Os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[Observação em português no original]

Rio Novo, 8 de setembro de 1918

Querido Reinold!!

Envio muitas lembranças. Sexta-feira, dia 6 de setembro, o Arnolds [Leiman], voltando da cidade, deixou preso, enfiado entre os sarrafos da porteira da entrada de nossa casa, um rolo de jornais; enrolada entre eles estava uma carta, pela qual agradeço. Tinha demorado mais de um mês, mas enfim chegou.

Hoje fomos nos Leimann, e a senhora Leiman também entregou uma carta escrita em 24-8-18, em brasileiro, que o próprio Arnolds tinha trazido na sexta-feira. Esta veio muito rápido. A senhora Leiman tinha ficado feliz, achando que a carta era do filho Karl, que faz muito tempo que não escreve. Mas não era.

Chegou a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa.

Bem, agora preciso responder as duas cartas. Há três semanas escrevi uma longa carta registrada e é possível que já tenhas recebido, pois nela contei todas as novidades daqui. Das cartas sumidas nem notícia, e acho que estão perdidas para sempre.

Nós graças a Deus estamos passando bem. Ficamos muito alegres em saber que também estás passando bem. Estamos todos com saúde; ficar doente não está na moda e também por falta absoluta de tempo, pois serviço a gente tem demais.

A época do plantio chegou. A derrubada da mata daquela parte perto da casa terminamos, como já escrevi. Aproveitamos para derrubar o capoeirão que ficava junto do lado da mata e o Enoz [Ernesto Grüntal] derrubou a capoeira do lado dele, assim vai ser uma grande queimada e uma grande coivara.

Plantamos 1500 pés de cana de açúcar e 2000 de rama de mandioca. Agora estamos capinando aquela coivara do ano anterior, perto da ponte, e está quase no fim. Lá vamos plantar o milho de cedo, onde mais tarde vamos plantar [intercalado ou consorciado] feijão.

Outras coisas não temos começado ainda a plantar, porque o tempo está tão seco e a terra tão dura que se torna difícil fazer uma simples cova. Já vai fazer um mês que não chove uma chuva de verdade. Fica nublado freqüentemente, mas não chove nada e quando começa já para. Todo o capim e as samambaias estão totalmente secos. Se por acaso pegar fogo, parece pólvora; se ainda houver vento, apagar nem pensar. Na nossa propriedade não aconteceu de pegar fogo em nada, mas no domingo passado teve outra vez uma tempestade de fogo.

A atmosfera está extremamente seca, esfumaçada e um clima pesado. Soprava aquele vento quente do lado da serra e se aprontava para uma tempestade com ventania e trovoadas. Quando estávamos voltando da igreja [na casa dos Leiman] estava queimando alguma coisa lá para os lado do Rodeio das Antas, mas parecia muito longe — e também estavam queimando as matas dos Klavin. Mas, quando chegamos na altura dos Grunski o vento estava trazendo fumaça e um calor que parecia uma sauna.

Mais tarde, quando escureceu, roncava trovoada por todos os lados e o vento parou, e parecia que fosse cair aquela tormenta de chuva. A noite estava por demais escura. Era a noite em que a Igreja do Rio Novo estava festejando a Festa da Colheita [Ação de graças], e as pessoas iam descendo como que seguindo um fio, pois não se enxergava absolutamente nada. A chuva começou, mas logo parou. Durante o anoitecer o morro dos Leepkaln estava já um pouco iluminado pelo fogo, mas lá pelas dez ou onze horas ficou tão iluminado que parecia que o fogo estivesse aí mais perto. Voltou soprar um vento forte que trazia redemoinhos de fumaça, e a trovoada continuando.

O pessoal que estava na Igreja do Rio Novo passava correndo para as suas casas. Aquele fogaréu era nas samambaias do João Leepkaln, e daí subiu para as colônias do velho Indrikson, depois para a do Grunski.

O povo que estava tentando apagar gritava e urrava, alertando e tentando flanquear a frente de fogo. Mais tarde começou a chover e apagou tudo, e se não fosse assim não sei onde teria terminado.

Queimou a maior parte das terras do Leepkaln e chegou mesmo a pegar fogo na casa dele, enquanto ele estava na festa, mas aí os vizinhos e outras pessoas conseguiram apagar.

A partir de agora se o governo descobrir quem são as pessoas que põem fogo por aí, é cadeia na certa — ou terão que pagar pesadas multas. Neste caso foram alguns rapazes brasileiros que resolveram por fogo nas samambaias secas. Agora com estas ameaças do governo acho que eles vão ficar mais temerosos.

