As maiores que eu já tinha visto | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 23 de Julho de 1918

Querido Reini,

Primeiramente mando muitas lembranças. Faz realmente muito tempo que não recebemos cartas suas e estamos cansados de esperar, pois nunca chegam. Estou escrevendo outra vez, pois há mais ou menos um mês mandei uma carta e depois de semanas mandei um cartão postal. Os jornais recebemos regularmente e junto as anotações das cartas recebidas e expedidas, mas não recebemos nenhuma. Aquele rolinho também não recebemos. O que tinha este rolinho?

Durante o tempo todo que estás no Rio este ano, recebemos somente três cartas e assim mesmo foi muito tempo atrás. As cartas você poderia colocar dentro de jornais, pois estes chegam.

Nós aqui vamos mais ou menos bem; saudáveis todos não estamos, uns com tosse, outros com dor de cabeça. Papai na semana passada ficou dois dias de cama, mas agora está melhor e já está indo para a roça trabalhar.

Hoje o tempo está quente e um pouco nublado, está se aprontando para chuva, coisa que não acontece já há uma semana.

Agora vou contar os acontecimentos deste mês. O dia de São João este ano foi o mais lindo que eu jamais vi. No dia anterior estava nublado e choveu um pouco. Mas durante a madrugada o tempo limpou e começou a soprar um vento tão frio que no cocho, onde cai a água da fonte, tinha uma camada de gelo de quatro polegadas de espessura, que não derreteu durante o dia inteiro, porque o vento uivava durante todo o dia. Esse vento congelou todas as nossas bananeiras, os inhames e tudo que era verde. Pela manhã a tarde estava cinza [geada preta], bem diferente das geadas normais.

Falando em geadas, este ano entre 4 e 8 de julho foram realmente as maiores que eu já tinha visto. Nestas manhãs o frio e a brancura eram tremendas; nos lugares que o sol não batia direto ficou branco o dia inteiro e onde o chão era úmido e tinha lama, a mesma estava tão endurecida que se podia andar por cima que não atolava e fazia um frio tão grande que você não pode imaginar… Essa geada realmente matou tudo que tinha sobrado ainda verde. Para onde quer que se olhe está tudo cinza. Está uma paisagem muito triste. As matas estão com uma coloração marrom, e onde a mata não é bem fechada até os caetés morreram de frio. Para se conseguir caetés tem-se entrar bem no fundo da mata, bem no alto do morro [NOTA: As folhas de caeté-banana (Helicónia) eram usadas para forrar as formas para assar pão de farinha de milho. O caeté-chumbo não era aceito pelas donas de casa por ser muito rígido e não se adaptar às formas de fazer o pão.].

Nas capoeiras as grandiuvas, ingaseiros e canafístulas [foram] todas mortas pelo frio. A cana de açúcar está morta até a soca e acho que dali não sairão mais brotos. Mudas [ramas] de mandioca não serão encontradas em todo o estado de Sta. Catarina. Nos guardávamos as ramas cobertas de palha de arroz, mas estas também congelaram. A nossa sorte foi que guardamos uma grande parte naquele rancho coberto na roça e estas estão vivinhas.

Bem, quem estarão atrapalhados ano que vem serão os fabricantes de farinha de mandioca, pois quase não há mudas para plantar e a farinha está tão cara: um saco está valendo entre 10$000 e 12$000. e o polvilho chega a 22$000 a saca. No Engenho dos Leimann os Klavin estavam fazendo farinha a semana inteira. Fizeram umas 50 sacas. Os Leiman fizeram mais de 30 sacas. Os Klavin ainda vão fazer mais, pois cada um dos rapazes tem a sua roça: Jurka, Arnoldo e Augusto.

Tem gente dizendo que esta geada foi até São Paulo e Rio, matou todos cafezais e que o café vai subir para 5$000 por quilo. O feijão já acabamos de limpar [bater] e, incluindo um pouco do feijão de cor, deu 16 sacas. A cotação está a 14$000, a saca, mas nós não vendemos. Os donos das vendas garantem que em agosto o feijão vai a 16$000, a saca. Tem muita gente vendendo já, porque precisa de dinheiro e não pode esperar.

Agora estamos quebrando [colhendo] milho. Já trouxemos 150 cargas e guardamos no paiol [NOTA: Cada carga tem dois jacás], mas falta bastante para colher. Abóboras temos uma imensidade e principalmente na Bukovina, mas aquelas que estavam verdes o frio estragou, estão moles e vão apodrecer já já.

Bem por hoje chega, noutro dia eu escrevo mais. Você já sabe que o Matiss vai morar em Nova Odessa? Parece que os irmãos Karp vão comprar a propriedade de dele por 5 contos de réis. Escreva em brasileiro que sabe se assim as cartas cheguem.

Muitas lembranças de todos,

Olga

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s