Um choque | Arthur Leiman a Reynaldo Purim

Rodeio do Assucar, 9 de nov. de 1918

Querido Reinhold! O Senhor esteja convosco. Não sei se esta carta irá encontrá-lo lá. Ontem eu trouxe uma carta para o teu pai em que tu também me dirigiste algumas linhas. Obrigado. Hoje pela manhã o Arnolds trouxe aquela carta que escreveste para nós em geral. Agradecido.

Mesmo que não queira me queixar, não posso realmente dizer que vou bem. Semana passada recebi um choque, como que fosse de tempestade ou de um raio que me tivesse caído na cabeça, que me deixou tonto e quase desorientado. Não me considero culpado em hipótese alguma, mas alguns me acham assim.

As reuniões das quintas-feiras à noite, com muita tristeza, terminaram. Pode ser que depois do Ano Novo possamos recomeçar. Os cultos das quartas-feiras continuam, mas quando um dirige desagrada outro e às vezes, quando é outro, aí desagrada o terceiro. Outros não gostam do presidente, pois acham-no muito tolerante, sendo que deixa as coisas correrem com nada estivesse acontecendo.

Você pode se preocupar, quase se matar de trabalhar e a recompensa é esta. Até agora tenho trabalhado até os limites das minhas forças e dos meus conhecimentos nas Escolas Dominicais, distribuído literatura, dirigindo cultos, ensinado a cantar e música tanto em leto como em brasileiro. O grupo de brasileiros é de aproximadamente 38 pessoas, e dos letos um pouco menor. Mas o que se pode fazer?

Não queria sair para o bem da igreja, mas agora sinto do alto uma sensação como que alguém me determinasse a ir embora e mudar-me daqui porque minha missão já teria sido cumprida aqui, e uma pessoa com vontade não pode ficar entre aquelas que nada fazem e nada querem.

Este ano está havendo guerra. Vou esperar passar o Ano Novo e depois, aconteça o que acontecer, vou tomar a minha decisão. Também não pergunte a ninguém os motivos, pois o estrago pode ser maior.

Os gafanhotos que pousaram estão pondo ovos e nascendo aos milhares, como pequenos demônios.

A Escola Dominical está se aprontando para as Festas e, como sabes, tenho mais trabalho do que forças para dar conta.

O tempo está seco e eu estou cuidando de arar a terra, mas esta está muito dura. O arado vai trepidando, e à noite o corpo da gente está todo estropiado. Durante a hora do almoço tenho de mexer e cuidar das abelhas, e ontem sem mais nem menos uma me ferrou embaixo do queixo — mas mel, que é bom, este ano parece que vai ser pouco.

O que fazer? Teria ainda muito o que contar, mas estou a caminho para visitar o Onofre. Que tudo te vá bem –

Lembranças do teu Arthurs [Leimans]

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