Qualquer brasileiro que estivesse usando calças | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto!
[nota em português no original]

Rio Novo, 11 de agosto de 1918

Querido Reini,

Primeiramente envio muitas lembranças! Na semana passada, no dia 8 de agosto recebi duas cartas suas, uma escrita no dia 17-7-18 e a outra no dia 22-7-18, ambas escritas em brasileiro. Muito obrigado. Estávamos bem desiludidos de tanto esperar cartas, pois fazia 3 meses que não recebíamos cartas suas e somente jornais.

Naquele mesmo dia em que recebi as cartas, mandei 200$000 via cartão. Cansada de esperar suas cartas, semanas atrás mandei uma, de que ainda não recebi resposta. As tuas cartas anteriores, nenhuma delas foi por nós recebida, nem aquelas que você diz ter mandado em nome do R. K. [Roberto Klavin], nem aquele rolinho.

Aquele jornal leto é maior que os nossos jornais? Se não é, pode enrolar junto com os outros jornais porque jornais ninguém abre. Você pede que eu escreva em brasileiro, mas com tantas novidades eu não conseguiria escrever e ainda tenho muita dificuldade.

Terminamos de colher o milho no dia 3 de agosto. No ano passado tínhamos terminado 19 de julho. O atraso foi devido a vários fatores, principalmente ao fato de que começamos mais tarde e que a maior parte das nossas roças estavam na Bukuvina, sendo que nos outros anos tínhamos poucas roças lá. Despejamos no paiol 195 cargas — 5 menos que no ano passado, e as espigas também foram menores este ano.

Ainda bem que deu razoavelmente, apesar da seca. E em alguns lugares os gafanhotos comeram. Também os temporais deram bastante prejuízo, derrubando muito. Alguns foram derrubados mesmo antes de pendoar, e ai que não deu nada mesmo. Havia partes onde o milho derrubado era mais do que aquele em pé.

As abóboras, estas sim cresceram bem. Pena que a geada queimou boa parte, e estas apodrecem muito rápido. Mas assim mesmo tem muita abóbora para trazer para casa.

O tempo está magnífico e fresco. Também não chove muito, e algumas semanas atrás estava tão quente que parecia verão e o tempo muito enfumaçado. Fazia três semanas que não tinha chovido e tinham começado as queimadas, e os serranos estavam queimando os campos. Se o tempo continuar seco, como tudo está seco devidos às geadas, vai queimar o mundo inteiro, pois onde queimou ano passado tinha somente samambaias e vegetação rasteira, e esta foi totalmente queimada pelas geadas.

Geadas não tivemos mais. Semana passada um dia choveu um pouco e depois limpou à custa de um vento frio. Noutro dia fui trabalhar na Bukuvina e as serras estavam cobertas de neve, nunca tinha visto as serras tão brancas e tão baixas, mas naquele dia geada não deu. Se não fosse aquelas quatro manhãs com aquelas grandes geadas não teríamos tido grandes prejuízos [NOTA: Da Bukuvina a gente tinha uma vista maravilhosa e privilegiada das serras. Quando se diz que a neve estava baixa é que a neve não estava só no alto, mas também descendo pelas encostas para o lado do chamado “serra abaixo”(leste).].

As nossas laranjeiras estão vivas e começando a florescer. Das dos outros, aí mais para baixo, a geada derrubou todas folhas e frutos. Os pessegueiros estão em flor.

Semana passada fizemos açúcar, deu duas fornadas (tachos). A cana não se desenvolveu bem devido à seca. As da soca estavam quase secas e as novas ficaram queimadas pelas geadas. Ainda bem que não foram todas e ainda sobraram para mudas; os outros nem isso tem. A nossa sorte foi aquela roça atrás do mato, ficou bem protegida do frio. O açúcar está valendo entre 12 e 15$000 a arroba, e vai subir mais. Nós não temos comprado, pois ainda temos e também temos mel, então quanto ao açúcar ter ou não, não faz diferença.

Agora estamos fazendo derrubada da mata (coivara) perto de casa naquela grota que chamamos de “pequena mata”, coisa que já tínhamos resolvido fazer há muito tempo. Por baixo está tudo roçado. Papai e o Puisse estão derrubando as grandes árvores, que caem com um grande gemido seguido de um imenso estrondo. Preste atenção com o ouvido que quem sabe você escute o barulho das árvores caindo. O Puisse está com mais de um metro e meio de altura, e fica ainda maior quando tem chance de ajudar a derrubar a mata [NOTA: Puisse é “menino” ou “rapaz” em leto, e refere-se a Otto Roberto Purim, mais conhecido como Artur].

