Breve Histórico dos Batistas da Letônia

Preâmbulo: as diferenças entre as religiões na Colônia Rio Novo

Nós que nascemos e vivemos boa parte de nossa vida nessa localidade percebíamos o impacto da falta de conhecimento por parte da maioria católica.

Essa falta de conhecimento não pode ser debitada somente à própria religião da maioria, mas também pela falta de comunicação eficiente por parte dos letos, na maioria seguidora da religião batista, mais centrada nas Escrituras Sagradas. Os batistas sabiam de suas origens, mas parece que pouco fizeram para esclarecer que não eram “russos”, apesar de que quando emigraram para o Brasil a Letônia era de fato uma província russa.

Ali no Rio Novo nossa igreja era chamada em tom pelorativo de “Igreja dos Russos” por essa gente que não tinha o um mínimo de conhecimento da História. Houve pessoas e até mesmo lideres do lado dominante católico que associavam a Igreja Batista Leta de Rio Novo ao regime comunista instalado na Rússia, o que não passava de uma total inverdade.

Portanto, estamos agora colocando no nosso blog um artigo que conta como a Igreja Batista conseguiu espaço entre o povo da Letônia, mesmo enfrentando a pressão da Religião Oficial, que na época que era a Igreja Luterana.

Apesar de tarde, não podemos deixar em branco.

V. A. Purim

 

BREVE HISTÓRICO DOS BATISTAS DA LETÔNIA [1992]

Coligido e apresentado pelo pastor Ilgonis Janaits no dia 11 de julho de 1992 em Varpa, por ocasião dos festejos do Jubileu do Centenário da organização do Trabalho Batista Leto no Brasil. Publicado na Revista “Kristiga Draugs” (O Amigo Cristão) número 03 de 1992. Traduzido por V. A. Purim.

(Fontes históricas do autor: Janis Riss, Adolfs Klaupics, Osvald Ronis, Andrejs Ceruks, Janis Inkis, Arvids Eichmanis, Janis Eisans, Karlis Grubers, Yolanda Krievin e outros)

A Letônia, os letos e suas crenças

A Letônia é um pequeno país situado entre a Estônia e a Lituânia, com uma área aproximada de 66 mil quilômetros quadrados. O clima é temperado frio e a temperatura média anual fica entre 6 e 11 graus centígrados positivos. A população atual é de cerca de três milhões de habitantes. Suas raízes históricas são encontradas na Idade da Pedra, isto é, mais ou menos 2 mil anos antes de Cristo, e pertencem ao tronco Indo-Europeu.

O termo “leto” ou “letoniano” vem de lett, que significa cavar a terra ou arar, deduzindo-se assim ser agricultor. Até o nome da moeda no passado era, e agora novamente se chama, latt. A língua leta é mais antiga que o latim ou o grego e suas bases não são encontradas nas línguas germânicas ou eslavas, mas sim no sânscrito.

Durante sua história o povo leto foi dominado por alemães, poloneses e russos.

A religião dos antigos letos era o panteísmo naturalista. Era mais crença e tradição do que propriamente adoração. Não tinham nenhum ídolo fabricado pela mão humana nem sacrifício de sangue. Viam nas forças da natureza algum mais forte poder. A mais alta divindade era o “Velho” Pai dos Céus, poderoso sobre todas as coisas e doador da vida, que sempre tinha um bom conselho, que ajudava o agricultor nas suas dificuldades e não se esquecia das viúvas e dos órfãos. Esta entidade era cantada em verso e prosa na figura de um homem curtido pela vida que estava em toda parte e em derredor, ora a pé, ora montado em seu cavalo branco ou ainda arando a terra…

Criam também estes na “Laima” que pode ser traduzida por felicidade ou sorte, e que trazia alegria e felicidade. Os seus deuses os antigos letos veneravam em plena natureza; algumas árvores tinham um caráter sagrado (o carvalho e a liepa [bétula: tília cordata]) e, segundo o historiador Janis Riss, a última destas teria sido derrubada em 1875.

As primeiras tentativas de levar o cristianismo ao povo leto foram feitas sob a ameaça da espada. Quando o monge católico alemão Meihard chegou à Letônia, obrigou os primeiros letos ao batismo pela força. Depois dele veio o Bispo Bertholds, com a bênção do Papa e um exército de legionários cruzados pagos pelos príncipes e pelo Papa, para obrigarem os letos se tornarem cristãos à força.

