Um barulho imenso e uma nuvem de poeira | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 19 de agosto

Querido Reini,

A tua carta escrita em 1º de agosto recebi ontem. Obrigado. Você escreve que dias atrás nos mandou outras cartas, mas essas ainda não chegaram. Pode ser que ainda cheguem, ou então foram extraviadas. Ainda não tenho resposta de uma carta que mandei há mais de três semanas.

Aqui estamos passando bem. O tempo está bom e ainda bastante frio, e hoje pela manhã houve geada. Algumas semanas atrás estava enfumaçado e tão quente como fosse verão, então começou a roncar trovoada e deu uma grande chuva. Essa chuva passou (fazia já uns dois meses que não tinha havido trovoadas), mas sábado passado à noite começou novamente a chover — e choveu praticamente dois dias e duas noites sem parar. Domingo passado quase ninguém foi à igreja, por causa da chuva muito forte e porque soprava um vento frio, mas na segunda-feira estava um céu azul e o vento tinha levado todas as nuvens embora.

Fizemos açúcar e deu dois tachos. Não foi muito. Este ano a “festa” do açúcar não foi essas coisas como nos outros anos. As canas novas foram apanhadas pelas geadas e ficaram para crescer mais um ano. Este ano não tivemos de fazer mutirão; a cana e a lenha trouxemos com o [boi] Bosi, e as moendas também foram movidas por ele.

Agora deixe-me contar uns fatos que aconteceram durante a “assucrada”. O Bosi estava acostumado com o carretão de duas rodas com o qual trazíamos toras do mato e da coi-
vara, e com ele trouxemos grandes toras. Mas cana não dá para trazer desse modo, e como nos não temos carro de boi colocamos o Bosi na carroça da [égua] Marsa e fomos lá no morro perto da peroba grande [da encruzilhada do Rio Carlota para o lado do Grüntal]. Carregamos a carroça de cana, mas ele não estava acostumado e apesar de eu ir na frente, saiu em disparada morro abaixo [Nota de VAP: Quando um animal disparava sem razão aparente dizia-se “deu a botuca” ou “pegou a botuca”, referindo-se à mosca botuca, que dava picadas muito dolorosas nos bois e cavalos, fazendo com que ficassem totalmente descontrolados.]. O Bosi me derrubou e ainda uma roda passou por cima do meu pé esquerdo e do tornozelo do direito, mas sem muita gravidade.

Quando me levantei e me recompus o Bosi já estava parado lá em baixo perto da cerca e da porteira. A carga estava virada, mas nada havia quebrado. Levantamos a carroça e a carga, mas quando chegou na estrada grande o bicho começou a correr novamente. Começou um barulho imenso e uma nuvem de poeira. como fosse um trem, e só conseguimos pegá-lo quando ele parou na porteira sem nada — a canga, os canzís, as rodas quebradas: tudo espalhado pela estrada.

Mas não deixamos o Bosi desse jeito. Colocamos no carretão e fomos buscar mais toras no mato, e lá ele foi muito bem. No outro dia fomos buscar cana na roça, de novo com a carroça, mais dessa vez colocamos freio nela. Como ele tinha de fazer força para puxar, aí ele veio bem e não pôde mais inventar nenhuma corrida — e nunca mais a voltou fazer aquelas corridas malucas.

Na moenda ele também foi muito bem; num dia ele moeu uma fornada e no outro outra. Colocávamos pouca cana na moenda pra não ficar pesado para ele.

Naquele dia em que você estava escrevendo a carta nós estávamos tomando garapa; pena que o dia estava frio e a garapa nem pareceu tão gostosa.

(falta a parte final)

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