, pois agora o agente do correio é um leto que pode censurar tudo. –

O tempo está bom e temos muito serviço | De Lúcia Purim para Reynaldo Purim 1923

Cartão Postal escrito a lápis.

Orleans 2-2-23

Querido irmãosinho!

Saudações! Recebi a tua carta. Muito obrigada.

Nós estamos passando bem. O tempo está bom e temos muito serviço.

Não dá tempo de escrever cartas. Começadas já, estão. Logo vamos mandar. Você sim pode escrever, pois tu estás de férias e tempo tens

Como você está? Os jornais ainda você não mandou?

Muitas lembranças, nossas. L. Purim.

…aqui a vida flui monótona e quase nada maior acontece… | De Olga Purim para Reynaldo Purim 1923

Rodeio do Assucar 31/1/23 [ Assim era escrito na época]
Querido Reini. Saudações!

Então esta noite vou ter que começar a escrever, pois a tua carta escrita no dia 26-12-22 já recebi semanas atrás com todos aqueles cartões de Boas Festas. Muito obrigada porquê, esta carta, foi mais longa que as demais talvez porque nestes dias de férias você está mais folgado. Naquele mesmo dia que recebi a sua mandei também uma longa carta contando todas novidades daqui por isso tive que dar um tempo para começar a resposta.

Lá mais coisas acontecem e aqui a vida flui monótona e quase nada maior acontece e as coisas vão como sempre.

Este ano chove muito, mas o sol também brilha muito; os rios estão transbordando e troveja como antigamente.

Trabalho, nós temos muito porquê as ervas daninhas crescem como nunca e ainda bem que o milho também está crescendo bonito e para nossa sorte aqui não tem havido grandes tempestades com ventanias para derrubar o milho, mas em outras partes da colônia sim.

Semana passada os Grunski mudaram-se e foram morar junto com o Willis Grunski na casa que eles compraram do Grünfelldt. Eles estão ajeitando para fazer uma grande marcenaria.[ Galdeneka darbnizu – Literalmente local para fabricar mesas.]
O Emílio [ ? ]vendeu a colônia [Chamavam de colônia a gleba de terra de um colono que poderia variar de tamanho e de formato. A forma básica era a chamada “Frente” começar no fundo do vale para facilitar o acesso à água. Muito inteligente também a idéia da Cia. Colonizadora fazer esta frente em perpendicular ao o fundo do vale e não obrigatoriamente no rio, pois facilitava de certo modo as cercas que eram retas e com as curvas o rio entrava e saia diversas vezes na mesma propriedade. A do meu pai deveria ter uns 80 hectares (200 braças de frente X 700 braças de fundo) e se a frente ficava no fundo do vale onde também seguia o caminho principal é claro que o fundo ficava na parte mais alta que era o Kazbuck. A do tio Reynaldo a qual os fundos se encontravam ia fazer a “Frente” no Rio Larangeiras que era o outro vale mais para o lado do poente. Resumindo os “Fundos” se encontravam adiante do “Kazbuck”.] para um italiano que pagou 8:500$000 a vista.

O Limors está novamente por ai, mora em Orleans com a filha.

Antes das Festas do Natal chegou de São Paulo a Olga Grunski com a filhinha para ficar passeando uns dois meses e agora que passaram poucas semanas já foi embora. Diz que faz tempo que não mora mais junto com o seu Vanag, que nada faz, não trabalha e ela não consegue ganhar o suficiente para cobrir o que ele consegue gastar. Agora ela trabalha em um hospital como mensalista e a administração permite que ela more junto com a criança lá mesmo e o salário é 150$000 por mês. –

O Grünfeldt agora aluga algum casebre e mora com a mulher, mas não tem aparecido por aqui ou a vida de colono talvez seja muito simples e humilhante para ele.

O Konrads Frischimbruder com sua companheira na semana passada foram embora novamente para São Paulo procurar uma vida mais leve e menos trabalhosa.

