Depoimento de J. A. Zanerip | Manas atminas no Rio Novas laiku dzivi

Terceira Parte

MEMÓRIAS DE MINHA VIDA EM RIO NOVO

Agora na nova vida em Rio Laranjeiras. Gostei muito da troca do Rio Mãe Luzia pelo Rio Laranjeiras. O rio Mãe Luzia era um rio largo e profundo. O rio Laranjeiras era raso e suas águas cristalinas e bem aquecidas, porque corria longos trechos entre pedras bem lavadas por grandes enchentes.

Agora há poucos anos viajei de Tubarão a Lauro Müller para subir aquela serra (Rio do Rastro). Ao passar por Orleans subimos até o lugar onde vivi na minha adolescência, isto é, nas margens do Rio Laranjeiras. Fiquei pasmado vendo o meu bem lembrado rio Laranjeiras, sempre cheio de muita água, agora virado num pequeno córrego! Isto talvez porque naqueles tempos chovia mais e as raízes da mata virgem retinham o escoamento rápido, conservando assim o rio sempre com bastante água.

No meu tempo esse rio era um paraíso da criançada. Era muito piscoso. Passei muitos dias pescando e me divertindo com os colegas. Será que este mundinho está secando mesmo?

A minha infância não foi nada fácil, pois já desde pequeno ia junto com a mamãe ajudar a limpar as roças; quando chegou o tempo de ir a escola as condições não permitiam ir. Minhas irmãs, sendo meninas, iam à escola, e à noite eu tinha que aprender — isto é, estudar as lições que as irmãs tinham aprendido na escola.

Mais tarde, quando fui à escola, meu primeiro professor foi o Sr. Treimanis, mas com a saída deste professor houve um longo período sem aulas.

As idas para a escola às vezes eram terríveis, principalmente no inverno. A estrada ficava branca de geada e a gente não tinha dinheiro para comprar sapatos, assim tinha que enfrentar a estrada com o pé no chão mesmo. Haviam ocasiões em que nem sapatos poderiam ser utilizados, com a grossa camada de lama que era formada pelas rodas dos carros de boi — principalmente quando chovia muito, — agravada pela passagem das tropas de burros e mulas que levavam mantimentos para os habitantes da serra. Essa conjunção de fatores tornava as precárias estradas intransitáveis.

Quem realmente poderia gostar dessa lamaceira eram os porcos que eram trazidos em manadas daquelas imensas distâncias, isto é mais de cinquenta quilômetros — de além das montanhas da serra, onde se situavam os grandes pinheirais e onde eram criados, tendo depois ainda a descida dos contrafortes da serra quase a pique. Hoje pode parecer inacreditável. Mas nós, que vimos com os próprios olhos, esperamos que aceitem essas coisas que hoje parecem totalmente improváveis ou impossíveis.

Tempos depois, agora já com uma irmã casada, um dia resolvemos fazer um mutirão para cortar cana de açúcar. Um futuro cunhado meu foi também. Voltando para casa o tempo fechou e começou a garoar, e a escuridão se tornou completa.

O Ernesto Karklis estava de namoro com a minha irmã Alvina, que tinha vindo a cavalo, mas para acompanhar o seu broto ele deu o cavalo para eu ir montado. Quando eu ia indo passando onde havia uma trilha por uma capoeira que naqueles dias tinha sido roçada e derrubada, e pela qual o cavalo estava acostumado a passar, o animal entrou derrubada adentro. Porém, como estava escuro demais e sem nenhum ponto de referência, fiquei sem saber como voltar. Resolvi esperar.

Quando ouvi vozes da turma conversando dei umas chicotadas no cavalo e voltei ao caminho. Apesar de não estar tão perto assim, a turma começou a gritar apavorada. Ao chegar a uma encruzilhada onde o Ernesto costumava se separar, fiquei esperando por eles. Quando a turma chegou, contaram que um bicho muito grande os tinha atacado, lá próximo ao toco da “maria mole” [NOTA: ombu, Phitolacca dioica, árvore chamada de “maria mole” por causa do tronco esponjoso e macio], e que tinham levado um tremendo susto. Logo imaginei quem deveria ter sido o bicho enorme: não poderia ser outro senão eu com o bandido do cavalo. Não contei nada com medo de apanhar, pois realmente não queria ter assustado ninguém.

Só bastante tempo depois, quando peguei uma vez carona no carro de boi do colega Adolfo Burmeister, e ao passar no famoso lugar dos bichos, no toco da “maria mole” com os seus lindos brotos, contei ao Adolfo que não acreditava nessa história de bichos e contei o que acontecera comigo e com aquele cavalo naquela noite.

O Adolfo começou a rir, não querendo acreditar e achando que era minha invenção, mas consegui convencê-lo de que era a pura verdade. Ai o Adolfo fez me prometer que não contaria nada a ninguém (e prometi) e contou-me outro fato sobre esse mesmo local.

Disse ele que uma vez tinha se atrasado na roça e já no crepúsculo da noite viu o Jacob Karklis vindo pelo caminho. Rapidamente ele, o Adolfo, saiu do caminho e entrou no meio da touceira de brotos do toco da “maria mole”. Quando o Jacob ia passando ele deu um ronco e saiu pulando abraçado aos brotos.

Pobre do Jacob! Jogou uma pedra que trazia na mão e correu como um doido, chegando em casa completamente exausto e contando que tinha acabado de escapar de um bicho terrível. Como conseqüência do susto adoeceu por um bom tempo.

Começou a circular o boato de que outras pessoas também tinham visto o bicho. Até um dia uma turma de italianos decidiu ajudar o pessoal na grande caçada ao lendário bicho. É claro que não acharam nada. Mas como esses caçadores podiam imaginar que esses bichos andam de carro de boi? Tudo mentira, fruto da fraqueza e do medo.

* * *

[continua…]

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