Muita gente perdeu tudo | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 8-XI-17

Querido amigo Reynold!

A tua carta de 19 de outubro, escrita para mim, para o Arnolds e para o Arthurs, deixou-nos muito felizes. Obrigado.

Nesta época a comunicação através dos correios está bastante prejudicada. O problema é que para o sul vem poucos navios. E também por isso os jornais reclamam bastante, alegando que os jornais ficam amontoados nos portos e não há navios que os levem embora. Assim também as cartas ficam bastante atrasadas.

Como já tinha escrito sobre os gafanhotos no Cartão Postal que mandei no fim do mês passado, vou continuar falando sobre eles. Provavelmente já tens notícia através de jornais de que na Província do Rio Grande do Sul foram literalmente destruídas diversas colônias, inclusive Ijuhy [Ijuí] e suas adjacências. A quantidade de gafanhotos seria tanta que o tráfego ferroviário estaria interrompido nas serras daquela província; aqui nas serras a espessura das camadas de gafanhotos seria mais de um metro, diante do que os serranos com suas tropas não conseguiriam prosseguir, etc.

Na semana do dia 23 de outubro começaram as primeiras revoadas. Muitos não pousavam, mas, todos dias passava uma nuvem de gafanhotos: um dia maior, outros dias menor. Os que pousavam eram um tanto medrosos e às vezes levantavam, saíam voando alto e iam embora. Mas havia aqueles que ao serem espantados somente mudavam de lugar. Nunca na minha vida tinha visto tantos gafanhotos. Eles devoraram grande parte do milharal e seis litros de feijão plantado; ainda bem que sobrou a maior parte, pois muita gente perdeu tudo.

No domingo, último dia de outubro, eu ia para o Rio Laranjeiras, passando pelo baixo Rio Novo, quando passaram nuvens de gafanhotos atravessando o rio. Quando cheguei na terra dos Paegles tinha ainda mais, e naquele trecho do lado do mato tinham pousado e estavam se aprontando para por ovos. Mas dentro da mata virgem não tinha nenhum.

Tendo atravessado a mata perto do morro onde mora o Leonardo, tinha ainda muito mais. Na beira do Rio Larangeiras eram tantos que faziam barulho (com as asas e as pernas) que não se ouvia outra coisa. Ao redor da casa de Caciano eram muitos, e na maioria estavam agarrados um ao outro. Os filhos do Caciano tentavam debalde espantar, pois uma vez que estes levantavam vôo, outros tantos pousavam atrás. A tendência deles era ir para as partes mais baixas do terreno comendo tudo que havia de verde por frente. A grama dos pastos já não mais existe, e coitado do gado que não tem mais nada para comer: permanece imóvel.

Quando voltei subindo o Rio Larangeiras a paisagem continuava cheios desses bichos. Atravessei o rio perto de onde alguma vez o Treimanis morou e subi aquele morro que subimos montados para visitar aquele conhecido teu e do Arthur, mas lá no alto não tinha nenhum.

Os brasileiros contaram que em Capivaras também lá passaram imensas nuvens de gafanhotos e pousaram e puseram ovos; quando o chão é cavado com uma enxada pode-se ver uma quantidade imensa de ovos, então calcule o estrago que vão fazer quando eclodirem em milhares de novos gafanhotos.

Também os de Rio Larangeiras contaram sobre a chegada; segundo eles foi assustadora, devido à imensidão das nuvens de gafanhotos, comparável a uma tempestade assoladora que fez escurecer os céus e a terra. O pessoal de lá usou de tudo para tentar espantar e fazer que continuassem sua rota, e acham que conseguiram algum resultado.

Esta região é muito procurada pelos gafanhotos; começando pelo Rio da Prata até Araranguá, poucos lugares deixaram de serem incomodados por esses insetos. E agora tive noticias de que no Rio da Prata chegaram ainda mais. Também em Urussanga fizeram estragos terríveis por toda aquela área. No Barracão ficaram mais para desova do que no Rio Larangeiras. Dizem que no Rio Belo também foi demais. Em Palmeiras e Santa Clara também.

Soube também que perto de Campinas [Nota: o mesmo que Araranguá] grande quantidade destes bichos, ao voarem para o mar, terminaram por se afogar; agora os pescadores não podem mais ir pescar, pois se atolam até a cintura na camada de gafanhotos mortos que o mar devolve para as praias. Também temos notícias de Florianópólis, de que lá a quantidade de gafanhotos afogados foi tanta que o mar devolveu para as praias, chegando a uma camada de dois metros e meio de altura…

Ainda hoje está passando pequena quantidade deles, mas voando muito alto que dificilmente se vêem; fossem poucos não seria possível avistar. Ontem apareceu uma nuvem branca que se deslocava para os lados do Rio Pequeno e ia se afastando das serras, e não era outra coisa senão outra nuvem deles. O que mais pode acontecer só Deus sabe.

A situação de minha saúde não tem melhorado nada. Estou tão magro que as pessoas que há algum tempo não me tem visto, em vez de me chamar pelo nome, me chamam de gozação de “garfo andante”. Durante o dia o trabalho não rende e as noites são curtas demais e insuficientes para o repouso. Todos dias após o almoço tenho que tirar uma grande soneca, senão não agüento até a noite. Agora estou me tratando com água [Nota: hidroterapia] e vamos ver como vai ficar.

Nas Escolas Dominicais nada importante tem acontecido, todos estão se aprontando para as Festas. Em Rio Larangeiras tem bastante trabalho com ensino das lições e apresentações, bem como ensinar a ler, e os domingos como você sabe passam que a gente nem vê; quando a gente consegue chegar em casa já é alta noite. As quartas-feiras e domingos à noite continuam como era quando você estava no nosso meio, sempre ensinando e aprendendo a cantar tanto em leto quanto em brasileiro.

Quanto à igreja, não tem acontecido nada importante até este momento. No dia 19 deste foi anunciado que o Arthur Paegle vai casar, mas isso não é nenhuma novidade. Pode ser que daqui para diante haja alguma mudança. O Artur Leimann depois das Festas pode ser que embarque indo embora, mas não está nada certo. Amanhã ele vai embarcar para passar o domingo com o pessoal do Onofre e vamos ver o que há de novo.

Onde você vai passar os dias livres (férias)? Virá para cá? Muitas lembranças do pessoal de Rio Larangeiras. Que Deus te ajude para que tenha um bom exame! Também não esqueço você nas minhas orações.

Finalmente muitas lembranças e tenha bons dias.

Roberts [Klavin]

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