A coivara ainda não pode ser queimada. | De Luzija Purim para Reynaldo Purim

Sem data
Querido irmãozinho!!

Saúde. Recebi a tua carta pela qual agradeço. Nós aqui estamos mais ou menos bem.

Agora estamos todos com saúde novamente. Antes da Festa da Mocidade ficamos de cama, tínhamos tosse, febre, prostração e cansaço. Eu e a Mamma fomos as mais atingidas. Eu é que fiquei mais tempo, duas semanas de cama e ainda sinto dor de garganta que cantar nem pensar. Claro que nos tomamos remédios, mas aqui eles são muito caros. Um vidrinho custa 1$600. Bem que você poderia comprar Allium Sativun e enrolar nos jornais e nos mandar.

O tempo está muito instável. Chove toda a primavera tornando difícil a capinação e impossível as queimadas. Quando não chove dois dias pode se ter a certeza que no terceiro é chuva na certa. Hoje cedo pela manhã choveu e depois limpou, mas agora à noite a trovoada está roncando ameaçadora e chove tão forte que há correntezas pôr toda parte. Agora, parece mais o mês de fevereiro do que estar em plena primavera.

Nada quer crescer direto e a mandioca está apodrecendo, mas não em toda parte, mas principalmente aquela roça atrás da horta dos repolhos.

A coivara ainda não pode ser queimada. Milho, já plantamos mais de duas quartas, arroz 1 quarta e dois litros e ontem plantamos batata doce e hoje plantamos melancias, pepinos e batata salsa.

Bem vou ter que terminar. O que tanto ter que escrever está chegando o sono e terei que ir dormir. Nada de bom eu não tenho o que escrever e que é ruim não vale a pena.

Onde vais passar as férias.

O que faz o Janka, [Jahnis Klawa] Ele ainda está lá? Em que classe ele está?

O Roberto Klavin te escreve ou não?

Chega na próxima vez pode ser que o Arthurs [Otto Roberto Purim] escreva quanto alto e gordo ele está.

Lembranças de mim e dos outros. Luzija.

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…não terás tempo nem para comer…. | De Olga Purim para Reynaldo Purim

Rio Novo 3 de novembro do ano de 1921

Querido Reini – Saudações!

Eu recebi a tua carta escrita em 7-10-21 na semana passada. Obrigada. Faz muito tempo, quase 2 meses que não recebi nada, comecei a ficar preocupada pensando que não estivesses passando bem ou minhas cartas não chegam mais lá ou ainda tivesse ficado tão doente que não pudesse mais escrever.

Mas quando em Orleans recebi a tua carta me apressei em ler e procurar os motivos mas não encontrei nada de novo a não ser a tão propalada falta de tempo para não me escrever alguma carta. Mas pelos teus planos, logo não vais ter tempo nem para dormir e se continuares a estudar até o fim do ano estarás tão sábio [ladino, esperto] que não terás tempo nem para comer, ou dormir nem tão pouco escrever cartas. ….

Já faz mais de um mês que eu mandei a última carta e no dia que recebi a tua na semana passada mandei um cartão postal e neste tempo todo aconteceram isto e aquilo que eu vou tentar descrever: O primeiro acontecimento foi que logo depois que mandei a última carta que foi no dia 26 de setembro o Burmeister faleceu e no dia 27 foi o funeral. Ele há muito estava doente e sofreu muito e nos últimas semanas não podia ficar deitado na cama então ele ficava o tempo todo sentado na cadeira de balanço [espreguiçadeira]. É uma situação muito triste porque os filhos ficaram sozinhos, que apesar dos jovens serem de estatura já crescidos nenhum deles tem muita vocação ainda para liderança e tomar conta da propriedade. Tem mais propensão para fazer artes e vadiar mesmo. Por isso não sei como será daqui para frente.

Já no dia 12 de outubro foi novamente o funeral da velha senhora Bankovitz o qual tinha falecido no dia anterior. Ela fazia mais de dois meses que estava incapaz de qualquer coisa tinha que ser carregada, banhada e alimentada, como uma criança pequena. Parece que aqui na nossa comunidade nunca antes tinha acontecido que em 3 meses houve 5 funerais …

No dia 15 de outubro foi a festa de Aniversário da União dos Jovens da Igreja [Festa da Mocidade] que na realidade deveria ser no dia 16, mas como este ano caiu no domingo e o Grupo de Músicos queria fazer um Bazar e isso não fica bem aos domingos. A organização de bazares agora é moda pôr aqui. Na Festa da Colheita [Pentecostes] também teve bazar que a Igreja organizou e cuja finalidade era uma contribuição para os irmãos carentes das Igrejas da Letônia. Desta vez não foi mandado simplesmente para os refugiados da guerra como nas outras vezes, mas sim em nome das Igrejas para que elas façam a distribuição, entre os mais necessitados.

