Carta de Ernesto Grüntal para Ludwig Rose | Sobre o futuro de Reynaldo Purim – 1912

OPINIÕES
DIFERENTES
Carta de Ernesto Grüntall de Rio Novo para Ludvig Rose em São Paulo

Cópia cedida por Dª Waldtraut Rose
Tradução e comentários por Viganth Arvido Purim

O Reinis ou Reynaldo Purim era um mocinho inteligente e este vizinho chamado Ernesto Grüntal que era amigo do jornalista e Redator do Jornal alemão de São Paulo o Deucher Zeitung, o Ludwig Rose e nesta carta mostra claramente que estava torcendo que o Reinaldo deixasse do envolvimento que ele tinha com a Igreja Batista de Rio Novo e fosse trabalhar com o tio dele o Ludwig.
Vamos a Carta:

Rio Carlota 12-1-1912
[Rio Carlota era uma localidade contígua ao vale do Rio Novo]
Bom Amigo!
A tua carta recebi no dia 24 de Dezembro. Não parecia nada de bom e eu enfiei a mesma no bolso, pois pensava que seria mais uma daquelas de Porto Alegre de onde aqueles senhores novamente com duras palavras estariam cobrando o precioso pão que eu comi nos 2 ½ anos que fiquei lá. “Schtimungs” [esta palavra presumo que seja algum xingamento em alemão]•. Eu fiquei totalmente tomado de preocupação devido a estas coisas que poderiam acontecer.

Tendo chegado em casa e ainda com espírito desanimado, com a visão perturbada e muito apreensiva e assim colocando a carta em cima da mesa deixei-a para lê-la somente no dia seguinte. Mesmo não tendo aberto percebi que a carta era sua. O mundo pareceu totalmente sobre outro prisma, outra luz.
Pensei logo que agora teria que escrever em leto, mas pra você não seria prejuízo nenhum porque esta língua flui pra você como água. Eu pelo contrário quando tenho que escrever em alemão não posso prescindir de um dicionário.

Antes de continuar a escrever permita-me apresentar calorosos agradecimentos por ter me suprido todos estes anos com jornais, quais gostaria de continuar recebendo e assim tendo a oportunidade de avaliar o seu contínuo progresso mesmo sendo um leigo no assunto.
Posso mencionar a opinião do “clerical [Ele o Ernesto era ateu desprezava qualquer pastor] ” J. Inkis [Pastor batista que viajava e visitava as Igrejas] que reconhece que da sua mão a pena fluem idéias muito facilmente e você está em uma área quando a tua pena passando em papéis eles vão facilmente se transformando em dinheiro [o dinheiro vem dançando] .

Para perturbar ainda mais apressadamente perguntei se ele não iria aliciar esta pena tão fértil para ajudar causa dele. O homem começou a torcer dizendo que a obra dele era baseada em fatos irremovíveis como edificada em rocha sólida. Para permitir a ele mudança do rumo do vento e não me atacar com um punho fechado eu ofereci alguns exemplares do “F. Wochbelt” [deve ser alguma publicação em alemão] •. Lá entre outras coisas pode encontrar um Sermão sobre o Natal.

Noutra vez que nós nos encontramos ele reclamava da incredulidade e o distanciamento de Deus, do povo. Empertigado como um galo e com crista vermelha começou a fazer um sermão andando pela sala de um lado para outro e batendo com os punhos na mesa. Se ele tem sete cristas e faz toda essa encenação, tenho certeza que você tem pouco interesse, senão eu teria muito que contar, como estes pobres de espírito e curta perspectiva [estava se referindo ao seus conterrâneos letos da Igreja não ateus como ele]•, pessoas mesmo de pouca instrução que ficam correndo atrás dele.

