Meu alvo era ajudar as pessoas | Carlos Leiman a Reynaldo Purim

Cachoeiro do Itapemirim, 12-9-17

Querido Reinhold!

Saudações! Recebi tua enorme carta. Obrigado. Não sei o que devo lhe escrever, pois de grandioso nada há por aqui, e porque sobre o meu trabalho já sabes tudo.

A escola começa as 7 da manhã e vai até as 9 da noite, com todas aquelas matérias. Também na área de evangelismo toda responsabilidade recai sobre os meus ombros. Os recursos financeiros são muito escassos e o trabalho muito extenso. Com este ritmo tenho sentido estar perdendo a qualidade da saúde, e nessas condições não é nada alegre escrever sobre isso.

O Onofre me escreve perguntando se eu estou pronto para voltar a trabalhar em Laguna. Respondi que sim, mas no momento voltar atrás não seria possível, porque estou comprometido com o trabalho aqui. A escola cresce cada vez mais e tenho que lutar muito mesmo aqui.

Quanto ao trabalho aqui na igreja, não tem se desenvolvido muito. Surgiu aqui um “Stekert” [Nota de V. A. Purim: Nunca soube de alguém da família Stekert que tivesse ido para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Mais parece um exemplo de voluntários que, por falta de persistência ou determinação, terminam não conseguindo atingir os seu objetivos.] que queria fazer qualquer coisa, mas caiu através do fundo e ficou como nada tivesse sido feito. Nas igrejas ao redor, aí sim, o trabalho é feito, com novas conversões — e ali está a minha maior alegria, mas a dificuldade é estar com eles, por falta de tempo e também de dinheiro.

São muitas as dificuldades, e quando a pessoa para de lutar e começa a enumerar todas essas tristezas e se envolve nelas, aí chegam a falta de entusiasmo, a preguiça e a indiferença. E quem é o culpado por tudo isso? Eu mesmo. Mesmo nesta escola não vejo grandes esperanças, se quando eu sair não vierem outras pessoas com o mesmo propósito e a mesma determinação. Por isso quanto maiores forem as lutas e as dificuldades, no seu tempo virão as vitórias equivalentes.

Esta falta de energia, esse comportamento morno, é facilmente explicável. Quando estava ainda lá em casa no interior eu achava que tudo seria mais fácil. Meu alvo era ajudar as pessoas, e que lugar seria melhor do que uma escola, para se ajudar mais pessoas ao mesmo tempo?

Mas não importam as dificuldades; a seu tempo, aqui na escola tem gente com muito mais capacidades do que eu, e isso digo com toda convicção. Em certas áreas sou um mero aprendiz, e nestes campos onde estou carente eu me apego com todo ardor.

Sempre comparo as minhas dificuldades com o trabalho de um ferreiro, pois quando quer um aço mais duro e tenaz ele aquece a peça que elaborou até o rubro e em seguida mergulha rapidamente na água fria; quanto mais fria a água, mais duro e tenaz será este aço. [Nota de VAP: Como já trabalhei nessa profissão, não concordo inteiramente com o seu processo de têmpera, mas como comparação o exemplo continua válido.]

Aprender é umas das necessidades inatas do ser humano, tanto que poderíamos chamar de necessidades sagradas. É como a necessidade de comer. [Nota de VAP: Esse anseio por estudos e conhecimentos marcou profundamente também toda a minha juventude e se mantém até hoje, talvez devido ao longo período em que ficamos distantes das facilidades das fontes de informações. Opinião pessoal nossa.] Mas comer e não mastigar é morte na certa. Por isso, para fugir destes obstáculos, é preciso procurar algo para fazer — então vais sarar, então vais queimar/encontrar o equilíbrio. Essa falta de objetividade e de determinação tenho encontrado em muitas pessoas, mas quanto a mim acho que sou tão ativo que chego a incomodar os outros. O caminho do centro será um caminho muito abençoado.

Neste momento devo terminar solicitando uma longa carta sua. Que o nosso Deus, o Pai, te abençoe e te auxilie.

Seu
Carlos Leiman

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