Há poucos dias mandaram 1.700$000 e neste valor havia ofertas privadas e designadas diretamente para parentes dos mesmos. A maior parte do dinheiro saiu mesmo da Igreja, pois o Bazar rendeu 330$000 e ainda havia as coletas especiais da Mocidade.
Agora o Bazar do Grupo de Músicos rendeu mais de 200$000 e quando se precisa de dinheiro e só fazer um bazar. As pessoas levam as prendas ou coisas e outras pagam caro por elas. A Luzija Grikis levou uma galinha assada e ela foi vendida pôr 16$800. Cara, mas deliciosa.

No dia da Festa o tempo estava ótimo, que melhor não poderia ser nesta época de tanta chuva. Se bem que naquele tempo nós estávamos todos com tosse e fomos todos assim mesmo. A Festa foi dirigida pelo Oskar Karp.

Cantaram o Coro da Mocidade e também o Coro da Igreja. Também o grupo de Músicos apresentou muitas lindas peças. Também muitas saudações, poesias e outras partes e tudo transcorreu muito bem.

No domingo a noite teve a segunda parte da Festa. E esta parte quem dirigiu foi o Roberto Klavin. Nesta noite foram apresentados números de violino e outros instrumentos de corda.

Fizeram apresentações de Hinos curtos [Corinhos] o Roberto Klavin, o João Seeberg e o Wilhem Slengman. Quem ensinou esta modalidade foi o Professor Treimanis, mas agora todo mundo, já quer ser professor. Teriam ficado com medo de apresentar durante o dia na festa mesmo então à noite dizem ser mais fácil.

Também cantou muito bem um duplo quarteto masculino formado pôr Osvaldo Auras e o Augge [Augusto Feldberg] no soprano, o nosso Arthur e o Aji [Eugenio Elbert] no alto, o Condis [Conrado Auras] e o Attis [Otto Slengman] no tenor e o João Seeberg e o Rubis [Roberto Klavin] no baixo e se o volume do som fosse tão alto ou tão grande como eles, teria sido melhor ainda [Percebe-se que ela se refere a novatos que tem medo de soltar a voz]..

Bem pôr hoje chega, é provável que tenha que escrever logo outra vez.

Sobre o demais das festas você mesmo pode complementar com a imaginação.

Com lembranças. Olga.

Dr. Reynaldo Purim – Alguns dados biográficos | Por João Reinaldo Purin

Esta publicação foi necessária devido ao grande número de leitores que não conheceram a história deste vulto cujo objetivo primordial era o ensino das Verdades da Bíblia Sagrada.

Dr. REYNALDO PURIM

Alguns dados biográficos

Nasceu em 9 de janeiro de 1897 em Rio Novo, município de Orleans do Sul (hoje apenas Orleans) no sul do Estado de Santa Catarina.

Rio Novo era a primeira Co1ônia de elementos provenientes da Letônia no Brasil. Na quase totalidade era constituída de batistas. Houve tempo em que a igreja contou com grande número de membros, da qual saíram muitos pastores, hoje realizando a Obra em muitas partes do Brasil e no estrangeiro.

Sua meninice, adolescência e parte da juventude passou na roça, onde fez o seu curso primário e estudou também numa escola noturna.

Com 20 anos, isto é, em 17 de fevereiro de 1917 deixava a casa dos pais João Purim Lisete Rose Purim e seus irmãos Otto Roberto, Lúcia e Olga. Deixava Rio Novo para estudar. Após semanas de viagem pelo mar desembarcava no porto do Rio de Janeiro para estudar no então Colégio e Seminário Batista. Ao prestar os exames de admissão para o ginásio foi já classificado para ingressar já na 2ª série do mesmo.
No Rio de Janeiro terminou em 1922 o seu Bacharel em Artes no Colégio Batista e em 1923 o Bacharel em Teologia. Em 1924 terminou o seu Mestrado em Teologia defendendo a tese: Jesus Cristo – O Atonement, hoje publicado pela JUERP sob o título: Jesus Cristo – O Reconciliador.

Como seminarista trabalhou na Igreja Batista do Engenho de Dentro com o Pr. Ricardo Pitrowsky, cooperando com a Congregação Batista de Pilares. Em 16 de março de 1923 foi ordenado ao Ministério da Palavra assumindo o pastorado daquela Igreja.

