Para os soldados | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 21 de outubro de 1917

Querido Reini,

Envio muitas lembranças. Faz muito tempo que não recebemos cartas suas, a última foi aquela registrada que vai fazer quase um mês. Os jornais temos recebido regularmente e neles as anotações que mencionam as cartas enviadas, mas essas não recebemos. Fico pensando se os curiosos rionovenses não acharam um meio de se apoderar das tuas cartas; quem sabe eles saibam mais de você que nós mesmos.

Você poderia mandar as cartas em nome da senhora Leiman; assim os rionovenses talvez achem que nada de importante venha para uma senhora idosa. Também a caligrafia do endereço tens que mudar. O nome do remetente põe o nome dalgum colega teu. Não sei se no mundo inteiro tem gente tão curiosa quanto aqui…

Hoje tenho muita coisa para escrever, isto é, novidades às dúzias. Nós estamos todos com saúde, apesar de estar grassando uma epidemia de sarampo; só não pegaram aqueles que já tinham tido numa outra vez.

Já faz uns oito dias que o tempo está bom, mas tem chovido com certa freqüência. No dia 12 de outubro queimamos a coivara perto da ponte. Naquele dia estava muito seco. Apesar da derrubada estar muito rebrotada e verde, a queimada foi perfeita, os matos que tinham aparecido desapareceram em cinzas. O fogo não pulou para o mato em nenhum lugar, pois o aceiro foi muito bem feito e no começo não tinha vento; depois surgiu um terrível redemoinho de fogo, mas graças a Deus ficou só no susto.

Na semana passada já plantamos 2 ½ quartas de milho. No total já plantamos oito quartas e alguns litros de semente de milho. Na Bukovina não plantamos nenhum grão, pois a grande coivara não foi queimada. Podíamos ter queimado naquela ocasião, mas não queríamos queimar; no domingo ninguém queria ficar cuidando, pois ali é um lugar muito perigoso para queimadas e o vento sempre é forte na direção das samambaias do terreno da Manin. Naquele dia o Enoz [Nota de V. A. Purim: Ernesto Grüntal, “Enoz”, nosso vizinho, era solteirão, ateu e grande admirador de Hitler; durante a Segunda Guerrra Mundial assinava vários “Zeitung” e sempre nos trazia um suplemento infantil ilustrado que se chamava “Kunterbunt”.] queimou a sua coivara, que faz divisa com a nossa propriedade, e fomos convidados para ajudar. Lá também tinha muita samambaia seca e o fogo chegou a pular, mas graças à rapidez e a determinação do pessoal foi isolada a área e apagado o fogo sem maiores problemas. Se não fosse apagado rápido, o fogo teria ido até não sei onde.

O Augis também queimou a coivara de capoeirão perto do nosso Kasbuck, bem no alto do morro. Mas ele não nos chamou para ajudar, e assim nós não fomos. O fogo passou para a capoeira dele e também no nosso mato queimou um chão de ½ quarta de planta. Eles conseguiram apagar sozinhos. Naquele dia houve tantas queimadas e a fumaça foi tanta que lá pelas quatro da tarde já estava tão escuro devido a poluição que o templo da igreja do Rio Novo não se podia ver daqui de casa. Mas logo começou roncar uma forte trovoada e de noite estava chovendo. Este ano você não teve oportunidade de ajudar nas queimadas nem de engolir fumaça.

Agora estamos levando feijão para vender: tratei 10$000 o saco. Até bem há pouco tempo eles pagavam só 6$000 a 7$000 a saca, agora o povo saiu correndo para vender. Só naquele dia em que fui vender, da manhã até as 10 horas o Pinho tinha comprado 500 sacas de feijão. Agora os italianos fazem caravanas de carros de bois trazendo feijão para a cidade. Agora é proibido entrar na cidade de carro de boi com os eixos chiando; se alguém insistir a multa é de 5$000, e se for reincidente a multa é de 25$000. Então os carros vão chiando de deixar qualquer pessoa doida, mas antes de entrar na cidade os carreteiros entram embaixo dos carros e passam sabão no eixo e entram bonito na cidade.

[Na Igreja do] Rio Novo tem novidade. Se você recebeu o cartão postal que enviei semanas atrás, já estará sabendo que o noivado do “moleirão” do Karp foi anunciado do púlpito no domingo primeiro de outubro. Pois é isso aí. A “L” naquele dia sentiu tonturas na igreja; possivelmente a Senhora Karp a ignorou totalmente, fazendo de conta que nunca a tinha visto.