Na batalha contra os lívios, perto de Riga, o Bispo Bertholds foi morto, o que acentuou a ira dos cruzados, que passaram a obrigar com ainda maior zelo o povo a aceitar o batismo. Porém, uma vez que os cruzados foram embora, os letos foram “lavar” o batismo nas águas do rio Daugava. O período do catolicismo durou aproximadamente 300 anos, durante os quais os letos aos poucos foram perdendo as suas crenças e sua terra.

Com a chegada da Reforma de Lutero, pouca coisa mudou; as mudanças são mais evidentes na área política e econômica. Na área religiosa pouca coisa mudou: o que estava escrito nos livros de uma igreja foi copiado pela outra.

De 1562 até 1795 a igreja é luterana, mas sob domínio da católica Polônia. Em 1689 os letos ganham a Bíblia Sagrada em sua própria língua, traduzida por Ernesto Glück.

Durante o século XVIII, ainda que pudessem ser encontrados letos que nunca iam a igreja, zombavam do cristianismo e ainda cultivavam as crenças de seus antepassados, já podia ser considerada completa a “cristianização” da Letônia.

Sob o domínio da Rússia, os grandes proprietários de terras foram os barões alemães. Os letos tornaram-se uma categoria de “servos” — mais para escravos, pois os barões tinham poder sobre seu corpo e alma, podendo sobrecarregá-los de taxas, obrigações e muito mais. No âmbito pessoal, chegava-se ao cúmulo de que a primeira noite da noiva leta pertencia ao barão alemão; em outro caso, o barão podia obrigar o rapaz leto a casar com a empregada leta que o barão tinha engravidado.

O barão e o pastor estavam sempre de mãos dadas: do púlpito o pastor ensina obedecer o barão. Pouca era a influência do pastor leto. A principal recomendação dos opressores é: “Esqueça que em suas veias corre sangue leto. Esqueça seu povo, seus irmãos, comporte-se como estivesse entre estranhos e não como entre os seus amigos e em sua pátria”. E a recomendação em relação à igreja: “Esqueça que este é teu conterrâneo, não pense que ele veio à igreja para cultivar algum sentimento nacionalista, mas con­sidere-o um estranho que tem uma alma pela qual deves zelar. Teme-o e honre-o como a cada um de nós” (A. Klaupics-“Dzivibas Cels”/O Caminho da Vida).

As principais conquistas da época foram a Bíblia Sagrada em língua leta e a música coral, ainda até hoje muito em evidência.

Em 1729 vieram da Alemanha um grupo denominado “Congregação dos Irmãos” ou “Irmãos Morávios”, movimento pietista que pregava o arrependimento, a mudança de vida e o abandono das crendices familiares tão ao gosto do povo. Seus locais de encontro, também chamadas “Despensas de encontros”, chegam a ser mais de 140, e alcançam mais de 30 mil seguidores. Porém, já em 1743 todo este trabalho foi terminantemente proibido.

Desta época ficaram de muito importante o conjunto de hinos sacros (Garigas Dziesmas) ou “Hinos Espirituais”, sobressaindo-se os de autoria de Loskiel, que são cantados até o dia de hoje.

Os começos dos batistas na Letônia

Para muitos é completamente desconhecido como se deu o início do trabalho batista na Letônia, se bem que somos os seus descendentes. Por isso quero dar a conhecer.

Durante o século XIX foi dada muita importância para a abertura e o desenvolvimento de escolas nas propriedades dos barões. Em 1841 o Barão de Drächenfell fundou uma escola em sua propriedade e, para dirigi-la, convidou um professor chamado Hamburgers, que era pessoa muito culta e religiosa. Devido às distâncias entre a sede da escola e do local onde os alunos moravam, os mesmos compareciam à escola às segundas-feiras com o farnel, isto é, com a comida para a semana inteira, e retornavam para suas casas somente ao fim da semana.

O professor Hamburgers tinha por hábito, antes de dispensar as crianças no final dos períodos, ler textos das Sagradas Escrituras e orar de joelhos pelos alunos e pela escola. Nas segundas-feiras ele conversava com os pais das crianças. Assim, um e outro deixava da bebida e deixava de trabalhar aos domingos. Mais tarde o Barão dispensou este professor.

O movimento espiritual iniciado pelo professor Hamburgers foi continuado pelo seu ex- aluno, Ernests Eglites. Os interessados pela melhora de sua vida espiritual reuniam-se aos domingos. Liam a Bíblia, oravam e conversavam entre si sobre o melhor modo de livrarem-se de seus erros e pecados. A estes encontros comparecia Adams Gertners, que mais tarde seria o primeiro pastor batista leto.

