Algumas informações sobre a Colônia do Rio Novo | Otto Purim a Janis Lepste

[NOTA de V. A. Purim: Carta escrita por meu pai, Otto Roberto Purim, em resposta a uma escrita pelo Sr. Janis Lepste, de São Paulo. Cópia do original gentilmente cedido pela senhora Brigita Tamuza, de Riga, Latvija. Traduzida do leto para o português por Viganth Arvido Purim]

 

[Curitiba, 23/08/71]

Sinceras saudações.

Há algumas semanas recebi a sua carta com os mapas da Colônia Rio Novo e a publicação “Melnu um Baltu” (Branco e Preto), pelos quais agradeço e os quais li e avaliei com grande interesse. Se tiver a oportunidade de publicar outros exemplares, não se esqueça de mandar alguns números para cá.

No que diz respeito aos mapas de Rio Novo, considerando-se que foi a sua primeira visita e sabendo-se das limitações de uma visita como essa, seu trabalho foi muito eficiente. Estou anotando algumas informações a lápis, pois poderão ser rapidamente apagadas com borracha e depois anotadas com aquele capricho, com tinta. Também colei ao lado do mapa alguns papéis indicando moradas de outros letos não mencionados no original. O que mais pede modificações são as curvas dos rios e das estradas e informações como distâncias, etc. Muitos lugares de moradas de famílias letas anotei de memória, outras me foram contadas pelos meus pais, porque eu não tinha condição de lembrar.

Você me pergunta das atividades cotidianas dos recém-chegados imigrantes letos. Inicialmente, logo depois da chegada, todos dedicaram-se à agricultura. Mais adiante aqueles que tinham alguma profissão começaram a procurar meios de exercer outras atividades.

Por exemplo, o Alexandre Grünfeldt, sendo marceneiro (fabricante de mesas), transferiu-se para Orleans, e nos fundos da casa improvisou uma cobertura onde fabricava móveis. A esposa e filhas trabalhavam de costureiras.

Também o Grüntall, que era também marceneiro, fazendo todos móveis manualmente. O filho dele, Ansis, abriu uma oficina de conserto de relógios.

O Gustavs Grikis, sendo ferreiro, abriu uma ferraria em Orleans. Karlis Match, Indricksons, e depois Roberto Klavin e outros, mesmo sendo agricultores, saíam pelas redondezas construindo atafonas movidas por rodas d’água e também engenhos para a fabricação de farinha de mandioca e de açúcar de cana, serrarias para cortar tábuas, etc. Outros trabalhavam em construção de casas, etc, e nesta categoria se incluía meu pai, Jahnis Purim.

Ainda, devido à sua importância e reconhecimento, devemos mencionar o sr. Karlis Zeeberg, que, sendo agricultor, também trabalhava cuidando da saúde das pessoas com bons resultados. Ele usava o sistema de hidroterapia preconizado pelo famoso Dr. Kneip, aplicando o sistema Bilts. O Zeeberg ia atender os doentes nas suas próprias casas. Ele conseguia curar enfermos que outros médicos já haviam desenganado, considerando-os casos perdidos. Mesmo em nossa casa foi chamado diversas vezes, com bons resultados.

Nenhum dos profissionais mencionados, no entanto, procurou aprender alguma profissão; quase todos que emigraram vieram da classe de empregados e eram dependentes dos seus empregadores na Letônia. Naturalmente muitos vieram com família e filhos, e esta nova geração criou novas necessidades. Por exemplo, o Julio Malvess, os filhos do Leimann, o Villis Vanags, meu tio Ludvigs Rose e muitos outros; não tentarei mencionar todos agora, mas é importante lembrá-los e reconhecer o seu esforço e suas conquistas.

