Pois nossa casa estava correndo perigo | Olga Purim a Reynaldo Purim

ADVERTÊNCIA
Esta carta apresenta uma série de não-conformidades. Houve falhas no comportamento de pessoas, sinais claros de ruptura na comunidade e também nas famílias, mas foram tratadas de modo pouco equilibrado pelo narrador, demonstrando partidarismos e envolvimento pessoal que até hoje poderiam causar embaraço aos seus descendentes. Além disso, algumas afirmações são baseadas em alguém que ouviu que alguém falou, e nunca teremos como verificar a outra parte. Sem interesse em gerar polêmica, mas por amor à fidelidade e à ambivalência da história, segue mais esta do jeito que foi escrita.
V. A. Purim

* * *

Escripto em letto
[Nota em português no original]

Rio Novo 22 setembro de 1918

Querido Reinold,

Na sexta-feira passada, voltando o Robert [Klavin] da cidade, trouxe para nós a tua carta escrita dia 6-9-18 em língua leta e que só demorou 2 semanas [para chegar]. Agradeço, pois me alegrei muito sabendo que aquela minha longa carta também recebestes. Na semana passada recebi os pacotes de jornais, um do dia 20, outro do dia 31 de agosto.

Agora a correspondência vai até que muito bem, pois todas as semanas recebo, senão cartas, então jornais. Não faz muito que escrevi uma outra longa carta em resposta àquela que veio dentro dos jornais no nome de E. L. [Eva Leiman]. As minhas cartas parecem que não são mais censuradas, pois todas chegam ao seu destino. Também aquela última tua não tinha sido aberta pela censura.

Os rapazes dos Klavim disseram que as cartas que eles escrevem para o Arthur [Leiman] e para você somem e não chegam a lugar nenhum. Não faz tempo, quando o Jurka ainda estava em casa, a encarregada dos Correios em Orleans perguntou se ele era irmão [palavras em itálico em português no original] pois sempre pedia as minhas cartas e ele respondeu que era “primo, sim”, mas não sei de onde arranjei esses “primos”. O Jurka acho que não sabe o que é primo. A Aninha é uma funcionária muito caprichosa e não dá a nossa correspondência para qualquer um, só para os primos.

Nós estamos passando bem. O tempo hoje de manhã estava quente e molhado. Ontem perto da noite veio uma tempestade com trovoadas e chuvas, mas agora todos dias ao entardecer fica um clima ameno e fresco. Hoje, 22 de setembro, é o primeiro dia da primavera, e hoje pela manhã realmente assim parecia. Os pastos ficando mais verdes, as laranjeiras plenas de flores, as abelhas trabalhando que chegam a zunir. Mas o tempo ainda está bastante irregular: ora está quente, ora frio.

No domingo passado, choveu forte quando voltávamos da igreja [na casa dos Leiman], e chegamos encharcados. Logo que limpou, noutro dia deu geada outra vez lá embaixo perto da igreja de Rio Novo ficou com o pasto todo branco.

A chuva é muito necessária, pois está tudo muito seco e ai é que acontecem as queimadas descontroladas que tem acontecido por aqui, e ainda bem que nós não fomos atingidos.

Na sábado passado foi um grande fogaréu.

Começou assim: na quinta-feira o Butler quis queimar uma pequena derrubada de capoeira grossa e soprava um vento forte. Ele tinha convocado o Augge [Augusto Felberg], os Grikis, os Leeknin e outros italianos que moram aí por perto para que às 13 horas estivessem lá para ajudar na queimada. Mas ainda nem eram 12 horas e o Butler com a Marta subiram o morro e puseram fogo. Quando o Augge e o seu pessoal viram a fumaça em sua direção, correram morro acima, em direção da queimada, e encontraram o Butler gritando que viessem correndo, que o fogo já tinha pulado pro mato do lado dele.

[NOTA: Queimadas de derrubadas (coivaras). Era convencionado que nenhuma queimada poderia ser executada sem a convocação do vizinho que possivelmente pudesse ser prejudicado. Este vizinho ou estes vizinhos tinham o poder do veto em caso de vento forte ou acendimento incorreto. Isto quer dizer que toda queimada tinha ser feita com os aceiros em perfeita ordem e começando sempre no lado que o vento não acelerasse a queimada e só depois de ter queimado uma área razoável, então iam cercando toda área com fogo. Mediante qualquer desobediência a este ritual poderia ser pleiteada indenização por danos causados.]

O vento vinha do lado do Grikis [sul]; justamente desse lado ele tinha posto o fogo, e o aceiro do outro lado não tinha ficado essas coisas. Nenhum ajudante tinha ainda chegado e ele, como um moleque afobado, que não sabe esperar, já tinha posto fogo. Ano passado, durante aquelas queimadas descontroladas, o Butler também tinha posto fogo e queimado meio mundo; agora outra vez, um fogo ainda maior que no ano passado.

