Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte

Autor: Juris Frischembruders
Prefácio: Janis Inkis Senior
Texto publicado na Revista Kristigs Draugs (O Amigo Cristão), números 09, 10 e 11, nos meses setembro, outubro e novembro de 1940
Traduzido para o português por V. A. Purim

PREFÁCIO

Li no Jornal Batista, publicação periódica da Convenção, que a Igreja Batista de Rio Novo, a mais velha das irmãs entre as Igrejas Batistas Letas do Brasil, estava se preparando para comemorar os seus 50 anos, isto é, o seu Jubileu de Ouro, e naquele momento me veio à mente que durante muitos anos tenho em mãos material referente à história desta igreja. Este material, desde há sete anos, foi coligido e cuidado com carinho pelo irmão Juris Frischenbruders.

O irmão Juris mandou-me este material esperando que eu o publicasse nas páginas da Revista “Kristiga Draugs” para que todos tivessem pleno conhecimento destes fatos. De boa vontade eu o teria feito, porém lendo este trabalho sobre o início da igreja, encontrei por diversas vezes o meu nome e elogios sobre a minha atuação e meu trabalho naqueles tempos. Decidi então, naquela época, que uma publicação dessa natureza não deveria vir à luz por minha iniciativa, pelo que este importante trabalho ficou um bom tempo engavetado.

Bem, agora que águas dos tempos já correram, que as enchentes já baixaram, que os seixos rolados da memória pelo tempo estão brancos; agora que a primeira geração de imigrantes já se foi para o descanso eterno e a terceira da geração do início da colônia e da fundação da igreja pouco sabe, sinto-me então constrangido a lidar com recordações tão personalíssimas como as do irmão Frischimbruders, que tirou a maior parte das informações de sua própria memória. Neste momento não vejo mais como alguém poderia antepor obstáculos ou levantar dúvidas sobre a nossa honesta participação nessa história. Entendo que nós dois, ele como o escritor da narrativa e eu como seu guardião, somos para a querida e inesquecível igreja de Rio Novo eternos devedores e, para tanto, neste Jubileu de Ouro, oferecemos a sua história. Esperamos que em nenhum momento isso seja entendido como algum elogio a nós próprios, mas a toda família leta no Brasil.

J. Inkis Sen, 1940

 

PREÂMBULO

Anos atrás a igreja [batista do Rio Novo] determinou ao professor Ans Elbert que escrevesse a história da vida da igreja; porém sendo a vida dele cheia de sofrimento e de dificuldades (após anos de doença ele veio a falecer), seu trabalho não teve solução de continuidade. Minha grande preocupação era que a história da igreja fosse colocada por escrito. Antes da comemoração do jubileu dos 40 anos de estabelecimento da igreja (a 28 de fevereiro de 1932), foi a mim designada esta importante responsabilidade. Para minhas debilitadas forças a tarefa pareceu realmente difícil, mas assim mesmo admitiram que eu escrevesse do melhor modo possível.

Procurei ficar bem no centro do caminho da verdade. As notícias e datas tirava do livro de atas da igreja, mas grande parte do conteúdo tirava diretamente da memória. Esforcei-me para anotar todos quantos labutaram na igreja: pastores, professores, pregadores itinerantes — até mesmo os guardas das portas (introdutores). Pensei: do mesmo modo que foi importante atribuir essas tarefas a eles, também é importante mencioná-los na minha narrativa. Cristo disse: “Aquele que oferecer um copo de água fresca não ficará sem o seu galardão”. Assim também aqueles que, mesmo numa função humilde, desempenharam com boa vontade e com coração dedicado ao bem estar dos irmãos e da igreja, certamente terão também o seu reconhecimento.

Tomei por certo que a igreja me havia autorizado escrever a história de modo geral e abrangente. Assim mesmo, em assuntos polêmicos, tomei cuidado, sendo prudente e deixando tudo nas mãos de Deus. Nestes casos, escrever só o necessário, e sempre com espírito pacificador.

Como moto para o seu trabalho o autor escolheu um verso do poeta Bilnisch:

Tu não podes parar e sonhar
Tu tens que amarrar os feixes colhidos
Ou és um navio a fazer água,
Que está prestes a afundar…
Tu tens que terminar alguns trabalhos
Mesmo com o seu coração cansado,
Mesmo que ao derredor uive o vento cortante,
E o temor da morte se faça presente.