Em setembro de 1926 chegava ao Seminário de Louisville na outra América onde, até o ano de 1928 realizou estudos especiais naquele famoso seminário concomitantemente com a Universidade daquela cidade, Alcançando o segundo mestrado em Teologia, defendendo a tese: A Exultação de Jesus no Espírito Santo.

Deixa Louisville temporariamente e ingressa no Georgetown College onde após 2 anos, isto em 1929 alcança o grau de Bacharel em Artes que equivale ao de Ciências e Letras.

Dos anos 1930 a 34 – em 5 anos produziu a sua monumental tese de doutorado depois de receber aulas especiais no Seminário de Louisville de pós-graduação de Apologética, Hebraico, Grego e matérias afins com os famosos Drs. Robertson, Mullins, Jonhson, Trible, Dobbins e outros.

Sua tese tem como título: Uma Introdução à Filosofia da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Tese esta que lhe deu a mais alta graduação daquela época – Doutor em Filosofia – Ph. D. Sua tese foi muito elogiada e apreciada naquela ocasião por todos quantos dela tomaram conhecimento.

Sua especialização, com isto, foi no campo da Filosofia da Religião Cristã e conseqüentemente na Apologética Cristã que é a defesa do Cristianismo.

Nos Estados Unidos fez parte de vários grêmios literários e culturais, inclusive de jornalistas que escreviam para o Jornal de Georgetown.

COMO SE MANTEVE
Em que pese, receber ajuda de seus pais e irmãos que do suor dos seus rostos com o trabalho na roça, conseguiam enviar parte dos recursos para sustentá-lo, também ele não media esforços com seu trabalho.
No Rio – Colégio começou como chefe de disciplina no Colégio Batista, também capinou e cuidou da horta, rachou muita lenha para a cozinha e trabalhou na carpintaria tornando-se chefe da mesma.
Em Georgetown. – trabalhou como pedreiro, carpinteiro, tornando-se também chefe da carpintaria.
Em Louisville – cortou muita grama com máquina. Traba1hou também como foguista para aquecimento dos dormitórios e prédios nos rigorosos invernos daquela terra.

Foram seus contemporâneos no Seminário de Louisville os nossos conhecidos e saudosos. Dr. A. Bem Oliver e Dr. João Filson Soren.

Graus que alcançou:
Bacharel em Ciências e Letras – Rio de Janeiro
Bachare1 em Teologia – Rio de Janeiro
Mestre em Teologia – Rio de Janeiro
Bacharel em Ciências e Artes – Georgetown
Mestre em Teo1ogia – Louisville
Doutor em Filosofia – Louisville.

Logo que voltou da outra America, em 1934 passou alguns meses em Rio Novo. Foi quando recebeu o convite da Igreja Batista de Bangu. Assumindo o seu pastorado em 1935 onde permaneceu até 5 de outubro de 1975 quando pregou o seu último sermão.

De volta ao Rio, em 1935, começou a lecionar no Seminário e em vários colégios. Destaca-se a atuação dele no Seminário Teológico Betel com o Pr. José de Miranda Pinto.

No Seminário Batista do Sul foi catedrático das cadeiras de Apologética e Filosofia da Religião Cristã. Lecionou várias outras matérias, tais como: Cristianismo e Cultura Contemporânea, Exegese do Antigo Testamento, Exegese do Novo Testamento, Filosofia Contemporânea, Filosofia, Grego, Hebraico, História da Filosofia, História do Cristianismo, Lógica, Metafísica, Metodologia Teológica, Religiões, Teologia do Antigo Testamento, Teologia do Novo Testamento, Teologia Sistemática, e possivelmente outras. Ele gozou sempre grande conceito e respeito por parte de seus alunos.

São inúmeros os pastores espalhados pelos Brasil e fora dele que passaram por suas mãos. Eles guardam as mais gratas recordações do Mestre, Dr. Reynaldo Purim e dizem, com saudades: “Ah, as aulas do Dr. Purim.”

ACERVO DAS PUBLICAÇÕES:
Além do livro mencionado acima, Jesus Cristo – Reconciliador, 119 p. foram publicados os seguintes:
* JESUS CRISTO NO PANORAMA DA HISTÓRIA, 94p.;
* A IGREJA DE JESUS CRISTO, 68 p.;
* O ESPÍRITO SANTO, 119 p.;
* Conteúdos de aulas no Seminário do Sul à disposição dos interessados:
* APOLOGÉTICA CRISTÃ, 72 p;
* ELEMENTOS DE METAFÍSICA COM VISTAS À TEOLOGIA CRISTÃ, 70 p.
* FILOSOFIA DA RELIGIÃO CRISTÃ, 104 p.;
* HISTÓRIA DA FILOSOFIA, 100 p.
* INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, 42 p.
* LÓGICA. 68 P.
* METODOLOGIA TEOLÓGICA CRISTÃ, 42 p;
* TEOLOGIA BÍBLICA DO NOVO TESTAMENTO, 100 p.