Estamos comendo muito palmito [Euterpe edulis]. E não só nós, mas também o gado. O Puisse traz os palmitos e também folhas de palmeira para o gado; nesta época são muito úteis porque, devido às geadas e à seca, não há grama verde nenhuma [NOTA: Eram muito usadas para alimentação do gado as folhas de palmeira ou do muito conhecido coqueiro jerivá, (Arecastrum romanzoffianum)].

Também nas capoeiras não há grandiúvas [Trema micrantha], ingaseiros [NOTA: Ingá uma árvore da família das leguminosas (Inga uruguensis). As mais conhecidas em Rio Novo eram o ingá macaco, o ingá banana e o ingá feijão. Este último medrava melhor em beira de rios e riachos] nem caetés [helicônia]: tudo está queimado pelas grandes geadas.

Nas próximas férias aguardamos você aqui em casa.

Quanto à obediência aos regulamentos do alistamento para o exército, acho que não precisas se preocupar, pois quanto sei esta inscrição é voluntária e você por isso não necessariamente precisa fazê-la. Estas ameaças são engodo simplesmente para assustar. Lá, quem está insistindo para você se alistar? Ninguém pode forçar, pois você pertence ao estado de Sta. Catarina.

Certo, se você for sorteado, aí sim você deve se apresentar. Ano passado havia um papo de que quem estivesse estudando, isto é, fazendo curso superior, era automaticamente dispensado. Aqui entre os letos ninguém foi chamado. Quando do último sorteio, em fevereiro, somente quinze jovens foram chamados do município de Orleans e foram para Florianópolis — por quanto tempo não sei, mas eram italianos e brasileiros. Não sei se vão colocar o seu nome na lista daqueles a serem sorteados, pois no ano passado o seu nome não estava.

Quanto à associação “Tiro de Guerra”, as pessoas que nela se inscrevem tem que se apresentar aos exercícios com sua própria roupa e levar a sua própria comida. Para o governo é uma vantagem tremenda, pois aí aprendem a atirar e, em caso de necessidade de alguma convulsão social, serão os primeiros a serem chamados.

Ano passado o Artur Leimann estava em Orleans e uma pessoa desconhecida o abordou e logo foi tirando do bolso um papel e exigindo que o assinasse. Não falou porquê e nem o que era este papel. Depois de longa discussão e quando viu que deste modo não ia conseguir nada, só então falou que era agente do “Tiro de Guerra” alistando novos atiradores, e que quem não fosse por bem ele poderia levar a força. Mas na realidade ele não poderia forçar coisa nenhuma, pois as pessoas que se alistam tem de ter meios para sua sobrevivência. Se o governo quiser forçar, deveria ter meios para sustentar toda esta gente. Hoje o pessoal do governo ignora essa gente que se alista. Elas têm que providenciar por sua conta o seu uniforme, hospedagem e alimentação. Por isso aconselho você a não se inscrever em nada, pois podes até entrar em fria.

Aqui por enquanto está tudo calmo e em paz. Só no domingo, primeiro de agosto, dia da eleição do “intendente”, teve uma grande briga, porque este ano nem todos puderam votar, só os que tinham toda a terra (colônia) quitada e registrada na justiça. Como sabes, existem dois partidos, um o antigo e outro do Galdino. O Galdino queria esta honra por todos os meios e saiu por aí tentando conquistar votos [NOTA: Galdino Guedes era da oposição, Mais tarde, com a revolução de 1930, foi nomeado prefeito].

Este ano a burocracia era a seguinte: quem tivesse propriedade desonerada passava na justiça e lá pegava um recibo, e assim estava apto para votar. Se não tivesse este papel na mão, nada feito. Bem diferente de outros anos, em que qualquer brasileiro que estivesse usando calças tinha o direito de votar.

E outra vez elegeram o velho José da Silva. O Galdino não gostou nada, então soltou bebida por conta dele aos seus partidários. Quando a cabeça está cheia de pinga a coragem também é grande, e começou a briga: todo mundo com pistolas, e começou o maior tiroteio. Houve uma morte e diversos feridos. Também o Ricardo, filho do Germano Balod, estava no meio da multidão e levou um tiro: a bala atravessou as costelas. Não sei se ainda está vivo, só sei que estava muito mal. Diretamente ninguém atirou nele, mas como estava no meio da multidão, sobrou pra ele. Também, por que estes rapazes tem que meter o nariz, envolvendo-se em toda encrenca que aparece? Os rapazes do Rio Novo também estavam lá, mas logo que sentiram a boca quente deram no pé para as suas casas. É o que acontece quando esta gente jovem, que nada tem a fazer em eleições de intendentes, se mete em encrencas onde nem foram chamados.

Nestas férias você poderia vir para casa. Você não tem onde ir mesmo. Faz muito tempo que não nos vemos. Terás tanta coisa para contar que levará mais de um mês. Ou não?

