Como passaram rápido | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Nota em português no original]

Rio Novo, 25-2-1919

Querido Reinhold!

Primeiramente desejo transmitir sinceras saudações de todos de casa. Depois de longa espera, no dia 14 de fevereiro recebi duas cartas: uma escrita no dia 21 e outra do dia 31 de janeiro, e os jornais de 26 de janeiro. Muito obrigado mesmo!

É tão desagradável que tantas cartas tenham sido extraviadas e para mim o prejuízo daqueles desenhos, mas o que está perdido, está perdido — é inútil ficar esperando. Você não deve mandar nada sem ser registrado; pode ser que somente assim chegue mais rápido.

Cansada de esperar, mandei no dia 6-2-19 outra carta, que é provável que já tenha recebido. Nós não ficamos sabendo o que você fez durante as festas, pois nenhuma descrição das festas chegou até aqui.

O que o Ludis e o Victor te escrevem? Ou ainda estão vivos? Será que em São Paulo eles não receberam a visita daquela [gripe] espanhola? Eu nas minhas cartas muitas vezes tenho perguntado por eles, mas nas cartas que recebi você não menciona nada. Gostaria que você voltasse a escrever [sobre eles], pois é possível que estes assuntos tenham sumido nas cartas extraviadas. Eu mandei ao Ludi um cartão de Natal, mas não sei se ele recebeu. Qual é o endereço certo dele? É o mesmo ou já mudou?

Nós estamos todos bem e com saúde. Agora todos os grandes serviços daqui estão terminados. As roças de milho estão todas capinadas e ontem terminamos de plantar o feijão [das águas]. Plantamos um saco de sementes e poderíamos ter plantado mais, mas tinha muitas partes do milharal derrubado pelas tempestades e também muita chuva, e na semana passada não teve um dia sequer sem chuvas com trovoadas.

Na parte da manhã faz um calor que mais parece uma sauna, e de tarde chove. Com esse tempo o serviço não rende, e pouca coisa se pode fazer. Hoje arrancamos batata inglesa lá na Bukovina, que plantamos numa das baixadas; neste ano cresceram muito bem e deram muito grandes, do tamanho de um punho fechado, e num pedacinho pequeno os sacos são cheios rapidamente. Onde você mora eles plantam batatas inglesas?

Papus [papai, Jahnis Purim] e o Enoz [Ernesto Grüntall] começaram no mato do alto do morro, perto da cerejeira vermelha, a serrar tábuas. O Enoz estava nos devendo uma porção de dias de trabalho e o Paps sempre falava em fazer isto e mais aquilo, mas faltava madeira serrada [tábuas] e agora parece que vai dar certo.

[NOTA de V. A. Purim: As tábuas eram serradas por duas pessoas com o tronco colocado num estaleiro ou armação, sendo que a pessoa que ficasse na parte de cima fazia mais força, mas a que estivesse em baixo ficava com a serragem caindo por cima.]

Os pastos ainda não limpamos, mas não tem tanto mato como nos outros anos. Isso porque o “mata-pasto” [guanxuma] foi inteiramente morto pelas geadas.

No dia de 6 fevereiro levamos o grande porco, o “Kaschaku”, para a cidade. Como você não veio para casa, nós mesmos tivemos que puxar o monstro do chiqueiro para fora. Para a cidade a carga foi na Marsa e no Traginim, e eu fui montada na Zebra. O Puise puxava o Traginin e é a segunda vez que o Traginim foi para a cidade. O Toucinho do “kaschaku” rendeu 111 kg e em dinheiro rendeu 88$800, mas a carne e a banha ficaram em casa para o nosso consumo. Se tivesse sido levado inteiro teria dado mais de dez arrobas, mas em casa já estávamos precisando de carne, e levando toucinho sem carne eles pagam 1$000 a mais. Banha rendeu mais de uma arroba e essa vale 18$000.

Ainda não terminamos as contas de quanto vendemos no ano passado. As entradas do ano foram 952$920 e as saídas 327$500; o saldo ficou em 625$420. De toucinho foram vendidas 57 arrobas e 11 quilos, que renderam 633$620. Ovos, 242 dúzias por 107$800: em nenhum ano entrou tanto dinheiro em ovos. Em manteiga, 47$600. O feijão no ano passado não vendemos; quando tinha preço nós não tratamos com os compradores, e quando queríamos vender ninguém mais queria. Tudo está em casa e os gorgulhos estão começando roê-los.

Bem, desta vez já chega. Noutro dia eu escrevo mais. No Rio Novo ninguém morreu nem se casou. Vou aguardar longa carta sua. Durante as férias esperava receber muitas cartas suas, mas elas não vieram. Você decerto ganhou muito dinheiro nas férias, ou não? Pelo menos o dinheiro para o dia a dia deves ter ganho.

Ah! Semana passada fazem dois anos que tu foste embora. Como passaram rápido!

Com muitas saudações,

Olga

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