* Outro material produzido para fins específicos, também à disposição:
* A Essência da Obra de Cristo que é uma Introdução à Filosofia da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo – Tese de doutorado traduzida para o português por Cláudio Vital de Souza. 206p.;
* A IGREJA DE CRISTO E SUA MISSÃO EVANGELIZADORA, 24 p;
* A PREEMINÊNCIA DO INDIVÍDUO SOBRE AS CLASSES ORGANIZADAS, 10 p.
* ALGUNS PRINCÍPIOS EXCLUSIVAMENTE BATISTAS, 16 p.;
* AUTORIDADE NA RELIGIÃO CRISTÃ, 70 p.;
* DEMOCRACIA CRISTÃ (entrevista), 8 p.;
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. I, 98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. II,98 p.
* IDÉIAS BÍBLICAS PARA SEUS SERMÕES (Esboços) Vol. III,99 p.
* O BATISMO NO ESPÍRITO SANTO, 8 p.;
* O ENSINO DE JESUS SOBRE O ESPÍRITO SANTO, 10 p.;
* O PODER DO ALTO, (Sermão) 20 p;
* ORIENTAÇÃO PARA OS NOVOS CRENTES, 24 p.;
* PREDESTINAÇÃO E APOSTASIA ou A PERSEVERANÇA DOS SALVOS, 70 p.;
* PRINCÍPIOS BATISTAS (tese para os pastores do Estado do Rio), 38 p.;
* Acervo das lições da Revista da União de Mocidade Batista da qual ele foi redator no período de Janeiro de 1936 a dezembro de 1942. Trata-se de uma coletânea de lições que foram usadas para os jovens nas então chamadas “Uniões de Mocidade” e que objetivavam a educação cristã e treinamento. São lições preciosas que estarão sendo publicadas sob o tema: “Eu vos escreví”

Sinto-me responsável em preservar os escritos dele e colocá-los à disposição para que o seu pensamento continue influenciando e formando a mentalidade das gerações presentes e futuras conforme a nossa única Regra de Doutrina e Conduta – a Bíblia.

Quatro Barras, PR, 20 de fevereiro de 2012.
João Reinaldo Purin
jrpurin2008@gmail.com

Até que enfim chegou… De Olga Purim para Reynaldo Purim

(Cartão Postal escrito a lápis)
Orleans 26-10-21
Querido Reini.

Hoje depois de um longo tempo recebi uma carta sua escrita no dia 7-10.

Vai fazer quase dois meses que não tenho recebido nada. Até que enfim hoje chegou posso ter certeza que continuas vivo.

Nós estamos passando bem, somente o tempo está muito chuvoso e assim os trabalhos nas roças estão muito atrasados.

Quando mandar jornais outra vez, por favor, poderia mandar um vidrinho de Alliun Sativun [Medicamento homeopático a base de alho]| que aqui custa 1$600 e na maioria das vezes não tem nas farmácias. Agora nós todos tivemos uma tosse tão grande como nunca vista antes.

Com muitas lembranças. Olga

É assim que recebem quando você volta para a sua terra | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim

Castelo 17 de outubro de 1921 (ES)

Querido Reynold – Saudações

A tua encomenda eu recebi. Obrigado. Isto foi algo não esperado. Uma surpresa agradável. Já tinha ouvido sobre isso no “Baptista Federal” mas não conhecia. Bom – bonito – robusto e gostoso. Obrigado.

Agora os Rionovenses estão se preparando para uma guerra, pois quando o Lupers teria perguntado se eles estariam de acordo que eu fosse trabalhar lá, eles responderam que teriam que avaliar primeiro. Agora o meu pai escreve avisando que se eu for pregar em Orleans vai haver barulho. Maravilhoso.[ O Carlos Leiman com a vontade de evangelizar tinha sido o pivô da divisão da Igreja anos atrás. Agora ele voltando poderia abalar a tranqüila rotina da Igreja de Rio Novo]
Estou esperando a palavra final do Lupers. Parece que ele está mais propenso para a primeira alternativa que seria eu ficar em Laguna ou em qualquer outro lugar em Sta. Catharina estaria mexendo no ninho de marimbondo. Mas, já é chegado o tempo que este pessoal veja a luz.

É assim que recebem quando você volta para a sua terra, para a casa de seus pais.

Com um abraço fraternal. Carlos Leiman.