Outra pergunta sua refere-se aos letos que moravam na Colônia Rio Novo e seguiam religiões diferentes, não pertencendo à igreja batista. Poderia resumir dizendo que a grande maioria dos imigrantes pertencia à igreja batista. Por exemplo, da Igreja Batista de Daugavagriva (Dünaminde, naquela época) veio o coro completo, inclusive o regente Karlis Matchs. Tendo embarcado no vapor no porto de Riga o coro cantou com potentes vozes o hino “Quem quer ir conosco a Sião?”; além do coro, um bom grupo de outras pessoas veio desta mesma igreja.

Aqui no Brasil a exceção foram algumas famílias luteranas que também vieram, mas depois, pelo batismo, uniram-se à Igreja Batista de Rio Novo. Só uns dois não pertenciam a igreja nenhuma. Um era o Ernesto Grüntal (não confundir com o outro acima mencionado) e o outro era o Herman Grunskis, ambos solteirões e ambos já falecidos — sendo que o sepultamento do primeiro foi em Rio Novo e o do segundo em Tubarão.

Havia também o Edvards Grunskis (Padre Grunskis) que frequentou um seminário católico em Porto Alegre; tempos depois ele largou a batina e aceitou o trabalho de correspondente de um jornal alemão no exterior. As últimas cartas e fotografias dele que chegaram em Rio Novo foi no ano 1920, despachadas de Moscou. É possível que os comunistas tenham posto ele de lado…

Dez anos passados… Os descendentes dos letos de Rio Novo se mudaram e outros se perderam nesta vastidão sem dar notícias, abandonando suas origens e sua religião.

Sobre o Rudolf Libeku não me lembro de nada. Só lembro de alguma coisa que minha mãe falava, que o Libeks tinha morrido repentinamente numa rua do Rio de Janeiro. Sobre a família e filhos não tenho nenhuma informação.

Desta vez devo terminar. Já escrevi bastante. Quem sabe seja difícil entender. Penso que seria muito mais fácil a assimilação dessas informações se pudéssemos sentar e conversar. E, sem interrupções, trocar opiniões e chegar mais rápido às conclusões. Se por acaso vieres para cá traga aquela planta para podermos aperfeiçoar. Por escrito é sempre mais difícil.

Finalizando, peço dentro de suas possibilidade ceder por empréstimo o livro “Muza meza Maldi” (Os enganos da floresta virgem) e o “Mernieka Laiki” (A época dos agrimensores) [NOTA: O primeiro conta de modo jocoso a entrada dos imigrantes letos nas florestas da Paulista, debochando daquele espírito de crentes que fugiam do Grande Urso Vermelho e da Grande Perseguição, e o segundo fala da Grande Reforma Agrária na Letônia.]. O que eu soube é que existem duas versões do segundo livro: um original, editado na época em que a Letônia era uma república independente, e outra versão retrabalhada pelos comunistas russos. Se você tiver as duas versões, a antiga e a nova, por favor me mande.

Devo terminar esta, se não com o tempo gasto na leitura desta carta os outros seus afazeres ficarão para trás.

Com grande consideração,

Otto R. Purim
Curitiba, 23/8/71

PS. Queria deixar assinalado que lembrei de que estou planejando ir em breve a São Paulo visitar alguns parentes. Nesta ocasião poderia conseguir uma oportunidade para visitar você. Como não sei nem o dia nem a hora, teremos de marcar uma ocasião em que você possa estar disponível. Para tanto não esqueça de mencionar a melhor alternativa em sua carta.

O mesmo

 

***

[Para ver o mapa mencionado nesta correspondência, clique aqui]

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One comment on “Algumas informações sobre a Colônia do Rio Novo | Otto Purim a Janis Lepste

  1. leonardo diz:

    Boa Tarde.

    Estou encantado com este blog. Parabéns pelo trabalho.

    Estou concluindo um trabalho para o curso de História na UFSC, justamente sobre a colonização leta em Santa Catarina, e gostaria de saber se tenho autorização para utilizar algumas imagens e textos deste blog, com os devidos créditos.

    No aguardo,

    Leonardo de Souza.

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