…o que leva a escrever que estou folgada e… | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 11 de agosto de 1921

Querido Reini!

Primeiramente mando muitas lembranças. Recebi ontem a noite a tua carta escrita em 26-7-21 e agora passadas umas 25 horas já estou escrevendo a resposta ou isso será rápido demais?… Também o que me leva a escrever que estou folgada e amanhã é possível que alguém vá a cidade e assim já possa levar ao correio e assim continua pois semanas depois terás que estar gastando tempo em decifrando mais uma carta. Hoje faz duas semanas que eu escrevi e a Lucija também escreveu convidando para a festa do açúcar. Você as recebeu?

Agora que os cachorros latiram forte deu a impressão que você tivesse chegado e tivesse entrado direto no engenho (fábrica) procurar açúcar para comer ou canas para chupar. Agora a fábrica está trabalhando a todo vapor pois 3 fornadas já estão na formas onde estão cheios de açúcar bem claro e bem seco. Também tem bastante melado no cocho de esfriamento, tanto que ontem pela manhã por estar ainda muito quente ficaram 3 fornadas sem que fosse possível despejar nas formas. As outras 3 fornadas que foram cosidas ontem foi necessário despejar em outro cocho.
E lá por cima todos os cantos estão cheios de feixes de excelente cana de aparência raiada e muito macias próprias para serem chupadas. Mas, se você viesse e entrasse fora de hora, isto é antes do amanhecer certamente levaria e também daria um susto nas pessoas que lá trabalham e quem sabe até apanharia uma surra, pois este açúcar não é nosso e sim eles estão pagando para usar a nossa fábrica. Eles não te conhecem. São os italianos que moram onde o Limors morava. Eles chegam bem de madrugada muito antes do dia raiar. Durante o dia é outra coisa todo mundo que chegar pode tomar quanta garapa quiser. Lamber o melado e provar quanto açúcar quiser. Como você não conhece nada de fabricação de açúcar, você poderia ficar de encarregado de jogar água na fornalha e ficar tomando garapa e assim teria a vida de grande senhor .
Nesta semana o italiano teve ajuda dos parentes e eram 4 carros de boi que se revezavam vindo, chiando bela música abarrotados de feixes de cana. A roça de cana deles é contígua com o nosso terreno junto ao mato no alto do morro. Ele plantou naquela parte mais plana e a cana cresceu maravilhosa. Aquela que ele plantou este ano não veio bonita, ele nem vai cortar e deixar para o ano que vem. Esta semana ele deve terminar com festa dele. Mas quando ele terminar nós vamos começar a cortar a nossa e até lá você poderá chegar e nos ajudar.

Agora em sua escola vocês tem um doutor a mais.
Faz bastante tempo que soube porque alguém escreveu de Nova Odessa que o grande herói tinha partido para o Rio para ensinar os professores com um novo e sofisticado método. Eles dizem que tem ganho muito dinheiro fabricando pinga em uma fazendinha de lá e também trabalhando na captura de ladrões. E durante as horas vagas fez um curso na escola local e passou. Dizem que ele não tinha que trabalhar muito somente 7 dias por semana. Ele te reconheceu? Em que classe ele está? Como ele está sobrevivendo, pois aqui ele dizia que não iria comer feijão preto lá no Rio e iria sim direto para a América do Norte. Só se ele aprendeu comer feijão preto em Nova Odessa. Por isso o feijão ficou tão caro por aqui. Então ele foi tão seguro, porque o Watson não está mais lá. [Falando de um Klawa que era bastante conversador]

Quanto a escola de Rio Novo não vale eu escrever nada, pois não sei por quanto tempo, ela vai permanecer pois já tem gente roncando contra ela. Durante a escola diurna eles fazem “kazenjandalin” e na parte da noite eles fazem “katerjandalin” e se você não souber o significado destas palavras em alemão, pergunte ao seu professor de alemão- bem desta vez chega.

Você vai demorar para ler. Você reclama que quer novas notícias, mas isso aqui não é como lá onde tem muita gente e acontecem muitas coisas. Aqui passam semanas que nada de novo acontece. Por isso eu vou aguardar uma longa carta sua.

Os jornais e as cordas do violino já recebemos. Obrigado. Aqueles papéis para aquecimento, não precisa mandar porque não adiantaram grande coisa neste grande frio que houve este ano.

Com saudações Olga.

Informações adicionais para o fabrico de açúcar mascavo

Forma era um cesto de taquara mansa na mesma tessitura do tipití, mas sem o estreitamento e reforço tipo corda na boca, Também eram bem maiores e colocados apoiados em sarrafos de madeira em cima de cochos, serviam para escoar o melado do açúcar a medida que o açúcar ia se cristalizando e depois de dias ficar escorrendo o açúcar ia par secagem no sol antes de ser armazenado, A parte inferior do açúcar no cesto era desprezada pelo comércio por estar contaminada ainda por melado. Daí era dado ou vendido para pessoas necessitadas para consumo mais imediato.
No começo da fervura saem todas impurezas na forma de espuma ou escuma como era chamada na época que era retirada e adicionada no cardápio dos porcos.

O momento do “ponto” é um dos momentos críticos da fervura. Se o mestre tirar muito cedo o açúcar ficava bem branco, mas rendia muito pouco. Se ele puxava ou apurava muito o ponto, então o açúcar rendia bastante, mas ficava de cor muito escura. No momento que este decidia que é era a hora de tirar ele gritava para um auxiliar que jogava vários baldes ou latas d’água dentro da fornalha baixando o calor dando tempo de tirar a carga e evitar que queime no tacho.

No momento seguinte era aberta uma tampa no cocho cheio de garapa para a próxima fornada. Neste momento a gente procurava a ” puxa-puxa” , uma espécie de doce que se formava dos resíduos que tinham ficado no tacho e esfriados repentinamente pela garapa. Uma delícia.

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