Adams Gertners foi visitar o pastor luterano Grött e pedir esclarecimentos porque a igreja nem sempre seguia as Escrituras Sagradas, principalmente em relação ao pecado (Mateus 18:5). Então o pastor Grött, que até aquele momento tinha elogiado Adams Gertners, no domingo seguinte advertiu a igreja contra o “falso profeta” — chegando a dizer que o mesmo tinha perdido o juízo.

Em 1855 moravam na cidade de Liepaja [no sudoeste da Letônia] nove batistas, todos alemães, membros da Igreja Batista de Memmel, que naquela época pertencia à Prússia Oriental [Lituânia]. O pastor Nímecs, dessa igreja, visitava regularmente estes irmãos alemães na Letônia, até que o número deles chegou a 14. Entre eles havia um chamado Brandmanis, que na vida profissional era fabricante de cordas.

Durante esse período, ainda não conformado com a resposta do pastor Grött, Adams Gertners foi à procura de outros pastores [luteranos], os quais nada puderam ajudar na sua busca de respostas para a sua vida espiritual. Adams resolveu então passar os domingos lendo a Bíblia e orando. Aos poucos foram se chegando curiosos para conhecer o “falso profeta.” Esses encontros foram se transformando em conversas sobre assuntos espirituais e terminando em cultos.

Um dia Adams foi ao culto dos batistas alemães, onde foi recebido por Brandmanis e por Grobins. Após o trabalho da noite, uma conversa que durou até o amanhecer. Depois desta ficou claro o que ele devia fazer. Retornou para partilhar do culto com os irmãos alemães, agora acompanhado com Dravnieks e Jankovskis. Este foi o primeiro culto batista na Letônia do qual os irmãos letos participaram, mesmo ainda não sendo batistas.

Um dia Brandmanis, do grupo dos alemães, foi convidado a visitar a localidade de Uzav, onde moravam aqueles letos interessados, e ficou várias semanas. Durante o dia trabalhava na sua profissão, confeccionando cordas, e a noite realizava estudos e cultos. Convencidos na fé, os letos demonstraram vivo desejo de serem biblicamente batizados por imersão, e para tanto solicitaram que Brandmanis assim o fizesse. Brandmanis esclareceu que para tanto a pessoa teria que ter a plena autorização da igreja em Memmel-Klapeida, pois não havia nenhuma outra no Báltico. Começaram as correspondências e em seguida o convite para viajar à Prússia Oriental.

No outono de 1860 mais ou menos 10 homens de Uzav e de Zirah saíram em viagem. Primeiramente haviam pensado em conseguir autorização para a viagem em Ventspils, já que as localidades onde moravam faziam parte de sua jurisdição. Lá foram grosseiramente atendidos e a permissão para viagem negada, por não haver motivo convincente para irem ao estrangeiro. Chegaram a ameaçá-los com açoites.

Assim mesmo, em agosto desse mesmo ano saíram de Uzav com destino a Memmel: Janis Dravnieks, Andrejs Jankovskis, Krists Berzins, Jekabs Jeka, Andreis Kezis e Kaspars Zirnieks. Em Labrag juntaram-se a eles Adams Gertners e Anna Gertner. Em Liepaja aguardavam os viajantes o amigo Brandmanis e outros membros da Igreja de Memmel residentes nesta cidade. Ao grupo juntaram-se batistas alemães, entre os quais três candidatos ao batismo: Johanns Jansons e duas irmãs: Marija e Karoline Kronberg. Brandmanis era o guia.

Na fronteira os alemães não tiveram nenhum problema — os letos sim. Quem resolveu foi o escrivão da Fazenda Perkons: cada leto pagou a importância de 50 kapeiks (15 para a Fazenda e 35 para o bolso dele), e as licenças foram expedidas em nome de pessoas da localidade. Os viajantes chegaram a Memmel num sábado à tarde. Naquela mesma noite foi convocada uma sessão da igreja. Os letos, através de intérprete, foram aceitos como membros da igreja.

Em 2 de setembro de 1860, domingo, foram realizados os primeiros batismos de letos batistas, e quem os realizou foi o co-pastor Albretchs. Após duas semanas, quando voltaram para suas casas, começaram os interrogatórios e a firme proibição de não voltarem a Memmel. Os primeiros a serem presos devido à realização de cultos e à nova fé foram Adams Gertners e Marija Krombergs. Assim mesmo as viagens para Memmel continuaram às escondidas, agora por via marítima. Para aqueles viajantes: julgamentos, prisões, castigos corporais e expulsão de casa. Diante de tantas dificuldades para viajar, a igreja em Memmel resolveu ordenar Adams Gertners ao santo ministério da Palavra, como pastor para a Província leta de Kurzeme.