Naquele mesmo dia teve festa de noivado na casa de “F”, mas “O” não apareceu por lá. Então a festa de casamento também poderá passar sem vinho. E por isso a velhinha e “L” ficaram doentes de preocupação. O casamento, quanto eu soube, vai ser breve.

O Arvido [Karp] faz tempo foi embora, não sei para onde.

No dia 16 de outubro houve a festa de aniversário da União de Mocidade [da Igreja de Rio Novo]: o Jubileu de 20 anos da fundação. Festa tão bonita nunca houvera tal. No dia anterior o tempo estava razoavelmente bom, mas na manhã do dia da festa começou a chover forte e assim continuou o dia inteiro, sem parar nem um pouco.

Eles tinham organizado para ser uma festa grandiosa; só para os bolos e roscas compraram 1 ½ arroba de farinha de trigo. Durante o dia seria a Festa do Jubileu e a noite seria a parte social, mas diante do tempo ruim não deu nada certo. Daqui de cima desceram umas vinte pessoas e em cada canto do templo tinha cinco ou seis visitantes. A festa começou as 10 horas da manhã e lá pelas 5 da tarde as pessoas vinham voltando. Tinham comido todas as iguarias e bebido todo o café e assim — jubileu terminado…

Parece que o Kirils Karkle acertou casamento com a Pauline Andermann em Mãe Luzia1.

E parece que mesmo assim nem todos os jovens do Rio Novo conseguirão se casar. A grande maioria pensa em apressar o casamento tentando não ter que servir o Exército. Agora na porta do Fórum (Casa da Justiça) estão afixados os nomes dos convocados para o sorteio; os que não tiverem sorte terão de enfrentar o rigoroso treinamento. Quando fui a Orleans fiquei olhando demoradamente está lista, que é bastante grande, tem mais de 500 nomes. De nomes conhecidos eu vi os seguintes: Hari e Fredis Stekert, Arthur e Willis Paegle, Oswaldo Auras, Karlis e Jahnis Karkle, Rudis e Jahnis Maisin, Jepis e Antons Netemberg, Oskar Karp e também o Roberto Klavin. Mas o teu nome não está.

Para os soldados a vida é mais ou menos — ou melhor, mais para menos. Pelo que sei, não vale a pena perder esse tempo todo. O velho Leiman esteve em Orleans para falar com o General e ele disse que não se preocupasse, pois tem gente que se inscreve como voluntários e quase não sobra comida para tanta gente. O Leiman diz que pediu para ele não por o nome do Arthur [Leiman] pois é o único que está em casa — e, quando examinei a lista, realmente o nome dele não estava lá. O velho Karklin também pediu para dispensar os filhos dele e também não estão na lista.

O Arthur [Leiman] escreveu ao irmão dele, Wilis, perguntado como era a convocação na província [do Rio Grande do Sul], onde ele está, e ele respondeu que era mais ou menos igual. Eles aos sorteados fornecem pão e passagem até o quartel designado. Disse ainda que se [em Orleans] estiverem insistindo ou procurando para levá-lo para o Exército, que venham até a província onde ele está, que assim ninguém vai mais amolar. Outros já querem ir, pois lá ganhariam de soldo R70$00 por mês — mas nisso eu não acredito.

Agora chega. Não sei se você vai ter paciência para ler uma carta tão extensa. E eu ia esquecendo de contar que na propriedade dos Klavim está infestada de gafanhotos: uma quantidade imensa, chegando, devido ao peso, a quebrar os galhos das árvores. Aqui passaram revoadas esparsas. Se não fosse assim e viessem mais seria muito triste.

Sinceras lembranças de nos todos aqui.

Olga.

* * *

1. Mãe Luzia era uma localidade próxima a Criciúma (e um rio com o mesmo nome) onde também havia uma colônia leta. O autor de Chorografia de Santa Catarina (Tipografia Livraria Moderna. Paschoal Simone. Florianópolis, 1905, pg 129), Tte. Vieira da Rosa, explica que “segundo dizem” o nome do lugar originou-se de um casal de negros africanos escravos, que, fugido de Laguna, foi morar no morro que levaria esse nome, situado na margem esquerda desse rio. O casal era das poucas pessoas que moravam na região e a mulher se chamava Luzia.

Foi a quarta Colônia leta no Brasil e surgiu em 1893. Fica a uns 80 quilômetros da primeira, que foi a do Rio Novo, e foi formada por colonos desta anterior e por outros que vieram de outras colônias letas do interior da Rússia. O motivo era o mesmo, terras e clima melhores. Na maioria eram batistas, mas também algumas famílias de luteranos. No começo eram 12 famílias; depois de 1895 chegaram muitas outras famílias da Letônia.

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