É melhor eu continuar a minha carta.
É verdade que faz tempo que não temos trocado uma palavra. A verdade é que da minha parte o prejuízo foi maior e toda culpa da tua parte. Mas como eu leria “K.D.R.Vernümft “ [algum autor alemão] e tentasse entender. Quanto eu consigo me lembrar você foi o primeiro redator com quem em minha vida eu me correspondi. Estas pessoas pessoalmente não tenho oportunidade de conhecê-las e como tenho informações através de literatura que eles, os redatores estão atulhados de trabalho e estes homens não tem folga nenhuma. Também o índice de mortalidade destes é muito alto. Pois forçam muito o raciocínio elaborando, contestando se preocupando e assim prejudicando a saúde.
Por isso neste período eu não fiquei sabendo nada de você, como você estava passando e também os teus.
Contei ao teu pai [Jekabs Rose] de como trabalhas em jornais e tudo o mais que você faz lá. Ele não reclamou de nada e cofiando sua barba disse: “Estas coisas agora já são sabidas” Agora eu ainda transmiti a mensagem que você pediu para passar pra ele. Ele mora agora na propriedade dos Kunz [Família Alemã Sabatista que morava no Rio Larangeiras] , ganhando 60 mil réis por ano. Ele sente-se melhor para o trabalho, depois da doença, se bem que o reumatismo não o tenha deixado completamente e em tempos chuvosos ele ainda sente dores nos joelhos.
O plano dele é viajar para Timbó [Cidade do vale do Itajaí Assu acima de Blumenau] a de fim de consultar o Dr. Berkhotz para que ele o cure. E como ele espera viver até os cabelos ficarem grisalhos ele quer encontrar lá algum dentista que faça uma dentadura nova. Ele gostaria de ficar lá para viver. Se o médico o quiser poderá cuidar da terra dele. Isso tudo ele me contou. Manda muitas lembranças e saudações para você. Somente aos sábados ele se torna inacessível, pois se falar com alguém não pode partilhar dos cultos sabatistas.
Quanto ao Reinis [Reynaldo Purim] não tenho a menor dúvida que se ele cair sob a sua direção ele crescerá e se desenvolverá um grande homem. Moço esguio e crescido, mas ainda não chegou a tua altura, mas pode passar de você. A vida social dele é da casa até a Igreja Batista, em outros lugares você não vai vê-lo. Enquanto ele promete vir aqui em casa e demora, eu já fui e levei os “F.Wochblt”. Como sendo membro da Igreja Batista (encharcado pelo J.I [João Inkis] ) [Batizado por imersão, sistema praticado pelos Batistas] ele é constantemente alertado para não ter relações de amizade com os infiéis [um patrulhamento para que os jovens não vejam e não ouçam além do permitido] . Assim mesmo ele disse que foi inquirido, mas como são sabidas associações de outras correntes de opinião aqui não existem. Ele ficou muito admirado que a dª Anna Elbert tenha contado sobre você. Ele falou confiado na minha palavra que ela mesma teria escrito pra você. Quanto eu sei a única carta ou cartão foi por ele enviado ao Pastor Frey , redator do “Awots “ descrevendo alguma festividade da Igreja aqui. O Sr. Purim reconheceu que o filho Reinis é por você como que tivesse uma idéia fixa. Mas ainda não poderá deixar o Reinis ir embora, pois o irmão ainda não o substitui, ainda é pequeno (Artur) para tomar o seu lugar. Ai estará o prejuízo de uma enxada a menos na coivara.
Sobre livros que ele gosta, ele prefere os culturais e científicos. História e contos ele não gosta muito, diz que tem pouco o que aprender com lutas e dificuldades que ela apresentam. O Professor dele o Hans Elbert só tem coisas boas a dizer sobre ele. Sempre foi o aluno mais esforçado e diligente e com muito boa cabeça.
Quando compartilhei a tua carta na casa de tua irmã [Ludwig Rose era tio de Reynaldo Purim, A mãe de Reynaldo era Lisete Rose Purim irmã de Ludwig] os olhos dele brilhavam. Porem tinha que fazer o que a carta recomendava. Faltava confiança. Será que trabalhar em jornais seria o melhor emprego? Então porque você mesmo não escreve direto pra eles? Outro dia eu desci até a casa deles e perguntei como iria ficar, pois eu precisava te responder. Então recomendaram muitas lembranças, mas a viagem somente será ou seria possível quando a cegonha passear com carruagem de ferro [Uma expressão que na Letônia era usada quando indicando impossibilidade total do projeto ou evento] . Bem você vai saber mais quando te corresponderes com eles aqui.
Pelos sinais que você indica é que você se lembra de nós todos quando você vai muito bem, e isso não é de todo mal, pois se você estivesse passando mal nos estaríamos protegidos das más notícias…
Nos anexos de sua carta, preciso reconhecer e dizer, você mexeu com um assunto muito sensível. Eu não tenho nada com o que me gloriar. Reconheço que minhas lutas são com as minhas dívidas. A vida não vai como a gente queria que fosse. O quanto a gente planta a gente colhe. Durante o ano a gente gasta, mas nada em especial, mas no final não sobra nada. Termina curto e estreito. Se não fossem as dívidas seria bem mais fácil sobreviver. Iria tudo bem melhor.
Existem momentos que fico desanimado, mas eu tenho todo animo que um niilista [Niilismo, filosofia anarquista que não aceita nenhuma norma, princípio ou autoridade] pode ter. Quando estou sem esta depressão ai tudo bem. Dívidas maiores ainda tenho com o Diretor [Diretor da Cia Colonizadora] onde devo 300 mil réis. O contrato diz que eu tenho que pagar 100 mil réis todo ano. Além desta eu tenho uma dívida com o Sr. Purim onde falta pagar 130 mil réis. Eu tomei emprestado em 1907 para o pagamento com juros de 6% ao ano. E como ele é sócio da Cooperativa e lá eles pagam juros maiores ele este ano pediu o dinheiro. Dívidas em vendas [Vendas ou casas de comércio que vendem pela caderneta] eu não tenho. Se você pudesse me fazer um empréstimo de uns 300 mil réis, seria muito bom pra mim. E em minha vidinha daria um grande passo à frente.
Com uma calorosa saudação em pleno verão.
Fica o teu Ernesto