E ainda um verso do poeta Ciruls:

Se surgisse dos nossos
Antepassados pais, o espírito
Então para o trabalho e saber
Ganhariam novo alento…

Juris Frischembruders, 1933

 

A IGREJA BATISTA DO RIO NOVO NO PERÍODO DE 40 ANOS — 1892-1932

Os colonizadores letos do Rio Novo foram sem dúvida os primeiros desta nacionalidade a imigrar para viver no Brasil. Com as providências de cultos e ilustrados conterrâneos como o Balod, o Salit e o Lübek, e sob a sua liderança, em plena primavera (deles) de 1890 saíram de Riga os primeiros colonizadores em busca da distante e desconhecida Terra das Palmeiras. Tinham escolhido para a próxima etapa da vida um local no estado de Santa Catarina em que uma companhia de colonização havia sido aberta e onde vendia, com facilidades para os imigrantes, terrenos em plena mata virgem, não longe da estação de estrada de ferro de bitola estreita de um local chamado Orleans do Sul.

Os primeiros imigrantes eram luteranos, mas entre eles havia três membros das igrejas batistas de Riga: Janis Arums, sua esposa e Katrine Bitait.

Um ano depois, em 1891, cerca de cinco famílias de batistas letos de Riga seguiram as trilhas recentemente abertas até a recém-inaugurada Colônia de Rio Novo/Jaunupe. Esse nome tinha sido dado a um pequeno rio em cujas margens, de um lado e de outro, os letos se instalavam. Entre esses estavam este que agora escreve (Juris Frischenbruder) e sua família, Janis Ochs, Aleksandis Grinfelds, Janis Baschulis e Fritz Malves com suas respectivas famílias.

Após dois longos meses de viagem, no dia 13 de julho, chegamos à estação da estrada de ferro em Orleans do Sul. A direção da Colonizadora providenciou para que as nossas coisas fossem arranjadas no lombo de mulas e levadas para a nova colônia, onde fomos alojados num alojamento comum, construído para o abrigo inicial dos imigrantes que chegassem. Nosso irmão Janis Arums e outros letos nos ajudaram a chegar a este acampamento em plena mata virgem. Esses oito quilômetros de caminhada por dentro da mata, através de trilhas escorregadias, lamacentas, subindo e descendo morros, só foram vencidos com grandes e desconhecidas dificuldades.

Quando cada um dos recém-chegados já havia recebido sua terra e se instalado nela, e dessa forma dado início à sua vida de legítimos pioneiros, a preocupação de nós, batistas, voltou-se para nos organizarmos a fim podermos realizar os cultos a Deus.

Os cultos de oração eram dirigidos alternadamente por nós e a ceia do Senhor era servida pelo irmão Janis Baschulis, enquanto o coro quem dirigia era eu, Juris Frischimbruders. Éramos muito alegres e cantávamos com tanto entusiasmo que a própria selva respondia com eco.

Neste mesmo ano de 1891, no mês de novembro, quando lá na Letônia era outono e aqui primavera, surpreendeu-nos numa manhã de domingo a chegada de mais letos que nos haviam seguido de Riga. Eram esses Jahnis Neilands e Jahnis Simsons. Foi um feliz encontro e grande a confraternização; agora o nosso pequeno coro havia sido reforçado com duas realmente potentes vozes masculinas.

Um mês depois, em dezembro, chegou uma leva realmente grande de imigrantes, cerca de 25 famílias de Riga, membros das igrejas [batistas] de Angelskalna e Dinamindes (Daugavgrivas/Foz do Daugava).

Como naquela época quem tinha dentre os colonos a maior sala em sua casa era o J. Ochs, os cultos eram realizados lá na casa dele. Os primeiros desta leva entraram na colônia durante os festejos do Natal de Cristo; participaram ativamente do nosso culto a Deus os irmãos Fritz Karps e J. Klavins, da Igreja de Dinaminde, e o irmão Bankovitz de Riga.

Demorou um bom tempo até que todos os companheiros de viagem ocupassem os seus lotes na colônia. Alguns estavam muito satisfeitos [com sua nova vida], porém outros se sentiam enganados. Com amargo ressentimento esses inquiriam em especial o autor das cartas (Arums), que teria pintado um cenário mais pitoresco e colorido do que a dura realidade da vida de pioneiros, e indicado uma visão de futuro promissor que eles não conseguiam antever.

A verdade é que os recém-chegados não tinham escolhido uma época propícia para emigrar. A melhor época teria sido quando aqui é outono, nos meses de abril e maio, pois durante o inverno poderiam ter sido derrubadas as matas e aprontadas as coivaras para as plantações da primavera, de agosto em diante. O clima do final de ano pareceu excessivamente quente aos recém-chegados. Diante das primeiras impressões, meu sogro [Juris Bankovitch] disse: “Melhor teria sido trabalhar em pedreiras, carregando pedra sobre pedra na Letônia, do que ter vindo ao Brasil”. Mais tarde, devidamente acomodado, ele mostrou-se feliz por ter optado em vir morar no Brasil.

