Enfrentou a noite enluarada | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de junho de 1920

Querido Reini!

Primeiramente receba muitas lembranças de todos de casa. Recebi a tua carta escrita no dia 3 de junho no dia 23 de junho. Obrigada! Já há tempo esperávamos cartas suas, fazia mais de um mês que não tínhamos recebido noticias.

Você ainda não recebeu a carta que mandei no dia 30 de abril? No mesmo envelope seguiram as cartas dos estudantes [Lúcia e Artur], e isso realmente é um grande prejuízo. Mandei no dia 25 de maio a resposta à tua escrita em 6 de maio, e ainda em 18 de junho uma longa carta com muitas notícias dos últimos acontecimentos daqui.

Agora as cartas tem ido e vindo muito devagar, talvez seja porque está chovendo pouco e deve ter pouca água no mar, talvez esteja vazio. Hoje está chovendo um pouco; se vai aumentar o nível eu não sei, porque chuva de verdade faz tempo que não tem havido. Às vezes chuvisca um pouquinho só para fazer lama, mas aumentar o nível dos rios, isso não acontece faz tempo. Quem também reclama da falta de água é o tafoneiro, que não tem água para moer o milho por falta de água.

Geadas tem havido algumas fortes, lá para baixo perto de Orleans, que atingiram bananeiras, canas de açúcar e mesmo as capoeiras. Mas aqui em casa a geada não matou nada: só duas manhãs amanheceram com alguma geada nas baixadas. A semana passada e esta também está bastante quente, como se fosse verão. Vamos ver quanto tempo isto vai continuar.

Agora estamos colhendo milho e despejando no paiol.

Hoje é o último dia de aula para os estudantes. No mês que vem parece que não vai haver aula, pois ainda não se sabe quem vai ser o novo professor. O Butler no mês que vem vai para Curityba e agora está tomando todas as providências para a sua saída e a viagem. Está mandando arrumar todas as cercas porque quando chegar a Kate, que vai morar na casa dele, naturalmente não vai cuidar disso.

Este cuidado é para que o gado dele não fuja e vá estragar as plantações dos vizinhos. Os animais ele não pretende vender ainda, porque depois de um ano ele pretende voltar.

Agora a igreja de Rio Novo vai ficar novamente sem pastor. Quem virá para o lugar dele? Domingo atrasado o Onofre esteve em Rio Novo e apresentou uma proposta ao comitê de sucessão pastoral: que escrevessem para o missionário Deter dizendo que, uma vez que o Butler está indo para Curitiba, ele mandasse o pastor Manoel Verginio para morar em Laguna e dar atendimento a todas igrejas da região. O Comitê inicialmente aprovou de pronto essa ideia, mas para infelicidade de alguns. Aqueles da corrente contrária já começaram reclamar, pois a igreja naturalmente terá que colaborar com o seu sustento e outras despesas. Essa corrente começou a fazer barulho, mesmo sem ter chovido nada.

Durante a convenção alguns já tinham ouvido reclamações pelos cantos e beiras de estrada, mas agora esses começaram a gritar e reclamar, dizendo que quem concordou com os acordos e as novas normas que os cumpram. Dizem que o Butler quando traduzia [as conferências e deliberações] para a língua leta teria omitido partes, mas a realidade é que aqui tem gente que só entende o que interessa e aquilo com que concordam.

Quem maior barulho faz e mais reclama é o velho Karklin, que disse que se tudo não for traduzido para o leto ele e outras pessoas de idade não entenderam nada. Esse sabichão, que lê todos jornais do país e conhece de cor e salteado todas as leis, para nós foi longe demais.

Na sessão regular do domingo passado houve uma tentativa de homologação das resoluções havidas durante a convenção. Tinha chegado “O Baptista” de Curitiba com as atas e novos estatutos decididos nesta última convenção, e o comitê queria aproveitar ainda a estada do Butler para normatizar todos estes assuntos.

O primeiro assunto foi a “Grande Campanha”, cujo alvo é 22$500 por ano, que acharam demais. O Karklin concordou com o dízimo, pois quem ganha mais, mais terá que dar. Ele disse que os outros dão o dízimo, mas a igreja manda para qualquer Sociedade Missionária que ninguém conhece e nem dá satisfação. Ele estava bastante descontrolado. Disse que ele alguns anos dá mais que o dízimo, que é 10%; ele teria dado 14% e até 15%, e insistiu que sabia calcular muito bem.

O Butler reconduziu a ordem e explicou que o dinheiro não vai faltar desde que não se gaste com supérfluos e assemelhados. Se os rionovenses fizerem tudo o que é preciso, não haverá problema nem de falta de dinheiro. O [jornal] Baptista deverá vir de graça, mas é solicitada uma coleta para ajudar na sua divulgação, e se a coleta for muito pequena será enviada uma oferta do caixa da igreja.