Como já escrevi na outra carta, passamos pelos tempos [das medições] dos agrimensores: agora está tudo medido e pago. Este ano foi tudo bem, porque não tivemos que pagar ninguém para ajudar. Pessoas para ajudar [voluntariamente] havia bastante: dos Karkle o Velho e o Karlis, o Enoz, Papai e o Puisse e mais o Joaquim Flontim, que agora mora na casa do velho Balod. Agora ele comprou o terreno que fica perto daquele do Frischembruder, portanto faz divisa com o nosso: agora é nosso vizinho. Por isso mesmo ele ajudou a medir, porque assim ficou sabendo direito onde estão as extremas [divisas]. Ele mesmo é brasileiro, mas é casado com uma alemã de Orleans, filha do velho Jung.

Do lado dos agrimensores eram quatro ao todo: três brasileiros e o Hermans Hilberts, que é o responsável, pois ele dá o início e deixa para os outros o trabalho de abrir a picada, assentar os aparelhos e puxar as correntes. Ele fica só com os cálculos.

O pagamento também não é por dia e sim por metro. Por mil metros o preço é 10$000 réis; se medem bastante ganham bastante, e se medem menos ganham menos. Se passarem o dia inteiro e nada medirem, não será pago nada.

O pagamento de nossa parte foi a meia com o Karklis, e a nossa parte deu 12$600 Réis. Para o diretor [da Empresa Colonizadora Grão Pará] pagamos o que faltava para a quitação final, que era 116$000 réis.

Agora as terras estão muito caras, 0$35 a braça [quadrada], e para aqueles que não pagaram regularmente todo ano foram estabelecidos novos preços. Já foram os tempos em que cada um fazia o que queria. Agora se um não consegue pagar, é passado para outro que quer trabalhar. Este ano novamente os soldados estão tocando brasileiros das terras que não compraram e ficam acocorados nas suas benfeitorias [palavra escrita em português no original].

A senhora Karkle teve a honra de engordar os agrimensores. Ela dava o “broukast” [café da manhã reforçado] e o Karlis e o Ernests levavam o “pusdienu” [“janta” do meio-dia] para o nosso rancho na Bukuvina, onde era ponto do almoço. Para nós sobrou a “vakarinhas” [ceia da noite] e o pernoite, e algumas vezes o café da manhã.

Ocorreram diversas mudanças em nossa colônia. O magnífico Firmanis Peteris logo vem para morar no fim da estrada do Grikis, naquela capoeira do Limors, e vai construir uma casa nova. A madeira já trouxe e logo vai começar a construção.

Também o genro do velho Geda, com sua Leni, foram para a sua propriedade nos fundos, e lá moram como se fossem realmente brasileiros.

Também a senhora Sanerip veio de Campinas [Araranguá] para morar aqui. Ela comprou dois terrenos do Bekeris, e assim uma família leta a mais.

Mas também o Matiss e o pessoal dele foram para São Paulo. E ainda o Juris Klavin foi para Nova Odessa, com aqueles imensos salários ganhar!

Agora as passagens de navio estão extremamente caras, porque os navios que saem de Imbituba tem somente primeira classe, e esta dizem que custa mais de 90$000.

Você durante as férias virá para casa? Se outros navios tivessem a terceira classe, como antigamente, por 50$000 Réis, até não custaria tanto. Mas, agora quase 200$000 Réis de ida e volta e mais a parte de trem.

Você diz que vai procurar lugar para ficar, mas será que vais encontrar? E se conseguir um lugar para ficar vai precisar ganhar para o sustento; será que vale a pena? O Ludis tem escrito e convidado para passar as férias com ele? Quem sabe fosse mais fácil. O que o Victor te escreve? Poderias escrever mais sobre os parentes de São Paulo.

Tens recebido cartas do Arthur Leiman? Na última ele reclamava que fazia seis meses que estava prá lá [na Argentina] e não tinha recebido nenhuma carta dos rapazes do Klavin. E do Rio Novo também nada sabia. Tu sabes por onde anda o Karlis Salit e se está vivo? O pessoal de Rio Novo alardeava que ele estava preso ou enforcado. Certo ninguém sabe. Tens escrito para o Karlis Leiman? A senhora Leiman disse que você teria escrito para ele diversas vezes e, como não tinha recebido respostas, deixara de escrever.

Os Leiman estão bem e vivem como sempre. Construíram novo paiol e até Papai também foi ajudar a levantar. Agora o Robert [Klavin] às quartas-feiras nos ensina a cantar, mas ele não tem a desenvoltura do Arthur [Leiman].

Desta vez chega, noutra vez tem mais. Esperaremos de você longas cartas.

Ainda muitas e amáveis lembranças do Papai, Mamãe, Luzija e do Arthur. Fico sua resposta aguardando,

Olga

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s