O Augge correu para a casa velha dele e pegou um cavalo e saiu em desabalada carreira atravessando as roças para avisar os Karklin que um fogo descontrolado seguia na direção deles, e daí para os Stekert, Suschen e também o Wilis Balod e muitos outros italianos das vizinhanças. Com este todo povo trabalhando, conseguiram apagar já dentro das terras dos Karklin. O Butler mesmo, logo que o dele queimou, desceu e foi direitinho para casa; nem foi ver o tamanho do desastre que tinha provocado.

Aí, na quinta, o vento amainou e nada mais aconteceu. Mas no sábado lá pelo meio-dia começou soprar o vento quente do lado da serra. Lá pela uma da tarde avistamos rolos de fumaça negra do lado da igreja velha [norte]. A fumaça indicava fogo muito próximo, pois apareciam labaredas e faíscas de fogo lá por detrás do morro.

Nós todos ficamos assustados, pois o fogo poderia descer o morro, empurrado pelo vento, para a nossa casa. O Puisse [Artur Purim] foi correndo avaliar a situação e voltou informando que o fogo ainda estava no outro lado do banhado do Augge. Nem a casa nem as cercas do Augge podiam ser vistas, envoltas que estavam na densa fumaça. Mas ele pôde enxergar grandes labaredas de fogo saindo do alto do mato.

O Puisse voou para o lombo da Marsa e foi chamar Papai, que estava na roça, pois nossa casa estava em perigo, coberta de fumaça, com o vento empurrando agora o fogo em nossa direção. Enchemos todas barricas de água e começamos em desespero a molhar o telhado de tabuinhas do telhado da nossa cozinha. As tabuinhas estavam um tanto apodrecidas e já deviam ter sido trocadas; do jeito que estavam, era uma só faísca que aquilo explodiria em chamas.

O Enoz já tinha chamado o Schuschirs e o Willis Balod. Quando Papai chegou, apanhamos baldes e enxadas e subimos o morro tentando deter o fogo, antes de chegar mais perto, ainda no banhado do Augge. Para a casa do Augge, faltavam só três metros para que o fogo a tomasse conta.

Era um exército em luta diretamente contra o fogo. O pessoal do Augge, os rapazes dos Karklin, os Schunschis, o Vilis Balod com uma porção de camaradas. A senhora Grüntal também veio, apesar do sábado santo, o Karlis Karkle — enfim todos, com muito denodo e determinação enfrentaram as chamas e as debelaram.

Eram mais de 30 pessoas ao todo, e o que ajudou também foi que o poço tinha bastante água para que o pessoal jogasse no telhado da casa, naquele caminho que vai da casa do Augge para a casa de B. [Butler] e também para o caminho que vai para a igreja velha. Segundo a versão de alguns rapazes, o Butler tinha subido e perguntado se o fogo estava longe e eles teriam respondido que estava no mato ali mesmo; ele teria dito que este o ano o diabo mesmo ia apagar esse fogo, e descido em seguida novamente para casa.

A colônia do Augge queimou inteira, e também 100 braças de cerca de arame farpado, e mais outro tanto de cercas de espinheiros maricá do Willis Balod. Todo aquele pasto do velho Leepkaln ficou inteiramente queimado.

[NOTA: As cercas de espinheiros maricá (Mimosa bimucronata) eram cercas vivas ou sebes, e eram desenvolvidas do seguinte modo: no lugar onde se queria a cerca eram plantadas desta espécie de árvore espinhenta numa distância regular de uns 50 cm. Logo que estivessem bem desenvolvidas, isto é, com uns 2 metros de altura, era cavada em paralelo e no lado de dentro do pasto uma valeta de um metro de profundidade com uns 50 cm de largura. Esta terra era jogada sobre os espinheiros, e logo os espinheiros eram parcialmente cortados e dobrados (virados) por cima da terra, e assim rebrotavam; quando crescidos novamente eram virados, formando uma barreira para que o animal não passasse. Também podiam ser plantados ananazes com a mesma função. A valeta era para que quando o animal pusesse as patas dianteiras lá dentro não tivesse mais impulso para saltar através dos espinhos.

Quanto a este caso específico, não temos os dados suficientes para determinar a real responsabilidade pelo desastre, mas achamos que pode ter sido falta de orientação pelos responsáveis pela comunidade — uma vez que o pastor Butler, embora tenha vivido algum tempo em Rio Novo logo depois da sua chegada da Letônia, logo viajou para os Estados Unidos da América, onde frequentou a diversas Escolas Superiores; retornando ao Brasil, permaneceu como professor do Seminário e Colégio Batista do Rio de Janeiro. Só depois disso veio a assumir a nova função de pastor e agricultor na colônia de Rio Novo. Não deve ser justo esperar que, quando ocorreu esta calamidade, ele tivesse toda a experiência e informações necessárias para dominar a nova atividade.]