Será também feita uma coleta para a Sociedade Missionária da Letônia e depois enviada para o Deter, que providenciará seu envio para o seu destino. Isto irritou ainda mais o Karklin, pois assim ele não foi reconhecido como grande defensor da pátria de nascimento. Ele não tem razão, porque daquelas coletas anteriores ninguém viu comprovante de que o dinheiro tenha chegado lá. Também aquela campanha para os refugiados de guerra, ninguém sabe onde o dinheiro ficou. O Karklin, em vez de mandar direto para a Letônia, mandou para França e eles de lá mandariam para a Letônia. Mas o caso é que, se realmente mandaram, foi para o governo da Letônia, assim os refugiados não viram a cor do dinheiro.

O Lamberts do “Drauga Balsis” [“A voz do amigo”, jornal da denominação batista na Letônia] recomendava que todas doações para os necessitados fossem mandadas para as igrejas de lá, ou endereços pessoais de gente conhecida, senão o governo de lá fica com tudo.

Mas não foi desta vez que chegaram a acertar tudo, e parte ficou para outra vez.

Algumas damas que cantam no coro faz quase um mês que não puderam se apresentar no “palco”, pois estão com os tímpanos partidos; o Watsons tinha falado tão alto que parecia que estivesse falando para uma platéia de surdos, e também na orquestra os rapazes tinham tocado muito alto. Parece que elas não sabem dos inúmeros elogios que os componentes da orquestra receberam dos pastores por terem apresentado músicas maravilhosas de hinos usados na América do Norte e na Inglaterra.

Bem, quem ainda não estava com os tímpanos partidos deve ter ficado na noite do domingo passado quando, por ocasião daquele trabalho especial dos jovens, a orquestra tocou o hino 400 do Cantor: “Igreja, alerta”. Eles ouviram este hino pela primeira vez apresentado pelos mensageiros da Convenção e em seguida o Butler ensinou a cantar, e agora os rapazes da orquestra já tocaram com a maior vibração. Se o Deter estivesse aqui e tivesse ouvido, teria ficado muito satisfeito que o pessoal gostou da música que eles cantaram.

Há uma pequena parte da igreja que nada contra a corrente e diz que não vai quebrar a língua aos pedaços para cantar em brasileiro. Algumas dessas pessoas em outros tempos já tinham cantado em brasileiro, mas agora a roda girou para trás.

O Roberto [Klavin] conseguiu por sorte terminar o trabalho e voltar para casa para as conferências, e colaborou intensamente para o sucesso dos trabalhos. Agora ele está construindo uma fábrica de farinha de mandioca no Rio Larangeiras e o Arnoldo Karklim estava trabalhando para ele como ajudante, mas logo no início trabalhou com tanto entusiasmo que fez um corte no pé e com isso parece que bastou.

Por que o [Fritz] Jankowiski não voltou para o seminário este ano? Aqui, apesar de inquirido, ele não deu uma resposta clara. Já na primeira noite o Leimans quis saber por que e qual a razão pela qual ele não voltou a estudar este ano. Ele respondeu que este ano as circunstâncias não tinham sido favoráveis, mas que no próximo se as coisas mudarem ele irá de novo.

O que ele tem escrito para você sobre o Rio Novo, dizendo que encontrou tudo bem diferente do que imaginava, e que as pessoas que ele conhecia por nome e informações também não eram bem assim. O Karlis Ignausku, que tinha estado em Rio Novo, tinha contado que os Karklis eram pessoas muito enérgicas, mas ele não pôde observar essa
energia, embora o velho seja realmente um tipo enérgico.

Você poderia transcrever as impressões de viagem dele sobre o Rio Novo e o que ele viu de bom ou diferente. Esta semana o Arthur recebeu uma longa carta dele escrita no dia 5 de junho. Ele tinha conseguido chegar em casa no dia 4 de junho. Tinha saído daqui de Orleans no dia 26 e no dia 30 pegaram o “Max” de Laguna até Desterro [Florianópolis] e na segunda-feira a noite pegaram o “Anna” até Itajay. De lá o Looks foi a pé, beirando o mar até em casa.

Mas ele [Fritz Jankowiski] ainda queria conhecer Blumenau e então pegou um naviozinho até lá. De lá ele iria pegar uma carroça para ir até em casa, mas não deu certo encontrar as ditas carroças, então enfrentou a noite enluarada com a mala e bagagem nas costas, como se fosse um mascate, e depois de doze horas de marcha chegou a Rio Branco.

Parou primeiro na casa dos pais e da irmã, que encontrou quieta e vazia. Já na casa dele encontrou cheia de gente. Tinha chegado o Waltauris de seu Castelo da Felicidade que é Porto União. Aqui ele já tinha falado da possibilidade de quando ele voltasse este estivesse lá pela casa dele. O pai dele não estava em casa porque ficou doente no dia 31 de maio e viajou de trem para Rio Negro para se tratar com médico.

Os outros que saíram da Convenção ficaram retidos cinco dias em Imbituba esperando navio.

Bem, hoje chega. Vou esperar uma longa carta sua. Como se passaram os seus dias livres? Foi algum outro leto para a “Chautauqua”? Os, jornais, vais continuar nos mandar? Nós só recebemos um pacote e faz muito tempo. Este ano eles voltarão de mandar de cortesia o “Drauga Balss”?

Muitas lembranças de todos nós aqui.

Olga

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