Doze quartas de batata inglesa | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 10 de setembro de 1917

Querido Reini,

Primeiramente mando sinceras lembranças. Não tenho recebido nenhuma carta sua. Estou escrevendo esta porque estamos mandando meias, e esta minha carta vai junto.

Estou aguardando resposta de duas cartas; faz mais de três semanas que não recebemos resposta. Naquela última colocamos 100$000 em dinheiro. Tu recebestes? Se não, vou ao correio aqui, para que eles corram atrás e achem.

Aqui estamos todos bem e todos com saúde. O tempo ontem e hoje está limpo e quente, e parece que geadas não teremos mais. Na semana passada choveu e soprou um forte vento do lado da serra. Em alguns lugares foi tão forte que derrubou casas e ranchos de diversas pessoas. Aqui derrubou muitas flores de laranjeiras, pois elas estão em plena florada, e alguns frutos pequenos daquelas que floresceram antes. Nossas laranjeiras estão cheias de flores, mas as dos vizinhos a geada matou completamente, e fez com que caíssem até as frutas do ano passado. Por causa dessas geadas fortes as laranjeiras [deles] parecem velhos mendigos.

Quanto aos trabalhos na lavoura, estão indo relativamente bem. Na semana passada plantamos doze quartas de batata inglesa (kartupelhus) e uma quarta de arroz. O arroz plantamos perto da “Grande Peroba” e as batatas na “Bukuvina”. [Nota de V. A. Purim: “Liela peroba” era o lugar bem em cima do morro, perto do banhado do Grüntal, que fica na parte mais alta do início do vale do Rio Novo. Não deve ser confundida com o lugar chamado “Kanels” (a Canela) que era a própria encruzilhada — de onde à direita vai-se para o Rio Carlota, Rodeio do Assucar, Rodeio das Antas, Invernada e para a serra (via Serra do Grão-Pará), e à esquerda para o Alto Rio Carlota, Rio Laranjeiras, Coxia Seca, Rio Molha, Brusque e para a serra (via Serra do Imaruí). Voltando a Grande Peroba (Aspidasperma peroba), esta tinha sido deixada para trás nas derrubadas; ficando isolada, era uma atração para os raios nas tempestades de verão. Ainda lembro como era quando criança, aquele imenso tronco semi-queimado, apontando majestoso para o céu, como um herói que se nega a dar-se por vencido.]

O Papai, o Doka e o Puisse [“Rapaz”, referindo-se a Arthur Purim] roçaram numa semana aquele lugar onde foi a coivara do ano passado, depois pusemos fogo e ficou tudo limpo. Queimou bem porque tinha muita cana de milho e muito capim morto pelas geadas; isso facilita muito as queimadas, e agora temos muita terra limpa para plantar. [Nota de VAP: Doca era um dos camaradas, empregados temporários. Esse Doca era irmão do Emílio Pereira, mais conhecido como “Pachola”, muito conhecido da nossa família e nosso arrendatário ou agregado (isto é, aquele que mora e trabalha na terra de outro pagando a “terça” — a terça parte de todas as colheitas por ele plantadas e colhidas).]

Só tivemos que tomar um cuidado muito grande para não deixar o fogo entrar no mato ou em outro lugar que não fosse para queimar, pois apesar de mostrar sinais de verde, no pasto está tudo muito seco. Até há pouco tempo os animais não tinham nada para comer e tudo tinha que ser trazido para eles.

A água ainda vem muito pouco, a nossa calha mal e mal escorre porque as chuvas ainda são poucas. [Nota de VAP: No original, “mal e mal escorre” aparece simplesmente como “tchurkst” — onomatopéia para o ruído de pouquinha água caindo. Também pode ser um termo aproximado ou derivado de “tchurat”, que em leto é urinar. A calha era feita de troncos de palmito jussara (Euterpe edulis) partidos ao meio, escavados com enxó goiva e colocados sobre forquilhas para trazer água da nascente até os cochos de madeira escavada onde era apanhada a água para o uso doméstico e lavação de roupas.]. Uma chuvarada como ocorreu no fim de março não mais se repetiu e apesar dalgumas chuvas os riozinhos ainda não tomaram conhecimento.

Na quinta-feira desta semana vai ser o casamento da Mille Frischembruder. Vai haver “hoyseites” (?) e na igreja toda pompa, mas na recepção só será oferecido café com acompanhamento simples (pãezinhos). Não vai haver as abóboras em conserva como no casamento da Leene. Como é que um grande fazendeiro e patrão pode fazer um casamento destes não sei. Diretamente convidados não fomos, e nem mesmo fizeram cartões-convite. Na Igreja disseram que quem quisesse poderia ir.

A Festa da Colheita lá [na igreja] no Rio Novo parece que foi muito fraca e nem café foi oferecido. Lá pelas 9 horas da noite passaram subindo para suas casas, conversando ruidosamente.

Desta vez chega, fico aguardando cartas suas. Por agora nada mais de novo tem acontecido.

Ainda lembranças do Papai, Mamãe, Lúcia e Artur.

Olga

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