Os primeiros batismos realizados na Letônia foram à noite, isto é, à uma hora da manhã da noite de 9 para 10 de setembro, no rio que corta Zirah. Adams Gertners, postado à margem, pregou um curto mas eloqüente sermão, após o qual foi cantado um hino do hinário luterano. Depois de uma oração de Adams ele mesmo desceu à água e batizou 72 pessoas. Logo em seguida, ainda na beira do rio, foi celebrado o memorial da Ceia do Senhor. Naquele mesmo ano, em 14 de outubro, foram realizados novos batismos, agora no Lago Klapar.

Adams Gertners – Nascido nos arredores de Kuldiga a 24 de junho de 1829. Após sua conversão e ordenação ao santo ministério da Palavra passou muito tempo preso. Faleceu a 23 de agosto de 1876 na localidade de Velda. Desde que foi proibida a vinda do pastor Nímecs de Memmel para visitar os crentes residentes na Letônia, o pastor Adams foi designado como líder e planejador do trabalho.

O historiador Janis Riss, diretor do Seminário da Associação das Igrejas Batistas Letas transcreve no seu livro “Latviesu Baptistu Drauzu Ieselsanas un vinu talaku atistiba” (O início das Igrejas Batistas Letas e seu desenvolvimento) trechos de duas atas de sessões das igrejas em Kurseme, sendo o primeiro de 24 de maio de 1870 (“Iniciando, o Bispo Adams Gertners da Igreja Batista de Kur­zeme…”) e o segundo em novembro de 1870 “Resoluções da Igreja Batista no dia 15 de novembro de 1870. Nesta sessão o Bispo A. Gertners, das igrejas batistas de Kurseme, Venstpilis e arredores, cumpre suas funções no dia determinado, orientando esta grande conferência, da qual participaram muitos dirigentes, auxiliares, bispos e escrivães… ” (Do Livro de Atas e Resoluções da Igreja de Zirah ).

Outro historia­dor que descreve e comprova as atividades do Bispo Adams é Adolfs Klaupiks, obreiro da Aliança Batista Mundial, em seu livro “Dzivibas Cels”: “Nas Igrejas era muito respeitado, e em todas atas das sessões das igrejas da época é mencionado como Bispo da Igreja de Kurzeme”.

Esses foram os começos. Veio a Primeira Guerra Mundial. Depois da Guerra nos anos 20 deu-se a grande imigração para o Brasil, quando os Batistas da Letônia perderam para o Brasil muitos membros de igreja, dirigentes e os melhores pastores. O trabalho na Letônia ressentiu. Veio a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, o regime comunista com forte pressão, tentando durante 50 anos por todos meios e forças suprimir toda e qualquer demonstração de fé ou as igrejas…

No final de 1991 havia na Letônia 63 igrejas batistas, com 4669 membros ativos; 37 coros onde cantam 868 coristas; 37 Escolas Bíblicas Dominicais onde estavam matriculados 2026 alunos, orientados por 159 professores. Grupos de jovens eram 22, com 373 participantes.

A Deus toda glória pelos começos na Letônia!

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3 comments on “Breve Histórico dos Batistas da Letônia

  1. Um passado rico de memórias, cujos registros ganham a rede social, e que irão nutrir ávidos historiadores e pesquisadores do povo leto em Santa Catarina.
    Parabéns as pessoas que auxiliaram chegar à rede social da blogsfera, estes conhecimentos históricos para compreendermos melhor o mosaíco étnico de Santa Catarina.

    • V. A. Purim diz:

      Amigo Ademir. As informações estão a disposição. Lembrar de dar o crédito para o nosso Blog. Gostaria de saber se na Etnia Alemã existe algo semelhante. Aquele abraço
      V.A.Purim

  2. joao carlos murgi diz:

    ola, voces tem algum relato da participacao do Pastor Karilis Grigorowitch, ex-pastor da Igreja Batista Boas Novas, na Vila Zelina em Sao Paulo. Ele foi redator do Jornal “‘O Amigo Cristao””. Ele era leto e muito ajudou os letos e outros irmaos de etnia eslava quando da imigracao para o brasil. Eu sou Joao Carlos Murgi e meu e-mail e johnmurgi@hotmail.com

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