Quando todos tinham entrado para a colônia e já estavam alojados no acampamento comum, mais gente procurava lugar nos nossos cultos. Mais tarde, quando cada um já tinha construído para si o seu teto, sua casa em sua própria terra, e já havia se restabelecido das dificuldades da mudança, ficou evidente que o local de cultos tinha ficado pequeno demais — e que era também, para alguns, longe demais do local em que moravam. Surgiu então uma idéia e sobre ela todos falavam uns com os outros: a necessidade de organizar uma igreja e construir para ela um templo.

Era uma bela tarde de domingo, 20 de março de 1892, quando se reuniram os irmãos e irmãs na casa de Jahnis Ochs para uma deliberação. O culto foi aberto pelo Irmão Fritz Karps; por unanimidade e aclamação ele mesmo foi eleito para dirigir esta e as próximas sessões, e o irmão J. Simsons apontado como secretário.

Após a inscrição, a relação de todos membros da nova igreja era a seguinte:

Jahnis Balodis
Katrina Grausis
Katrina Bitait
Gederts Feldmanis
Lavise Feldman
Made Bankovitz
Ans Grinfelds
Auguste Grinfeld
Auguste Grinfeld
Juris Frischembruder
Anna Frischembruder
Anna Feldmann
Jahnis Arums
Karlote Arums
Jahnis Ochs
Katrina Ochs
Júris Bankovitz
Sofija Vanag
Ilse Dobit
Jahnis Baschulis
Marija Baschul
Elizabete Grinfeld
Katrina Grinfeld
Katrina Grinfeld
Jahnis Neilands
Johana Neiland
J.Simsons
Martinch Leepkaln
Darta Leepkaln
Jekabs Rose
Jekabs Karklis
Lavise Karklis
Lavise Rose
Lisete Rose
Evalds Martinsons
Lihsa Balod
Krischjahnis Akmenhgrauzis
Anna Akmenhgrauzis
Karlis Match
Katrina Match
Getrude Grintal
Ieva Indrikson
Anna Engel
Fritz Karps
Fritz Malwes
Anna Malwes
Olga Malwes
Julija Balod
Auguste Balod
Jahnis Fridembergs
Ieva Fridenbergs
Amalija Fridemberg
Wilis Grintals
Gederts Netembergs
Nitenbergs
Ans Witinchs
Ilse Witinh
Matilde Witinh
Emília Witinh
Woldemars Stekerts
Hedwigs Stekert
Jahnis Stekert
Karlote Stekert
Jahnis Binemans
Dore Bineman
Lihse Bineman
Anna Bineman
Lavise Bineman
Lihsa Akmenhgrauzis
Martins Indrikson
Davids Grunskis
Jahnis Klavins

— totalizando 74 membros.

[Nota de VAP: Nesta relação existem algumas irregularidades. Nela são encontrados vários nomes e sobrenomes semelhantes sem que se mencione, por exemplo, se se tratavam de mãe ou filha, e há ainda sobrenomes sem o nome próprio, pelo que fica difícil determinar quem desta ou daquela família era realmente membro-fundador da igreja. Não sabemos se o autor da história não conseguiu ou não achou relevante preencher estas lacunas.]

continua na segunda parte

2 comments on “Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte

  1. fazer a vontade de Deus(1 jo 2:17/tg 1:22),esperar em Deus(sl 27:14),agradecer à Deus pelas provas(tg 1:2,12)e a vontade de Deus será feita na vida do crente(mt 6:10/1 jo 5:14)no tempo de Deus(ec 3:1/sl 40:1),praticar a biblia(tg 1:22/sl 40:8),ler a biblia(jo 5:39)e pedir sabedoria à Deus(tg 1:5)isso é o que Deus quer do crente

  2. Plínio diz:

    Sabem de alguma criança que morou nesta colônia e depois virou enfermeira na segunda guerra mundial? E estudou na escola Ana nery no Rio de Janeiro. Procuro informações sobre minha avô, recentemente fiz teste de dna e consta parente próximo de Latvia, e as informações que tenho da minha avô é que morava com os pais em uma colônia no Sul do país e que trabalhou como enfermeira na segunda guerra mundial.

    Agradeço a quem possa me ajudar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s