Nós naquele dia voltamos para casa só lá pelas quatro horas e, como todo sábado, fomos fazer pão e mais todo aquele serviço, como tu bem sabes — todos sujos e exaustos ao extremo, um calor de rachar e tudo enfumaçado.

[NOTA: Aos sábados, principalmente à tarde, havia uma preparação para o domingo. Era lavado o assoalho da casa, feita uma faxina geral na parte externa, varrido o terreiro, passada a roupa com ferro a carvão para ser usada para ir a igreja, abatidas e limpas as galinhas para o almoço de domingo, feitos um pão de ló, bolachas ou pastel para se poder oferecer a alguma eventual visita que viesse no domingo à tarde, engraxados os sapatos, trazida uma reserva de cana ou de qualquer alimento suplementar para que no domingo somente fosse colocado para o gado comer; da mesma forma era cozido um tacho de batatas suplementar para os porcos e muitas outras coisas, como a troca da roupa de cama e do banho geral de gamela ou de sauna, pois aos domingos além de todos estarem imaculadamente limpos deveriam também fazer somente o inadiável como ordenhar as vacas e alimentar os animais.]

Pensávamos que não seria possível ir para a igreja [no dia seguinte], pois com tempo limpo e o perigo de reavivar algum foco de fogo, não seria seguro que todos saíssem de casa. Mas à noite ficou nublado e pela manhã começou a chover, e assim choveu o dia inteiro, apagando tudo. Não se pode brincar “com o honorável pai fogo” [ar seenigu tevu uguni].

O Butler agora tem mais inimigos que amigos. Antes a igreja fazia mutirão para fazer derrubadas, plantar, capinar e colhia o milho — agora eles mesmo tem que fazer. Aqueles bons tempos já se foram; ninguém mais vai trabalhar e todos falam: que trabalhem eles mesmos.

O Butler mesmo declinou uma vez do cargo de pastor. Não sei de onde saiu uma conversa de que o Willis Leimam estaria vindo para cá, para que ele de medo reconsiderasse, para não perder o seu bom lugar, mas o Wilis não virá. Isto esse povo inventou, pois o Butler não quer ninguém. Ele teria dito que não falaria para nenhum outro pastor vir para cá, pois as pessoas aqui são muito pobres e não conseguem pagar adequadamente o seu salário.

O João [Frischembruder] de Riga vai ano que vem deixar o cargo de professor. O Butler então apresentou a Marta para a vaga de professora. Vamos ver se vão aceitar. Ela espera um bom salário para ficar sentada algumas horas, diante de 10 ou 15 crianças, e ensinar o ABC. Agora o João de Riga está ganhando 45$000 réis por mês, e isso para o Butler serviria muito bem.

O Butler teria também se oferecido, a alguém de maior idade que quisesse se especializar, para dar algumas horas de aula por semana. E, quanto à Marta ser professora, não sei se vai dar alguma coisa, pois ela nunca foi a escola nenhuma. Quando ela começar a dar aula eu também devo ir aprender um pouco de inglês e álgebra com a digníssima esposa do Doutor, pois outras matérias mais comuns não vale à pena. Eu no primeiro dia a submeteria a um exame, e no outro dia não precisaria mais ir.

O genro do velho Butler, o Peteris, teria ido embora, não sei para onde. Ele e a Kate viviam brigando, e chegaram a ir à justiça apresentar queixas contra a Kate e o Peter. Ganharam a questão, mas tiveram que pagar bem para a justiça, porque na realidade viviam como gato e cachorro. A Kate queria que a justiça os separasse, mas isso ela não fez. A justiça teria dito para o Peter que a Kate teria dito lá na justiça para ele ir embora. Ele pode até estar indo embora, mas depois de algum tempo ele volta e vive novamente com ela: a Kate não pode mandá-lo embora.

Então o Peteris teria vendido os porcos e bois que lhe pertenciam e tinha viajado. Dizem que o Peteris não é tão má pessoa, mas a Kate reclamava demais que ele não providenciava roupas bonitas para os filhos e não comprava pão branco para eles. Agora toda Orleans sabe que “maravilhosa” irmã tem o Butler.

Bem, agora vou começar a terminar. Quanto à tua vinda nas férias, iria trazer alegria para todos nós. Informe-se com as pessoas aí se os navios tem terceira classe. Nós aqui de navios sabemos pouco, pois estamos longe daquele açude cheio, mas você pode descobrir até quem sabe nas tuas igrejas: pode ter alguma pessoa que tenha informações sobre este assunto, e depois nos escreva. Quando receber essas notícias eu te mando o dinheiro para as passagens, pois sei que você para isso não tem.

Bem, agora chega. Vou aguardar uma longa carta, pois tens que mandar notícias novas de lá. Muitas lembranças de Papai, Mamãe, Luzija, Arthurs e

Olga

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