Você poderia nos trazer uma caixa de querosene, porque aqui só vendem em garrafas. Uma caixa [com duas latas de 18 litros cada] custa 50$000. Se algum negociante tem uma lata ele não vende, porque tem que servir a uma porção de fregueses que sairiam insatisfeitos sem a mercadoria.

Outro dia li num jornal, nas notícias de mercado, que no Rio uma caixa está custando 20$000. Assim, se trouxeres uma caixa, poderemos ganhar 30$000. Ainda temos daquela caixa que compramos ano passado por 18$500, mas quando esta acabar não sei como vamos nos arranjar.

Tudo está ficando muito caro. Por exemplo, a potassa [soda cáustica] para fazer sabão nós antigamente comprávamos por $600 réis; ano passado já custava 2$000 e agora está custando entre 6 e 8$000 réis. Pergunte quanto custa lá. Sei que o transporte também custa, mas não custa perguntar — e acho que assim mesmo vai ficar muito mais barato.

Comparando o que estamos vendendo, estamos perdendo, porque o preço não sobe na mesma proporção. O feijão agora está valendo 16$000 réis o saco. Nós ainda não vendemos o nosso. Se com um saco de feijão pudéssemos comprar uma caixa de querosene, seria ótimo. O toucinho no dia 10-8 estava a 11$500 réis a arroba. O milho está a 7$000 a saca. Coitado de quem tem comprar a farinha de milho, já paga outro preço. A manteiga está valendo 2$500 réis o quilo. Ovos estávamos vendendo a $600 – $500 réis, e agora está somente $400 réis a dúzia.

***

Agora vai fazer uma semana que estou escrevendo esta carta. Hoje é 18 de agosto. Semana passada não deu para ninguém descer a Orleans para por no correio e a minha carta ficou aguardando inacabada.

Ontem recebi os jornais enviados no dia 12-7-18 e dois pacotinhos expedidos no dia 26-7-18, e também os boletins cor-de-rosa.

Semana passada começou a temporada das medições, pois os agrimensores estão por ai. Primeiro mediram as terras as terras do Burmeister, dos Karklis, do Bekeris e de outros, então daí chegou a nossa vez. No primeiro dia choveu muito o dia inteiro e eles voltaram do mato mais molhados do que ratazanas. O Karkle falou que época de medições é tempo de preocupações e sobressaltos e a gente fica parecida como os slatvengeanos e os tchanglegeanos. Sobre isso o Puisse deverá escrever com detalhes, uma vez que é ele que está acompanhando estes profissionais [NOTA: A analogia — slatvengeanos e tchanglegeanos — é com figuras de um clássico da literatura leta vivenciado no período da Reforma Agrária na Letônia, nos meados do século XVIII (Mernieku Laiki, de Kaudzites Reinis e Kaudzites Matiss). Talvez durante as medições houvesse a possibilidade de que, quando confirmado pelos agrimensores, um ou outro lado ficasse com prejuízo ou vantagem, pelo menos aparente, pois não é possível agradar os gregos e troianos ao mesmo tempo].

Hoje na igreja do Rio Novo é a grande festa de despedida do Matiss e do Pedschem(?), e quem sabe também do Jurka Klavin, que vão viajar para São Paulo. Vão procurar as maravilhas que contam de lá.

Neste momento a igreja de Rio Novo parece um botequim: uns correm, outros dão gargalhadas tão alto que se escutam aqui de casa. Porém todos desejam sucesso para o Matiss.

Mas como disse o Karkles em seu discurso na semana passada quando veio aqui em casa: “Não pode ser considerada uma pessoa séria a que fica valsando de um lado para outro lado do mundo. Só porque os negócios aqui não estão se desenvolvendo bem, vai em busca de outras paragens. Se aqui ele já tem logrado e enganado a quase todos, então que vá embora”. Isso faz lembrar aquele que foi para o Rio e quanto tempo parou lá? Voltou com o rabo entre as pernas como um cachorro que apanhou uma surra. Eu ainda vou conversar sério com ele.

Ainda bem que já sabemos o discurso do sr. Karkles, assim não precisamos ir a estas festas. Assim economizamos os 300 réis que é quanto cobram pela entrada nessa festa.

Bem, por hoje chega. Aguardo uma carta tão comprida quanto a minha. Com muitas e amáveis lembranças de nós todos,

Olga

[nas laterais:] Você pode escrever em brasileiro, mas as palavras difíceis, que você sabe que eu não sei, você tente não utilizar. Aquelas palavras mais difíceis e desconhecidas você escreva em leto. Assim também faz o Arthur Leimann: muitas palavras ele escreve em leto. Hoje voltou a dar uma grande geada. Está fazendo tempo bom, mas muito frio.

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