Capinar é uma vida de ouro | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 22 de julho de 1920

Querido Reinold!

Primeiramente mui amáveis lembranças de todos de casa. A tua carta escrita no 22-6-20 recebi no dia 20 de julho — se bem que o navio veio para Laguna logo depois da carta ser despachada, assim mesmo ela demorou demais. Fazia tempo que estávamos esperando aquela carta que recebemos dia 23 de junho e para a qual mandei resposta no dia 4 de julho. Recebemos um pacote, mas neles não havia nada escrito.

Fico muito aborrecida que as minhas cartas não tenham chegado. Então parece que são duas as minhas cartas que estão perdidas: aquela que escrevi pela ocasião da Festa de Pentecostes [em leto “Festa do verão”] com muitas notícias sobre a Convenção e as conferências e muitas outras coisas, e mais a carta da Luzija.

Nós estamos passando bem. O tempo está muito instável: uma hora está bom e logo em seguida pode estar chovendo. Duas semanas atrás deu uma geada bastante grande até aqui em casa. A roça da mandioca perto da ponte a geada matou, mas em outros lugares permanecem verdes. Noutra manhã já choveu. Semana passada estava realmente tudo encharcado e ainda por cima muito frio.

As estradas tinham sido consertadas pela comunidade, mas logo em seguida, com esta aguaceira toda, começaram a chamar nossa linda estrada de Kuilhu kalna/o morro dos porcos, diante de tanta lama que tinha aqui na nossa frente.

Agora esta semana já enxugou bastante. O milho ainda não está todo colhido. Logo vamos começar a fazer o açúcar. A geada não afetou a cana mas os bichos [graxains, cachorros do mato e outros] estão estragando muito e por isso vamos cortar.

Sobre o Rio Novo não tenho nada alegre para contar-te. Domingo passado foi o último domingo em que o Butler dirigiu os trabalhos. À noite foi a despedida oficial, e apesar da chuva e de estar tudo molhado, a igreja estava literalmente tomada de gente.

O Butler deu bons conselhos e orientações sobre como proceder e apresentou vários planos como alternativas que são plenamente viáveis; é só ter vontade de executá-los. Disse ainda que tem aprendido não olhar nem se influenciar por pessoas negativas que acham que nada vai dar certo e que tudo que é apresentado é ruim. Ainda bem que são poucas estas pessoas e que é para olhar para frente e trabalhar.

Também bem disse que em Rio Novo existem pessoas que se preocupam mais com o crescimento e bem estar de seus cavalos, com seus porcos do que com os seus filhos. O que eles vão ser quando crescerem? Pessoas irresponsáveis que serão a desgraça para a comunidade.

O Butler disse que voltaria [para o Rio Novo] no momento em que não pudesse mais falar. O médico que o está tratando tem dito que capinar ervas daninhas numa colônia como Rio Novo é uma vida de ouro. O Butler vai verificar como a saúde dele vai se comportar em Kuritiba, e se por acaso piorar dentro de um ano é possível que esteja de volta.

Para cuidar do velho ele deixou a Anlise, porque a Kate não vem mais. O milho deixou colhido, as cercas em ordem e o gado ficou todo.

Na quarta-feira, dia 21 de junho, o Butler foi a Orleans e na quinta-feira embarcou para Imbituba, onde se o navio demorar vai realizar diversos cultos. Quando os mensageiros da convenção ficaram retidos lá depois de partirem daqui, todas as noites realizaram cultos.

Os trabalhos da igreja aqui serão dirigidos pelo comitê. As sessões regulares serão dirigidas pelo W. Slengmann. Domingos à noite, pelos jovens. Os grandes e bons planos feitos por ocasião da Convenção foram esquecidos pelos que eram contra, mas não por todos.

Domingo que vem vai haver sessão de negócios e vamos ver o que será resolvido o assunto da Grande Campanha. O Comitê é inteiramente favorável ao pagamento das cotas de contribuição combinadas, mas não sei se vai agradar a todos.

Sobre a Convenção já escrevi bastante e agora já não tenho o que escrever. Tive a oportunidade de ver estas pessoas realmente importantes que se mostraram tão simples quanto nós. Tínhamos a imagem de pessoas orgulhosas e inacessíveis, mas estávamos errados.

O Watson gosta de contar experiências e fatos. Falando sobre os doze espias de Israel que foram avaliar a terra de Canaã, disse que foram interrompidos no momento que atravessavam o Rio Novo lá na barra. O Butler mandou eles lavarem os pés, pois estavam entrando em Terra Santa.

Na Convenção todos falavam em brasileiro. O Butler traduzia o que era mais importante. Pode ser que tenhas lido “O Baptista”, lá está impresso tudo que foi resolvido aqui. O Antonio Cordeiro não veio.

Por hoje chega. Aguardo longas cartas tuas sobre o que você fez nas férias. O que você conversou com Karlos?

Os jornais falavam de grandes eventos programados para estas férias. Gostaria que você escrevesse se deu tudo como estava previsto. O Arthurs não levou em conta a pressa em responder àquelas muitas perguntas e questões que você passou para ele.

Fico aguardando uma longa carta sua.

Olga

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