Ele o Condis, não pode trabalhar nada no pesado, pois quando ele ainda estava em São Paulo ele teve apendicite e foi operado que teria custado 800$000 e que nada adiantou, pois não pode levantar nada e nem trabalhar. Mas a esposa não gostou daqui. Aqui ele ficando na casa dos pais pelo menos teria comida a vontade e lá o que ele vai fazer? Tolo sim, o que ele é.

Você escreve bastante sobre este movimento de renovação espiritual e eu também escrevi bastante sobre isso. No dia que recebi a tua carta, eu também recebi um cartão postal do Jehkabs. Um outro cartão já tinha recebido de São Paulo. Então diz que mandou uma carta, mas nada chegou e agora ele diz que mandou outra. No cartão ele escreve que quer saber notícias nossas e convida o Pappa e a Mamma para acertar os compromissos de trabalho e ir passar uns dias com eles talvez uma semana para poder conversar bastante. E sobre estas conversações ele já escrevia da Latvia, mas nunca mencionou nada sobre visões e profecias. Quem poderia imaginar que ele estivesse tão junto dentro do partido do Inkis, pois agora todos estão juntos ou perto do Inkis como abelhas perto da rainha. Lá na colônia deles [ Palma em Varpa, Município de Tupã S.P.] agora é como na Rússia Bolschevique a pessoa vai morar lá por bem ou por mal e a censura da correspondência é rígida qualquer coisa que seja contrária não sai.

O Pappa passou o Domingo passado escrevendo uma longa carta para ele descrevendo como nós estamos passando e informando que aquela viagem de visita lá não poderá ser feita por falta de tempo e também de dinheiro e esta história de passar dois dias não vai funcionar pelas grandes distâncias que ele ainda não conhece. Também diz que nós estávamos esperando eles todos aqui. Por outra parte foi bom que eles não vieram, pois agora não seria nenhuma alegria em recebê-los sabendo que eles são daquele “movimento”. O que eles viriam fazer pois aqui não temos mais tantas matas, nem temos um Inkis e ainda temos que morar neste mundo de pecados e assim nada poderia ser pior.

Agora seria outra coisa se eles admitissem que estas coisas estão na mão do verdadeiro Deus e não cabe a nenhum de nós, cabe saber dos tempos do fim com profecias e visões etc. Segundo temos outras informações, eles não pretendem fazer nada definitivo, pois estão esperando para logo o fim do mundo.

O Andreys não veio e nem sabemos se ele virá depois. Eles te mandam muitas lembranças. Voltando a nova colônia você escreve que poderia conhecer melhor se fosse até lá. Mas você sabe se você vai conseguir entrar e se entrar você poderá sair. Você nem sabe que largura tem o Portal do Reino. E se alguém te perguntar se você veio para ficar então entregue todo dinheiro para senão não poderás entrar. Que vivam todos felizes por lá.

Em Nova Odessa já tem bastante gente que já saiu de lá. Aqui o pessoal de Rio Novo fala que lá deve haver um mau espírito, senão por que as pessoas correm tanto para lá.[ Não dá para saber se ela estava se referindo a nova Colônia ou a Nova Odessa]

No Domingo passado o Zeeberg leu aquelas notícias missionárias contando como vai o trabalho na Latvia e na Alemanha e que este movimento pentecostal já é bastante antigo por lá.

O Roberto Klavim tinha traduzido para o leto aquele artigo do “O Jornal Batista” escrito pelo Alschekbirse que se referia ao artigo escrito pelo Freyvalds sobre este mesmo assunto. Pode ser que você já tenha lido, mas nós aqui não recebemos jornais novos.

Bem por hoje chega. Você deve saber sobre estes assuntos mais do que nós aqui. Escreva bastante. Nós estamos todos bem aqui e parece que você também está por lá. Lembranças de todos. Olga.

Escrito na lateral: Pelo que parece você não fez por merecer esta carta porquê, toda vez que eu começava a escrever, vinha um sono tão forte. Tinha que ir dormir e assim precisei de diversas noites para terminar de escrever. Amanhã eu vou despachar. Se não chover 8-2-23.