…fora do ninho para ver que vento sopra lá fora. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 10 de 1921
Querido Reynhold!
Primeiramente enviamos muitas e amáveis lembranças.
Ante ontem depois de um violento temporal de chuvas ventos e trovoadas a tarde, a Senhora Klavin vindo da cidade passou em casa trazendo para mim uma carta sua que tinha sido escrita no dia 20-2. Obrigada. Ficamos muito alegres em saber que você esta passando bem. Nós também estamos passando bem.
O tempo está sempre chuvoso, os lamaçais imensos, diferente das chuvas de inverno, pois agora a violência das águas abre imensas valetas. Os rios estão transbordando de tão cheios e resumindo água até demais. Continuamos a virar o milho entre o feijão e cortar as samambaias que teimam em crescer aqui e ali.
As melancias este ano deram bem bonitas e deliciosas. A maior pesou 7 kilos. Outros que plantaram mais levavam de carros de boi para vender na cidade. Nós não fizemos estas bobagens.
Os “escrivinhadores” já mandaram as suas cartas em 19 fevereiro quando também mandamos 1 kg de mercadorias. Continha 2 pares de meias, 2 camisas, 2 calças, 2 colarinhos, 2 gravatas e “trabantes” [ NOTA- Falta traduzir]. Naquele mesmo dia mandei um cartão postal. Já recebestes tudo isto?
O prospecto ainda não recebemos, mas pode ser que esteja em Orleans, porque temos uma encarregada do Correio nova e se faz necessário perguntar muitas vezes senão a correspondência fica lá mais de semanas.
Quanto ao seu amigo Roberto posso dizer que sei muito pouco dele, pois o mesmo não aparece e este mês, eu não cheguei a vê-lo. Parece que ele vive mergulhado em seus problemas e trabalhos. Parece que ele está construindo atafonas[ NOTA – Moinhos para fubá] e aos domingos ele vai a Larangeiras, mas como ele desce pelo terreno dos Karkle, não passa mais aqui por nossa casa. Quando ele começar a perguntar, alguma coisa de nós, pode dizer. Antes ele se vinha orgulhando da quantidade de correspondência que ele mandava e recebia de você, mas agora parece que não é assim.
Aqui no Rio Novo vai tudo velho, a novidade é que daqui a 10 dias será comemorada a Festa de Aniversário da Igreja. Faz tempo que nós estamos ensaiando novos hinos. Todas as quartas feiras à noite depois do culto o Osvaldo Auras nós ensina a cantar em brasileiro. Algum tem que quebrar a língua aos pedaços para poder pronunciar. Outros nem língua não têm, pois não ficam para o ensaio.
A Milda Macht trabalhou duas semanas em Laguna e agora voltou para casa.
Alguma coisa que poderia dizer que é novidade mesmo é que o Tio Ludis me escreveu uma longa carta e uma da Tia [ NOTA- Magdalena, 2ª esposa do Ludis] também e esta em alemão. Quando o Augusto Klavin foi para São Paulo, levou uma lata de mel para a Emília. Então nós aproveitamos e mandamos uma lata também para o Ludis. Nós não sabíamos onde ele morava e nem qual o endereço, mas, o Augusto disse que iria procurá-lo na Redação [do Deustcher Zeitung ?\] que todo mundo deveria saber onde é. Também aproveitei para mandar uma carta. Parece que o Augusto achou fácil, pois eles ficam esfregando tinta em chapas, até tarde da noite para sair o jornal em alemão.
O Ludis escreveu que no outro dia, numa carroça puxada por um burro cinza, foi levada a lata de mel até em casa como se tivesse vindo da terra de Canaã. Mel amarelo e espesso, não tinha mais visto desde o tempo de Porto Alegre. O primeiro quem enfiou o dedo foi no mel foi o filhinho Geharts de 3 anos de idade que dai em diante ficou com “o chapéu cheio de alegrias”[ conhecido depois como Victor Rose de São Paulo].
Noutro dia o Ludis foi à casa da Emília e Augusto e ficaram conversando mais de 2 horas da manhã sobre o Rio Novo. A tia [Magdalena] muito solícita escreve que quer que eu vá até lá. O Tio Ludis escreve que para gente jovem, não faz mal nenhum por o nariz fora do ninho para sentir que vento sopra lá fora. A Tia diz que não quer como diarista, porque o serviço de casa ela mesma faz tudo, mas sim, como uma parenta que ficaria algum tempo, que é bem outra coisa.
O Tio ano passado esteve em Timbó [Nota- Timbó cidade próximo a Blumenau S.C.] e trouxe o filho da Minna [Mina Kushmane era a 3ª esposa do meu bisavô Jehkabs Rose que era também pai do meu tio avô Ludvig ou Ludis] que ficou com eles em S.P. de abril até dezembro. Como ele não acostumou ai, ele o despachou de volta.- Quando ele se aborrecesse de mim, ele me poria numa caixa e despacharia de volta para a colônia, A viagem seria rápida, pois toda semana vem um navio até Imbituba.
Bem desta vez chega, pois você não terá tempo para ler.
Agora as tuas férias acabaram?
A escola tem muitos alunos? Tem alguns letos? Escreva bastante.
Lembranças de todos. Desejo muita alegria e saúde. Olga.
[Escrito na lateral] Hoje chegou o prospecto.

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