(Escrito na lateral da 2ª página:)
Muito agradecido pelo envio do livro “Viagens de Darwin”

No Próximo Capítulo: Anexo 1 – Algumas informações sobre Ernesto Grüntal

One comment on “Carta de Ernesto Grüntal para Ludwig Rose | Sobre o futuro de Reynaldo Purim – 1912

  1. Beatriz Silke Rose diz:

    Viganth,

    Sempre fico feliz quando acho alguma coisa sobre meu Opa Rose, mesmo nesta carta, em que ele é somente o destinatário.
    Acho que posso lhe ajudar com alguns dos termos que ficaram em aberto. Então vamos lá:
    “Schtimung”: não existe nada com esta grafia. Como se trata de uma palavra alemã, suponho que esteja em gótico, o que pode dificultar a leitura. Se você me mandar a carta escaneada, verei o que posso decifrar.
    “F. Wochbelt” e “F. Wochblt” – só pode ser “F. Wochenblatt”, ou seja, um jornal semanal de uma cidade ou região que começa com a letra F.
    “K.D.R. Vernümpft” – é a “Kritik der reinen Vernunft”, a Crítica da Razão Pura, de Kant

    Já que a carta, assim como o seu Almanaque da família, faz referência ao fato do meu bisavô ter sido sabatista, gostaria de repetir minha pergunta: no que exatamente consiste a doutrina sabatista? Pelo que me consta, só o bisavô Rose era sabatista, não? Perguntei a vários teólogos e até agora ninguém soube me responder.

    Abraços carinhosos de São Paulo da prima Beatriz S. Rose

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